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— Desça já daí, diacho! Vai derrubar as flores da mangueira e, desajeitado do jeito que é, vai se esborrachar no chão a qualquer momento.

— “Ocê qué apanhá? Qué?”

— O que meu anjo aprontou dessa vez? Ah, cortou as folhas do inhame de uma vez só! Agora eu vou te cortar é no couro, bênção de Deus!

— Jesus amado! Está de castigo de novo.

Por parte de pai, por parte de mãe, os tios todos tinham uma opinião peculiar a meu respeito na infância: en-ca-pe-ta-do!

Já as tias de Belo Horizonte eram mais delicadas na hora de tecer os elogios: inconsequente, inadequado, ávido por travessuras, enérgico, agitado...

Recordo-me de que, quando fui morar na cidade grande, os vizinhos eram tão afáveis que, assim que eu saía à rua para brincar de bola ou tentar entrar no time, eles tratavam de escondê-la.

Para as festas de aniversário, eu quase nunca era convidado. Por que será?

— Tudo certo, senhor. Já temos dados suficientes para encaminhá-lo à consulta. Sala Verde, por favor.

 


A Zulmira sempre me acusa de ser um sujeito quadrado logo na primeira curva do dia. Só tenho levado na cabeça ultimamente, e você aí, a uma hora dessas, em pleno sábado, com a vassoura na mão? – reclamou o Seu Lopez.

 

– Homem de Deus! Onde cê tá com a cabeça? Quer quebrar a gente mais uma vez? É a Renata botar a cara na rua que já me pede pra fazer o mesmo – emendou Seu Raul, aproximando-se do nosso portão.

 

Caí na risada, sem entender o motivo para tanta chateação antes das oito da manhã:

 

– Bom dia para os senhores também! Só estou dando um jeito no passeio. Varro, jogo uma água para assentar a poeira e pronto. O que foi que eu fiz?

 

– Por sua culpa, agora tenho que caminhar com a patroa umas três vezes por semana. Por que você foi inventar esse troço de “corridas curtinhas”?

 

Que povo revoltado! Uma conversa atravessada que, naquele início de dia, me fez achar que ia apanhar. Os vizinhos estavam mesmo furiosos, num puro tom de desabafo:

 

– Quem começou com as ideias erradas de fazer “pequenas reformas” em plena pandemia? Quem foi o gênio do lar?

 

– Não é bom nem lembrar disso, gente... – ponderei, meio sem graça.

 

Continuei a tarefa ouvindo aquele absurdo todo. A vontade era de gargalhar, mas me contive. Eles falavam pelos cotovelos, inconformados.

 

– Em ano de Copa do Mundo, eu queria era começar a levantar copo antes das onze da manhã. Mas, se a Zul vê a gente aqui parado, me coloca pra lavar a garagem.

 

– Cê acaba isso logo que a gente ensaca as folhas. Estica a mangueira lá, Seu Lopez! Depois que a gente terminar aqui, você vai caminhar, correr, fazer o que quiser. Pode ser?

 

Para não contrariar o comitê de crise, concordei. O medo real deles era de as esposas acordarem e o mutirão ganhar a rua. Conversa vai, conversa vem, surgiram as pautas da vizinhança: lâmpada para trocar, cachorro para vacinar, vazamento na pia... a infinita lista que sustenta os maridos de aluguel por aí.

 

Ao retornar para casa, nem me despedi direito. Foi a conta de fechar o portão para um cheiro de queimado invadir o ar.

 

Corri até a cozinha e veio o estalo na memória: eu tinha deixado uma panela no fogo. Era para amolecer a sujeira e lavar a vasilha favorita da minha esposa assim que terminasse lá fora. Uma relíquia, presente de casamento.

 

Ô vontade de xingar meus vizinhos! Agora quem estava no sal era eu. E o pior: contra o flagrante da fumaça, não há álibi que salve.


