Sancho, meu caro enfermeiro e fiel escudeiro,

 

Enviei uma mensagem ao treinador João Eustáquio com a notícia de que estou melhor do que ontem. Alternei compressas de gelo com massagens de diclofenaco dietilamônio, tudo devidamente escoltado por cápsulas de cetoprofeno de oito em oito horas.

 

Asfalto e caminhadas ainda são horizontes distantes, confesso. Mas a verdade, Sancho, é que depois de escrever aquela Carta para Deus, o sono finalmente encontrou pouso. Ontem o treino foi outro, na pista da vida miúda: fiz a feira, comprei carne e curvei-me ao banquete da primeira pizza preparada pela nossa Cecília — temperada com todo o afeto que cabe na nossa cozinha. Ali mesmo, entre um aroma e outro, devorei alguns versos de Ryane Leão em “Tudo nela brilha e queima”. De fato, Sancho, há fogueiras que a gente acende longe do asfalto.

 

Depois, enquanto lavava a louça, deixei os olhos colados na tela com os episódios leves de O Mentalista. Deu certo. Foi o analgésico que faltava para espantar os pensamentos intrusos e aquela insegurança que insiste em morder o calcanhar do corredor parado. Olhando o sabão descer pelo ralo, entendi o tamanho da gratidão que devemos ter pela saúde de cada dia.

 

O domingo já começou no ritmo da minha outra maratona. Corrigi uma Atividade Diversificada e garanti o sustento de Laika e Magali com um novo saco de ração. Agora, à tarde e à noite, o "modo professor" assume o comando da pista: é hora de elaborar provas, planejar aulas e mergulhar nas leituras.

 

Aos poucos o corpo se apruma. Sancho, continue rezando por mim.

 

Um abraço fraterno,

D. Farelo

 


Sancho, escudeiro fiel,

 

Poucas horas após nossa última conversa, vesti a bermuda azul, a camisa cinza e fui em busca daqueles 16 km lá na Lagoa da Pampulha.

 

A arrancada foi interessante: 5:08 no primeiro milhar; na leve descida, um 4:54; subiu um pouquinho, 5:05, ritmo que consegui sustentar por um tempo. Estava fluindo bem, meu amigo, até o quilômetro 7. E só até aí. Parei para o doce de leite, um gole de água. Antes mesmo de concluir a hidratação, precisei retirar o tênis, a meia. Parecia um pouco inchado, Sancho.

 

“Deve ser nada, vou completar os 8 km da ida e depois retorno leve. Daqui a pouco passa. Já passamos por tantas dessas.” Mas, faltando uns 100 metros para a metade exata do treino, a realidade cobrou o preço: parecia que tinha caído uma bola de fogo em cima do meu pé esquerdo. Cruz credo! Encostei na lixeira. E agora?

 

A outros 8 km do ponto de partida, onde estava o carro, sem aparelho celular para chamar um Uber, incomunicável, inquieto, inconformado. E machucado. A solução? A única saída, Sancho: voltar caminhando, sob a proteção divina, sentindo a irradiação da dor por entre os dedos e a marcha lenta dos pensamentos aflitos.

 

As compressas de gelo podem curar? não pode ser tão simples, como assim, sair para entregar uma distância dessa sem telefone? parece que estou sozinho no mundo? e se acontece algo pior? de mãos para trás, andando entre as mansões da Pampulha, os seguranças de olho neste moço, um ladrão à paisana? e, pela primeira vez no ciclo, sem conseguir entregar o longão da semana, será que vou ter que ir para o médico? o carro, minha casa, a compressa, a pressa pro pouso, nem ouso mais pensar no que está por vir?

 

Nem nos treinos canequinhas, nem nas subidas sob calor intenso, eu senti tanto, Sancho. A exatamente 29 dias da prova, a gente troca essa ideia aqui. Sim, já conversei com o treinador João Eustáquio também. “Se for o caso, vou lhe recomendar um médico que cuida dos atletas da assessoria”, ele me disse. E completou que, se a dor persistisse, era para suspender o treino imediatamente. Às 07h20 de um sábado, a gente conversando por mensagens... nem precisa pensar muito para entender o tamanho do balde de água fria, não é mesmo?

 

Meu amigo, andando com dificuldade, o jeito agora é cuidar do pé esquerdo e dos pensamentos. Desta vez, não foi somente um pequeno gigante cotidiano. Acredito que, antes da nossa próxima conversa, vou precisar escrever outra Carta para Deus. Onde quer que você esteja, reze por mim também.

 

Abraços,

D. Farelo


 


Sancho, meu fiel escudeiro,

 

Há quanto tempo a gente não se fala? Pois saiba que estes últimos dois dias foram de uma intensidade preciosa, meu amigo.

 

Você está ligado que nunca fui de romantizar o ciclo preparatório para a maratona. Mas parece que, com o tempo, a mente e o corpo — como um todo integrado — vão se adaptando ao processo. Já que o sofrimento faz parte da jornada, por que não se divertir um pouco e transformar esse asfalto em moinhos de aventura?

