Sancho, escudeiro fiel,

 

Poucas horas após nossa última conversa, vesti a bermuda azul, a camisa cinza e fui em busca daqueles 16 km lá na Lagoa da Pampulha.

 

A arrancada foi interessante: 5:08 no primeiro milhar; na leve descida, um 4:54; subiu um pouquinho, 5:05, ritmo que consegui sustentar por um tempo. Estava fluindo bem, meu amigo, até o quilômetro 7. E só até aí. Parei para o doce de leite, um gole de água. Antes mesmo de concluir a hidratação, precisei retirar o tênis, a meia. Parecia um pouco inchado, Sancho.

 

“Deve ser nada, vou completar os 8 km da ida e depois retorno leve. Daqui a pouco passa. Já passamos por tantas dessas.” Mas, faltando uns 100 metros para a metade exata do treino, a realidade cobrou o preço: parecia que tinha caído uma bola de fogo em cima do meu pé esquerdo. Cruz credo! Encostei na lixeira. E agora?

 

A outros 8 km do ponto de partida, onde estava o carro, sem aparelho celular para chamar um Uber, incomunicável, inquieto, inconformado. E machucado. A solução? A única saída, Sancho: voltar caminhando, sob a proteção divina, sentindo a irradiação da dor por entre os dedos e a marcha lenta dos pensamentos aflitos.

 

As compressas de gelo podem curar? não pode ser tão simples, como assim, sair para entregar uma distância dessa sem telefone? parece que estou sozinho no mundo? e se acontece algo pior? de mãos para trás, andando entre as mansões da Pampulha, os seguranças de olho neste moço, um ladrão à paisana? e, pela primeira vez no ciclo, sem conseguir entregar o longão da semana, será que vou ter que ir para o médico? o carro, minha casa, a compressa, a pressa pro pouso, nem ouso mais pensar no que está por vir?

 

Nem nos treinos canequinhas, nem nas subidas sob calor intenso, eu senti tanto, Sancho. A exatamente 29 dias da prova, a gente troca essa ideia aqui. Sim, já conversei com o treinador João Eustáquio também. “Se for o caso, vou lhe recomendar um médico que cuida dos atletas da assessoria”, ele me disse. E completou que, se a dor persistisse, era para suspender o treino imediatamente. Às 07h20 de um sábado, a gente conversando por mensagens... nem precisa pensar muito para entender o tamanho do balde de água fria, não é mesmo?

 

Meu amigo, andando com dificuldade, o jeito agora é cuidar do pé esquerdo e dos pensamentos. Desta vez, não foi somente um pequeno gigante cotidiano. Acredito que, antes da nossa próxima conversa, vou precisar escrever outra Carta para Deus. Onde quer que você esteja, reze por mim também.

 

Abraços,

D. Farelo


 


Sancho, meu fiel escudeiro,

 

Há quanto tempo a gente não se fala? Pois saiba que estes últimos dois dias foram de uma intensidade preciosa, meu amigo.

 

Você está ligado que nunca fui de romantizar o ciclo preparatório para a maratona. Mas parece que, com o tempo, a mente e o corpo — como um todo integrado — vão se adaptando ao processo. Já que o sofrimento faz parte da jornada, por que não se divertir um pouco e transformar esse asfalto em moinhos de aventura?

 

Ontem, a rotina girou em alta rotação. Depois de passar a manhã na sala de aula e dedicar a tarde à elaboração e revisão de provas, busquei as crianças na escola. A noite caiu trazendo uma provocação: quem topava acompanhar o papai no Treino Canequinha, lá na Lagoa da Pampulha?

 

Para minha surpresa, as três aceitaram o desafio. Minha esposa e as meninas alugaram as bicicletas e, a cada tiro de velocidade que eu dava, lá estavam elas, pedalando e dando o maior apoio para o papaizão aqui. Ver a família ali, na beira da pista, transformou o treino em uma experiência e tanto.

