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Foi só a conta de ler a frase de Nikolai Gogol, bloquear todas as notificações no modo avião e o aparelho foi parar no fundo do armário. Chega! Um dia de descanso. Ufa!

— E se alguém quiser falar com você?

— Queria comprar o presente do Dia das Crianças no seu celular.

— Posso jogar um pouquinho? A mamãe deixou.

Após as 19 horas deste dia, poderão ligar à vontade. Só não venham comprar o que bem entenderem. Quanto aos joguinhos, no máximo uns 20 minutos. Combinado?

Quero ficar longe das redes sociais. Tanta mentira à venda, repetidas e patrocinadas... “Eles passarão, eu passarinho” — e viva Quintana!

... Algumas horas depois...

Calcei o tênis e fui correndo até a Praça do Sol pela primeira vez. Fui devagar, sem me importar com os morros. “Sem lenço, sem documento”, fui para descobrir como era. Só fui.

Reli um capítulo de A escrita em movimento. A escritora e professora Noemi Jaffe bateu um bolão ao redigir os “Sete princípios do fazer literário”. Eu já tinha esquecido o quanto essa obra é essencial.

Na mesa de madeira improvisada, lá na garagem, entre a página do encanto e o grifo do espanto, desviei o olhar para os movimentos da cozinha. Uma jovem de 16 anos lavava a louça, trocando ideias com a mãe sobre não sei o quê. Não dava para ouvir direito a conversa, embalada pelas músicas da eterna Elis. Playlist do vizinho misterioso.

De repente, a consulta rápida: o que vamos comer no almoço? Sem muita discussão, o escondidinho saiu vitorioso. Nessa hora fui chamado às pressas. Devagar, fui. Descasquei as batatas, o alho, e o restante ficou aos cuidados da chef. Que almoço em família!

Eu ficaria linhas e linhas discorrendo sobre como foi a tarde e o restante do domingo com o celular descansando no armário; mas iniciativas assim, só vivendo para entender.

Sim, recomendo fortemente que você faça o mesmo. Pelo menos uma vez.

— Da próxima vez você assiste a um filme com a gente?


 


– Está vindo do rumo do 163.

– Eu vou bater lá. Nem que seja para dizer: “Oi, tudo bem?”.

– E você acha que isso nunca passou pela minha cabeça?

– Tô nem lixando para o que o moço vai pensar da gente.

Aquela conversa, pelo visto, ia longe. Discussão e curiosidade das boas.

O motivo daqueles fios de conversa era a playlist do vizinho da rua de baixo. Um sujeito de quem ninguém fazia ideia da identidade: não se sabia se era homem ou mulher, rapaz ou senhora.

Cheguei a imaginar que fosse motorista. Minha filha discordou, dizendo que o som não vinha da direção dos caminhões quando olhávamos pela janela. Levantei a suspeita porque não é toda semana que a pessoa está em casa.

Mas, quando está, o abençoado ou iluminada aumenta o volume e põe para tocar músicas de todas as épocas. Detalhe: só música fina. Daquelas que agradam a gente, que não dão vontade de chamar a polícia, compreende?

O barato de tudo é que ele ou ela solta uma sequência que se equaliza aos diversos momentos do nosso dia.

Arrumar a cozinha depois do café ou varrer a sala só se for ao som das animadas.

Na hora de abrir uma lata e tomar uma gelada nos preparativos do almoço, só vem pedrada boa. Depois, para o merecido descanso e aquela soneca rápida, entram as lentas, as baladas.

No último inverno, com o cair da tarde, pensei que talvez a gente não deva mesmo revelar a identidade desse mago. Concluí que vale a pena guardar o mistério e continuar tecendo as mais diversas fabulações: será um DJ contratado por algum filho de Deus para nos alegrar? Um fantasma disfarçado de algoritmo que entrega o que a rotina necessita?

Quer saber? Vizinhos assim, com bom gosto e alto-astral, têm que ser protegidos. Vai que tem algum invejoso querendo levar o nosso homem da música embora?

 

Água fria no rosto. Não é mais o meu rosto. Cecília Meireles, nessa hora, perguntaria: “em que espelho ficou perdida minha face?”


As mãos tão diferentes, toscas, as unhas naquele estado. E a raiz branca do cabelo, à mostra. Troço medonho. E esse olho fundo, distante? Nem sei mais que dia é hoje. Dia da semana, do mês, nem imagino. Onde eu estava?


