Férias com a família, de molho, sem poder correr foi moleza não. Sempre nesses contextos que surgem as melhores oportunidades, a exemplo da oportunidade de viajar com a família para a cidade de Paraty, no Rio de Janeiro. E só para irritar, de vez em quando, o convite de um ou outro hóspede:


– Bora para uma corridinha leve na beira da praia?


– Você vai devagarinho, já deve dar conta. Bora?


Bora que nada. Teve momento que a cabeça fervilhou de pensamentos que jogaram na areia: será que vou ter que adiar o desafio? e se eu não conseguir correr nunca mais? será que vou ter que fazer sessões de fisioterapia?


O jeito era seguir em frente, no tempo do abençoado. Assim que voltamos da viagem, retornei à academia com aqueles quilinhos a mais.


– Fique tranquilo, logo, logo, você estará bem. Só vamos ter que mudar um pouco sua ficha e fazer alguns ajustes.


Não sei se é assim com você, mas quando machuco, no tombo, fico mais pensativo e na medida do possível, sinto que a concentração aumenta. Era preciso recuperar porque dentro de alguns dias eu estaria de volta à sala de aula, na maior parte do tempo, trabalhando em pé, e o joelho...


Curiosamente, mesmo com a ausência da dor, com o tempo fui ficando inseguro até para caminhar mais rápido na esteira. Não conseguia entender, mas ficava cheio de “larga e me deixa” para acelerar o passo. E o professor lá, depois de uma série específica de exercícios: “Vai lá, moço, você vai dar conta. Já tá recuperado”.


Depois de duas semanas, numa segunda-feira de Carnaval, subi para a Cidade de Minas e lá fui, depois de caminhar por um tempo, resolvi correr de leve. Sem pressa e hora para acabar, fui repetindo até que conseguir completar 01 volta sem ter que parar.  


Ufa! Eu estava com o joelho curado! Ao término do treino, retirei a camisa no calor de fevereiro, sentando-me debaixo de uma árvore. “Muito obrigado, Senhor! Estou de volta!”

 

 




Os vencedores sempre encontram o endereço com a maior precisão do mundo. Falar que se trata de um bairro de divisa não cola mais.

 

Em uns boletos, consta-se que sou morador do Conjunto Carajás; em outras contas, a residência está localizada no bairro Pedra Azul.

 

De uns tempos pra cá e com a permanência do CEP, deixei de lado essas fronteiras, aceitando como veredicto o segundo. Pedra Azul tem mais sustância para a vadiagem, para aqueles que gostam de bater pernas por aí. Antes de sentar-se para escrever esta migalha, eu estava vadiando por aí.

 

Aqui as ruas têm nome de pedras e águas. Tenho a magia de morar entre a Granito e a Safira, acima das Águas Marinhas. Para se ter uma noção, a mercearia mais antiga do bairro se encontra nas Águas Formosas. São nomes interessantes!  

  

A principal referência para quem vem de longe é a Cidade de Minas, rua mais larga da região. Lá tem posto de gasolina, uma renca de botecos e algumas hamburguerias. Com seus 1.300 metros quase planos, atua também como pista de caminhada e corrida.

  

 Ao contrário dessa relativa extensão, minha casa fica em uma rua que compõe apenas um quarteirão, quase uns 300 metros e olhe lá... se dá isso. Embora seja classificada como preciosa, brilho metálico, a coitada é sempre confundida com outra pedra, a pirita. O nome da nossa?  

 

            Marcassita. Uma pedra leve, frágil, além de possuir uma estrutura cristalina diferente da tal pirita. Um antigo morador me explicou que marcassita é um sulfeto de ferro. Com fotos no celular e lembranças das lições de Química (FeS2), mostrou algumas imagens da pedra que dá nome a nossa rua.  

 

            Ao ir atrás de mais mistérios da tal pedra, descobri que a marcassita também é conhecida por seu visual vintage; possui capacidade de adicionar um toque elegante e sofisticado a joias.

 

Longe de ser um ourives, uma coisa posso garantir: nossa rua é uma joia rara! Desde que aqui chegamos, há uns 17 anos, essa rua possui um brilho para cada estação. Quem foi embora, ainda sente saudade.

 

Não se sabe se tem a ver com a atmosfera das cidades do interior. Ora parece com as rotinas de uma vila, ora fica a impressão de que todos os moradores se conhecem intimamente:  

 

– Pode deixar sua neta brincando aqui com minha filha, enquanto o senhor vai à farmácia.

