Mostrando postagens com marcador Crônicas. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Crônicas. Mostrar todas as postagens

 

     Moído. Parece que levei soco por tudo quanto é canto do corpo. O pescoço está dolorido até agora. Há, claro, o fator idade. Isso tem de ser levado em conta. Mas a conta que me levou a dormir no sofá saiu cara demais.

      

       Isso mesmo que você leu. A mulher que reina lá em casa, mãe das minhas filhas, mandou-me passar a noite no velho sofá da sala. E olhe que, dessa vez, eu nem fiz nada de propósito. Foi tudo uma mera questão de ponto de vista. Ou de falta dele.

      

       Tinha tudo para ser o dia mais comum da semana, não fosse mais um descuido deste desavisado que vos escreve. Início da tarde, as duas filhas no banco de trás: “Bora lá, que o papai tem um montão de coisas para resolver no trabalho”. Deixei a caçula na escola; a mais velha ficou no curso de inglês, de onde sairia mais tarde com uma amiga. Até aí, tudo certo. Só até aí.

 

       Lá pelas tantas, no meio do expediente, resolvo olhar o celular. Havia nove chamadas perdidas e uma enxurrada de mensagens da patroa. Fiquei gelado. O que teria acontecido? Algum acidente? Uma emergência? Liguei de volta com o coração na boca. Ela atendeu, respirou fundo, limpou a garganta com uma frieza cirúrgica e disparou:


       — Eu quero te matar. Só isso.

 

       Eu já vi minha esposa brava muitas vezes, mas ouvi-la congelar a linha telefônica daquele jeito me deu um medo daqueles. “Lascou. Agora eu estou completamente ferrado”, foi o único pensamento que orbitou meu cérebro naquele instante.

 

       — Será que você não pensa em checar o que está levando no meio dessas suas bugigangas? — continuou ela, o tom subindo um oitavo. — Certamente está dentro da sua mochila. Sou capaz de apostar que está no estojo, misturado com as suas canetas coloridas...  

 

       Inocentemente, com aquela audácia típica dos ignorantes, pedi que ela ficasse calma, garantindo que tudo se resolveria. Enquanto falava, abri o zíper da mochila, puxei o estojo e encontrei a prova do crime. Tentei argumentar, mas ela não me deu espaço para respirar.

 

       — Logo hoje que eu ia ao shopping! Tinha que trocar o presente da Priscila, olhar os figurinos da próxima montagem... O creme de cabelo das meninas está acabando! Só porque eu tinha tirado a tarde livre para resolver a vida... — a fúria dela do outro lado era quase palpável.

 

       Assim que o monólogo deu uma trégua e ela recuperou o fôlego, comecei a desfiar um rosário de mil desculpas, consciente de que seriam votos nulos. Afinal, como perdoar o marido que, por puro automatismo, deixa a esposa trancada dentro da própria casa?

 

       — Por que você tinha que trancar o portão e levar a minha chave junto? Não bastava levar apenas a sua cópia, infeliz? Fiquei igual a uma louca aqui, procurando em todos os cômodos. Tentei ligar para o seu Ronaldo trazer uma escada e me ajudar a pular o muro, mas ele tinha saído para passear com as netas. Os vizinhos do lado só voltam tarde da noite. Ah, se eu não conhecesse a sua velha lerdeza, juraria que foi de propósito!

      

       Ela voltou a cuspir fogo, prometendo que o vacilo custaria caro. Eu só não fazia ideia do tamanho do prejuízo. No início da noite, retornei com as crias para o lar. Destranquei o portão — usando o chaveiro do crime — e fomos recebidos por um silêncio pesado, daqueles que dá para cortar com faca. Veio a hora do banho, a hora do jantar, a hora do capítulo da novela, a hora de colocar as crianças para dormir. O silêncio do acerto de contas permaneceu intacto. Só quando cheguei à porta do nosso quarto é que o ultimato foi proferido, quebrando o gelo de forma implacável:

 

       — Aqui suas coisas. Hoje você dorme no sofá.

 

       Não houve “boa-noite”, nem segunda instância para apelação. Juntei meu travesseiro, a coberta, o lençol e fui saindo de fininho, com o rabinho entre as pernas, acomodando-me na sala e pensando... Tudo por conta de uma maldita chave.

