Sancho, meu amigo,

 

Na parte da manhã, contei das nossas conversas para umas três turmas da 1ª série do Ensino Médio. E não é que os estudantes nos acharam uns "pancados das ideias"?

 

Agora, mudando de assunto: ontem eu fracassei bonito no plano, viu? Rapaz, o CANEQUINHA me derrubou faltando uns 30 minutos para o fim. Falhei miseravelmente.

 

Cabeça pesada, psicológico frágil e os excessos do final de semana prolongado... não deu outra: quebrei. Essa foi uma das poucas vezes em que tive que abandonar um treino intervalado.

 

Mas não posso desistir. Lavei o suor e dormi um pouco mais na última noite. Como vou com as filhas comprar presentes para minha senhora — o Dia das Mães está chegando —, provavelmente não conseguirei treinar hoje. Já amanhã... que Deus nos abençoe.

 

Estou com umas ideias para tratar contigo depois. O que você acha?

 

Até!

...

 

Sancho,

 

Este ciclo de preparação para a maratona está me deixando em cada situação inusitada que, vou te contar, viu?

 

Há dias em que, se pudesse, eu passaria horas falando do quão prazeroso é calçar o tênis, tomar uma xícara de café e se jogar num desses treinos longos... Ali, depois que o ritmo encaixa, a noite se despede das horas e o céu laranja do outono se engraça com o inverno, numa temperatura que acolhe até nossos pensamentos.

 

Há dias também em que a gente amanhece com todas as adversidades em ebulição. Na última manhã, por exemplo, um "cavaleiro" veio descontar todos os seus problemas em mim. Fui insultado, cobrado... Eu não ia perder a paciência logo antes de pegar no batente, só que...

 

... a situação me desequilibrou um pouco. Mantive a calma, na medida do possível, e não vou mais me meter nesses escândalos gratuitos. De difíceis, já bastam as contas para pagar, as planilhas para preencher, o treino por fazer e a vida para sorrir.

Sancho, eis a saída: surfar no caos e encontrar a leveza nos embalos do tumulto de cada dia.

 

Já estou indo, viu?

 

...

 

Segundou, Sancho!


Acordei antes do despertador, meu chapa. Corpo descansado, pronto pra luta. Claro que nem tanto assim... Você me conhece.


Evitando deixar para depois, já fui logo entregando o treino do dia. Como diz o cavaleiro Adriano Britto, hoje foi dia do famoso “pace preguiça”. Leve, bem leve. Um trote.


Depois de deixar a mais velha na escola, passar na padaria e encerrar o desjejum, hora de marcar presença na academia. Dia de dedicar atenção às pernas. O treino foi bruto lá, campeão.


E num é que hoje eu preparei o almoço, os lanches da semana e, ainda por cima, levei a outra filha para a escola antes do trabalho?


Sancho, Sancho... vida de atleta amador, professor e pai é uma aventura sem tamanho. Não sei, não faço a menor ideia de como a gente dá conta. Deus e minha esposa sabem. Como sabem!


Até o próximo registro, hein?!

 


Caraca, Sancho!

 

Dois dias sem tocar em um teclado. Na última sexta-feira, lutei contra as teclas minúsculas do celular para registrar nossa conversa; um exercício de paciência que quase rivalizou com os quilômetros finais de um treino longo.

 

Nesse intervalo, rendi-me ao ócio absoluto: uma série ordinária, dessas que servem de anestesia para o intelecto, permitindo-me não pensar em absolutamente nada. Às vezes, a diversão barata é o luxo de que o espírito precisa.

 

Mas o asfalto deu lugar ao barro. Corri em estrada de terra, sob o céu da Serra do Cipó, entre cachoeiras e o ar rarefeito da liberdade. Foi magnífico, meu caro. Contudo, saí da trilha da disciplina: a hidratação ficou escassa, a salada foi ignorada e as proteínas — e os horários — tornaram-se anárquicos. Até nos deslizes, a gente ri.

 

Agora, o retorno à linha é imperativo. No dia 11, a nutricionista me espera para aquela conversa que, confesso, já me causa arrepios. O tribunal da balança não costuma aceitar metáforas como desculpa.


Enquanto isso, os comentários ao redor florescem como ervas daninhas. Eu apenas rio. Dizem que o "marido está se achando", ou que "o humor se foi junto com o peso" — a clássica comparação com o Leandro Hassum. Há quem sugira, entre o sarcasmo e o desconhecimento, que eu corra até Lagoa Santa ou que vire um David Goggins das ultramaratonas.

 

Pois eu lhe digo, Sancho: se a nossa movimentação gera ruído, é sinal de que estamos avançando. O incômodo alheio costuma ser o rastro da nossa evolução e eu me divertindo com tudo isso.

 

Faltam 56 dias. A direção está traçada e o comando é superior. Vamos em frente!

 

...

   


Sancho,

 

Que conversa na lata foi aquela de ontem? Fui sincero demais, amigo. Por conta disso, muito provavelmente só você leu a página inteira.