Crédito da imagem:  https://www.tupi.fm/entretenimento/conversar-com-vizinhos-sem-pressa-era-parte-da-rotina/#google_vignette

 




Parte II

Entrar em todos os ambientes do mundo se o ingresso for uma canção. Um desejo.

 

Que não passe por sua cabeça que eu vá entrar cantando nesses lugares. Minha voz não é do canto. Tocando algum instrumento no ritmo de um estilo qualquer? Longe disso.

 

O passaporte especial, o ingresso iluminado, será o dom de ouvir. A música nos chama. Essa linguagem de outro universo tem efeitos esplêndidos sobre mim — consequências que ainda não consigo explicar.

 

Por que será que, quanto mais ouço músicas distintas, mais aprecio o silêncio?

 

Depois de horas de prosa com um especialista em MPB, ambos atrasados no aeroporto Tom Jobim, o moço soltou a provocação que me levou à PARTE I:

 

— Imagino que o senhor, também um apreciador da música brasileira, como pude testemunhar até agora, não gosta de música clássica. Ou estou equivocado?

 

Parte I

Raimundo Pereira de Lima não deixou herança para os filhos. Deixou um legado. Parte desses valores se relaciona ao respeito e ao alumbramento pelas diversas formas de arte.

 

Para o velho Rai, todo instrumento bem tocado — de corda, metal, sopro — é uma travessia que nos conecta ao sagrado. Reza a lenda que, para o nosso pai, depois que Deus criou o mundo, lá no sétimo dia, a primeira coisa que Ele fez foi ouvir uma canção.

 

Quando Rai partiu, eu tinha seis anos. Filho do meio, cresci ouvindo o que os mais velhos escutavam: rock, pop, caipira, samba. Minha infância foi uma bacia de influências. De modo inconsciente, aprendi a ouvir antes, a entender, para só depois, se fosse o caso, julgar.

 

Na adolescência, morando na casa dos tios para estudar, foi que vim a conhecer a música clássica. Mais precisamente na fábrica de gaiolas do seu Geraldo.

 

De manhã, a escola; à tarde, ajudante na oficina. Eu chegava bem no momento da sesta dos funcionários. Era recebido por diversos gênios: Chopin, Bach, Tchaikovsky, Beethoven, Mozart, Vivaldi.

 

Era a programação da saudosa rádio Guarani FM, de Belo Horizonte, que trazia naquele horário o programa Um Toque de Clássicos. Passei a admirar tanto a seleção que ia mais cedo para o trabalho só para ouvir um pouco mais.

 

Os moleques da rua já achavam esquisito o fato de eu trabalhar com o moço que criava pássaros e fazia gaiolas. Gostar daquele gênero musical era o combo perfeito para me classificarem como o maluco da vez.

 

Loucura ou não, houve uma tarde em que, vindo direto do século XVIII, o senhor Vivaldi me apresentou o Verão, de suas Quatro Estações. E foi de um jeito que ninguém havia conseguido até então.

 

Lixava as peças de uma gaiola enquanto seu Geraldo trocava a água dos passarinhos. Quando soaram os violinos da abertura, aquilo nos veio como feitiçaria.

 

Parei o trabalho mecânico, caminhei com passos lentos em direção ao rádio. Como alguém fora capaz de compor algo tão sublime?

 

Quando o gaioleiro se ajeitou no tanque, pensando que eu estivesse passando mal, cambaleando entre as madeiras, um dos curiós começou a cantar. O jovem pássaro também se encontrava naquela sintonia eletrizante; despertava com a misteriosa estação.

 

Êxtase. O curió, expressivo por ter encontrado conexão com os arranjos de outro século, continuou cantando mesmo quando a música acabou.

 

Seu Geraldo nada disse, mas vi um novo brilho em seus olhos. Acanhado, acenou-me um “joia”, traduzido por mim, trinta e três anos depois, como uma batismo:

 

— É isso aí, menino! Eis o inexplicável encanto da música clássica!