 

Mas o descanso é breve na vida de um cavaleiro andante. Dia 28 de maio. O corpo nem bem havia esfriado e o "Treino Espelho dos Princípios" já batia à minha porta com um aviso: “Vamos, que mais tarde você tem uma atividade de campo com os estudantes no Instituto Inhotim”. Sem vacilar, às 04h04 eu já estava na pista, correndo para acolher o dia que nascia.

 

E que dia, Sancho! Ver os estudantes perdidos entre as galerias Cosmococa e Adriana Varejão, perplexos com tanta beleza, foi um espetáculo. A arte dialogando com os diversos tons da natureza... e aquela exposição, “Esconjuro”, do grande artista Paulo Nazareth? Que força! Sem explicação. Fiquei um tempão estático, só pensando, processando e agradecendo a Deus por poder viver tudo isso.

 

Porém, a conta da jornada chega. Os treinos seguidos, as longas andanças pelo museu, as filas e o trânsito dantesco na volta para casa pesaram. Foi tomar um banho de "apague a luz" e eis que conquistei o sono profundo — a cabeça virou uma pedra no travesseiro. Quando os olhos abriram, já eram 04h20. Putz! O relógio correu mais rápido. Não dava mais tempo para cumprir a distância do dia.

 

Em outros tempos, Sancho, eu ficaria chateado, me cobrando por não conseguir realizar a planilha. Hoje, a maturidade me estende a mão. Reconheço que meu corpo tem limites, recordo-me de que não sou um atleta profissional e aceito que o descanso também ajuda a polir o brilho da disciplina.


 

Sancho querido,

 

Lá vem a pequena Clarice. Carrega uma mochila quase do seu tamanho, a lancheira atravessada a tiracolo, após descer três andares de escadas. Mal cumprimenta o pai e já sai em disparada para o banheiro. Quer saber se comprei seu lanche, volta correndo, e eu coloco em seu pescoço o crachá da turminha — faltam menos de cinco minutos para a saída. Ajeito o estojo dentro da pasta de inglês e assumo o peso da mochila. Enquanto os colegas vão chegando, ela se delicia com algumas colheradas de salada de frutas, já de olho na Paçoquita que vai devorar no caminho. De repente, o apito: hora de partir para a próxima aula do dia. O pai precisa ficar ali, firme no posto, até vê-la descer para o andar de baixo e ganhar a rua. Ela não vai embora sem o meu tchauzinho.

 

Sabe, Sancho, há tempos eu queria te contar como têm sido as terças e quintas, mas com ênfase na vida da minha pequena, entende? Uma rotina para guardar na memória. O milagre simples do crescimento. Que Deus abençoe nossos filhos, meu amigo! Eu ouvi um amém?

 

Agora, com a mochila dela nas costas, viro um autêntico assaltante de merendeiras: resgato um resto de suco de maracujá e um pedaço caprichado de sanduíche natural. Jogar fora? Que nada, Sancho. Daqui a pouco tem trote na pista, treino leve, aquele clássico no pace fofoca, e eu não posso chegar lá de estômago vazio, né?

 

E vamos que vamos, meu caro escudeiro, colecionando as lembranças dessa nossa abençoada correria em família.


 

 

Sancho,

 

eis uma conversa na ponta da caneta — primeiro, no azul tímido das linhas do caderno.

 

A semana começou com tudo para não ser. Veio a inversão dos dias de treino, logo após a virose. Dois dias inteiros para me recuperar. Então, veio o Treino Canequinha, quarta-feira à noite, lá na Lagoa da Pampulha. E lá se foi a 11ª semana.

 

A 35 dias da maratona, meu amigo, é hora de certificar o índice de água, os suplementos e as vitaminas especiais (S e N). Desde nossas primeiras conversas, lembre-se, eu prometi te contar a verdade. Está lembrado?