 

Ontem, a rotina girou em alta rotação. Depois de passar a manhã na sala de aula e dedicar a tarde à elaboração e revisão de provas, busquei as crianças na escola. A noite caiu trazendo uma provocação: quem topava acompanhar o papai no Treino Canequinha, lá na Lagoa da Pampulha?

 

Para minha surpresa, as três aceitaram o desafio. Minha esposa e as meninas alugaram as bicicletas e, a cada tiro de velocidade que eu dava, lá estavam elas, pedalando e dando o maior apoio para o papaizão aqui. Ver a família ali, na beira da pista, transformou o treino em uma experiência e tanto.

 

Mas o descanso é breve na vida de um cavaleiro andante. Dia 28 de maio. O corpo nem bem havia esfriado e o "Treino Espelho dos Princípios" já batia à minha porta com um aviso: “Vamos, que mais tarde você tem uma atividade de campo com os estudantes no Instituto Inhotim”. Sem vacilar, às 04h04 eu já estava na pista, correndo para acolher o dia que nascia.

 

E que dia, Sancho! Ver os estudantes perdidos entre as galerias Cosmococa e Adriana Varejão, perplexos com tanta beleza, foi um espetáculo. A arte dialogando com os diversos tons da natureza... e aquela exposição, “Esconjuro”, do grande artista Paulo Nazareth? Que força! Sem explicação. Fiquei um tempão estático, só pensando, processando e agradecendo a Deus por poder viver tudo isso.

 

Porém, a conta da jornada chega. Os treinos seguidos, as longas andanças pelo museu, as filas e o trânsito dantesco na volta para casa pesaram. Foi tomar um banho de "apague a luz" e eis que conquistei o sono profundo — a cabeça virou uma pedra no travesseiro. Quando os olhos abriram, já eram 04h20. Putz! O relógio correu mais rápido. Não dava mais tempo para cumprir a distância do dia.

 

Em outros tempos, Sancho, eu ficaria chateado, me cobrando por não conseguir realizar a planilha. Hoje, a maturidade me estende a mão. Reconheço que meu corpo tem limites, recordo-me de que não sou um atleta profissional e aceito que o descanso também ajuda a polir o brilho da disciplina.


 

Sancho querido,

 

Lá vem a pequena Clarice. Carrega uma mochila quase do seu tamanho, a lancheira atravessada a tiracolo, após descer três andares de escadas. Mal cumprimenta o pai e já sai em disparada para o banheiro. Quer saber se comprei seu lanche, volta correndo, e eu coloco em seu pescoço o crachá da turminha — faltam menos de cinco minutos para a saída. Ajeito o estojo dentro da pasta de inglês e assumo o peso da mochila. Enquanto os colegas vão chegando, ela se delicia com algumas colheradas de salada de frutas, já de olho na Paçoquita que vai devorar no caminho. De repente, o apito: hora de partir para a próxima aula do dia. O pai precisa ficar ali, firme no posto, até vê-la descer para o andar de baixo e ganhar a rua. Ela não vai embora sem o meu tchauzinho.

 

Sabe, Sancho, há tempos eu queria te contar como têm sido as terças e quintas, mas com ênfase na vida da minha pequena, entende? Uma rotina para guardar na memória. O milagre simples do crescimento. Que Deus abençoe nossos filhos, meu amigo! Eu ouvi um amém?

 

Agora, com a mochila dela nas costas, viro um autêntico assaltante de merendeiras: resgato um resto de suco de maracujá e um pedaço caprichado de sanduíche natural. Jogar fora? Que nada, Sancho. Daqui a pouco tem trote na pista, treino leve, aquele clássico no pace fofoca, e eu não posso chegar lá de estômago vazio, né?

 

E vamos que vamos, meu caro escudeiro, colecionando as lembranças dessa nossa abençoada correria em família.


 

 

Sancho,

 

eis uma conversa na ponta da caneta — primeiro, no azul tímido das linhas do caderno.

 

A semana começou com tudo para não ser. Veio a inversão dos dias de treino, logo após a virose. Dois dias inteiros para me recuperar. Então, veio o Treino Canequinha, quarta-feira à noite, lá na Lagoa da Pampulha. E lá se foi a 11ª semana.

 

A 35 dias da maratona, meu amigo, é hora de certificar o índice de água, os suplementos e as vitaminas especiais (S e N). Desde nossas primeiras conversas, lembre-se, eu prometi te contar a verdade. Está lembrado?

 

Quando sai tudo errado, nos dias em que não consigo sequer calçar o tênis e sair para correr, eu compartilho. Por outro lado, quando pinta uma conquista (por menor que seja ao longo do caminho), eu também divido com você.

 

E hoje, Sancho, hoje foi um desses dias.

 

Vitamina S, ok! Fui dormir antes das 21h. Carga de carboidrato, antecedida por eletrólitos, ok! E para fechar a conta: agora tenho um novo suplemento durante a corrida. Doce de leite em sachê!

 

Muito obrigado, Deus! Muito obrigado, BH Run! Na manhã deste penúltimo domingo de maio, realizei o melhor treino de 32 km do Ciclo.