 

       

                                        

Acordei revoltado no último sábado. A manhã já foi logo servindo uma xícara de irritações, sem poupar uma série de palavras indelicadas.


— Se demorar demais aí nessas leituras, vai perder a hora da coleta — disse a mulher que mora lá em casa.


É um tanto quanto desastroso sair correndo atrás do caminhão com um saco de lixo nas mãos.


Ufa! Pelo menos dessa vez eles não tinham passado ainda. Até os vizinhos comemoraram o feito, como quem diz: "Dessa vez deu certo".


Bem lá no fundo, eles queriam mesmo era assistir à minha derrota: eu correndo de pijama, despenteado, atrás do amarelinho. Meus vizinhos são... aguarde, à frente conhecerá um deles.


A água quase fervendo, o filtro ajeitado no coador... e cadê o pó? Cadê o pó de café? Nem um pouquinho no fundo da lata. Desde que a mulher quebrou minha garrafa, a cozinha ficou de pernas para o ar. Água no filtro sem pó? Nem pensar. Paciência!


Saí à rua. Na padaria, o assunto era o grande Vozinha, goleiro da seleção de Cabo Verde. Não comprei café lá. Com todo respeito, mas o de lá é do tipo horrível. Cansei de ser enganado.


De volta ao doce lar, uma voz punitiva lá do quarto gritou:


— Não está esquecendo de nada?


A comida das cachorras, trocar a água e a parte da higiene. Óbvio que eu tinha esquecido.


Nessa hora, deu uma enorme vontade de lançar as sujidades das cadelas na casa do vizinho. Que caísse cada pá de estrume no jardim do infeliz. É que ontem à noite, em plena Copa do Mundo de Futebol, o querido, o ilustre morador da casa ao lado, estava torcendo para a seleção da Argentina. Ô vontade de xingar, de mergulhar a cara dele no xixi de todos os cachorros da rua. Controle-se.


Na hora da feira, não consegui me controlar.


— E hoje tem o limão-capeta aí?


— Sim, senhor. Mas aqui, o dono mudou de religião, o senhor deve ter ficado sabendo. Ele não gosta que a gente fale assim da fruta. Está lá na placa, o correto é limão-rosa — corrigiu o gerente da loja. 


Nessa hora, eu não resisti. Soltei o verbo:


— Eu falo da forma que eu quiser. Que palhaçada é essa de mudar o nome do limão agora? Todo mundo sabe que se trata de limão-capeta e pronto.


— Calma, o senhor parece um pouco alterado hoje.


— Estou calmo. Fale para o seu patrão cuidar da vida dele. E que esse negócio de trair a esposa com duas amantes é que é coisa do diabo, viu?


Meu Deus! Eu tinha falado aquilo em alto e bom tom. Funcionários e clientes paralisados. Como assim? O seu Fernando trai a patroa. Todos sabem disso, mas ser explanado assim, antes do meio-dia de um sábado?


O mal estava feito. Até tentei disfarçar o estrago no ambiente. Fiz o pagamento, guardei as sacolas no carro e comecei a pensar:


— Que manhã louca! Aqui eu não volto tão cedo. E se o patrão descobrir onde eu moro?

 

Crédito da imagem: https://www.bbc.com/portuguese/vert-fut-60057457


 


Estou em um novo relacionamento. Coisa de algumas semanas. A essa altura da vida eu não esperava por um lance desses, mas aconteceu.


Ela chegou de repente. Como eu poderia prever um caso assim, em pleno inverno, duas semanas antes do Dia dos Namorados?


Quando parei para pensar na loucura que estava aprontando, ela já estava dentro da minha casa. “Só quero ver se você vai conseguir conviver com essa baixinha”, comentou minha esposa. Não sei se por ciúme ou pela velha mania de me criticar, querendo espalhar para a nova companheira o quanto posso ser difícil.


Problema dela! Pelo visto, será uma dessas paixões de inverno, um relacionamento moderno. Mas chega: nada de ficar falando da outra lá de casa.

    

Minha nova companheira vai comigo para todos os cantos: do trabalho para a feira, do mercado para a praça. Viajamos juntos. Ela fica toda contente quando é elogiada por sua discrição e firmeza. Ah, Rapenga é o seu nome, gente.