– Descanse um pouco. A senhora não está conseguindo nem falar direito — disse minha filha, após o banho de ontem.


Disso ficou apenas uma vaga lembrança. Olha em que pessoa ingrata a vida vem me tornando: nem agradeci à pequena Clarice por me levar para a cama.


– Que tal um banho para acordar de vez? — sugeriu minha Cecília, a Pacífico.


A água fria aquecendo os pensamentos, o silêncio da casa, o pente bem devagar percorrendo o cabelo mesclado e alguns fios descendo pelo ralo. Tudo em câmera lenta.


Agora que já passou, entendo. Muita coisa foi por aquele ralo: a ansiedade gerada pelos prazos cada vez mais curtos, a pressão dos senhores que só nos cobram. Eles nos dão pouco apoio, mas cobram, cobram muito.  Ai, ai... só um banho. Por um momento, até cheguei a sonhar de novo, mas alguém batia à porta:


– Mãe, está tudo bem? A senhora nunca demora debaixo do chuveiro assim.


– Está cada vez melhor! Que café cheiroso é esse, gente? Será o do vizinho?


– Nós que preparamos. E ó, não demora aí.


Diante do espelho novamente. A roupa de ficar em casa. Nada de maquiagem. As marcas do tempo ali, em cada curva da face, por volta das nove horas da manhã. O retorno?


– É tão bom te ver de volta nesta casa, mãe. O que a senhora vai querer comer?


Ouvi minhas filhas, levantei-me e as abracei forte, demoradamente.


– Não estou de volta à casa, meninas. Mamãe está de volta à vida.


Crédito da imagem: Yuliia    Tretynychenko

 

 



Aconteceu pelas bandas da Palma, entre São José de Almeida, Jaboticatubas e Lagoa Santa.

 

– Por que você não vai passear um pouco? Vá bater pernas por aí com as crianças.

 

Em menos de três minutos, já passávamos por trás de uma das traves do campo de futebol, campinho de terra, tendo à esquerda uma tradicional igrejinha católica, na beleza límpida do azul e branco.

 

Na frente e em disparada, levantando poeira, iam Clarice e Elis. Mal tive tempo de cumprimentar uns senhores que, entre uma dose e outra, celebravam a vida.

 

– Tio Fred! Tio Fred! (Chamaram pelo meu outro apelido) 


– A gente quer chiclete.

 

Ao descobrir que era aquele antigo chiclete com tatuagem, pedi logo meia dúzia. Guardei dois no bolso e distribuí os outros entre minha filha e minha sobrinha, que, mais do que depressa, correram para os bancos debaixo das árvores.

 

Dentro da venda, o moço me contava dos novos produtos, do quanto sua mãe lhe ensinara sobre plantas e raízes. Um papo de ritmo lento... Fui me desconectando aos poucos dos barulhos da cidade grande, da pressa do asfalto.

 

Lá fora, quase em frente à igreja, as meninas nos balanços me viam e chamavam para brincar. Era a hora da tatuagem. Tatuagem de figurinha! Eis a chave que me desligara por alguns instantes ali na venda.

 

O vendedor, todo prosa atrás do balcão, de costas para as prateleiras improvisadas de madeira; a poeira nas garrafas da branca, da amarela e da enraizada; logo abaixo, as balas, chicletes, pipocas, salgadinhos, doces e amendoins. Ah, coitado de mim!

 

Voltei ao tempo da infância. Estive na venda do Ataniel por algumas janelas da memória; depois escutei uns rocks antigos no bar do saudoso Zé Russo, comércios de um  vilarejo cravado entre Conceição do Mato Dentro e o Serro.

 

E o vilarejo? Quase não existe mais, devorado pela ganância da mineração. E isso faz tanto, tanto tempo... Deixei o moço atender outros clientes, paguei pelos chicletes e fui ser tatuado.

 

– A minha é de um tigre. Vai ficar no braço esquerdo!


 – Olha só a que eu tirei! Quem vai tatuar esse tribal no meu pulso? 


– Gente, olha a minha!  É uma borboletinha!

 

Até a hora do almoço, ficamos ali nos divertindo, inventando reinos... ficamos ali tatuando o tempo em nossas histórias.


