Ao final de janeiro, publiquei um texto sobre a influência de uma obra que mexeu demais comigo. O título é El Carpintero. Sério, gente! Passei sete semanas mergulhado em um clássico da literatura universal: Dom Quixote de La Mancha. Ao clicar no link, em azul aí, você entenderá um pouco da loucura que foi. Ou não... 


Jamais imaginei que uma obra pudesse virar minha cabeça desse jeito. Aconteceu em vários planos, compreende? Sob a perspectiva dos enredos, a importância dos intérpretes e, acima de tudo, como lição de vida. De modo prático, Cervantes nos ensina que não devemos levar a vida tão a sério. Precisamos rir mais da realidade, desde sempre cheia de disfarces, concorda? 


Ao criar o "Cavaleiro da Triste Figura", transitando entre o silêncio e a inocência, entre a loucura e a paciência, Quixote e Pança nos envolvem de modo esplêndido. Acredito que esta segunda página tenha ficado um pouco mais clara que a anterior, mas as impressões acerca de Dom Quixote estão apenas no início. Preparem-se para a próxima postagem!


Ah sobre a prova?! A corrida de hoje foi especial. Após 407 treinos, contando lá de 2023, consegui bater o RP: completei a meia maratona em menos de 2 horas — mais especificamente, 1:57:50, com ritmo médio de 5:32/km. Gratidão a Deus e a todos os envolvidos, direta ou indiretamente.


Agora, preciso interromper a escrita para arrumar a cozinha do almoço. As vasilhas ficaram por minha conta e não quero "apanhar" da esposa!


Boa noite e

... farelos por aí ...

 

É noite de lua cheia! Lá no alto, ela está esplêndida. O segundo mês do ano se despede após semanas de Carnaval e as águas de janeiro. Eis que o céu se prepara para receber as canções de uma nova fase.

 

Janeiro foi período de férias escolares e viagem com a família. Nas leituras — ou melhor, na leitura, a única que realmente fez a minha cabeça. Fevereiro que já se vai foi um mês de adaptações. Janeiro é "nascer novamente", fevereiro é "mudando de Roupagem". Quanto ao mês de março, lá está escrito assim "Cresça viçosamente". Trata-se de um desses livros de caráter filosófico que nem vem ao caso dizer o título por agora.  

Já é tarde.

É hora de dormir, pois amanhã é dia de prova. A primeira do ano: uma meia maratona. Prometo entregar um texto mais conexo na próxima postagem. O sono bateu pesado e, escrevendo pelo celular, tudo parece um pouco bagunçado.

Boa noite e 

... farelos por aí ... 



 


A experiência de passar sete semanas envolvido na leitura da obra fundadora do romance moderno destravou uma das janelas da Casa Jornada.


A começar pela extensão do inciso na entrada, sinto-me à vontade para revelar: a janela lateral foi a primeira a ser reaberta.


Responsável pela principal entrada de luz natural, é por ela que recebemos o anúncio das estações meninas — o leque sereno de cores na primavera e as notas rústicas, à base de amêndoas, aos ritmos dos violoncelos no outono.


Para desemperrar essa moldura, foi preciso chamar o maior marceneiro de todos os tempos. De tudo o que há de mais moderno na mobília do mundo ocidental, um de seus traços sempre lá está.

 

A cada dia que vinha à minha sala para o ajuste da fresta, Mestre Cervantes abria sua caixa de ferramentas. Discorria docemente, entre risos, sobre como cada aparato fora utilizado em sua principal empreitada, lá nos tempos de prisão. A verdade? Eu sempre me dividia durante essas sessões de concerto cervantino, enquanto ele operava o conserto urgente da minha casa.

 

Por ribeiros, estalagens, castelos, luas e lutas, ecoavam sinfonias de liberdade pelas estradas da aventura. Entre glosas de cenários, estiletes de diálogos, martelos de vozes e o serrote dos cochichos; sob o prego dos adjetivos, o parafuso do disfarce, a cola dos embustes e o esquadro do humor sobre a mesa da ironia, eu me perdia...

 

Até que chegou o dia em que o serviço ficou pronto. Na manhã de um 26 de janeiro, Mestre Cervantes partiu antes das nove. O carpinteiro não aceitou pagamento. Disse apenas estar grato pela água fresca do filtro de barro e pelo chá com biscoitos de cada encontro. E antes de ganhar a estrada, sentenciou:


— Como prestastes atenção em cada parte do ofício, menino, agora estás preparado para cuidar das outras janelas — e até das portas — de sua Jornada.


Que o Mestre continue consertando janelas mundo afora.

Para João Eustáquio - BH Run


Acordei atrasado, a noite mal dormida ainda pesava. Para piorar, martelava na cabeça a pulga do recado importante que não foi dado — aquele aviso que deveria ter chegado no momento exato ao destinatário. Que danado!