Crédito da imagem: Helena Lopes 

 

Ah, se eu tivesse ouvido a professora de Educação Financeira… Custava ter feito uma pequena lista?


— Pelo amor de Deus, Jean, não vá quebrar nada nas prateleiras. Da última vez, o prejuízo sobrou pra minha carteira.


— Sim, Júlia, pode levar dois refrigerantes. Vai bem com cachorro-quente. Os outros ingredientes eu compro aqui. Vai lá atrás dos meninos.


E o que esse povo vai querer pro jantar? Sobremesas simples… Ai, ai, ai. Pensar que fui a tonta de aceitar vir ao supermercado. Ah, se ao menos a dona Veridiana pudesse dar um palpite. Deixa para lá. Ela já veio de boa vontade, justo quando todo mundo lá em casa foi vencido pela preguiça. Deixa-a quietinha lá fora, sentada pegando um vento. Logo, logo estaremos de volta.


Eu nem tinha começado a pegar o básico e o corredor já parecia uma gincana para ver quem jogava guloseimas mais rápido no carrinho. Pastilhas de chocolate, biscoitos e um tantão de balas que eu nunca tinha visto na vida.


— Pode parar, gente! Tem que ser uma sobremesa comum, que sirva para todos.


Coração mole que sou, bastou entortarem o nariz para eu ceder. Devolveram algumas besteiras às gôndolas. Algumas.


Já nos finalmentes, quase tudo pronto para encarar a fila do caixa, eis o rebuliço. Os repositores, em silêncio, apertavam o passo em direção à entrada da loja. Um assalto?!, pensei.


— Vem para cá, depressa! — chamei as crianças.


Só que o sobrinho mais novo não resistiu à curiosidade. Foi ver o que se passava e voltou sorrindo, como se não fosse nada.


À medida que nossa vez chegava, acompanhei de perto o riso dos outros funcionários. Alguns até filmavam com o celular. Certamente viraria meme, assunto no grupo da família.


Fiquei quieta, me comportando como uma típica senhora em compras. Fiz sinal para os meninos não interferirem. Era momento de disfarçar. Eles mantiveram o tom baixo até esvaziarmos o carrinho, ensacolarmos tudo e pagarmos.


Com os meninos a postos perto da saída, fui chamar dona Veridiana.


— Conceição! Tá precisando de ajuda aí? Já compraram tudo? Nem vi a hora passar, menina. Peguei no sono aqui — disse ela, assustada, ajeitando-se na cadeira.


— Se a gente não acorda a senhora, ia até de noite!


— Dormir foi pouco! A vó até roncou. Roncou tão alto que chamou a atenção das moças do caixa!


Depois de rir da própria soneca em pleno supermercado, dona Veridiana tomou um gole de água da velha garrafa e suspirou:


— Pelo menos já diverti algumas pessoas por hoje.


 

        Bati o pé na rua e ouvi poucas e boas sobre a Magali.


       — Assim que vocês abrem o portão, ela sai feito um foguete!


       — E não nega a raça — emendou a vizinha da frente, pegando o bonde.


       — Adora correr atrás de motoqueiro.


       Em outros tempos, eu sentiria vergonha. Como podiam falar assim da nossa caramelo? Hoje, já não me importo. Sinto até orgulho quando ela se mistura aos outros "reis do pedaço": Pipoquinha, Seu Zé e Baco-Baco. Após cumprimentar cada um com um farejo protocolar, Magali atiça a nação canina de portão em portão.


       Houve uma época, porém, em que após a arruaça vinha o silêncio. Magali sumia por horas. De dentro de casa, enquanto eu molhava as plantas ou passava um café, não se ouvia um pio da nossa ilustre vagabunda.


       Até que, num sábado, o sumiço se prolongou. Família em alerta. Teria se envolvido em briga? Estaria acompanhando algum bando? Alguém a teria roubado?


       — Até parece, pai. Quem seria louco de roubar uma vira-lata dessas? — desdenhou uma das filhas.