Crédito da imagem: Kássia Melo


 


– Ah, coitado. Tá todo lascado. Tina vai te socorrer!

 

Por longas semanas fiquei sem irrigar a terra da criação. Juntei três espécies de adubo que encontrei na beira da estrada da Obrigação e foi ficando nisso, até que um dia:

 

– Esterco no saco de linhagem apodrece, menino. Tem que botar em volta do pé. A planta agradece – ralhou Tina.

 

De tempos em tempos, os olhos dela acompanhavam as ervas daninhas saindo no tapa, disputando a derrota das verduras, mas quase nada dizia.

 

– Quando cê criar coragem de enfrentar esse mato, vai dar valor à terra desse pomar.

 

Morava uma verdade naquela insistência. Pena que demorei para reconhecer o tom com que Tina falava.

 

– Não adianta contratar jardineiro ou lavrador. Cê que tem de deitar a enxada aí.

 

Dona de uma sabedoria bonita, Tina dificilmente perde os frutos de uma semente lançada no solo de nossas ideias. Foi assim que frutificou decisões importantes na vida do Branco, quando o moleque quase desistiu de tirar a carta de moto. E do outro filho, provocando, com uma única pergunta, o abandono definitivo da bebida.

 

A relação com a terra exigia novos tatos. O canto do sabiá-laranjeira guardava o ruído da destruição: o bico voraz do jacu, que ia levando de eito o último canteiro da hortaliça guerreira.

 

O alecrim silvestre, preguiçoso no galho, desanimava da metamorfose em vassoura e de espalhar seu perfume pelo terreiro. Assim, plantas e bichos acenavam para o fim — menos a terra.

 

Tina sabia mais do que ninguém: “isso não pode continuar assim.” Sentamo-nos à mesa para tomar um suco e ela prometeu que me ajudaria a recuperar boa parte da plantação. Ainda estava em tempo.

 

– Cê precisa dos frutos dessa terra, carece de enredar as histórias. Cê num aprendeu outras formas de lidar com as agruras da vida, menino?

 

Aos poucos, seguindo as instruções daquela senhora, alfabetizei-me nas fases da lua, ouvi os segredos do plantio e aprendi a aguar as sementes em cada ciclo. Só muito tempo depois cheguei à festa da primeira colheita.

 

– Das lições sobre a terra das histórias que aprendi com a senhora, passo a ver minha jornada como uma flor de acerola.

 

Aparentemente mínima, invisível, porém responsável por três temporadas de frutos no ano.

 

– Cê já pode se preparar para a próxima estação. Tá pronto pra voltar, menino. Tá pronto!

 


— Adoro seus agradecimentos. Você é igual ao ChatGPT, muito gentil sempre!

 

— É assim que começam as brigas — pensou, ao receber a mensagem.

 

Tanta coisa no mundo para servir de comparação e o menino vem logo com essa? O último presente que gostaria de receber naquela tarde era um elogio ordinário desses.

 

Problemas, preconceito com as IAs? Nada disso. Só ranço de indivíduos que fazem comparações indevidas.

 

— Por acaso minha gentileza anda em sintonia com o lixo das latas esquecidas em dia de coleta?

 

— O quê? Eu não entendi, seu Aurélio.

 

— Óbvio que não. Está tão viciado nos prompts que é incapaz de interpretar os gestos, os pequenos atos de humanidade que ainda restam neste escritório.

 

— Vixi. O moço apelou! Tá que nem um tiozão no finado Twitter, meu. Ultrapassado. Chatão!


— Ah, e que culpa tenho de lhe responder à altura? Querido, foi uma ofensa. Quer que eu seja mal-educado, destile meu ódio estilo X? Que tal?

 

Nessa troca de farpas, o clima pesou. O jovem saiu da frente do computador, caminhou em direção à mesa do Aurélio e disparou:

 

— Era para ser apenas uma brincadeira. Tipo para quebrar o clima dessa sala esquisita, entendeu?


O moleque se desculpou. E ainda terminou com um elogio destes tempos:

 

— É que, no fundo, eu queria dizer que o senhor sempre "farma aura" nas mensagens que envia para todos aqui do trampo.

 

Nessa hora, Aurélio levantou os óculos, esfregou os olhos, respirou fundo, pediu para que o rapaz repetisse a expressão e disse:

 

— Ah, deixa pra lá!