Alguns vizinhos mais atentos e dados à fofoca andaram fazendo piada com o nome da minha companheira no grupo do condomínio. De pura pirraça, saí do grupo. Quem tem passos vacilantes são eles; o nariz desse povo é que parece torto.


Vizinho é um caso sério! Eles nem conseguem disfarçar o quanto são inconvenientes. Uma moradora do 307 andou espalhando pelo prédio que a Rapenga não tem nada a ver com o meu estilo, que ela merecia coisa melhor e que eu não presto. E foi além: disse que, com um trato no visual, a Rapenga arrumaria sujeitos bem mais interessantes do que eu. Vê se pode... Quanta dor de cotovelo!


Eu poderia ficar aqui contando um monte de absurdos dessa gente. Se não fosse tomar mais do seu precioso tempo, comentaria até as confissões íntimas que ando tendo com a Rapenga.


Mas em respeito ao espaço que me cabe nesta crônica semanal, preciso confessar que já começo a vislumbrar o fim desse relacionamento. Não que eu seja frio; tem sido bom, compreende? Os amigos, mesmo que contrários ao caso lá no início, chegaram a concordar que era necessário que eu passasse por essa experiência. Acredita?


Embora a Rapenga tenha entrado em nossa vida de modo avassalador, agitando a poeira dos sentimentos, o fato é que começo a desejá-la longe da minha rotina doméstica. Que vá encontrar outros companheiros mundo afora. Sim, claro, ainda tem sido bom, Rapenga. Não espero, porém, ter como companhia na primavera, dezoito horas por dia, a minha simpática bota ortopédica... aquela estrutura onde acomodo o meu pé machucado, entende?


Que assim seja. Amém!


Era o canto de pássaro mais estridente da rua. Passei o portão e lá estava o canarinho em cima do poste, que fica de frente pra nossa casa. Cantava de estalar.

De repente sai da casa dele lá o seu Geovane, nosso vizinho e dono do amarelinho fujão.

– Toda vez que foge, ele não vai pra longe.

– Que canto incrível! Há quantos anos não ouço o canto de um canarinho, meu Deus!

– O senhor sabe por que ele tá cantando assim, afinado, alto, de parar o quarteirão?

– Sei não.

– Em conversa de passarinhos, ele está chamando a fêmea. Por isso que esse canário sempre voltou.

Nessa hora, eu não sabia se apreciava o canto ou buscava entender a história de amor que o moço me contava:

– ... ele só vai se a companheira for.

 


Caderno Azul

... farelos por aí ...

Crédito da imagem: Yassir Abbas

 


O seu Ronaldo ficou encantado com o par de tênis, o presente azul da garota de 12 anos.  

– Vai ver que foi por conta daquela música All Star que o Nando Reis fez pra Cássia Eller.

– Na verdade, não. Eu vi no filme Eduardo e Mônica com minha mãe.

– Êta família pra gostar do Anos 1980.

 


Caderno Azul

... farelos por aí ...

Crédito da imagem: Dan Cristian  Păduret 

 

O que será do futuro dessa menina? Que Deus a abençoe! Porque a julgar por agora, há dificuldade para descrever as atitudes da criança. Para se ter uma ideia, ela jamais aprovou o termo pré-adolescência.

 

Lá pela casa dos dez anos já era fã do Queen, mas nunca negou o gosto pelos clássicos da música: Chopin, Mozart, Bach e Beethoven.

 

Quando o assunto é livro ou filme, seu gênero favorito é a biografia. Adora saber dos bastidores da vida e da obra dos artistas. Com isso, sempre deixa escapar algumas curiosidades nas reuniões familiares.  

 

Por falar em família, recentemente, a menina aprontou uma boa com o pai.

 

“Vai chegar um livro que a mamãe comprou na internet. E é você quem vai ler para mim.”

 

O pai, coitado, um pouco encantado com a disposição das duas, ali sem entender nada, soltou um “Está bem”. A menina já tem doze anos e podia ler sozinha, não?

 

“Segundo o autor, o livro é dedicado aos pais. É para você estudar e aplicar os conceitos que estão lá. Você não vai se arrepender”.

 

Não vem ao caso indicar o nome do livro; mas é com orgulho e gratidão que o moço vai explicitando os conceitos do tal livro para a filha. Para isso, ele vem aproveitando as tardes de sábado.