       Não quis render a discussão. Como a rua é pequena, o jeito era sair perguntando, vizinho por vizinho, se por acaso...


       — Estão batendo no portão. Deve ser alguém querendo que ela entre. Vai lá.


       — Bom dia, Claudia. Tudo bem? Tem como dar um pulinho na minha casa? — era Zulmira, a vizinha do meio do quarteirão.


       Nessa hora, minha esposa nem para mencionar que estávamos aflitos. Fiquei com os nervos à flor da pele.


       — Seu esposo e as meninas estão aí? É bom que venha todo mundo...


       Magali não teve tempo de disfarçar a safadeza. Ainda bem que Zulmira adora cães e se divertia com a cena: lá estava a nossa cadela, refestelada no sofá da sala, à vontade, como se fosse a verdadeira dona da casa. De barriga para cima, folgada, brincando com o vazio. Assim que nos viu, começou a pular, como quem nos convidasse para explorar o novo território.


       O que fazer nessas horas?

 

Crédito da imagem: https://destinosporondeandei.com.br/arte-de-rua-em-sao-paulo/

É uma mentira das grandes o que contam por aí sobre avó. Outro dia, na escola, quase briguei com o orientador quando ele falou:

 

– Difícil demais! Esses meninos criados por vó...

 

Onde já se viu uma coisa dessas, senhor Marcelo? Falar assim, desse jeito, por quê? 


Ele nem quis dar confiança. Deu de ombro, como diz minha tia, e foi embora.

 

Ah, o que eu mais queria era morar na casa da minha vó. Já pensou eu lá, brincando na lama, correndo na poeira e, à noite, ouvindo histórias na cama?!


Lá, eu iria para a escola a pé e, na volta, colheria os ovos das galinhas no ninho que fica atrás da antiga oficina do vovô. 


Gente do céu! Ela ia me ensinar a cuidar do jardim, a escolher o nome para cada planta.

 

Na cozinha, então? Minha vó prepara os melhores pratos. Sabia que ela põe um monte de chefe no chinelo? Todas essas vontades foram passando na minha cabeça. 


Só que eu estava em silêncio, no banco de trás do carro. Na frente, minha mãe e minha irmã criticavam o trânsito do caos, a fumaça e a poluição. Brava com aquela falazada toda, entrei e saí da conversa com um único comentário:

 

– Se está difícil pra gente esse inferno, imagine para as plantas e os animais que são mais sensíveis. Imagine.

    

 

     Moído. Parece que levei soco por tudo quanto é canto do corpo. O pescoço está dolorido até agora. Há, claro, o fator idade. Isso tem de ser levado em conta. Mas a conta que me levou a dormir no sofá saiu cara demais.

      

       Isso mesmo que você leu. A mulher que reina lá em casa, mãe das minhas filhas, mandou-me passar a noite no velho sofá da sala. E olhe que, dessa vez, eu nem fiz nada de propósito. Foi tudo uma mera questão de ponto de vista. Ou de falta dele.

      

       Tinha tudo para ser o dia mais comum da semana, não fosse mais um descuido deste desavisado que vos escreve. Início da tarde, as duas filhas no banco de trás: “Bora lá, que o papai tem um montão de coisas para resolver no trabalho”. Deixei a caçula na escola; a mais velha ficou no curso de inglês, de onde sairia mais tarde com uma amiga. Até aí, tudo certo. Só até aí.

 

       Lá pelas tantas, no meio do expediente, resolvo olhar o celular. Havia nove chamadas perdidas e uma enxurrada de mensagens da patroa. Fiquei gelado. O que teria acontecido? Algum acidente? Uma emergência? Liguei de volta com o coração na boca. Ela atendeu, respirou fundo, limpou a garganta com uma frieza cirúrgica e disparou:


       — Eu quero te matar. Só isso.