Crédito da imagem: Akbar Fathi

 

— Desça já daí, diacho! Vai derrubar as flores da mangueira e, desajeitado do jeito que é, vai se esborrachar no chão a qualquer momento.

— “Ocê qué apanhá? Qué?”

— O que meu anjo aprontou dessa vez? Ah, cortou as folhas do inhame de uma vez só! Agora eu vou te cortar é no couro, bênção de Deus!

— Jesus amado! Está de castigo de novo.

Por parte de pai, por parte de mãe, os tios todos tinham uma opinião peculiar a meu respeito na infância: en-ca-pe-ta-do!

Já as tias de Belo Horizonte eram mais delicadas na hora de tecer os elogios: inconsequente, inadequado, ávido por travessuras, enérgico, agitado...

Recordo-me de que, quando fui morar na cidade grande, os vizinhos eram tão afáveis que, assim que eu saía à rua para brincar de bola ou tentar entrar no time, eles tratavam de escondê-la.

Para as festas de aniversário, eu quase nunca era convidado. Por que será?

— Tudo certo, senhor. Já temos dados suficientes para encaminhá-lo à consulta. Sala Verde, por favor.

 


– A Zulmira sempre me acusa de ser um sujeito quadrado logo na primeira curva do dia. Só tenho levado na cabeça ultimamente, e você aí, a uma hora dessas, em pleno sábado, com a vassoura na mão? – reclamou o Seu Lopez.

 

– Homem de Deus! Onde cê tá com a cabeça? Quer quebrar a gente mais uma vez? É a Renata botar a cara na rua que já me pede pra fazer o mesmo – emendou Seu Raul, aproximando-se do nosso portão.

 

Caí na risada, sem entender o motivo para tanta chateação antes das oito da manhã:

 

– Bom dia para os senhores também! Só estou dando um jeito no passeio. Varro, jogo uma água para assentar a poeira e pronto. O que foi que eu fiz?

 

– Por sua culpa, agora tenho que caminhar com a patroa umas três vezes por semana. Por que você foi inventar esse troço de “corridas curtinhas”?

 

Que povo revoltado! Uma conversa atravessada que, naquele início de dia, me fez achar que ia apanhar. Os vizinhos estavam mesmo furiosos, num puro tom de desabafo:

 

– Quem começou com as ideias erradas de fazer “pequenas reformas” em plena pandemia? Quem foi o gênio do lar?

 

– Não é bom nem lembrar disso, gente... – ponderei, meio sem graça.

 

Continuei a tarefa ouvindo aquele absurdo todo. A vontade era de gargalhar, mas me contive. Eles falavam pelos cotovelos, inconformados.

 

– Em ano de Copa do Mundo, eu queria era começar a levantar copo antes das onze da manhã. Mas, se a Zul vê a gente aqui parado, me coloca pra lavar a garagem.

 

– Cê acaba isso logo que a gente ensaca as folhas. Estica a mangueira lá, Seu Lopez! Depois que a gente terminar aqui, você vai caminhar, correr, fazer o que quiser. Pode ser?

 

Para não contrariar o comitê de crise, concordei. O medo real deles era de as esposas acordarem e o mutirão ganhar a rua. Conversa vai, conversa vem, surgiram as pautas da vizinhança: lâmpada para trocar, cachorro para vacinar, vazamento na pia... a infinita lista que sustenta os maridos de aluguel por aí.

 

Ao retornar para casa, nem me despedi direito. Foi a conta de fechar o portão para um cheiro de queimado invadir o ar.

 

Corri até a cozinha e veio o estalo na memória: eu tinha deixado uma panela no fogo. Era para amolecer a sujeira e lavar a vasilha favorita da minha esposa assim que terminasse lá fora. Uma relíquia, presente de casamento.

 

Ô vontade de xingar meus vizinhos! Agora quem estava no sal era eu. E o pior: contra o flagrante da fumaça, não há álibi que salve.


Crédito da imagem:  https://www.tupi.fm/entretenimento/conversar-com-vizinhos-sem-pressa-era-parte-da-rotina/#google_vignette

 




Parte II

Entrar em todos os ambientes do mundo se o ingresso for uma canção. Um desejo.

 

Que não passe por sua cabeça que eu vá entrar cantando nesses lugares. Minha voz não é do canto. Tocando algum instrumento no ritmo de um estilo qualquer? Longe disso.

