Caro Sancho*,


Nesta data, aproveitando que é dia de merecido descanso das atividades físicas, quero esclarecer alguns pontos para quem está chegando agora. Bora lá?!


Farelo na Pista é o nome do projeto de preparação para a minha primeira maratona. Teve início em 3 de janeiro de 2023. Não foi uma promessa vazia de Ano Novo, mas uma proposta de nova vida.


Na estrada: já se foram algumas voltas na Lagoa da Pampulha, umas poucas meias maratonas e os desafios de aniversário do Instituto Livros em Todo Lugar.


Eu não "meti o louco": não acordei e disse "vou correr uma maratona". Nada disso. Desde 2022, conto com o apoio técnico, profissional e psicológico da BH Run, assessoria com longa experiência.


O batismo: nessa assessoria, após completar um desafio, meu treinador me presenteou com um adjetivo que carrego com honra: Atleta do incentivo à leitura.


A inspiração: após sete semanas mergulhado nos dois volumes do clássico de Miguel de Cervantes, elegi Dom Quixote como personagem-símbolo desta jornada. Para quem não sabe, em um ciclo de maratona a gente leva inúmeras pancadas — tal qual o cavaleiro andante em sua jornada.


O sinal: ainda sobre o personagem, ao final de cada semana, no famoso LONGÃO, aparece lá nos stories uma ilustração dele sobre o cavalo, acompanhada dos detalhes do treino.


O pacto: a referência explícita ao fiel escudeiro de Quixote, a partir de agora, será o modo como começarei nossas conversas.


Sabe o que isso significa? Todos que estiverem comigo nessa jornada serão meus confidentes. Jovens, adultos, idosos... todos vocês serão, para mim, Sancho Pança.


Vamos que amanhã tem TREINO. 


Bom descanso e boa noite!

 

Diário querido,

 

Nem comecei a sentir o cheiro do almoço ainda, mas a curiosidade falou mais alto e vim correndo te contar as novidades. Uma tem a ver com dor; a outra, com a cara das nossas conversas daqui para frente. Preparado?

 

1. O preço da velocidade

 

Às 03h40, dei início ao treino mais rápido da minha vida. O resultado? RP triplo: bati minhas marcas nos 10 km, nos 21 km e nos 30 km!

 

Estou radiante com a conquista, mas, como tudo tem um preço, levei uma bronca do treinador (com razão, o risco de lesão foi alto) e conheci o famigerado "mamilo de corredor".

 

Eu achava que isso era lenda ou coisa de atleta de elite. Para quem não sabe, é um sangramento causado pelo atrito constante da camiseta com a pele, potencializado pelo suor. No meu caso, não foi nenhum filme de terror, mas o alerta acendeu: o próximo item da lista de compras é vaselina. Já não basta carregar o "charme" de algumas unhas a menos nos pés, agora a teta resolveu protestar? Rindo para não chorar!

 

2. Identidade renovada

 

Saindo da dor e indo direto para a estética — ou melhor, para a identidade visual do Farelo na Pista. A partir da próxima postagem, teremos uma capa fixa aqui no site. Uhuuuuu!

 

Depois de uma semana intensa de registros neste "Diário da Maratona", sempre com fotos naquele mesmo clima (caneta, papel, mãos escrevendo), chegou a hora de formalizar. A imagem será a mesma, mudando apenas a contagem dos dias. Com isso, começo também a divulgar o projeto oficialmente.

 

Não sei onde essa trilha vai dar, mas quem sabe alguém não se anima a embarcar nessa jornada comigo?

 

Até amanhã...

 

Farelo na Pista


Diário amigo,


Não sei se foi descuido da rede ou a curiosidade dos estranhos, mas descobri que já temos uns três leitores por aqui. O curioso é que não soltei o verbo para ninguém: nada de Instagram, WhatsApp ou qualquer outra vitrine. Como essa turma chegou?


Quer saber? Pouco importa. Quero é lhe contar que, ao contrário de ontem, hoje eu venci a preguiça e fui correr — não exatamente como a planilha mandava, mas fui. O motivo do ajuste? Alimentação capenga nos últimos dois dias, hidratação falhando... não deu outra: foi na base do "o chamado do banheiro". Quase no fim, tive que sair em disparada. E tudo bem. Não é a primeira vez, nem será a última. A gente ri para não chorar, né?