 

       Eu já vi minha esposa brava muitas vezes, mas ouvi-la congelar a linha telefônica daquele jeito me deu um medo daqueles. “Lascou. Agora eu estou completamente ferrado”, foi o único pensamento que orbitou meu cérebro naquele instante.

 

       — Será que você não pensa em checar o que está levando no meio dessas suas bugigangas? — continuou ela, o tom subindo um oitavo. — Certamente está dentro da sua mochila. Sou capaz de apostar que está no estojo, misturado com as suas canetas coloridas...  

 

       Inocentemente, com aquela audácia típica dos ignorantes, pedi que ela ficasse calma, garantindo que tudo se resolveria. Enquanto falava, abri o zíper da mochila, puxei o estojo e encontrei a prova do crime. Tentei argumentar, mas ela não me deu espaço para respirar.

 

       — Logo hoje que eu ia ao shopping! Tinha que trocar o presente da Priscila, olhar os figurinos da próxima montagem... O creme de cabelo das meninas está acabando! Só porque eu tinha tirado a tarde livre para resolver a vida... — a fúria dela do outro lado era quase palpável.

 

       Assim que o monólogo deu uma trégua e ela recuperou o fôlego, comecei a desfiar um rosário de mil desculpas, consciente de que seriam votos nulos. Afinal, como perdoar o marido que, por puro automatismo, deixa a esposa trancada dentro da própria casa?

 

       — Por que você tinha que trancar o portão e levar a minha chave junto? Não bastava levar apenas a sua cópia, infeliz? Fiquei igual a uma louca aqui, procurando em todos os cômodos. Tentei ligar para o seu Ronaldo trazer uma escada e me ajudar a pular o muro, mas ele tinha saído para passear com as netas. Os vizinhos do lado só voltam tarde da noite. Ah, se eu não conhecesse a sua velha lerdeza, juraria que foi de propósito!

      

       Ela voltou a cuspir fogo, prometendo que o vacilo custaria caro. Eu só não fazia ideia do tamanho do prejuízo. No início da noite, retornei com as crias para o lar. Destranquei o portão — usando o chaveiro do crime — e fomos recebidos por um silêncio pesado, daqueles que dá para cortar com faca. Veio a hora do banho, a hora do jantar, a hora do capítulo da novela, a hora de colocar as crianças para dormir. O silêncio do acerto de contas permaneceu intacto. Só quando cheguei à porta do nosso quarto é que o ultimato foi proferido, quebrando o gelo de forma implacável:

 

       — Aqui suas coisas. Hoje você dorme no sofá.

 

       Não houve “boa-noite”, nem segunda instância para apelação. Juntei meu travesseiro, a coberta, o lençol e fui saindo de fininho, com o rabinho entre as pernas, acomodando-me na sala e pensando... Tudo por conta de uma maldita chave.

 

       

                                        

Acordei revoltado no último sábado. A manhã já foi logo servindo uma xícara de irritações, sem poupar uma série de palavras indelicadas.


— Se demorar demais aí nessas leituras, vai perder a hora da coleta — disse a mulher que mora lá em casa.


É um tanto quanto desastroso sair correndo atrás do caminhão com um saco de lixo nas mãos.


Ufa! Pelo menos dessa vez eles não tinham passado ainda. Até os vizinhos comemoraram o feito, como quem diz: "Dessa vez deu certo".


Bem lá no fundo, eles queriam mesmo era assistir à minha derrota: eu correndo de pijama, despenteado, atrás do amarelinho. Meus vizinhos são... aguarde, à frente conhecerá um deles.


A água quase fervendo, o filtro ajeitado no coador... e cadê o pó? Cadê o pó de café? Nem um pouquinho no fundo da lata. Desde que a mulher quebrou minha garrafa, a cozinha ficou de pernas para o ar. Água no filtro sem pó? Nem pensar. Paciência!


Saí à rua. Na padaria, o assunto era o grande Vozinha, goleiro da seleção de Cabo Verde. Não comprei café lá. Com todo respeito, mas o de lá é do tipo horrível. Cansei de ser enganado.