 

– Vai chegar uma encomenda aí para mim, posso pedir para entregar na sua casa?

 

Seu Geovane caminha com a esposa antes de levar as gaiolas de canarinho para fora. Seu Lopez com as três lindas netas aguarda o motoqueiro com a broa de fubá quentinha para o café da manhã. Dona Rosa rega as plantas do passeio, sorrindo-nos com um bom dia. O vidraceiro brinca com seu cão caramelo levado, no fim da tarde. O frentista que, nos finais de semana se veste de Homem-Aranha para vender pipas na Cidade de Minas. A dona Carolina que prepara um lanche especial para os rapazes da coleta, aos sábados. Seu Neco fez três casinhas para os cachorros da rua, ainda por cima dá comida, banho, vacina e passeio das 17h.  

 

Pedra no nome, brilho nas memórias, cor dos encontros, brinde da partilha, Rua Marcassita.  


    ... farelos por aí ...

 

De vacilo em vacilo vai nascer um atleta, ao longo das próximas páginas. Faço questão de contar sobre esses perrengues para que você não cometa os mesmos erros. Assim que leu o título do capítulo, deve ter imaginado pista, prova, km e km. Nada disso, calma lá. Como já sabe, comigo nada é assim da noite pro dia.


Primeira prova de corrida aconteceu ali no último domingo do mês, avaliações finais na escola e todo aquele tumulto típico de final de ano e lá se foram os treinos da academia mais uma vez. Aceitável?


A questão do mês seguinte. Dezembro com festas para perder de vista com aqueles pratos imperdíveis, preparados com todo carinho do mundo. Casa da mamãe, da comadre, amigos e confraternização aqui e acolá. E o resultado chega com os dígitos da balança.


Não sei sua relação com essa época do ano, mas no meu caso sempre foi difícil encarar esse contexto. Por outro lado, é também a época de minhas férias, tempo para viajar com a família.


Já na recepção do hotel em Vitória ouço alguns turistas dizendo que iam correr no calçadão mais tarde, que ali perto da praia era um lugar muito agradável para se exercitar. Em respeito ao cansaço de todos da família, tive que deixar o treino para o dia seguinte.


Eu nunca tinha corrida em beira de praia. E aquilo tinha tudo para ser inesquecível. De verdade, quando passei dos 3km, senti que estava podendo e até aumentei um pouco o ritmo. Fui pra cima com vontade e bati meus primeiros 6km. Pensei que estivesse arrasando.


Não tive tempo de comemorar, pois assim que botei os pés no hotel, um dos joelhos acenou para o desavisado que vos escreve: “ô, filhote, você passou dos limites”. À medida que o corpo ia se esfriando, a dor ia tomando conta. Farmácia,relaxante muscular e nada.


Situação: a primeira contusão, minha gente. Passei a última semana daquele ano mancando. E para carregar a filha caçula? Imagina como foi visitar alguns pontos turísticos? Mas poderia ficar ainda mais complicado?


E não é que ficou? Assim que voltei para casa fui procurar um especialista. De cara, a ressonância magnética e um montão de coisa que passa na cabeça da gente. Recordo-me que o doutor disse lá de um tal de menisco. Eu nem quis entrar em muitos detalhes, pois era muita informação. Hora do veredicto:


– Alfredo, você vai ter que ficar 30 dias sem realizar atividade física. Precisa se recuperar dessa contusão. Alguma dúvida?


  Só raiva mesmo (risos) Era a primeira semana do mês de janeiro e o primeiro perrengue. E quem nunca se machucou na corrida que me dê um par de tênis novo, combinado?  

 


 


Você conhece a história do sapo que marcou presença em uma festa lá no Céu?


Você se lembra daquela clássica história do sapo-cururu que, sem convite, pegou uma carona na viola do urubu e foi parar na festa do Céu?


Sim, essa mesma! Aquela em que, depois de se divertir pra valer, ele acabou sendo pego no flagra e foi... bem, 'despejado' do Céu."


O que talvez você não saiba é que Ícaro, o sobrinho desse sapo inesquecível, também sonhava em ir à festa no Céu.


Essa é a divertida história escrita por Marcos Nascimento, ilustrada por Walter Lara e publicada pela MRN Editora. E é um convite irresistível para a leitura! 

Já no título duas chaves que despertam nossa atenção. Por favor, releia-o, em voz alta. Desconfia de alguma coisa?

 

Primeira chave: o nome Ícaro. Ele nos remete diretamente ao filho de Dédalo da mitologia grega, conhecido por sua trágica tentativa de voar perto demais do sol com asas de cera. Lembrou agora?

