Querido Sancho,

 

Nesses últimos dias, ingeri algumas cápsulas de Vitamina S. E essa última noite... bom, sem comentários. Eu me senti tão bem.

 

Sono. Consegui dormir bastante, descansar o corpo, a mente e dormir até estranhar a cama. O trote de hoje foi incrível; parecia até que eu estava de férias. Fluiu, rendeu. Pena que foram apenas 40 minutos, mas tudo bem, porque amanhã é dia de "sentar a botina". Não quero nem pensar nisso agora, amigo.

 

Sancho, na escola, peguei um estudante co-lan-do. Na hora de depositar o celular no armário, ele jurou: “não trouxe”. Estava lá, registrado na lista de presença. Passados alguns minutos, eis que surge um aparelho com a tela quebrada, escondido na cadeira, entre a parede e a perna do menino. E o pior: pedindo socorro para o GPT? Graxa.

 

Depois da aplicação de provas, seguiu-se o roteiro: reflexões sobre os “olhos de ressaca” da Capitu, lançamento de notas, preparação de aulas e aquele povo que adora conversar pelos cotovelos. Tive até que esclarecer:


— Comigo está tudo bem. Não estou doente, muito menos tomando Mounjaro, certo?

 

Agora, vou saindo de fininho, Sancho, porque ministrarei uma aula especial sobre um estilo literário lá do Século XIX.

 

Abraço,

...

 


Sancho querido,


Por ir para a cama mais cedo, rolaram alguns pesadelos. Ao despertar, que dia é hoje? Nossa! É dia de coleta. Separa daqui, corre para lá... será que vai dar tempo de o caminhão recolher? Cachorras latem, querem a liberdade da rua. Cadê a chave? Caminhão buzinando, os atletas da limpeza gritando. Não, não deu tempo.

 

A tarefa não foi concluída. A casa da sogra? Lá eles passam um pouco mais tarde, vai dar tempo! Tiro o carro da garagem, saco no porta-malas e lá vamos nós; do contrário, só na quinta para o acumulado desses dias. Até lá, seriam três sacos de lixo. Meu Deus!

 

Ufa! Deu tempo. Deixei o saco no passeio da minha querida sogra. Tomara que ela não descubra essa minha "arte". E teve padaria, comida, água para as cadelas, o café preparado para a esposa... Sem pensar muito, hora do treino mais temido da semana: CANEQUINHA! Aquele em que contamos devagar para não perder a linha.

 

Já conversamos a respeito desse abençoado. O Marcelo Camargo o chama de “TIROTEIO”; no mundo da corrida, INTERVALADO. O abençoado consegue separar o corpo da alma com uma habilidade incrível. Parece que o ponteiro do relógio congela nosso esforço.

 

Assim que comecei a fazer esse tipo de treino, levava uma canequinha azul com milho ou feijão e ia contando os tiros. Cada grão, um tiro concluído. Divertir-se com a própria dor. Agora, coloco em um bloco de notas e, enquanto caminho, dou um “check”!

 

Sobrevivi! Agora, vou me desdobrar nas tarefas do instituto “Livros em Todo Lugar” e da escola. Como sabe, Sancho, minha vida não se restringe à corrida; há outras lutas, não é mesmo?


...


 



 Sancho querido,

 

E não é que tivemos uma segunda-feira diferentona? Não se assuste com o adjetivo, amigo. Vou te contar como foi.

 

Primeiro, que amanhã é feriado nacional – Dia de Tiradentes, um cavaleiro lá do século XVIII. Hoje foi recesso na escola e a consequência disso? Família toda em casa. Ao menos por um tempo.

 

Comecei o dia com aquele treino que nomeei “Espelho dos Princípios”, está lembrado? Um trote, Sancho. O tipo mais leve de corrida; é possível executá-lo conversando, trocando ideias, entende?

 

Assim que voltei, a família já se preparava para o tão aguardado rolê do feriadão: passar o dia em um hotel-fazenda, a uns 60 km de casa! Partimos para lá sem café da manhã. Acredita?

 

Ah, Sancho, só faltou você à mesa. Quantas iguarias! Bolos, biscoitos, roscas, pães deliciosos. Até matei a saudade do leite queimadinho. Memória dos tempos de menino.

A filha caçula foi logo se trocando; a outra caçou uma rede entre as árvores para recuperar o sono, já que dormiu tarde.

 

Nem sei como, enquanto eu lia a obra Toada da terra de lá, de Gisele Garcia, apareceu uma gata de três cores esbanjando charme, mas que também implorava por carinho. Resultado: só fui terminar a leitura às vésperas do almoço, após ter apagado em uma das redes debaixo das árvores.

 

Não foi só leitura e soneca, não. Rolou piscina, muita música boa e o almoço em si... bem, esse nem tanto (faltou um pouco de sal). Mas estar assim com a família está acima de qualquer tempero, Sancho. Todos nós precisávamos muito deste dia, um momento de descanso. Como foi bom!

 

Pretendo até dormir mais cedo. Estou pregado!

 

Boa noite!

...

 
Caro Sancho*,


Nesta data, aproveitando que é dia de merecido descanso das atividades físicas, quero esclarecer alguns pontos para quem está chegando agora. Bora lá?!


Farelo na Pista é o nome do projeto de preparação para a minha primeira maratona. Teve início em 3 de janeiro de 2023. Não foi uma promessa vazia de Ano Novo, mas uma proposta de nova vida.


Na estrada: já se foram algumas voltas na Lagoa da Pampulha, umas poucas meias maratonas e os desafios de aniversário do Instituto Livros em Todo Lugar.


Eu não "meti o louco": não acordei e disse "vou correr uma maratona". Nada disso. Desde 2022, conto com o apoio técnico, profissional e psicológico da BH Run, assessoria com longa experiência.