De volta ao doce lar, uma voz punitiva lá do quarto gritou:


— Não está esquecendo de nada?


A comida das cachorras, trocar a água e a parte da higiene. Óbvio que eu tinha esquecido.


Nessa hora, deu uma enorme vontade de lançar as sujidades das cadelas na casa do vizinho. Que caísse cada pá de estrume no jardim do infeliz. É que ontem à noite, em plena Copa do Mundo de Futebol, o querido, o ilustre morador da casa ao lado, estava torcendo para a seleção da Argentina. Ô vontade de xingar, de mergulhar a cara dele no xixi de todos os cachorros da rua. Controle-se.


Na hora da feira, não consegui me controlar.


— E hoje tem o limão-capeta aí?


— Sim, senhor. Mas aqui, o dono mudou de religião, o senhor deve ter ficado sabendo. Ele não gosta que a gente fale assim da fruta. Está lá na placa, o correto é limão-rosa — corrigiu o gerente da loja. 


Nessa hora, eu não resisti. Soltei o verbo:


— Eu falo da forma que eu quiser. Que palhaçada é essa de mudar o nome do limão agora? Todo mundo sabe que se trata de limão-capeta e pronto.


— Calma, o senhor parece um pouco alterado hoje.


— Estou calmo. Fale para o seu patrão cuidar da vida dele. E que esse negócio de trair a esposa com duas amantes é que é coisa do diabo, viu?


Meu Deus! Eu tinha falado aquilo em alto e bom tom. Funcionários e clientes paralisados. Como assim? O seu Fernando trai a patroa. Todos sabem disso, mas ser explanado assim, antes do meio-dia de um sábado?


O mal estava feito. Até tentei disfarçar o estrago no ambiente. Fiz o pagamento, guardei as sacolas no carro e comecei a pensar:


— Que manhã louca! Aqui eu não volto tão cedo. E se o patrão descobrir onde eu moro?

 

Crédito da imagem: https://www.bbc.com/portuguese/vert-fut-60057457


 


Estou em um novo relacionamento. Coisa de algumas semanas. A essa altura da vida eu não esperava por um lance desses, mas aconteceu.


Ela chegou de repente. Como eu poderia prever um caso assim, em pleno inverno, duas semanas antes do Dia dos Namorados?


Quando parei para pensar na loucura que estava aprontando, ela já estava dentro da minha casa. “Só quero ver se você vai conseguir conviver com essa baixinha”, comentou minha esposa. Não sei se por ciúme ou pela velha mania de me criticar, querendo espalhar para a nova companheira o quanto posso ser difícil.


Problema dela! Pelo visto, será uma dessas paixões de inverno, um relacionamento moderno. Mas chega: nada de ficar falando da outra lá de casa.

    

Minha nova companheira vai comigo para todos os cantos: do trabalho para a feira, do mercado para a praça. Viajamos juntos. Ela fica toda contente quando é elogiada por sua discrição e firmeza. Ah, Rapenga é o seu nome, gente.


Alguns vizinhos mais atentos e dados à fofoca andaram fazendo piada com o nome da minha companheira no grupo do condomínio. De pura pirraça, saí do grupo. Quem tem passos vacilantes são eles; o nariz desse povo é que parece torto.


Vizinho é um caso sério! Eles nem conseguem disfarçar o quanto são inconvenientes. Uma moradora do 307 andou espalhando pelo prédio que a Rapenga não tem nada a ver com o meu estilo, que ela merecia coisa melhor e que eu não presto. E foi além: disse que, com um trato no visual, a Rapenga arrumaria sujeitos bem mais interessantes do que eu. Vê se pode... Quanta dor de cotovelo!


Eu poderia ficar aqui contando um monte de absurdos dessa gente. Se não fosse tomar mais do seu precioso tempo, comentaria até as confissões íntimas que ando tendo com a Rapenga.