 

A menina, a cada encontro, vem registrando as lições no caderno vermelho. Dizem por aí que até na segunda e terça de Carnaval, os dois estavam discutindo o comportamento de alunos e familiares que não dão a mínima para os professores.

 

Pelo visto, desse capítulo aí que eles estavam estudando, foi um folião de ideias. Com licença, vou ter que parar de escrever, pois ela acabou de me chamar na sala: “Vem logo, pai. Quero que você veja a budista que falei outro dia”


...

farelos por ... 

O retorno ao Ensino Presencial possui – entre muitos ângulos e desafios – uma perspectiva que flerta com o cômico.


Começando pelo uso da máscara:


recordo-me que no primeiro horário do dia, eu não enxergava os alunos: óculos visivelmente embaçados.


Para alguns estudantes, eu parecia um fantasma perdido de costas para o quadro branco.

 

Lá pelas tantas do sexto horário, 12h15, uma aluna muito gentil me instruiu:

 

– Farelo, coloque seus óculos bem na ponta do nariz, assim não terá problemas.


E não é que está funcionando até hoje?! Embora fique com a aparência do célebre professor Pardal... tudo bem. Resolve. Muito obrigado, querida L.S!


Seguimos com os abraços contidos:


vira e mexe surgem uns alunos lá do século passado*, gritando desesperados, felizes pelo reencontro, já chegam com os braços esticados para o abraço.


Seguindo os protocolos, grito mais alto ainda: a aglomeração! Cuidado com os contatos! Vamos deixar isso para depois, gente!


Felizmente nossos alunos respeitam, a gente conversa e mata a saudade pelos sorrisos do olhar.


E tem os novatos! Deles a gente só conhecia a voz:

 

– Fala, Farelo! Bom demais?

 

– Acho que você não está me reconhecendo.


Claro que não, às vezes, tive vontade responder. Você usava um avatar na plataforma, meu querido.


Ah, depois de tanto vexame, sentindo-me em outro planeta, resolvi adotar a seguinte estratégia: “Quem é você?”


Se algum colega ainda não usou essa técnica, vai por mim: funciona. 


Uma última curiosidade, se a crônica permitir. De tanto subir e descer escada, andar pelo colégio, parar de comer toda hora, vamos chegar bem ao verão.


Aos poucos, a gente vai se adaptando aos exercícios de desaprendizagem, como bem disse vovô Manoel.  


O que você me conta desse retorno ao Ensino Presencial?

 

 


* século passado: modo carinhoso a que me refiro ao período anterior à pandemia.

 

... farelos por aí ... 

 

Um pouco antes das 09h, corri ao sacolão. E lá, exatamente no caixa, uma garota roubou a cena.

 

A pedido da mãe, ela pegou o pacote da promoção, completando as compras. Voltou para a fila, retirou o cartão de uma pequena bolsa, informou que o pagamento seria no débito.

  

A mãe, toda orgulhosa da atitude da pequena, acompanhava todo o processo. Os clientes pararam para assistir à desenvoltura daquela garotinha nos seus 07 anos.

 

– Meus parabéns! Você é muito esperta!

 

– Muita obrigada! Eu que cuido das finanças da minha mãe.

 

Todos os clientes riram e elas saíram carregando as sacolas.

 

Eu ainda nem tinha feito o pagamento da minha pequena compra, quando ouvi:

 

– Moço! Moço! Eu te conheço!

 

Nesse tempo com máscaras, vira e mexe a gente acaba não reconhecendo alguns moradores da quebrada. Acontece.

 

– Você é o moço dos livros! Eu estudei teatro com sua mulher.

 

De fato, eu não me recordava. Parece que a pandemia já dura uma década. A gente se perde ou perdeu. Não é mesmo?  

 

Assim que se reapresentou, ativei todas as suas atuações no palco e nos bastidores da Cena. Por alguns segundos, um enredo se desenrolou nas páginas da minha memória.

 

A menina contou que mudou de casa, está morando em um apartamento agora. Ao final, passou o novo número do telefone da mãe, que aguardava no outro lado do passeio.

 

– Quando começar o teatro você pede a professora para ligar para minha mãe?

 

– Claro!

 

– Promete mesmo, moço?