 

A manhã já nascia com sabor de pressa e erro.

 

Saí em disparada. Quando menos esperei, a constatação gelada:

 

Putz! O relógio da corrida ficou para trás. O gadget que registra o exercício!

 

Para completar a sinfonia do desastre, no desespero de sair rápido, acabei amarrando o tênis um pouco mais apertado.

 

Ainda bem que só fui sentir a pontada de incômodo e a leve dormência lá pelas tantas voltas do treino.

 

Quase finalizando o percurso, veio o golpe de misericórdia. Um apito no celular: bateria esgotando. Quinze, quatorze, treze... Antes da tela se apagar, deu tempo de registrar a atividade feita até ali. Ufa! Um sopro de vitória em meio ao caos.

 

"Santo dos Corredores! Santo dos Atletas Amadores!", implorei mentalmente: "Que minha manhã finalize bem e que a tarde e a noite sejam, por favor, melhores!"

 

Porque, até aquele ponto, a impressão que ficava era que eu nem deveria ter saído para a rua. Aquele era um dia de cama e silêncio.

 

Ao retornar, a mulher ouviu tudo, do recado perdido ao tênis apertado, com a atenção de quem conhece os tropeços do cotidiano. E arrematou com a sabedoria que só ela tem:

 

"Verdade! Não era para você ter calçado o tênis. O universo acenou para você ficar. Mas NÃO... você foi lá, contra todos os imprevistos e descuidos, e treinou. E é isso que importa."

 

Depois dessa conversa, meu dia não apenas melhorou: foi salvo.

 

Era a manhã de 8 de dezembro de 2019. Lá estava eu: ansioso, temeroso, inseguro. Enfrentaria a Volta Internacional da Pampulha, e já com alguns percalços.


Percalços? Sim. Não dormi bem na noite anterior, pois fui para a cama tarde. O sábado havia sido dedicado à comemoração do aniversário triplo das mulheres da minha vida.


Na manhã daquele sábado, durante os preparativos da festa, o bico de uma garrafa PET de Coca-Cola pulou desajeitado no meu dedão direito. O freezer estava bagunçado, e meu pé levou a pior. Coitado!


Tudo parecia conspirar para dar errado naquele calor sufocante de dezembro. Não havia sol, mas o mormaço nos fazia sentir como se estivéssemos sobre brasas.


Nos primeiros três quilômetros, estava muito difícil desenvolver o ritmo. O rio de gente era quase um convite à caminhada. Lá pelo oitavo quilômetro, bateu a lembrança da dor aguda no dedão atingido pela garrafa de dois litros.


Depois do pórtico dos 10 km, comecei a aumentar o ritmo, mesmo sentindo muita dor. E eis que surge um anjo, desses que compartilham palavras de incentivo; ora com humor, ora com diversão. Eles sabem transformar a pista em festa.


Eu disse "anjo" porque, pela voz, reconheci o moço. Júlio é educador financeiro e havia ministrado uma palestra em uma das escolas onde eu trabalhava.


De repente, começamos a trocar ideias. Assim que descobriu que aquela era minha estreia, ele me aconselhou: "Então, professor, pode economizar energia. É melhor diminuir o ritmo e guardar fôlego para o final. Você vai precisar na rampa do Mineirão."


Eu disse "anjo" porque ele simplesmente poderia ter continuado na velocidade dele. O moço estava na sexta ou oitava Volta; tinha experiência de sobra, mas decidiu apoiar-me.


Quando descobriu o que me levou a estar ali, ficou mais empolgado ainda. Parecia que o desafio era dele. Faltando poucos quilômetros, a dor havia cessado. Com a prosa, um filme de mais de um ano se desenrolou em minha mente. Era o gás que eu precisava para encarar os últimos duzentos metros.


Com o dedo inchado, o rosto vermelho como um pimentão, e dores em todas as partes do corpo, venci o primeiro grande Desafio da minha vida: completar a Volta Internacional da Pampulha.


Não que o tempo fosse importante, mas quis deixar registrado: corri os 18 km em 02h20. Após agradecer ao Júlio pela força, lembro-me de gravar um vídeo para o Instagram e voltar para casa muito contente.


Missão cumprida. O primeiro passo estava dado.

 


– Senhor Alfredo, estou com uma entrega pro senhor. Não tem ninguém em casa.

 

– Tem como você deixar na casa de grade aí da frente? Por favor, procure pelo seu Ronaldo. Muito obrigado!

 

Pelo menos dessa vez o entregador ligou, porque da vez que tive que retirar a encomenda no depósito foi uma canseira daquelas.

 

No carro cheio de crianças do teatro, deixei um aqui, o outro desceu no quarteirão de lá, fiz questão de guardar segredo. A destinatária da encomenda não fazia ideia da surpresa.