Mas em respeito ao espaço que me cabe nesta crônica semanal, preciso confessar que já começo a vislumbrar o fim desse relacionamento. Não que eu seja frio; tem sido bom, compreende? Os amigos, mesmo que contrários ao caso lá no início, chegaram a concordar que era necessário que eu passasse por essa experiência. Acredita?


Embora a Rapenga tenha entrado em nossa vida de modo avassalador, agitando a poeira dos sentimentos, o fato é que começo a desejá-la longe da minha rotina doméstica. Que vá encontrar outros companheiros mundo afora. Sim, claro, ainda tem sido bom, Rapenga. Não espero, porém, ter como companhia na primavera, dezoito horas por dia, a minha simpática bota ortopédica... aquela estrutura onde acomodo o meu pé machucado, entende?


Que assim seja. Amém!


Era o canto de pássaro mais estridente da rua. Passei o portão e lá estava o canarinho em cima do poste, que fica de frente pra nossa casa. Cantava de estalar.

De repente sai da casa dele lá o seu Geovane, nosso vizinho e dono do amarelinho fujão.

– Toda vez que foge, ele não vai pra longe.

– Que canto incrível! Há quantos anos não ouço o canto de um canarinho, meu Deus!

– O senhor sabe por que ele tá cantando assim, afinado, alto, de parar o quarteirão?

– Sei não.

– Em conversa de passarinhos, ele está chamando a fêmea. Por isso que esse canário sempre voltou.

Nessa hora, eu não sabia se apreciava o canto ou buscava entender a história de amor que o moço me contava:

– ... ele só vai se a companheira for.

 


Caderno Azul

... farelos por aí ...

Crédito da imagem: Yassir Abbas

 


O seu Ronaldo ficou encantado com o par de tênis, o presente azul da garota de 12 anos.  

– Vai ver que foi por conta daquela música All Star que o Nando Reis fez pra Cássia Eller.

– Na verdade, não. Eu vi no filme Eduardo e Mônica com minha mãe.

– Êta família pra gostar do Anos 1980.

 


Caderno Azul

... farelos por aí ...

Crédito da imagem: Dan Cristian  Păduret 

 

O que será do futuro dessa menina? Que Deus a abençoe! Porque a julgar por agora, há dificuldade para descrever as atitudes da criança. Para se ter uma ideia, ela jamais aprovou o termo pré-adolescência.

 

Lá pela casa dos dez anos já era fã do Queen, mas nunca negou o gosto pelos clássicos da música: Chopin, Mozart, Bach e Beethoven.

 

Quando o assunto é livro ou filme, seu gênero favorito é a biografia. Adora saber dos bastidores da vida e da obra dos artistas. Com isso, sempre deixa escapar algumas curiosidades nas reuniões familiares.  

 

Por falar em família, recentemente, a menina aprontou uma boa com o pai.

 

“Vai chegar um livro que a mamãe comprou na internet. E é você quem vai ler para mim.”

 

O pai, coitado, um pouco encantado com a disposição das duas, ali sem entender nada, soltou um “Está bem”. A menina já tem doze anos e podia ler sozinha, não?

 

“Segundo o autor, o livro é dedicado aos pais. É para você estudar e aplicar os conceitos que estão lá. Você não vai se arrepender”.

 

Não vem ao caso indicar o nome do livro; mas é com orgulho e gratidão que o moço vai explicitando os conceitos do tal livro para a filha. Para isso, ele vem aproveitando as tardes de sábado.

 

A menina, a cada encontro, vem registrando as lições no caderno vermelho. Dizem por aí que até na segunda e terça de Carnaval, os dois estavam discutindo o comportamento de alunos e familiares que não dão a mínima para os professores.

 

Pelo visto, desse capítulo aí que eles estavam estudando, foi um folião de ideias. Com licença, vou ter que parar de escrever, pois ela acabou de me chamar na sala: “Vem logo, pai. Quero que você veja a budista que falei outro dia”


...

farelos por ... 

