Noite de domingo,
Sancho amigo, tive um dia de pernas para o ar.
Consegui ficar um tempo até longe do celular, ali antes de encomendar o frango
assado para o almoço.
Neste dia de descanso, não há treino. Só
começo a trabalhar no final da tarde, início da noite. Importante deixar
registrado que, nesta data, o mundo da corrida assistiu a um fato absurdo.
Fantástico!
O queniano Sebastian Sawe estabeleceu um novo
recorde mundial na maratona, tornando-se o primeiro homem a correr abaixo de 2
horas em uma prova oficial. O guerreiro venceu a Maratona de Londres, em 26 de
abril de 2026, com o tempo histórico de 1h59min30s. Consegue imaginar
esse tempo, Sancho?
Por aqui, em nossas palhoças de seres reais,
tomei um susto daqueles com a planilha de treino que acabou de chegar. Que Deus
nos abençoe, meu amigo! O chicote vai cantar.
Faltam 63 dias para o dia da prova. A cada
semana, uma série de descobertas. Uma delas, que tem mexido bastante comigo,
diz respeito à vontade de aprender, experimentar e desengavetar projetos
antigos. Quer saber a real? Estou apreciando bastante este ciclo de
treinamento. Pronto, confessei! O que vem por aí? Deixo nas mãos de Deus, meu
irmão.
Agora, preciso cuidar de outras coisas. Vou
escrever uma carta para uma pessoa muito importante com quem a vida nos
presenteou ao longo da jornada do empreendedorismo cultural.
Abraço,
...
Tarde de sábado, seu safado!
Sancho, Sancho, meu amigo, quase apanhei em
casa no início da tarde. Eu ia contar para a dona esposa que lá no Bar do
Coquinho eu conheci a tal da Germana.
Nos seus tempos de boteco, você chegou a
experimentar uma dose da Germana? Por falar em aguardente, Sancho, seus amigos
todos lá querem notícias suas. Cadê o Pança? Ele está bem? Continua fofo? Você
é muito popular, meu amigo. Será que, quando ela descobrir, a patroa vai me
xingar?
Estou te contando essas coisas porque eu
precisava comemorar o LONGÃO de hoje. E, claro, já mando um salve para
quem lá da BH Run estiver lendo este texto. Graças à assessoria deles,
seguimos firmes aí no ciclo de treinamento.
Sancho, hoje estava tudo certo para dar
errado. Não é trocadilho barato não, moço. Começou zebrando ontem à
tarde/noite. Hidratação capenga por conta das atividades do instituto, fiquei
muito tempo sem comer, o jantar lá pelas tantas, umas 23h. Exausto, dormi tarde
para madrugar. Comecei o dia indo três vezes ao banheiro antes de descer para a
pista. Barriga pesada, a falta de vitamina S; mas fui assim mesmo: disciplina.
Escolhi o lado da Pampulha que ainda tem
matinho, caso batesse algum desconforto... se é que você me entende. O treino
não encaixava de jeito maneira: ora rápido demais, às vezes abaixo do proposto;
mas me mantive firme. Não parei. E água gelada na cara, na garganta, na cabeça,
porque o sol já castigava. Pela graça de Deus e pela constância que venho
buscando manter — com todo o apoio da assessoria —, conseguimos, Sancho.
Em comemoração, a Germana me fez companhia
enquanto era preparada a porção de tropeiro e torresmo para a família. Eita
nós!
Aqui, sobre essas atividades do instituto, a
gente conversa depois, demorou? Agora tenho um compromisso: uma batalha de hip
hop para prestigiar.
Fui.
...
Querido Sancho,
Que semana incrível estamos vivendo, hein?!
Foram tantas mancadas, vacilos tão grandes que nem consigo listá-los todos
aqui.
Ah, mas como sei que você vai ficar curioso,
aí vão alguns: passei um tempão preparando a aula especial sobre o Naturalismo,
mas confundi a data. Na minha cabeça, seria no dia 22, só que rolou ontem. Pelo
menos valeu cada segundo com os nossos viajantes... uma aventura pelo final
do século XIX.