Depois, levei a Clarice para a escola e acabei emendando o trabalho por lá mesmo. Manhã produtiva: consegui zerar as provas da 1ª série e limpar a caixa de entrada, disparando aqueles e-mails que estavam me assombrando.


Agora, já no final da tarde, o foco mudou. Começaram os preparativos para o treino mais longo da temporada. Amanhã vou encarar os 32 km pela segunda vez. É ritual de preparação: suco de uva integral, gel de carboidrato, sachê de eletrólitos e, principalmente, tentar descansar o corpo.


REFLEXÃO


Uma das grandes lições que este ciclo da maratona tem me trazido é a importância de consumir a "Vitamina N". Aprendi essa com o Eliud Kipchoge, o monstro queniano que foi o primeiro a correr uma maratona abaixo de 2h.


Vitamina N. Pode vir em cápsula ou scoop de 3g, tanto faz. O lance é que ela precisa fazer parte da dieta diária. Vitamina Não. Aprender a dizer não para o que tira o foco e a energia.


Até amanhã, meu amigo.


Farelo na Pista

 

73 dias para a maratona. O bagaço também faz parte do treino. “Não ria não”

 

Hoje a madrugada foi silenciosa. O despertador tocou, mas o treino de 1h10min não rolou, minha gente. Não teve "farelo na pista" na última manhã, e a culpa nem entra aqui – entra o bom senso.

 

Ontem foi daqueles dias de jornada tripla, dobras à força: dois turnos de trabalho, reunião, e ainda uma hora e meia de formação no final. Quando cheguei em casa, o corpo deu o recado: sinusite chegando, olho lacrimejando, nariz querendo zoar e a cabeça latejando. Tentei jantar, tentei descansar, mas o sono foi interrompido algumas vezes pela dor.

 

O diagnóstico da falha: além da maratona de trabalho, vacilei no básico. Sem marmita, acabei recorrendo a restaurante, e a hidratação ficou lá embaixo. O resultado? Imunidade sentindo o golpe.

 

Hoje, a ordem é silêncio absoluto. Sem treino, sem academia, sem caçar conversa com o acaso. O foco vira a recuperação para amanhã soltar um trote leve – só para avisar o corpo que o longão de sábado está chegando.

 

Vida de corredor tem dessas: a gente planeja o cenário no detalhe, mas a realidade impõe os seus arranjos. Como venho escrevendo aqui: sem filtro, sem firulas. É aceitar o tranco, se cuidar e seguir.

Farelo na Pista

 

(amanhã, com fé).

 


Quarta-feira, 15 de abril de 2026

 

A 74 dias da maratona, o celular desperta. Se eu tentasse negociar com a minha mente, perderia fácil. Ela diria assim:

 

“Fique mais uns 30 minutos na cama. Você merece descansar, pois ontem trabalhou manhã e tarde, e ainda entregou o treino intervalado. Coitado! Foi dormir tarde... blá, blá, blá!”

 

Como dizem por aí: “nem pensa, só vai”. Fui. Sem me preocupar com a performance, uma vez que o treino de hoje era leve, estilo regenerativo — compreende?

 

Nos primeiros três horários, treinei panturrilha enquanto aplicava provas; depois, uma aula com questão discursiva e duas janelas para sonhar. Janelas na rotina de um professor são templos de respiro na jornada. Adoro.

 

Nenhum motivo para reclamar de nada. Se estou de boa? Com muitas tarefas da profissão — trabalhos e provas para corrigir, projeto para escrever, entre outras demandas urgentes —, mas sim, estou em paz, em ritmo de ajustes.


Encerro por aqui a escrita de hoje, pois ainda tenho uma reunião e um curso de formação pela frente.


E vamos que VAMOS...


Farelo na Pista



Quando saio do ritmo, levo algumas horas ou até dias para reencontrar o tom. O erro ao final da manhã de ontem foi apenas a ponta dos desajustes que desabrocharam ao longo da tarde, atravessaram a noite e despontaram na manhã de hoje: prazos não cumpridos, negativas de projetos importantes e uma queda de energia nos preparativos da próxima atividade. Parecia o fim. Mas não; era apenas o enredo dos desarranjos protagonizando alguns sinais.