 

O passaporte especial, o ingresso iluminado, será o dom de ouvir. A música nos chama. Essa linguagem de outro universo tem efeitos esplêndidos sobre mim — consequências que ainda não consigo explicar.

 

Por que será que, quanto mais ouço músicas distintas, mais aprecio o silêncio?

 

Depois de horas de prosa com um especialista em MPB, ambos atrasados no aeroporto Tom Jobim, o moço soltou a provocação que me levou à PARTE I:

 

— Imagino que o senhor, também um apreciador da música brasileira, como pude testemunhar até agora, não gosta de música clássica. Ou estou equivocado?

 

Parte I

Raimundo Pereira de Lima não deixou herança para os filhos. Deixou um legado. Parte desses valores se relaciona ao respeito e ao alumbramento pelas diversas formas de arte.

 

Para o velho Rai, todo instrumento bem tocado — de corda, metal, sopro — é uma travessia que nos conecta ao sagrado. Reza a lenda que, para o nosso pai, depois que Deus criou o mundo, lá no sétimo dia, a primeira coisa que Ele fez foi ouvir uma canção.

 

Quando Rai partiu, eu tinha seis anos. Filho do meio, cresci ouvindo o que os mais velhos escutavam: rock, pop, caipira, samba. Minha infância foi uma bacia de influências. De modo inconsciente, aprendi a ouvir antes, a entender, para só depois, se fosse o caso, julgar.

 

Na adolescência, morando na casa dos tios para estudar, foi que vim a conhecer a música clássica. Mais precisamente na fábrica de gaiolas do seu Geraldo.

 

De manhã, a escola; à tarde, ajudante na oficina. Eu chegava bem no momento da sesta dos funcionários. Era recebido por diversos gênios: Chopin, Bach, Tchaikovsky, Beethoven, Mozart, Vivaldi.

 

Era a programação da saudosa rádio Guarani FM, de Belo Horizonte, que trazia naquele horário o programa Um Toque de Clássicos. Passei a admirar tanto a seleção que ia mais cedo para o trabalho só para ouvir um pouco mais.

 

Os moleques da rua já achavam esquisito o fato de eu trabalhar com o moço que criava pássaros e fazia gaiolas. Gostar daquele gênero musical era o combo perfeito para me classificarem como o maluco da vez.

 

Loucura ou não, houve uma tarde em que, vindo direto do século XVIII, o senhor Vivaldi me apresentou o Verão, de suas Quatro Estações. E foi de um jeito que ninguém havia conseguido até então.

 

Lixava as peças de uma gaiola enquanto seu Geraldo trocava a água dos passarinhos. Quando soaram os violinos da abertura, aquilo nos veio como feitiçaria.

 

Parei o trabalho mecânico, caminhei com passos lentos em direção ao rádio. Como alguém fora capaz de compor algo tão sublime?

 

Quando o gaioleiro se ajeitou no tanque, pensando que eu estivesse passando mal, cambaleando entre as madeiras, um dos curiós começou a cantar. O jovem pássaro também se encontrava naquela sintonia eletrizante; despertava com a misteriosa estação.

 

Êxtase. O curió, expressivo por ter encontrado conexão com os arranjos de outro século, continuou cantando mesmo quando a música acabou.

 

Seu Geraldo nada disse, mas vi um novo brilho em seus olhos. Acanhado, acenou-me um “joia”, traduzido por mim, trinta e três anos depois, como uma batismo:

 

— É isso aí, menino! Eis o inexplicável encanto da música clássica!



Crédito da imagem: Helena Lopes 

 

Ah, se eu tivesse ouvido a professora de Educação Financeira… Custava ter feito uma pequena lista?


— Pelo amor de Deus, Jean, não vá quebrar nada nas prateleiras. Da última vez, o prejuízo sobrou pra minha carteira.


— Sim, Júlia, pode levar dois refrigerantes. Vai bem com cachorro-quente. Os outros ingredientes eu compro aqui. Vai lá atrás dos meninos.


E o que esse povo vai querer pro jantar? Sobremesas simples… Ai, ai, ai. Pensar que fui a tonta de aceitar vir ao supermercado. Ah, se ao menos a dona Veridiana pudesse dar um palpite. Deixa para lá. Ela já veio de boa vontade, justo quando todo mundo lá em casa foi vencido pela preguiça. Deixa-a quietinha lá fora, sentada pegando um vento. Logo, logo estaremos de volta.