Há três semanas, pensei que tivesse enviado
um documento importante para um dos setores de apoio da escola. Só ficou no
pensamento. Quase morri de vergonha quando fui cobrado e assumi o descuido.
O dia de ontem foi tão tranquilo, mas tão
"de boa", que não tive tempo nem para tomar café da manhã, acredita?
Só que, no meio desse caos todo, tive mais uma ideia estranha: antecipar o
final de semana com as atividades culturais, marcando a estreia com um
"filtro de horário" nos stories do Instagram — @farelodequiat — vai
que alguém queira nos seguir por lá?
22:04 — No porão de casa,
selecionando obras literárias para um evento do “Instituto Livros em Todo
Lugar”.
22:41 — Curadoria
concluída, hora de se preparar para dormir um pouco.
04:50 — Já de pé, preparado para o treino leve de corrida.
05:53 — Treino concluído,
dentro do carro para levar a filha mais velha para a escola.
08:07 — Na Escola Estadual Boa
Vista, em Contagem, preparando a biblioteca para a roda de conversa sobre a
importância da leitura literária.
10:24 — Ação concluída com
sucesso. Um salve para o nosso mediador Paulo Fernandes, que conduziu a
atividade com grande maestria. Hora de voltar para casa.
11:27 — A segunda
curadoria, em menos de 24h, para o evento que vai rolar em outra escola, dessa
vez na cidade de Belo Horizonte.
Bem, a ideia é continuar registrando até a
tarde de sábado. Que Deus nos abençoe até lá. Agora tenho que ir me preparar
para as próximas ações.
Até breve, Sancho amigo.
Meu caro Sancho,
Hoje, o silêncio da casa antes do sol nascer
foi meu único companheiro. Sabe, há dias em que o corpo e o relógio travam um
duelo, e hoje o despertador sequer precisou tocar. Eu já estava lá, de olhos
abertos, encarando o teto e calculando as passadas.
A meta eram 10 km, Sancho. E não era qualquer
leveza; era ritmo puxado, daqueles que exigem cada gota de concentração e não
admitem interrupções. Era para "sentar a botina". Era.
Se eu saísse para buscar esse tempo, não
estaria aqui para acordar a filha mais velha, preparar o banho e organizar a
ida para a escola. Em dias de trote leve, a gente até troca ideias com o
asfalto, vai e volta, dá um jeito. Mas hoje? Hoje a pista exigia exclusividade.
A verdade, meu fiel escudeiro, é que a noite
passada foi longa. Entre o lançamento de notas do colégio e os pequenos reparos
que uma casa sempre pede, o sono chegou tarde.
Aqui, não são desculpas esfarrapadas, você me
conhece — é apenas a vida real se impondo sobre os moinhos de vento da minha
rotina rumo à maratona. O resultado? Não deu. O treino ficou no
"quase".
Mas não desanimo, pois o cavaleiro aqui não
entrega a armadura. Amanhã a agenda estará apertada, cheia de tarefas que me
dão vida, e é nesse tom que vou encontrar uma janela para correr.
O sábado nos reserva o treino longo, o
verdadeiro teste de resistência, para que no domingo eu possa, enfim, dar o
descanso merecido aos pés e à mente.
Seguimos, Sancho. Se não foi na velocidade de
hoje, será na toada de amanhã.
...
Querido Sancho,
Nesses últimos dias, ingeri algumas cápsulas
de Vitamina S. E essa última noite... bom, sem comentários. Eu me senti tão
bem.
Sono. Consegui dormir bastante, descansar o
corpo, a mente e dormir até estranhar a cama. O trote de hoje foi incrível;
parecia até que eu estava de férias. Fluiu, rendeu. Pena que foram apenas 40
minutos, mas tudo bem, porque amanhã é dia de "sentar a botina". Não
quero nem pensar nisso agora, amigo.
Sancho, na escola, peguei um estudante
co-lan-do. Na hora de depositar o celular no armário, ele jurou: “não trouxe”.
Estava lá, registrado na lista de presença. Passados alguns minutos, eis que
surge um aparelho com a tela quebrada, escondido na cadeira, entre a parede e a
perna do menino. E o pior: pedindo socorro para o GPT? Graxa.