 

Aquela antiga aluna mudou o ritmo do meu dia. Aquela menina, provavelmente não sabe, mas no início daquela manhã trouxe um feixe de luz para toda família. Ela foi o assunto do dia, tema especial para essa crônica com tinta de recomeço.   

 ...

 

As duas meninas estavam levantando a poeira dos degraus da escada.

 

– Pega o celular do papai, Cla!

 

– Eu não tô achando, Cê.

 

– Procura o da mamãe e vem rápido.

 

– Cuidado para não cair nas escadas, gente.

 

– Vem rápido, Cla! Vem rápido!

 

– E, aí? A gente vai conseguir?

 

– Agora é sua vez! É só subir na cama pra pegar o melhor ângulo.

 

– Que bonito, Cê! Pena que a gente não pode pegar o céu.

 

– Ah, aí é querer demais, né?

 

– Será que ela vai gostar?

 

– A chuva passou. O sol voltou a brilhar e o fim da tarde. E do quarto, das escadas, crescia o silêncio da entrega.

 

Com o sorriso mágico que só as crianças têm, passaram pela cozinha, atravessaram a sala e ganharam a varanda, segurando celular.

 

– Oi, minhas princesas! Ouvi uns gritos ... Tudo bem com vocês?

 

– A gente foi buscar um presente pra senhora!

 

– Um celular?!

 

– Não, vó. É o que está na tela dele.

 

E naquela tarde as meninas presentearam minha mãe com um arco-íris.


Escreveu: Alfredo Lima 

Ilustrou: Marci N. 

 

Dessa vez eu ultrapassei a linha dos absurdos na vida de um lerdo. 

 

Já voltei pra casa carregando as compras e deixei o carro no estacionamento da feira. 

 

Já saí com o chinelo trocado, com a máscara de cabeça pra baixo (quem nunca?)

 

Hoje entrei no carro de um estranho. Sério! Não era para roubar nem para ser transportado. Como sabe não sou mecânico e muito menos trabalho em lava-jato.

 

Carro da mesma cor, mesmo modelo, parado ao lado do automóvel deste lerdo que vos escreve? Não deu outra. 

 

 

Entrei, coloquei as sacolas no banco do passageiro. Quando olhei para o painel, o câmbio, soltei o nosso típico "UAI"?

 

Na fila do caixa, o proprietário rachando o bico da minha façanha. E os funcionários não perdoaram: 

 

"Que é isso, hein? Onde cê bebeu dessas, Farelo?" 

 

"Olha só, gente, ele acha que pode ir entrando em qualquer carro". 

 

À medida que um explicava ao outro o que se passava, fui tornando o protagonista do vacilo. Não sabia onde enfiar a cara.

 

Pedi desculpas ao proprietário do veículo com mesma cor, mesmo modelo, parado na mesma posição, provavelmente o mesmo ano.


Também quem mandou o cara não travar as portas?

 

Escreveu: Alfredo Lima

Ilustrou: Marci N.

 

O moço que encontrei na padaria – essa manhã – comemorava a ousadia de ter saído de casa às 05h45 para fazer atividade física.

 

A barriga que exibiu clama pelo desaparecimento.

 

Indiscreto, o moço apontou o meu excesso de tecido adiposo: “a atividade física é urgente para todos nós, parceiro”.

 

O moço que encontrei na padaria – essa manhã – é pai de um garoto de aí na casa dos 07 anos. Lindo!

 

O moço que encontrei – essa manhã – é casado com uma jornalista com quem convivo por quase duas décadas.

 

A esposa do moço que encontrei – essa manhã – me convidou para a festa do seu aniversário na data de hoje.

 

Era um sábado com resquícios de chuva. Casa grande, muitos amigos, muita alegria. Nessa festa comecei a namorar a amiga da esposa do moço que encontrei na padaria pela manhã.  

 

Será que o moço sabe que hoje estamos comemorando 19 anos de namoro? E como será que ele vai comemorar o aniversário da esposa dele?


... farelos por aí ... 

                             

Eis uma das façanhas que só as mulheres conhecem e conseguem praticar com desenvoltura, maestria. 


Para mim, uma descoberta?!


Descobri? Aliás, passei a por sentido, a lançar um pó sobre aquelas ações todas, muitas vezes, invisíveis em muitos lares brasileiros. Confesso que isso tudo só me ocorreu por conta da pandemia. Uma lição. A necessidade.