Não bastassem os equívocos, foi preciso encarar uma inquietação antiga: a perda temporária de objetos pessoais. Desta vez, sumiu o estojo com canetas, pincéis de quadro branco, lápis, lapiseira e um pen drive com arquivos importantes.


Com o atraso causado pela procura, veio a mudança repentina no plano de aula. No lugar do conteúdo previsto, a análise e a correção da prova aplicada ontem. Sobrou tempo para a chamada e para a conversa, sem a toada frenética e desenfreada das últimas semanas. Foi um momento para me sentir mais próximo dos estudantes — mais humano, menos máquina; menos um robô que "cospe" matéria sem pestanejar.


Antes de receber a notícia de que o estojo estava em casa — largado debaixo do sofá após pular da mochila no final de semana —, eu já começava a interpretar os sinais da necessidade de me desligar.


A tarde foi mais leve. Não apenas pelo reencontro com os pertences, mas pela reconexão; por me pertencer novamente. Há horas em que a vida nos lembra de que somos humanos, e quando aceitamos isso, é gratificante.


Jamais imaginei que estaria, no início da noite, escrevendo assim, de modo visceral: períodos longos, frases sem filtro, compromisso apenas com a entrega. Em respeito ao seu tempo, não entrarei em mais detalhes.


O dia, porém, não acabou. Às 21h, haverá o treino intervalado — que o amigo Marcelo Camargo chama de "tiroteio". Até lá, buscarei minha filha no inglês, atravessaremos a cidade, faremos um lanche e, finalmente, a academia.


Peço desculpas por me alongar.


... E vamos que VAMOS ...


Farelo na Pista

 

A 76 dias da maratona. Dei início às atividades às 05h. Foi um treino fraco de 40 minutos, comumente chamado de "trote".


Desde 2024, venho ressignificando cada uma dessas atividades; então, por uma questão de estética, chamo-o de "Espelho dos Princípios".

 

Antes mesmo das 06h, levei a filha mais velha para a escola. Na volta, passei na padaria e segui para o segundo treino: musculação. Força!

 

Café da manhã com a esposa e a filha caçula, ida ao barbeiro, passada no açougue para solicitar os cortes da semana. Eis que recebo uma notícia, via WhatsApp, sobre um descuido no trabalho.

 

Uma questão a menos. Assumi. O erro foi meu. Eu estava no final do processo e deveria ter conferido o arquivo da prova com mais atenção, mas, infelizmente, falhei e... paciência.

 

Sim, é chato. Acontece — mas não deveria. Só não vou deixar que esse descuido estrague meu dia.

Eis um pouco da minha segunda-feira. Vida real, sem filtros, nada "instagramável", apenas o registro no branco da página.

 

E... vamos que vamos.

 

Farelo na Pista.

                                     

Domingo, 12 de abril de 2026

Um cabeçalho típico como este te lembra algum gênero textual? Uma carta pessoal, a página de um diário, a abertura de um relatório, um memorando, talvez?

 

Nesta nossa conversa, o texto será um pouco sobre tudo isso. É que estou experimentando uma série de emoções que ultrapassa as fronteiras de quaisquer gêneros textuais.

 

Que experiência é essa que estou vivendo? O ciclo da primeira maratona. Nesta data, estou a 77 dias da maior prova de corrida da minha vida.


1) Começo essa série de registros, primeiramente, na incerteza de que terei algum leitor; assim, poderá ser um conjunto de cartas pessoais para o "eu" do futuro;


2) Por mais ultrapassadas que possam parecer, as páginas de um diário são a forma mais adequada para o registro dos desafios, descobertas, surpresas e foco na preparação para uma maratona;


3) Por enquanto, nada de vídeos longos ou "textões" nas redes sociais; por meio desses escritos aqui na minha página, vou compondo uma espécie de relatório da jornada;


4) Todas as formas, vistas de longe, lá na frente, talvez rumo a outros desafios, funcionarão bem como um memorando.


Mas, como escreveu Paulo Leminski: “não discuto com o destino/o que pintar eu assino”. O futuro a Deus pertence. E que Ele me abençoe nesta jornada que está começando.


Farelo na Pista 

+