 

Quando sai tudo errado, nos dias em que não consigo sequer calçar o tênis e sair para correr, eu compartilho. Por outro lado, quando pinta uma conquista (por menor que seja ao longo do caminho), eu também divido com você.

 

E hoje, Sancho, hoje foi um desses dias.

 

Vitamina S, ok! Fui dormir antes das 21h. Carga de carboidrato, antecedida por eletrólitos, ok! E para fechar a conta: agora tenho um novo suplemento durante a corrida. Doce de leite em sachê!

 

Muito obrigado, Deus! Muito obrigado, BH Run! Na manhã deste penúltimo domingo de maio, realizei o melhor treino de 32 km do Ciclo.

 

Agora, preciso descansar. Preciso descansar.

 

Sancho, dê comida e água para o Rocinante, por favor.

...


 



Sancho,

 

Hoje o papo será diferente. O povo tem me feito algumas perguntas nos bastidores desse Desafio e decidi responder a algumas delas. Segure o passo e acompanhe o relatório do seu Cavaleiro.

 

Primeiro, perguntam muito sobre as horas. Sabe bem que treino quando o dever permite. Quase sempre a madrugada é testemunha, mas, às vezes, o asfalto me acolhe sob o sol da manhã, no cair da tarde ou no ritmo da noite. Onde houver chão, haverá passada. E na rua, Sancho! Mais de 90% do caminho é feito no mundo real; a esteira é o castigo para dias sem remédio. Inclusive, você melhor do que ninguém sabe da minha preferência pelas manhãs frias e pelos dias chuvosos, quando a água lava o suor e a alma. É ou não é?

 

Olhando para trás, quem diria? Comecei a maluquice de correr calçando um sapatênis. De 2018 para cá, gastei mais de dez companheiros de sola. O mais caro deles? O Corre 4, da Olympikus. Se me perguntam sobre os badalados tênis de placa de carbono, respondo com a velha prudência: ainda não estou preparado para tamanha tecnologia. Os pés e a técnica marcham em ritmo lento, em pleno processo de crescimento. Quem sabe um dia, em outras estradas?

 

A armadura também precisa de reparos, então bato cartão na academia duas vezes por semana, além dos outros treinos de força. E na alimentação, a ciência é foda. Cansei dos géis de carboidrato que andavam me revirando o estômago e causavam enjoos; agora, testo novas fontes de energia para o dia da nossa maratona. Depois te conto, ainda está em análise.

 

Aliás, por falar em comida, por volta da quarta semana do ciclo, a engrenagem quase travou. Tive que mudar drasticamente o cardápio e injetar mais carboidratos nas veias. Do contrário, Sancho, eu teria surtado e abandonado a missão. A queda de energia estava detonando o espírito, meu amigo. Esposa e filhas foram implacáveis: “Que homem amargo, insuportável! Tá ficando um autêntico cavaleiro da triste figura.” Abençoado o carbo que salvou a paz do lar.

 

Ah, só para constar e deixar registrado aos navegantes: continuo firme, sem o auxílio de Mounjaro ou de qualquer outra caneta emagrecedora. Aqui a gordura se queima no fogo do próprio esforço. Gostou? Tô me achando o tal (risos).

 

Um forte abraço,

Farelo de Cervantes


 

 

Sancho,

 

Não vá ficar chateado ou com ciúmes, mas ontem eu te troquei por uma releitura. Depois de passar horas diante do computador, engolindo uma manhã de pequenos desgastes (ruídos na comunicação, cansaço acumulado), dei o salto.

 

Isso mesmo que você leu. Chega! Levantei-me num salto da cadeira: “Quer saber? Vou-me embora para a Rússia, e é agora!”

 

O contexto não parecia muito convidativo, admito, mas viagem é viagem. Em poucos minutos, Sancho, desembarquei direto no velório de Ivan Ilitch.

 

O cheiro da cera, o incenso das relações de aparência, a viúva com suas conversas atravessadas... Tudo aquilo me desligou por completo do dia, do mundo.

