Sancho querido,
Por ir para a cama mais cedo, rolaram alguns pesadelos.
Ao despertar, que dia é hoje? Nossa! É dia de coleta. Separa daqui, corre para
lá... será que vai dar tempo de o caminhão recolher? Cachorras latem, querem a
liberdade da rua. Cadê a chave? Caminhão buzinando, os atletas da limpeza
gritando. Não, não deu tempo.
A tarefa não foi concluída. A casa da sogra? Lá eles
passam um pouco mais tarde, vai dar tempo! Tiro o carro da garagem, saco no
porta-malas e lá vamos nós; do contrário, só na quinta para o acumulado desses
dias. Até lá, seriam três sacos de lixo. Meu Deus!
Ufa! Deu tempo. Deixei o saco no passeio da minha querida
sogra. Tomara que ela não descubra essa minha "arte". E teve padaria,
comida, água para as cadelas, o café preparado para a esposa... Sem pensar
muito, hora do treino mais temido da semana: CANEQUINHA! Aquele em que
contamos devagar para não perder a linha.
Já conversamos a respeito desse abençoado. O Marcelo
Camargo o chama de “TIROTEIO”; no mundo da corrida, INTERVALADO. O abençoado
consegue separar o corpo da alma com uma habilidade incrível. Parece que o
ponteiro do relógio congela nosso esforço.
Assim que comecei a fazer esse tipo de treino, levava uma
canequinha azul com milho ou feijão e ia contando os tiros. Cada grão, um tiro
concluído. Divertir-se com a própria dor. Agora, coloco em um bloco de notas e,
enquanto caminho, dou um “check”!
Sobrevivi! Agora, vou me desdobrar nas tarefas do
instituto “Livros em Todo Lugar” e da escola. Como sabe, Sancho, minha
vida não se restringe à corrida; há outras lutas, não é mesmo?
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