Aconteceu pelas bandas da Palma, entre São José de Almeida, Jaboticatubas e Lagoa Santa.
– Por que você não
vai passear um pouco? Vá bater pernas por aí com as crianças.
Em menos de três
minutos, já passávamos por trás de uma das traves do campo de futebol, campinho
de terra, tendo à esquerda uma tradicional igrejinha católica, na beleza
límpida do azul e branco.
Na frente e em
disparada, levantando poeira, iam Clarice e Elis. Mal tive tempo de
cumprimentar uns senhores que, entre uma dose e outra, celebravam a vida.
– Tio Fred! Tio
Fred! (Chamaram pelo meu outro apelido) – A gente quer chiclete.
Ao descobrir que era
aquele antigo chiclete com tatuagem, pedi logo meia dúzia. Guardei dois no
bolso e distribuí os outros entre minha filha e minha sobrinha, que, mais do
que depressa, correram para os bancos debaixo das árvores.
Dentro da venda, o
moço me contava dos novos produtos, do quanto sua mãe lhe ensinara sobre
plantas e raízes. Um papo de ritmo lento... Fui me desconectando aos poucos dos
barulhos da cidade grande, da pressa do asfalto.
Lá fora, quase em
frente à igreja, as meninas nos balanços me viam e chamavam para brincar. Era a
hora da tatuagem. Tatuagem de figurinha! Eis a chave que me desligara por
alguns instantes ali na venda.
O vendedor, todo
prosa atrás do balcão, de costas para as prateleiras improvisadas de madeira; a
poeira nas garrafas da branca, da amarela e da enraizada; logo abaixo, as
balas, chicletes, pipocas, salgadinhos, doces e amendoins. Ah, coitado de mim!
Voltei ao tempo da
infância. Estive na venda do Ataniel por algumas janelas da memória; depois
escutei uns rocks antigos no bar do saudoso Zé Russo, comércios de um vilarejo cravado entre Conceição do Mato Dentro e o Serro.
E o vilarejo? Quase
não existe mais, devorado pela ganância da mineração. E isso faz tanto, tanto
tempo... Deixei o moço atender outros clientes, paguei pelos chicletes e fui
ser tatuado.
– A minha é de um
tigre. Vai ficar no braço esquerdo!
– Olha só a que eu tirei! Quem vai tatuar esse tribal no meu pulso?
– Gente, olha a minha: é uma borboletinha!
Até a hora do almoço, ficamos ali nos divertindo, inventando reinos... ficamos ali tatuando o tempo em nossas histórias.
Crédito da imagem: Kássia Melo