Depois da aplicação de provas, seguiu-se o
roteiro: reflexões sobre os “olhos de ressaca” da Capitu, lançamento de notas,
preparação de aulas e aquele povo que adora conversar pelos cotovelos. Tive até
que esclarecer:
— Comigo está tudo bem. Não estou doente,
muito menos tomando Mounjaro, certo?
Agora, vou saindo de fininho, Sancho, porque
ministrarei uma aula especial sobre um estilo literário lá do Século XIX.
Abraço,
...
Sancho querido,
Por ir para a cama mais cedo, rolaram alguns pesadelos.
Ao despertar, que dia é hoje? Nossa! É dia de coleta. Separa daqui, corre para
lá... será que vai dar tempo de o caminhão recolher? Cachorras latem, querem a
liberdade da rua. Cadê a chave? Caminhão buzinando, os atletas da limpeza
gritando. Não, não deu tempo.
A tarefa não foi concluída. A casa da sogra? Lá eles
passam um pouco mais tarde, vai dar tempo! Tiro o carro da garagem, saco no
porta-malas e lá vamos nós; do contrário, só na quinta para o acumulado desses
dias. Até lá, seriam três sacos de lixo. Meu Deus!
Ufa! Deu tempo. Deixei o saco no passeio da minha querida
sogra. Tomara que ela não descubra essa minha "arte". E teve padaria,
comida, água para as cadelas, o café preparado para a esposa... Sem pensar
muito, hora do treino mais temido da semana: CANEQUINHA! Aquele em que
contamos devagar para não perder a linha.
Já conversamos a respeito desse abençoado. O Marcelo
Camargo o chama de “TIROTEIO”; no mundo da corrida, INTERVALADO. O abençoado
consegue separar o corpo da alma com uma habilidade incrível. Parece que o
ponteiro do relógio congela nosso esforço.
Assim que comecei a fazer esse tipo de treino, levava uma
canequinha azul com milho ou feijão e ia contando os tiros. Cada grão, um tiro
concluído. Divertir-se com a própria dor. Agora, coloco em um bloco de notas e,
enquanto caminho, dou um “check”!
Sobrevivi! Agora, vou me desdobrar nas tarefas do
instituto “Livros em Todo Lugar” e da escola. Como sabe, Sancho, minha
vida não se restringe à corrida; há outras lutas, não é mesmo?
...
Sancho querido,
E não é que tivemos uma segunda-feira diferentona? Não se
assuste com o adjetivo, amigo. Vou te contar como foi.
Primeiro, que amanhã é feriado nacional – Dia de
Tiradentes, um cavaleiro lá do século XVIII. Hoje foi recesso na escola e a
consequência disso? Família toda em casa. Ao menos por um tempo.
Comecei o dia com aquele treino que nomeei “Espelho dos
Princípios”, está lembrado? Um trote, Sancho. O tipo mais leve de corrida; é
possível executá-lo conversando, trocando ideias, entende?
Assim que voltei, a família já se preparava para o tão
aguardado rolê do feriadão: passar o dia em um hotel-fazenda, a uns 60 km de
casa! Partimos para lá sem café da manhã. Acredita?
Ah, Sancho, só faltou você à mesa. Quantas iguarias!
Bolos, biscoitos, roscas, pães deliciosos. Até matei a saudade do leite
queimadinho. Memória dos tempos de menino.
A filha caçula foi logo se trocando; a outra caçou uma
rede entre as árvores para recuperar o sono, já que dormiu tarde.
Nem sei como, enquanto eu lia a obra Toada da terra de lá, de Gisele Garcia, apareceu uma gata de três cores
esbanjando charme, mas que também implorava por carinho. Resultado: só fui
terminar a leitura às vésperas do almoço, após ter apagado em uma das redes
debaixo das árvores.
Não foi só leitura e soneca, não. Rolou piscina, muita
música boa e o almoço em si... bem, esse nem tanto (faltou um pouco de sal).
Mas estar assim com a família está acima de qualquer tempero, Sancho. Todos nós
precisávamos muito deste dia, um momento de descanso. Como foi bom!
Pretendo até dormir mais cedo. Estou pregado!
Boa noite!
...