Eu descobri. Assim, sinceramente... posso dizer que serei um eterno aprendiz, mas isso importa e festejo a descoberta em si.


Eu descobri que para cumprir as tarefas, as obrigações que nos consomem, somem com nossas energias, as mulheres brilham no “Jogo do Enquanto”.


 Ah, para você entender, apresento-lhe meus primeiros passos, após a caminhada diária:

 enquanto a água do café ferve, tiro o carro da garagem, volto e preparo o coador, o filtro, coloco uma colher de pó. Enquanto o café está sendo coado, exalando o cheiro que desperta todas as manhãs que ainda moravam em meu corpo, ouço uma canção sagrada de Bach;


 enquanto lavo as vasilhas do lanche ou jantar da última noite, ouço uma série de conversas sobre assuntos do universo da sexta arte e sonho um dia me encontrar disponível às ideias desprezíveis do mundo da pressa;  


enquanto os outros moradores buscam se atualizar diante dos noticiários tão monótonos, tão marrons, verifico se os protocolos das aulas daquele dia estão corretamente preenchidos, leio as mensagens que nos chegam em caixas.


Eis um pouco das manhãs! Acredito que não seja assim difícil esboçar meu desempenho no “Jogo do Enquanto”, ao longo do dia; mas lembre-se de que sou um aprendiz.


Por que temos dificuldade de reconhecer que esse jogo é real? Por que o tratamos como arranjos invisíveis, dentro de uma casa?  


Quero continuar aprendendo a respeito desse jogo. Quem sabe a escrita não vai me ensinar?

 

Ilustração: Marci N.

 
– O mundo vai acabar daqui a pouquinho, cê vai ver e ouvir.

– Vamos dormir, criatura. Uma chuva gostosa dessas e cê vem me acordar com o fim do mundo?

– Antes dessa chuva gostosinha, rolou um vendaval dos diabos que parecia o anúncio do próximo dilúvio.

– Ah, cê tá vendo muita televisão. Vamos dormir?

– Estou pensando como evitar o fim do mundo e isso a gente faz acordado, não?

– Então... tá, boa noite!

– Ela... vai ser assim ... ela vai mexer na cama e encontrar o Botas, vai fazer carinho na barriga dele. O Botas? Cê nem presta atenção nessas coisas, né? Botas é aquele macaquinho de pelúcia, que tá lá do lado do travesseiro dela. Quando abrir os olhos e não perceber que seu novo companheiro não está lá, pronto!

– ?

– O que aconteceu? Ele simplesmente se esborrachou no chão e se espatifou todinho.

– NÃO! É verdade isso? O que a gente comprou na última tarde?

– Ó, pensei que já estivesse dormindo. Não estava querendo apreciar a “chuvinha gostosa”?

– O mundo vai ficar pequeno. Ela vai gritar e acordar os vizinhos do prédio inteiro. Minha nossa! Como aconteceu?

– O vento foi muito forte. Nem com aquela barriga saliente e o peso do saco de presentes, o velho conseguiu enfrentar o vento dessa noite.

– Meus Deus! E agora?

– Vamos ter que bolar um plano antes da nossa filha acordar. Vamos pra perto da cama dela.

– Assim, talvez, a gente diga: “Filha, sabe aquele Papai Noel bonitinho que você ganhou ontem e estava dentro daquela bola de vidro transparente? Bem, fofinha, nessa noite, ele...

Lá do quarto:

– CADÊ MEU PAPAI NOEL?

 

Ilustração: Marci N.

 



Eu até estava apreciando a ideia de deixar o cabelo crescer. A Menina do Baú Vermelho estava festiva com a ideia. Claro que meu cabelo nunca terá aqueles os cachos cheios de brilho. Ela puxou as madeixas, a cor dos olhos, o jeito da mãe (Graças a Deus por isso).


Meu cabelo já foi de tudo nessa vida. Ainda criança, com o rosto carregado daquelas pintinhas miúdas, meu cabelo era da cor de ferrugem. Chamavam-me de russo como consolo. Depois que fui entender a diferença entre russo e ruço. Os primos e amigos dos tempos do primário foram bastante generosos. Meu cabelo era encardido.