 

Mas há um detalhe fascinante: repare na linda capa da obra de Marcos Nascimento que o protagonista está voando entre outros dois personagens. Quem serão eles?

 

 

Segunda chave: o título é uma frase afirmativa. Essa afirmação inicial já nos empolga e gera uma série de perguntas: Como assim? De que forma um outro sapo conseguirá chegar à famosa festa do Céu?

 

"Jamais! Não vou estragar a surpresa. Para desvendar essas e outras questões, o convite é claro: mergulhe nessa divertida história de coragem, amizade e um verdadeiro louvor à imaginação!

 

Posso adiantar que, para transformar seu sonho em realidade, Ícaro enfrentará diversos obstáculos – como a desconfiança de um sapo chifrudo e até a ira de muitas aves.

 

Por outro lado, a ajuda dos amigos fará toda a diferença nessa jornada rumo ao Céu. Ops! Quase soltei mais spoilers aqui. Que tal providenciar a leitura dessa obra agora mesmo?"

 

DETALHES:

 

Livro: Ícaro vai à Festa do Céu

Autor: Marcos Nascimento

Ilustrador: Walter Lara

Editora: MRN


 


– O homi tá cuspindo bala na cozinha. Era hora já de tá na rua atrás de mais uns quilômetros pra cumprir com o tal do desafio.


– Como sabe que ele tá nervoso?


– Ah, isso é fácil de perceber. Como sal com esse traste aí um tempo bão, menina.


– Já é vem a senhora de novo querer maltratar o pai. Só fiz uma pergunta boba e...


– Boba sou eu que tem que aturar aquela praga fazendo essa barulhada, antes das sete. Vai quebrar outra vasilha daqui a pouco, vá escutando aí. Ahh o jeito que o infeliz joga os talheres na pia. Perigoso nem olhar se tem algum copo lá.


– Então é assim que a senhora identifica que ele tá bravo, chateado?


– Fica pior do que a gente naqueles dias. E o diacho tem que descontar na pia lotada? Ô vontade de descer lá e chamar na xinxa. Ô vontade.


– Bobeira, mãe. Até sair da cama, se preparar e descer, meu pai já vai tá calmo. Deve ter perdido hora, não achou um copo limpo ou o pó de café acabou.


– Verdade. Pensando pro bem, vamu deixar isso pra lá. Vamu dormir mais, tamu de férias.


 



Casado com uma atriz e professora de teatro, sempre respeitei a mística das estreias. Aprendi com Leandra Pacífico que a estreia é sempre um tempo de ansiedade, insegurança, ausência e mistério. Só de pensar que aquela seria minha primeira prova, bateu o famoso friozinho na barriga.

 

Para minha alegria e satisfação, embora a inscrição tenha sido feita pela internet, quem retirou o kit foi minha comadre, Maria Estela. Ela, os meninos João Pedro e Toddy, foram os parceiros da minha estreia. Completando o time, quem nos levou até a pista foi o compadre Ronaldo Silva. Além de motorista, ele é o nosso incentivador número 1.

 

Na madrugada do dia 25 de novembro de 2018, choveu bastante. Era o anúncio da edição de verão do conhecido Circuito das Estações. Fato é que chovia tanto que, enquanto saía de casa, na inocência, imaginei até que a corrida pudesse ser cancelada.

 

Fomos direto para a casa da Estela. Lá, todos leram em meus gestos o clima da estreia. Sabe quando você está prestes a realizar uma atividade e fica sem entender muito bem o que está acontecendo? Eu me perguntava, em silêncio: "É isso que tá rolando? Vamos descer para a Pampulha de verdade?"

 

De fato, estava acontecendo. Debaixo de uma chuva relativamente fria, eu e Estela estávamos na pista para os 5 quilômetros. A parceira já havia participado de outras provas. Os meninos, adolescentes fininhos, se inscreveram para os 10 km. Cada um no seu ritmo, e eu, ansioso.

 

Seguindo os trejeitos típicos de um estreante, fiz os alongamentos e fui para a pista. Eis a largada e mais de 1 km para o corpo sedentário entender o que estava acontecendo. Nem fiz questão de me hidratar no 2º km. Segredinho só entre a gente aqui: era a insegurança de parar e não conseguir concluir a prova. Então, reduzi o ritmo para que a parceira se hidratasse.