Paciência, mas não retiro uma vírgula sequer do que conversamos. Entre Clarice e Rosa, vale lembrar: "Viver dói. A vida é um soco no estômago. Viver é perigoso".



Virando a página, Sancho:



 1. Às 03h12, eu já estava na pista para os 28km. Sim, em plena sexta-feira, o longão de uma semana de treinos antecipados.



 2. Nem bem corri os primeiros 2km e surgiu sangue — muito sangue — do talho que levei na mão esquerda antes de sair de casa.



 3. Com a toalha, fui "secando", passando água gelada e, com o tempo, estancou. Mas os pensamentos foram longe...



Gratidão a Deus, aos anjos protetores e aos profissionais da BH Run! Ali, entre um quilômetro e outro, vieram imagens da superação contínua, da força da disciplina, dos benefícios do foco, da realização de cada entrega e a felicidade de se divertir e amadurecer no processo.



Pensa que foi só o treino e "bora" voltar para casa? Que nada! Minha família já me aguardava na rua para uma pequena viagem para um distrito perto da Serra do Cipó. Banho tomado e pé na estrada.



Até mais, Sancho.

PS: Hoje eu estou que é só gratidão e alegria


 


Sancho,

 

Espero que esteja bem. Foram tantas pauladas hoje que nem tive vontade de conversar antes. Tô que sou puro desabafo, amigo.

 

Desde a pandemia, a vida do professor só veio se complicando: carga e sobrecarga de trabalho. Isso em todas as escolas, com os colegas das mais diversas instituições. Cada final de trimestre parece um dezembro de tumultos. Uma "outubrite" em pleno maio, Sancho?

 

Os professores estão adoecendo. A gente está como se tivesse passado um trator por cima. Treinei não. Quase que não consegui ir para o trabalho. Cansaço físico que nada; é mental, exaustão.

 

Vou ficando por aqui. Estou muito amargo, verdade... um tempero com pitadas de acidez. Porque aqui é papo reto, relato sem firula, longe dos filtros.

 

Tchau.


 


 

Sancho,

 

É noite já, meu amigo, e a sensação que os professores vivem ao final de cada etapa letiva se parece muito com as várias batalhas em que lutamos juntos.

 

A exatos 60 dias da maratona, após a correção de todas as provas, somos uma sucessão de cacos, só o bagaço. O pó.

 

Reclamação? Claro que não! Tenho motivos de sobra para expressar minha eterna gratidão. Venha conferir como foi um pouco do meu dia:

 

Às 04h01 eu já estava na principal rua da nossa quebrada, aquecendo para o segundo teste de 5 km que mencionei ontem. Assim que o terminei, passei em casa para acordar a Cecília, minha filha mais velha. Depois, retornei e corri mais 8 km. Um feito digno de nota, Sancho. Ainda não sei o resultado oficial, mas o fato é que consegui sobreviver.

 

Mesmo sem gás de cozinha em casa e com pouca Vitamina S, no trabalho houve tempo para a devolutiva das provas, finalização de conteúdo e alguns lançamentos de notas.

 

À tarde, vivi um momento inesquecível, daqueles em que a gente diz: “Muito obrigado, Deus! Eu vivi para assistir a um espetáculo dessa natureza!”

 

Trilha sonora impecável, sincronicidade mil, o clássico e o contemporâneo entrecruzados no palco da pluralidade e da nossa diversidade... do Brasil para o mundo: “PIRACEMA”, do Grupo Corpo.

 

Ah, Sancho, simplesmente inenarrável. Terminar um dia de trabalho com arte foi um suspiro de alento. Que este registro chegue a você como um sinal de renovação e esperança. Agora, preciso ir: é hora de buscar minhas filhas.

 

Até breve.

 

...

 


Sancho, a gente nem se viu ontem. Hora de me desculpar também com quem veio acompanhar nossas conversas e não encontrou nada por aqui.

 

Como teremos um feriado na próxima sexta, alterei os dias de treino. Isso mudou muita coisa, meu amigo. Comecei a semana com 15 tiros de 400 metros na esteira. E não é que gostei? Hoje foram apenas 45 minutos, bem leves.

 

Agora, só de pensar na programação de amanhã, dá um frio daqueles na espinha. Será um teste de 5 km, o segundo do ciclo. Meu Deus!

 

Alimentação regada a carboidrato (na medida), roupa separada, esparadrapos nas unhas que ainda restam e dormir cedo. Vou precisar de Vitamina S.

 

Até lá, Sancho, vamos rir um pouco? Coisas da vida de professor:


Justamente na hora da prova de matemática, passa o carro da pamonha quentinha, do bolo, do suco de milho verde... "Tá gostoso! Tá uma delícia!"


Eu nunca tinha visto uma turma tão religiosa, mas, na primeira oportunidade, fecham com o diabo e colam... Como gostam de cometer esse pecado, Sancho!

 

Era isso por hoje. Reze por mim, meu amigo.


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