 Com o tempo ele ficou castanho, depois atingiu um tom quase preto. Um tom caminhando para o escuro. Isso durou pouco também, pois antes dos vinte anos, uns fios brancos vieram para morar de vez na minha cabeça. E aqui se multiplicaram de forma assustadora. Como consolo do cunhado, sempre ouço: “Pelo menos você ainda tem cabelo”, uma gargalhada e, na sequência, ele alisa com orgulho parte da careca.


Já pintei meu cabelo de amarelo, na empolgação de um Carnaval dos anos 90. Tive a honra de zerá-lo, quando passei no vestibular, lá no início do século (Acho que nem existe isso mais de raspar a cabeça) Fui de uma ponta à outra.


Mais recentemente, no contexto da pandemia, cheguei a propor que só cortaria o cabelo com o retorno das aulas presenciais, ou com a descoberta da vacina. Assim, variei a relação com esses fios, ao longo desses anos que brotaram em 2020. A experiência capilar chegou ao fim.


 Bem, mas não acabou a esperança na descoberta oficial da vacina para a Covid-19. O desejo de retorno às aulas presenciais em 2021 está cada dia mais vivo, cheio de cores.


 Assim, em um exercício de confiança, fé, esperança, quero lhe fazer um convite: que tal se a gente pudesse cultivar uma quinta estação? Sim, aqui, entre a primavera e o verão, e se criássemos essa estação?  


Uma estação que refletisse as cores de todas as outras, que juntasse todos os fios para (reconstruir) os laços familiares que se perderam, romperam ao longo desses anos polares. Uma estação que venha renovar nossa paciência para com o outro, que nos permita ouvir, antes de julgar, compreender, antes de atacar, agredir com ofensas. A sincera estação da mesa, da roda de conversas, dos sorrisos e da liberdade para falar das coisas boas desse mundo, dessa vida.


 Para entrar nessa estação, já vou cortar o cabelo, mudar o visual. Bora?!


 Nas palavras do grande Vander Lee, que Deus o tenha em seus acordes e letras:

 É hora de cuidar dos nossos jardins!

 Abs,   

 

... farelos de uma nova estação por aí ...

   


– Não feche a janela.

– Está ventando muito. É perigoso você gripar.

– E onde a Fada do Dente vai entrar, pai?

– É verdade! Ela VEM nessa noite.

– Uma pena que ela só vem na hora que a gente tá dormindo, né?

– E se a gente deixar uma greta assim desse tamanho na janela? Ela passa?

– Nossa, pai, ela não é gorda assim. ELA não tá igual o senhor. É uma fadinha.

– Quem disse que não tem fada gordinha igual ao papai?

– Minha vó. Ela disse que as fadas voam muito e são todas magrinhas.

– Amo minha sogra! Sua vó é um espetáculo à parte.

– Pai, vem dormir comigo. Se não a fada não vem. Ou vai pra casa do meu coleguinha

– Tô indo.


Crônica: Alfredo Lima (Farelo) 

Imagem disponível em: https://www.dentistaorganizado.com.br



Há sessenta dias não escrevo uma linha.

Hoje por impulso, pelos ventos de um adágio do Ferreira Gullar, fui atirado, jogado na rua. Você está se perguntando: “Como assim?”

Só foi assistir aos vídeos no meio da manhã, entre prova para elaborar, casa para arrumar e outras mil e uma tarefas...

Bem, eu não sei explicar o porquê, o que rolou, nem quero.  

Verdade: eu senti uma vontade enorme de registrar uns GRITOS.  

Em silêncio, desci a escada do barracão, corri em direção ao portão. Pá! Eu estava na RUA!  E só foi um grito.

Não tinha ninguém para ouvir. Ai! E como aquilo me fez bem. Tive a impressão de sair de um banho lento e gostoso, daqueles que lavam a alma, sabe?  

De vez em quando um ou outro carro passava e eu ia atravessando as frases do poeta.

Que realidade estou inventando? Por que um verso é capaz de provocar tudo isso em plena manhã?

 Insight? Impulso? Arte. Pulso.

Peço licença, mas agora vou ali comprar um apontador e mais lápis. Tenho que transcrever a página deste dia que nos escreve.

Por que?

“Eu escrevo porque tenho o prazer de manifestar uma coisa que eu descobri”



... farelos por aí ...

+