 

Lá pelo 3º km, comecei a apreciar a prova. A chuva trazia um certo encanto, lavava o suor e refrescava meu corpo, que, a essa altura, já aceitava a ideia de que seria possível correr até a linha de chegada. Uma câmera desavisada facilmente capturaria minha expressão de gratidão, a alegria de quase chegar lá.

 

Ao meu lado, Maria Estela, com todo entusiasmo, companheirismo e incentivo. "Vamos conseguir! Falta pouco." Claro que não era tão simples assim. "Pouco" que nada. Eu só queria que terminasse logo, mas, sem muito o que fazer, o jeito era seguir firme.

 

Quando eu já pensava que estava perto, uns 200 metros antes da tão desejada linha de chegada, lá estava Ronaldo Silva, gritando e nos incentivando: "Vai, Farelo! Vai, Estela! Vocês estão quase lá. Bora! Bora!" Ter alguém torcendo por você faz toda a diferença. Guarde com carinho essa lição.

 

Inacreditável. Difícil descrever todas as sensações de cruzar a linha de chegada, de correr ininterruptamente os primeiros 5 km da minha vida. A gratidão pela primeira conquista, debaixo de chuva. Em 35 minutos, o batismo: um importante passo rumo ao Desafio proposto pela minha filha.

 

Agora, você sabe: a prova dos meus primeiros 05 quilômetros foi no famoso Circuito das Estações. O que será que vem por aí?

                                                            

O primeiro aplicativo baixado no celular, o primeiro tênis de corrida. A marca? Um Mizuno bem básico. E que tal conhecer a minha primeira pista oficial de treino? Ah, o aplicativo de corrida? Era o Nike Run. Nem se ainda está ativo. Temos outros melhores, mais intuitivos hoje. 

 

Rua Cidade de Minas, entre os bairros Pedra Azul e Carajás, em Contagem, Minas Gerais: uma pista quase plana, com 1.300 metros, que atrai interessados em cultivar novos hábitos. Correr, andar, sozinho ou acompanhado. Para se ter uma ideia, às 4h da manhã já tem gente treinando por lá. Em outros capítulos, você saberá um pouco mais sobre esse povo que sai para caminhar ou correr a essa hora.

 

Consciente da distância da pista e do meu ritmo, era hora de investir nas próximas conquistas, começando pela primeira volta completa. Sem nenhuma orientação, fui aumentando o percurso aos poucos. A cada semana, ia ampliando a distância entre um poste e outro.

 

Nem vou tentar explicar os efeitos daquela sensação de progresso; deixo isso para um professor de Educação Física. O fato é que comecei a gostar daquilo, mesmo com as dores e a falta de fôlego.

 

Na academia, os colegas de treino começaram a perceber a diferença nas minhas medidas. A balança também reconheceu algumas perdas. Sabendo da minha postura, senti que poderia fazer mais em direção ao Desafio.

 

Levei aproximadamente três meses me preparando para a inscrição na minha primeira prova, treinando duas vezes por semana. A certeza de pagar a inscrição no Circuito das Estações só veio depois da minha maior conquista: correr o primeiro quilômetro. Como isso aconteceu?

 

Na manhã de um sábado de quase primavera, pulei da cama mais cedo e subi para a pista. Ajustei o aplicativo e... pá! O primeiro quilômetro dentro do tempo razoável, embora eu soubesse que poderia ter sido mais rápido. Com 2,6 km, completei a primeira volta sem parar e, de repente, me deparei com o km 3, com a leve inclinação e o ritmo encaixado.

 

Na outra ponta da pista, cruzei o quarto km e pensei: “Vamos lá, você consegue, hoje vai mais longe.” E, naquela conversa firme com as pernas, joelhos... não, eu não vou parar, estou quase lá, falta muito pouco. Que isso, você já correu 4,5 km? Nem quis pensar nos 500 metros para completar a distância da futura prova. Fiquei tão empolgado que incluí os 200 metros da pista na conta e acelerei. Consegui completar as duas primeiras voltas na Cidade de Minas: 5,2 km. Ufa! 

 

Para comemorar o feito, sentei-me no primeiro meio-fio que encontrei. Tirei a camisa; estava um bagaço, exausto. Parecia que tinha corrido de um fantasma, como nos pesadelos da infância. Olhei para o celular e para o céu. A distância, o tempo e o infinito de mais um passo. O Circuito das Estações que me aguardasse.

Não sei você, mas eu já estou ansioso para o próximo episódio. 

 


Gratidão ao trio Bruna, Tonico Poesia e Paulo Fernandes! 

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