 

Depois de guardar o carro, tomar uma xícara de café, esqueci de bater lá na residência do seu Ronaldo. Até que Júlia, sua netinha, bateu no portão:

 

– Tio Farelo! Tio Farelo! O moço deixou isso pro senhor.

 

Era um embrulho simples, desses bem comerciais, padrão, no interior envolvido com plástico bolha. Senti.


Agradeci a vizinha e o seu Ronaldo que se encontrava do outro lado da rua. Nem bem fechei o portão e um berro:

 

– CLARICE! CLARICE! Olha só o que chegou. Vem ver, depressa...

 

Assim ela fez, largou desenho, pincel e tinta, o chinelo ficou pelos caminhos e VAPO! Pegou a encomenda e ali no escuro entre a garagem e a sala foi abrindo o pacote e...

 

Clarice sorriu dos pés à cabeça. Pulos de satisfação. Encantada. A menina comemorou com o corpo inteiro. Imediatamente foi para o canto do sofá da sala. Sentou-se e começou a leitura. O mundo parou.

 

Na sala, aos olhos dos outros moradores, tudo se movia em câmera lenta, ao redor daquela pequena leitora.

 

Em seguida, ajeitou a almofada, esticando os pés e, segurando o livro, eis que se desligou por completo da realidade.


A mãe que assista à telenovela dela pra lá. A irmã que ficasse de papo com as amigas nas redes sociais. O pai que fosse preparar a salada da noite.

 

Segundo a mãe, ela só fez uma parada na viagem, antes de dormir. Nesse tempo, fugiu para o escritório e lá começou a desenhar, inspirada, de forma livre. A leitura!

 

A forma como recebeu a encomenda, o mergulho nas páginas, os traços das histórias que também vai compondo, tudo isso nos enche de alegria.

 

A menina Clarice ainda não sabe, mas naquele outubro foi ela quem presenteou os pais na Semana das Crianças.


... farelos por aí ... 

 


Narrar com detalhes o sonho da última noite não é uma tarefa simples.

 

A riqueza de detalhes de um sonho depende de vários fatores, como sua natureza, o que pode influenciar a clareza das imagens.

 

Em certas épocas da vida, os pesadelos podem ser frequentes.

 

Em outras, somos transportados para cenários tão encantadores que não queremos acordar.

 

Diante dos mistérios da linguagem dos sonhos, surge uma pergunta intrigante:

 

E se eles pudessem ser transformados em literatura?

 

Isso foi o que fez o escritor Eduardo Galeano ao voar pelos sonhos de Helena Villagra, sua esposa.

 

“Ela entra na noite como quem entra num cinema, e toda noite um sonho novo está à sua espera”.

Com narrativas curtas e leves, o livro convida você a sonhar junto com a personagem Helena.

 

Depois de mergulhar nesses sonhos, talvez você passe a apreciar ainda mais os mistérios da noite.

...

Leia sempre

 

DETALHES:

Livro: Os sonhos de Helena

Autor: Eduardo Galeano

Ilustrador: Isidro Ferrer

Editora: WMF Martins Fontes

Temas: memória, sonho, fantasia.

 

Peter Augustus Duchene, um menino de chapéu com uma moeda na mão, caminha pelas ruas da cidade de Baltese.

 

Ele vai até o mercado central para comprar pão e peixe. O que ele não imaginava era que encontraria, entre as barracas, a tenda de uma vidente.

 

Para a vidente, o menino sabia exatamente o que perguntar: "Minha irmã está viva? Se sim, onde posso encontrá-la?".

 

Em poucos segundos, veio a resposta misteriosa: "O elefante! O elefante o levará até sua irmã!"

Peter Augustus volta para casa sem a moeda, que teve de usar para pagar a mulher.

 

Sem pão e sem dinheiro, ele fica com a cabeça cheia de dúvidas: "Seria aquilo possível? Impossível de acreditar, mas pode ter certeza de que sim... é a verdade".

Por conta de questões complicadas do século retrasado, Peter foi obrigado a se separar da irmã muito cedo.

 

Em sua nova jornada, ele enfrenta inúmeros desafios, a começar pelo seu tutor, um soldado maluco amigo de seu falecido pai.

 

Antes de chegar ao milagroso elefante, o garoto busca ajuda na casa de um oficial de polícia, Leo Matiene, e sua esposa Glória.

 

Glória muda a vida desses meninos em um enredo com muitas surpresas e personagens pra lá de inusitados.

 

É uma história que provoca susto — um elefante se despencando de um teto —, riso e, claro, arranca algumas lágrimas.

 

Eis uma narrativa de aprendizado e amor fraterno!

 

 

 DETALHES:

 

Livro: O elefante do mágico

Autora: Kate Dicamillo

Ilustradora: Yoko Tanaka

Editora: WMF Martins Fontes

Temas: a busca pela família, conexão e bondade, aprendizado e crescimento e realismo mágico.

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