O retorno ao Ensino Presencial possui – entre muitos ângulos e desafios – uma perspectiva que flerta com o cômico.


Começando pelo uso da máscara:


recordo-me que no primeiro horário do dia, eu não enxergava os alunos: óculos visivelmente embaçados.


Para alguns estudantes, eu parecia um fantasma perdido de costas para o quadro branco.

 

Lá pelas tantas do sexto horário, 12h15, uma aluna muito gentil me instruiu:

 

– Farelo, coloque seus óculos bem na ponta do nariz, assim não terá problemas.


E não é que está funcionando até hoje?! Embora fique com a aparência do célebre professor Pardal... tudo bem. Resolve. Muito obrigado, querida L.S!


Seguimos com os abraços contidos:


vira e mexe surgem uns alunos lá do século passado*, gritando desesperados, felizes pelo reencontro, já chegam com os braços esticados para o abraço.


Seguindo os protocolos, grito mais alto ainda: a aglomeração! Cuidado com os contatos! Vamos deixar isso para depois, gente!


Felizmente nossos alunos respeitam, a gente conversa e mata a saudade pelos sorrisos do olhar.


E tem os novatos! Deles a gente só conhecia a voz:

 

– Fala, Farelo! Bom demais?

 

– Acho que você não está me reconhecendo.


Claro que não, às vezes, tive vontade responder. Você usava um avatar na plataforma, meu querido.


Ah, depois de tanto vexame, sentindo-me em outro planeta, resolvi adotar a seguinte estratégia: “Quem é você?”


Se algum colega ainda não usou essa técnica, vai por mim: funciona. 


Uma última curiosidade, se a crônica permitir. De tanto subir e descer escada, andar pelo colégio, parar de comer toda hora, vamos chegar bem ao verão.


Aos poucos, a gente vai se adaptando aos exercícios de desaprendizagem, como bem disse vovô Manoel.  


O que você me conta desse retorno ao Ensino Presencial?

 

 


* século passado: modo carinhoso a que me refiro ao período anterior à pandemia.

 

... farelos por aí ... 

 

Um pouco antes das 09h, corri ao sacolão. E lá, exatamente no caixa, uma garota roubou a cena.

 

A pedido da mãe, ela pegou o pacote da promoção, completando as compras. Voltou para a fila, retirou o cartão de uma pequena bolsa, informou que o pagamento seria no débito.

  

A mãe, toda orgulhosa da atitude da pequena, acompanhava todo o processo. Os clientes pararam para assistir à desenvoltura daquela garotinha nos seus 07 anos.

 

– Meus parabéns! Você é muito esperta!

 

– Muita obrigada! Eu que cuido das finanças da minha mãe.

 

Todos os clientes riram e elas saíram carregando as sacolas.

 

Eu ainda nem tinha feito o pagamento da minha pequena compra, quando ouvi:

 

– Moço! Moço! Eu te conheço!

 

Nesse tempo com máscaras, vira e mexe a gente acaba não reconhecendo alguns moradores da quebrada. Acontece.

 

– Você é o moço dos livros! Eu estudei teatro com sua mulher.

 

De fato, eu não me recordava. Parece que a pandemia já dura uma década. A gente se perde ou perdeu. Não é mesmo?  

 

Assim que se reapresentou, ativei todas as suas atuações no palco e nos bastidores da Cena. Por alguns segundos, um enredo se desenrolou nas páginas da minha memória.

 

A menina contou que mudou de casa, está morando em um apartamento agora. Ao final, passou o novo número do telefone da mãe, que aguardava no outro lado do passeio.

 

– Quando começar o teatro você pede a professora para ligar para minha mãe?

 

– Claro!

 

– Promete mesmo, moço?

 

Aquela antiga aluna mudou o ritmo do meu dia. Aquela menina, provavelmente não sabe, mas no início daquela manhã trouxe um feixe de luz para toda família. Ela foi o assunto do dia, tema especial para essa crônica com tinta de recomeço.   

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