Eu nem tinha começado a pegar o básico e o corredor já parecia uma gincana para ver quem jogava guloseimas mais rápido no carrinho. Pastilhas de chocolate, biscoitos e um tantão de balas que eu nunca tinha visto na vida.


— Pode parar, gente! Tem que ser uma sobremesa comum, que sirva para todos.


Coração mole que sou, bastou entortarem o nariz para eu ceder. Devolveram algumas besteiras às gôndolas. Algumas.


Já nos finalmentes, quase tudo pronto para encarar a fila do caixa, eis o rebuliço. Os repositores, em silêncio, apertavam o passo em direção à entrada da loja. Um assalto?!, pensei.


— Vem para cá, depressa! — chamei as crianças.


Só que o sobrinho mais novo não resistiu à curiosidade. Foi ver o que se passava e voltou sorrindo, como se não fosse nada.


À medida que nossa vez chegava, acompanhei de perto o riso dos outros funcionários. Alguns até filmavam com o celular. Certamente viraria meme, assunto no grupo da família.


Fiquei quieta, me comportando como uma típica senhora em compras. Fiz sinal para os meninos não interferirem. Era momento de disfarçar. Eles mantiveram o tom baixo até esvaziarmos o carrinho, ensacolarmos tudo e pagarmos.


Com os meninos a postos perto da saída, fui chamar dona Veridiana.


— Conceição! Tá precisando de ajuda aí? Já compraram tudo? Nem vi a hora passar, menina. Peguei no sono aqui — disse ela, assustada, ajeitando-se na cadeira.


— Se a gente não acorda a senhora, ia até de noite!


— Dormir foi pouco! A vó até roncou. Roncou tão alto que chamou a atenção das moças do caixa!


Depois de rir da própria soneca em pleno supermercado, dona Veridiana tomou um gole de água da velha garrafa e suspirou:


— Pelo menos já diverti algumas pessoas por hoje.


 

        Bati o pé na rua e ouvi poucas e boas sobre a Magali.


       — Assim que vocês abrem o portão, ela sai feito um foguete!


       — E não nega a raça — emendou a vizinha da frente, pegando o bonde.


       — Adora correr atrás de motoqueiro.


       Em outros tempos, eu sentiria vergonha. Como podiam falar assim da nossa caramelo? Hoje, já não me importo. Sinto até orgulho quando ela se mistura aos outros "reis do pedaço": Pipoquinha, Seu Zé e Baco-Baco. Após cumprimentar cada um com um farejo protocolar, Magali atiça a nação canina de portão em portão.


       Houve uma época, porém, em que após a arruaça vinha o silêncio. Magali sumia por horas. De dentro de casa, enquanto eu molhava as plantas ou passava um café, não se ouvia um pio da nossa ilustre vagabunda.


       Até que, num sábado, o sumiço se prolongou. Família em alerta. Teria se envolvido em briga? Estaria acompanhando algum bando? Alguém a teria roubado?


       — Até parece, pai. Quem seria louco de roubar uma vira-lata dessas? — desdenhou uma das filhas.


       Não quis render a discussão. Como a rua é pequena, o jeito era sair perguntando, vizinho por vizinho, se por acaso...


       — Estão batendo no portão. Deve ser alguém querendo que ela entre. Vai lá.


       — Bom dia, Claudia. Tudo bem? Tem como dar um pulinho na minha casa? — era Zulmira, a vizinha do meio do quarteirão.


       Nessa hora, minha esposa nem para mencionar que estávamos aflitos. Fiquei com os nervos à flor da pele.


       — Seu esposo e as meninas estão aí? É bom que venha todo mundo...


       Magali não teve tempo de disfarçar a safadeza. Ainda bem que Zulmira adora cães e se divertia com a cena: lá estava a nossa cadela, refestelada no sofá da sala, à vontade, como se fosse a verdadeira dona da casa. De barriga para cima, folgada, brincando com o vazio. Assim que nos viu, começou a pular, como quem nos convidasse para explorar o novo território.


       O que fazer nessas horas?

 

Crédito da imagem: https://destinosporondeandei.com.br/arte-de-rua-em-sao-paulo/

É uma mentira das grandes o que contam por aí sobre avó. Outro dia, na escola, quase briguei com o orientador quando ele falou:

 

– Difícil demais! Esses meninos criados por vó...

