Sancho,
Às 15h22, o corpo ainda é um mapa de dores
silenciosas. Estou moído, é verdade, mas carrego aquela satisfação densa de
quem não negociou com a planilha. Cumpri o rito.
Às vezes, eu mesmo duvido da cena: o relógio
marcando 03h30 e eu lá, na pista, recebendo no rosto o frescor úmido desse
outono que já ensaia o inverno. Foram 16 quilômetros de entrega absoluta. Para
alguns, o diagnóstico é o surto; para outros, o rótulo é o foco ou a disciplina
inabalável. Para mim? É apenas o compromisso de não faltar com a palavra que
dei a mim mesmo. Nada mais.
No ciclo da maratona – que, sejamos sinceros,
não difere tanto assim da vida – a regra é o passo a passo. É o fracionamento
da energia para que nada falte no final. Quem diria que eu teria o estofo
psicológico e a condição física para completar oito voltas na mesma rua onde,
anos atrás, comemorei o meu primeiro quilômetro ininterrupto? A vida insiste em
ser circular para nos mostrar o quanto avançamos.
Gratidão a Deus e a todos que, direta ou
indiretamente, sustentam esse processo — especialmente minha esposa e filhas e
o time da BH Run.
Ah, e um último comentário, meu caro Sancho:
aquela nossa conversa sobre o "chifre" que levei... Olhe, tem dado o
que falar.
Fui.
Sancho,
preciso te contar o que aconteceu na última
noite. Prepare o espírito, meu amigo, porque a notícia é de cair o queixo. Só
te peço uma coisa: não me chame de trouxa, combinado?
Flagrei minha esposa me traindo na última
madrugada. E o pior: foi na nossa cama. Virei para o lado e lá estava ela,
abraçadinha com o outro. Hug é o nome do infeliz.
Não, Sancho, não precisa preparar ciladas,
armadilhas ou carregar a espingarda. Vou ter que conviver com esse sujeito por
muito tempo. E antes que você me chame de chifrudo, saiba que as meninas já
garantiram a cota de zombaria do dia:
— "Pai, a mãe disse que o novo marido
dela é muito mais fofinho que você!"
— "Lá vem ele, o 'corno' arrumadinho, só
esperando os braços da esposa para mais tarde..."
Vou protestar na porta da fábrica da Ortobom.
Como permitem criar um travesseiro carinhosamente batizado de “marido”?
Depois dessa "traição" de espuma,
só me restou buscar refúgio no asfalto. Saí para o treino de 50 minutos. O
ritmo estava bom, a respiração cadenciada, mas, por um vacilo de cronômetro ou
de destino, entreguei 49min50seg. Dez segundos que o ego reclama, mas que as
pernas ignoram. De lá, direto para o consultório da nutricionista — afinal,
maratona se corre com o coração, mas se sustenta com o que se coloca no prato.
Para quem quiser saber como estão as medidas,
os cortes e as novas metas dessa jornada rumo aos 42km, deixem um comentário
aqui na página.
Já para você, Sancho, não esconderei nada.
Muito menos as próximas traições.
...
Sancho,
Em pleno domingo, despertei muito antes das
06h. Talvez essa seja uma das grandes recompensas de dormir cedo após os
treinos longos: ganhar o dia enquanto o mundo ainda silencia.
Cuidei dos preparativos para um café da manhã
especial de Dia das Mães. E não é que nos saímos bem na cozinha? A surpresa
parece ter cumprido seu papel, e o sorriso da minha esposa foi o melhor
feedback. O entusiasmo foi tanto que acabei incentivado a assumir também o
almoço; no embalo, já deixei pronta a base das marmitas da semana — arroz e
feijão devidamente garantidos. Ficou faltando apenas o lanche da tarde.
Por conta dessa busca por uma alimentação
balanceada, desde a última primavera a cozinha tornou-se meu habitat nos fins
de semana, especialmente aos domingos. É um espaço de dupla jornada: entre o
fogão e a mesa, também habito o trabalho. Leitura, escrita, correções de provas
e planejamentos de aulas dividem o tempo com o aroma do tempero.