 

Agora, preciso descansar. Preciso descansar.

 

Sancho, dê comida e água para o Rocinante, por favor.

...


 



Sancho,

 

Hoje o papo será diferente. O povo tem me feito algumas perguntas nos bastidores desse Desafio e decidi responder a algumas delas. Segure o passo e acompanhe o relatório do seu Cavaleiro.

 

Primeiro, perguntam muito sobre as horas. Sabe bem que treino quando o dever permite. Quase sempre a madrugada é testemunha, mas, às vezes, o asfalto me acolhe sob o sol da manhã, no cair da tarde ou no ritmo da noite. Onde houver chão, haverá passada. E na rua, Sancho! Mais de 90% do caminho é feito no mundo real; a esteira é o castigo para dias sem remédio. Inclusive, você melhor do que ninguém sabe da minha preferência pelas manhãs frias e pelos dias chuvosos, quando a água lava o suor e a alma. É ou não é?

 

Olhando para trás, quem diria? Comecei a maluquice de correr calçando um sapatênis. De 2018 para cá, gastei mais de dez companheiros de sola. O mais caro deles? O Corre 4, da Olympikus. Se me perguntam sobre os badalados tênis de placa de carbono, respondo com a velha prudência: ainda não estou preparado para tamanha tecnologia. Os pés e a técnica marcham em ritmo lento, em pleno processo de crescimento. Quem sabe um dia, em outras estradas?

 

A armadura também precisa de reparos, então bato cartão na academia duas vezes por semana, além dos outros treinos de força. E na alimentação, a ciência é foda. Cansei dos géis de carboidrato que andavam me revirando o estômago e causavam enjoos; agora, testo novas fontes de energia para o dia da nossa maratona. Depois te conto, ainda está em análise.

 

Aliás, por falar em comida, por volta da quarta semana do ciclo, a engrenagem quase travou. Tive que mudar drasticamente o cardápio e injetar mais carboidratos nas veias. Do contrário, Sancho, eu teria surtado e abandonado a missão. A queda de energia estava detonando o espírito, meu amigo. Esposa e filhas foram implacáveis: “Que homem amargo, insuportável! Tá ficando um autêntico cavaleiro da triste figura.” Abençoado o carbo que salvou a paz do lar.

 

Ah, só para constar e deixar registrado aos navegantes: continuo firme, sem o auxílio de Mounjaro ou de qualquer outra caneta emagrecedora. Aqui a gordura se queima no fogo do próprio esforço. Gostou? Tô me achando o tal (risos).

 

Um forte abraço,

Farelo de Cervantes


 

 

Sancho,

 

Não vá ficar chateado ou com ciúmes, mas ontem eu te troquei por uma releitura. Depois de passar horas diante do computador, engolindo uma manhã de pequenos desgastes (ruídos na comunicação, cansaço acumulado), dei o salto.

 

Isso mesmo que você leu. Chega! Levantei-me num salto da cadeira: “Quer saber? Vou-me embora para a Rússia, e é agora!”

 

O contexto não parecia muito convidativo, admito, mas viagem é viagem. Em poucos minutos, Sancho, desembarquei direto no velório de Ivan Ilitch.

 

O cheiro da cera, o incenso das relações de aparência, a viúva com suas conversas atravessadas... Tudo aquilo me desligou por completo do dia, do mundo.

 

Ah, Sancho, naquele templo que só a leitura nos oferta, encontrei a anestesia para a dor dos últimos treinos; surgiu dali um espanador capaz de tirar a poeira dos pensamentos. Não sei explicar direito, mas tente imaginar alguém desanuviando a sua mente e polindo as suas ideias com poucas linhas. Tolstói é desses sábios que não precisam de apetrechos, de grandes arranjos com a palavra para nos encantar. Gênio!

 

Sancho, perdoe-me! Mas este desabafo era preciso: um pedido de desculpas e, acima de tudo, um relato de gratidão.

 

Um abraço e até o próximo treino.


 


Sancho amigo,

 

Vá lá que só consegui conversar contigo ontem, meu amigo. Não tive espaço nem para fazer a meditação do dia, acredita?

 

E quer saber? Não sofri. Consegui realizar o treino de corrida que era para segunda-feira, ao lado da minha esposa, depois das 21h. Passada ritmada, o asfalto fresco da noite, os dois juntos.

 

E por que não antes? Antes busquei a Clarice na aula de inglês, tive a honra de apresentar o “Livros em Todo Lugar” para a deputada estadual Lohanna França, troquei uma ideia federal com o vereador Helton Júnior e lecionei manhã e tarde. Reclamar de quê, Sancho?

 

Cheguei a um ponto em que cada tarefa realizada representa uma alegria enorme. “Ah, não consegui entregar tal atividade dentro do prazo?” Paciência, gente. Eu não sou máquina. Viu só como estou mais atrevido hoje?

 

Por aqui, tudo correndo bem. Daqui a pouco faço o treino que era para ontem, parceiro. O de hoje, amanhã, e assim vou rodando até o próximo domingo. E vamos que VAMOS — aos poucos, lento, isento e sempre.

 ...


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