Foi só a conta de ler a frase de Nikolai Gogol, bloquear todas as notificações no modo avião e o aparelho foi parar no fundo do armário. Chega! Um dia de descanso. Ufa!
— E se alguém quiser falar com você?
— Queria comprar o presente do Dia das Crianças no seu celular.
— Posso jogar um pouquinho? A mamãe deixou.
Após as 19 horas deste dia, poderão ligar à vontade. Só não venham comprar o que bem entenderem. Quanto aos joguinhos, no máximo uns 20 minutos. Combinado?
Quero ficar longe
das redes sociais. Tanta mentira à venda, repetidas e patrocinadas... “Eles
passarão, eu passarinho” — e viva Quintana!
...
Algumas horas depois...
Calcei o tênis e fui correndo até a Praça do Sol pela primeira vez. Fui devagar, sem me importar com os morros. “Sem lenço, sem documento”, fui para descobrir como era. Só fui.
Reli um capítulo de A escrita em movimento. A escritora e professora Noemi Jaffe bateu um bolão ao redigir os “Sete princípios do fazer literário”. Eu já tinha esquecido o quanto essa obra é essencial.
Na mesa de madeira improvisada, lá na garagem, entre a página do encanto e o grifo do espanto, desviei o olhar para os movimentos da cozinha. Uma jovem de 16 anos lavava a louça, trocando ideias com a mãe sobre não sei o quê. Não dava para ouvir direito a conversa, embalada pelas músicas da eterna Elis. Playlist do vizinho misterioso.
De repente, a consulta rápida: o que vamos comer no almoço? Sem muita discussão, o escondidinho saiu vitorioso. Nessa hora fui chamado às pressas. Devagar, fui. Descasquei as batatas, o alho, e o restante ficou aos cuidados da chef. Que almoço em família!
Eu ficaria linhas e linhas discorrendo sobre como foi a tarde e o restante do domingo com o celular descansando no armário; mas iniciativas assim, só vivendo para entender.
Sim, recomendo fortemente que você faça o mesmo. Pelo menos uma vez.
— Da próxima vez você assiste a um filme com a gente?