 

Onde já se viu uma coisa dessas, senhor Marcelo? Falar assim, desse jeito, por quê? 


Ele nem quis dar confiança. Deu de ombro, como diz minha tia, e foi embora.

 

Ah, o que eu mais queria era morar na casa da minha vó. Já pensou eu lá, brincando na lama, correndo na poeira e, à noite, ouvindo histórias na cama?!


Lá, eu iria para a escola a pé e, na volta, colheria os ovos das galinhas no ninho que fica atrás da antiga oficina do vovô. 


Gente do céu! Ela ia me ensinar a cuidar do jardim, a escolher o nome para cada planta.

 

Na cozinha, então? Minha vó prepara os melhores pratos. Sabia que ela põe um monte de chefe no chinelo? Todas essas vontades foram passando na minha cabeça. 


Só que eu estava em silêncio, no banco de trás do carro. Na frente, minha mãe e minha irmã criticavam o trânsito do caos, a fumaça e a poluição. Brava com aquela falazada toda, entrei e saí da conversa com um único comentário:

 

– Se está difícil pra gente esse inferno, imagine para as plantas e os animais que são mais sensíveis. Imagine.

    

 

     Moído. Parece que levei soco por tudo quanto é canto do corpo. O pescoço está dolorido até agora. Há, claro, o fator idade. Isso tem de ser levado em conta. Mas a conta que me levou a dormir no sofá saiu cara demais.

      

       Isso mesmo que você leu. A mulher que reina lá em casa, mãe das minhas filhas, mandou-me passar a noite no velho sofá da sala. E olhe que, dessa vez, eu nem fiz nada de propósito. Foi tudo uma mera questão de ponto de vista. Ou de falta dele.

      

       Tinha tudo para ser o dia mais comum da semana, não fosse mais um descuido deste desavisado que vos escreve. Início da tarde, as duas filhas no banco de trás: “Bora lá, que o papai tem um montão de coisas para resolver no trabalho”. Deixei a caçula na escola; a mais velha ficou no curso de inglês, de onde sairia mais tarde com uma amiga. Até aí, tudo certo. Só até aí.

 

       Lá pelas tantas, no meio do expediente, resolvo olhar o celular. Havia nove chamadas perdidas e uma enxurrada de mensagens da patroa. Fiquei gelado. O que teria acontecido? Algum acidente? Uma emergência? Liguei de volta com o coração na boca. Ela atendeu, respirou fundo, limpou a garganta com uma frieza cirúrgica e disparou:


       — Eu quero te matar. Só isso.

 

       Eu já vi minha esposa brava muitas vezes, mas ouvi-la congelar a linha telefônica daquele jeito me deu um medo daqueles. “Lascou. Agora eu estou completamente ferrado”, foi o único pensamento que orbitou meu cérebro naquele instante.

 

       — Será que você não pensa em checar o que está levando no meio dessas suas bugigangas? — continuou ela, o tom subindo um oitavo. — Certamente está dentro da sua mochila. Sou capaz de apostar que está no estojo, misturado com as suas canetas coloridas...  

 

       Inocentemente, com aquela audácia típica dos ignorantes, pedi que ela ficasse calma, garantindo que tudo se resolveria. Enquanto falava, abri o zíper da mochila, puxei o estojo e encontrei a prova do crime. Tentei argumentar, mas ela não me deu espaço para respirar.

 

       — Logo hoje que eu ia ao shopping! Tinha que trocar o presente da Priscila, olhar os figurinos da próxima montagem... O creme de cabelo das meninas está acabando! Só porque eu tinha tirado a tarde livre para resolver a vida... — a fúria dela do outro lado era quase palpável.

 

       Assim que o monólogo deu uma trégua e ela recuperou o fôlego, comecei a desfiar um rosário de mil desculpas, consciente de que seriam votos nulos. Afinal, como perdoar o marido que, por puro automatismo, deixa a esposa trancada dentro da própria casa?

 

       — Por que você tinha que trancar o portão e levar a minha chave junto? Não bastava levar apenas a sua cópia, infeliz? Fiquei igual a uma louca aqui, procurando em todos os cômodos. Tentei ligar para o seu Ronaldo trazer uma escada e me ajudar a pular o muro, mas ele tinha saído para passear com as netas. Os vizinhos do lado só voltam tarde da noite. Ah, se eu não conhecesse a sua velha lerdeza, juraria que foi de propósito!