Ainda sobre o autocuidado, tenho nova
consulta com a nutricionista batendo à porta. Será que atingirei a meta? A
ansiedade, como você sabe, é companheira de jornada. Mas deixemos o suspense no
ar: quer que eu lhe conte os detalhes na nossa conversa de amanhã?
Sancho,
quebrado não; moído. Foi assim que enfrentei
os desastres do treino desta manhã, meu amigo. Uma sucessão de equívocos:
quebradeira total.
Pela primeira vez, não consegui entregar a
quilometragem proposta pela assessoria; dos 32 km previstos, saíram apenas 28.
Os 4 restantes foram ca-mi-nhan-do.
Agora, passada a decepção inicial, eis uma análise dos erros, meu amigo. E veja que não foram poucos:
1. larguei forte, pensando que sustentaria o ritmo até o final. Da metade para a frente, comecei a ficar tonto, com as vistas escurecendo;
2. o plano era correr 16 km e voltar, dividindo o esforço em dois movimentos. Inventei de fazer 18 km para depois tentar fechar com 7 + 7. Caí na besteira de negociar com a mente e perdi feio;
3. pela primeira e última vez, deixei de ingerir a cápsula de cafeína. Certamente é ela que segura a onda na segunda metade do treino;
4. a hidratação dos últimos dias foi insuficiente. Nunca fui de beber muita água e ainda estou lutando para melhorar esse quadro;
5. Faltou carboidrato na noite anterior. Inventei de sair com a família para comer uma porção de carne e acabei tomando uma caipirinha também;
6. Com a nova palmilha, por conta da fascite plantar, algumas unhas foram maltratadas — coitadas.
Quebradeira. Além desse quadro, senti muita
dor nos membros superiores. Ao chegar em casa, tomei banho, comi uma banana e
apaguei: exausto, decepcionado.
Assim foi a 9ª semana do ciclo de
treinamento. Estamos a 50 dias da maratona e, até lá, esses erros não poderão
ocorrer novamente. Preciso ajustar o peso e levar a hidratação a sério.
Sancho, que esta conversa de hoje sirva de
lição para outros cavaleiros-corredores. Como pude ser tão ingênuo?
Boa noite!
Sancho,
Após
trabalhar manhã e tarde, tive uma reunião com a equipe de Linguagens, das 19h
às 20h30. Na sequência, a correria ao shopping para comprar o presente da mãe
das meninas e um jantar tardio. Cama, só depois das 23h. Quarta-feira, 06 de
maio de 2026.
Acordei
antes do alarme, fui ao banheiro com os olhos ainda fechados, sem acender a luz
e com uma dor de cabeça medonha, pesando sobre os olhos. O cálculo do treino:
aquecimento, depois uns 6,7 km num ritmo forte; se eu ficasse até completar
1h15, daria tempo de voltar e despertar a Cecília? A conta não fechava. Era a
soma dos cansaços juntamente com a carência de Vitamina S.
Voltei
para a cama com os olhos cheios de areia, o embaraço dos pensamentos e os
sintomas de uma gripe — seria esse outono um presságio de inverno? Ou apenas a
insatisfação de não conseguir subir para a pista, interrompendo o segundo
treino da semana? Esse negócio de ser disciplinado mexe com a gente.
Só nos
dirigindo ao trabalho, em conversa com a Cecília (ô menina boa de prosa, gente;
você teria orgulho de trocar umas ideias com ela), cheguei à conclusão de que
tudo isso não passa de moinhos de vento espalhados ao longo dos caminhos
daqueles que inventam de correr uma maratona. Em contextos do Mestre Cervantes,
ouso dizer que se trata da penosa luta que travamos com os pequenos gigantes do
cotidiano.
Enquanto
aqui estou em diálogo com meu fiel escudeiro, liberto-me da ideia de que
inventei uma desculpa esfarrapada para não treinar. Nada disso. No limite. E de
uma coisa estou certo: ao escrever, aprimoro o manuseio da espada, alimento o
Rocinante e vou tirando as palavras sombrias da caixola.
Sancho,
perdoe-me por estar assim, nesse estado confuso; estou sob o efeito de uma
Dipirona. Que Deus me abençoe! Dor de cabeça não presta.
Abraço,
...