 

Ah, Sancho, naquele templo que só a leitura nos oferta, encontrei a anestesia para a dor dos últimos treinos; surgiu dali um espanador capaz de tirar a poeira dos pensamentos. Não sei explicar direito, mas tente imaginar alguém desanuviando a sua mente e polindo as suas ideias com poucas linhas. Tolstói é desses sábios que não precisam de apetrechos, de grandes arranjos com a palavra para nos encantar. Gênio!

 

Sancho, perdoe-me! Mas este desabafo era preciso: um pedido de desculpas e, acima de tudo, um relato de gratidão.

 

Um abraço e até o próximo treino.


 


Sancho amigo,

 

Vá lá que só consegui conversar contigo ontem, meu amigo. Não tive espaço nem para fazer a meditação do dia, acredita?

 

E quer saber? Não sofri. Consegui realizar o treino de corrida que era para segunda-feira, ao lado da minha esposa, depois das 21h. Passada ritmada, o asfalto fresco da noite, os dois juntos.

 

E por que não antes? Antes busquei a Clarice na aula de inglês, tive a honra de apresentar o “Livros em Todo Lugar” para a deputada estadual Lohanna França, troquei uma ideia federal com o vereador Helton Júnior e lecionei manhã e tarde. Reclamar de quê, Sancho?

 

Cheguei a um ponto em que cada tarefa realizada representa uma alegria enorme. “Ah, não consegui entregar tal atividade dentro do prazo?” Paciência, gente. Eu não sou máquina. Viu só como estou mais atrevido hoje?

 

Por aqui, tudo correndo bem. Daqui a pouco faço o treino que era para ontem, parceiro. O de hoje, amanhã, e assim vou rodando até o próximo domingo. E vamos que VAMOS — aos poucos, lento, isento e sempre.

 ...


 

Sancho querido,

 

Há três dias desaparecido, seu amigo aqui está o puro pó da rabiola. Bem, talvez não chegue a tanto. Exagerei um pouco, mas a verdade é que tô feito pipoca, pulando de um lado para o outro.

 

Ainda sinto o corpo meio tonto, fraco. Sei lá o que aconteceu, meu caro. No sábado, o treino já começou com atraso. Para ajudar, uma dor de barriga me pegou quando faltavam 5 das 12 voltas programadas na Rua Cidade de Minas. Terminei e saí de casa no galope: precisava levar a Cecília para o Simulado do Enem. O banho e o café da manhã ficaram para o meio do caminho; o repouso necessário, esse nem existiu, Sancho.

 

 

Ao retornar para casa, antes do almoço, inventei de abrir uma garrafa de vinho. Queria comemorar a façanha de rodar a maior distância da minha vida até aqui — 24 km — na principal rua do bairro. O tombo veio logo depois. Da hora da sesta até a noite do dia seguinte, fui assolado por uma indisposição total. Daquelas de nem ter coragem de colocar a cara na janela. Na semana passada foi a Cecília; ao longo dos dias, a esposa; e eu, o cavaleiro tardio, fiquei por último na fila da virose.

Correr hoje? Não corri. O tempo que seria da pista foi compensado em cima do trono. Cruz credo! E você acredita que, depois de deixar a mais velha na escola, ainda tive a cara de pau de ir à academia?

 

Já que não vou meter um atestado, já que estou cumprindo todas as obrigações e amanhã estarei firme com meus alunos, não ia ficar de bobeira esperando a melhora cair do céu. Nada disso, Sancho. Água de coco, xícaras de café e fé. Logo, logo estaremos de volta às pistas. Afinal, a folha do calendário não espera: daqui a 41 dias, a Maratona. Esses pequenos gigantes, os dias e os obstáculos, vão caindo um a um ao longo do caminho.

 

Que eu não desapareça por tanto tempo assim.

 

Um abraço


 


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