      

       Ela voltou a cuspir fogo, prometendo que o vacilo custaria caro. Eu só não fazia ideia do tamanho do prejuízo. No início da noite, retornei com as crias para o lar. Destranquei o portão — usando o chaveiro do crime — e fomos recebidos por um silêncio pesado, daqueles que dá para cortar com faca. Veio a hora do banho, a hora do jantar, a hora do capítulo da novela, a hora de colocar as crianças para dormir. O silêncio do acerto de contas permaneceu intacto. Só quando cheguei à porta do nosso quarto é que o ultimato foi proferido, quebrando o gelo de forma implacável:

 

       — Aqui suas coisas. Hoje você dorme no sofá.

 

       Não houve “boa-noite”, nem segunda instância para apelação. Juntei meu travesseiro, a coberta, o lençol e fui saindo de fininho, com o rabinho entre as pernas, acomodando-me na sala e pensando... Tudo por conta de uma maldita chave.

 

       

                                        

Acordei revoltado no último sábado. A manhã já foi logo servindo uma xícara de irritações, sem poupar uma série de palavras indelicadas.


— Se demorar demais aí nessas leituras, vai perder a hora da coleta — disse a mulher que mora lá em casa.


É um tanto quanto desastroso sair correndo atrás do caminhão com um saco de lixo nas mãos.


Ufa! Pelo menos dessa vez eles não tinham passado ainda. Até os vizinhos comemoraram o feito, como quem diz: "Dessa vez deu certo".


Bem lá no fundo, eles queriam mesmo era assistir à minha derrota: eu correndo de pijama, despenteado, atrás do amarelinho. Meus vizinhos são... aguarde, à frente conhecerá um deles.


A água quase fervendo, o filtro ajeitado no coador... e cadê o pó? Cadê o pó de café? Nem um pouquinho no fundo da lata. Desde que a mulher quebrou minha garrafa, a cozinha ficou de pernas para o ar. Água no filtro sem pó? Nem pensar. Paciência!


Saí à rua. Na padaria, o assunto era o grande Vozinha, goleiro da seleção de Cabo Verde. Não comprei café lá. Com todo respeito, mas o de lá é do tipo horrível. Cansei de ser enganado.


De volta ao doce lar, uma voz punitiva lá do quarto gritou:


— Não está esquecendo de nada?


A comida das cachorras, trocar a água e a parte da higiene. Óbvio que eu tinha esquecido.


Nessa hora, deu uma enorme vontade de lançar as sujidades das cadelas na casa do vizinho. Que caísse cada pá de estrume no jardim do infeliz. É que ontem à noite, em plena Copa do Mundo de Futebol, o querido, o ilustre morador da casa ao lado, estava torcendo para a seleção da Argentina. Ô vontade de xingar, de mergulhar a cara dele no xixi de todos os cachorros da rua. Controle-se.


Na hora da feira, não consegui me controlar.


— E hoje tem o limão-capeta aí?


— Sim, senhor. Mas aqui, o dono mudou de religião, o senhor deve ter ficado sabendo. Ele não gosta que a gente fale assim da fruta. Está lá na placa, o correto é limão-rosa — corrigiu o gerente da loja. 


Nessa hora, eu não resisti. Soltei o verbo:


— Eu falo da forma que eu quiser. Que palhaçada é essa de mudar o nome do limão agora? Todo mundo sabe que se trata de limão-capeta e pronto.


— Calma, o senhor parece um pouco alterado hoje.


— Estou calmo. Fale para o seu patrão cuidar da vida dele. E que esse negócio de trair a esposa com duas amantes é que é coisa do diabo, viu?


Meu Deus! Eu tinha falado aquilo em alto e bom tom. Funcionários e clientes paralisados. Como assim? O seu Fernando trai a patroa. Todos sabem disso, mas ser explanado assim, antes do meio-dia de um sábado?


O mal estava feito. Até tentei disfarçar o estrago no ambiente. Fiz o pagamento, guardei as sacolas no carro e comecei a pensar:


— Que manhã louca! Aqui eu não volto tão cedo. E se o patrão descobrir onde eu moro?

 

Crédito da imagem: https://www.bbc.com/portuguese/vert-fut-60057457


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