O batismo: nessa assessoria, após completar um desafio, meu treinador me presenteou com um adjetivo que carrego com honra: Atleta do incentivo à leitura.


A inspiração: após sete semanas mergulhado nos dois volumes do clássico de Miguel de Cervantes, elegi Dom Quixote como personagem-símbolo desta jornada. Para quem não sabe, em um ciclo de maratona a gente leva inúmeras pancadas — tal qual o cavaleiro andante em sua jornada.


O sinal: ainda sobre o personagem, ao final de cada semana, no famoso LONGÃO, aparece lá nos stories uma ilustração dele sobre o cavalo, acompanhada dos detalhes do treino.


O pacto: a referência explícita ao fiel escudeiro de Quixote, a partir de agora, será o modo como começarei nossas conversas.


Sabe o que isso significa? Todos que estiverem comigo nessa jornada serão meus confidentes. Jovens, adultos, idosos... todos vocês serão, para mim, Sancho Pança.


Vamos que amanhã tem TREINO. 


Bom descanso e boa noite!

 

Diário querido,

 

Nem comecei a sentir o cheiro do almoço ainda, mas a curiosidade falou mais alto e vim correndo te contar as novidades. Uma tem a ver com dor; a outra, com a cara das nossas conversas daqui para frente. Preparado?

 

1. O preço da velocidade

 

Às 03h40, dei início ao treino mais rápido da minha vida. O resultado? RP triplo: bati minhas marcas nos 10 km, nos 21 km e nos 30 km!

 

Estou radiante com a conquista, mas, como tudo tem um preço, levei uma bronca do treinador (com razão, o risco de lesão foi alto) e conheci o famigerado "mamilo de corredor".

 

Eu achava que isso era lenda ou coisa de atleta de elite. Para quem não sabe, é um sangramento causado pelo atrito constante da camiseta com a pele, potencializado pelo suor. No meu caso, não foi nenhum filme de terror, mas o alerta acendeu: o próximo item da lista de compras é vaselina. Já não basta carregar o "charme" de algumas unhas a menos nos pés, agora a teta resolveu protestar? Rindo para não chorar!

 

2. Identidade renovada

 

Saindo da dor e indo direto para a estética — ou melhor, para a identidade visual do Farelo na Pista. A partir da próxima postagem, teremos uma capa fixa aqui no site. Uhuuuuu!

 

Depois de uma semana intensa de registros neste "Diário da Maratona", sempre com fotos naquele mesmo clima (caneta, papel, mãos escrevendo), chegou a hora de formalizar. A imagem será a mesma, mudando apenas a contagem dos dias. Com isso, começo também a divulgar o projeto oficialmente.

 

Não sei onde essa trilha vai dar, mas quem sabe alguém não se anima a embarcar nessa jornada comigo?

 

Até amanhã...

 

Farelo na Pista


Diário amigo,


Não sei se foi descuido da rede ou a curiosidade dos estranhos, mas descobri que já temos uns três leitores por aqui. O curioso é que não soltei o verbo para ninguém: nada de Instagram, WhatsApp ou qualquer outra vitrine. Como essa turma chegou?


Quer saber? Pouco importa. Quero é lhe contar que, ao contrário de ontem, hoje eu venci a preguiça e fui correr — não exatamente como a planilha mandava, mas fui. O motivo do ajuste? Alimentação capenga nos últimos dois dias, hidratação falhando... não deu outra: foi na base do "o chamado do banheiro". Quase no fim, tive que sair em disparada. E tudo bem. Não é a primeira vez, nem será a última. A gente ri para não chorar, né?


Depois, levei a Clarice para a escola e acabei emendando o trabalho por lá mesmo. Manhã produtiva: consegui zerar as provas da 1ª série e limpar a caixa de entrada, disparando aqueles e-mails que estavam me assombrando.


Agora, já no final da tarde, o foco mudou. Começaram os preparativos para o treino mais longo da temporada. Amanhã vou encarar os 32 km pela segunda vez. É ritual de preparação: suco de uva integral, gel de carboidrato, sachê de eletrólitos e, principalmente, tentar descansar o corpo.


REFLEXÃO


Uma das grandes lições que este ciclo da maratona tem me trazido é a importância de consumir a "Vitamina N". Aprendi essa com o Eliud Kipchoge, o monstro queniano que foi o primeiro a correr uma maratona abaixo de 2h.


Vitamina N. Pode vir em cápsula ou scoop de 3g, tanto faz. O lance é que ela precisa fazer parte da dieta diária. Vitamina Não. Aprender a dizer não para o que tira o foco e a energia.


Até amanhã, meu amigo.


Farelo na Pista

 

73 dias para a maratona. O bagaço também faz parte do treino. “Não ria não”

 

Hoje a madrugada foi silenciosa. O despertador tocou, mas o treino de 1h10min não rolou, minha gente. Não teve "farelo na pista" na última manhã, e a culpa nem entra aqui – entra o bom senso.

 

Ontem foi daqueles dias de jornada tripla, dobras à força: dois turnos de trabalho, reunião, e ainda uma hora e meia de formação no final. Quando cheguei em casa, o corpo deu o recado: sinusite chegando, olho lacrimejando, nariz querendo zoar e a cabeça latejando. Tentei jantar, tentei descansar, mas o sono foi interrompido algumas vezes pela dor.

 

O diagnóstico da falha: além da maratona de trabalho, vacilei no básico. Sem marmita, acabei recorrendo a restaurante, e a hidratação ficou lá embaixo. O resultado? Imunidade sentindo o golpe.

 

Hoje, a ordem é silêncio absoluto. Sem treino, sem academia, sem caçar conversa com o acaso. O foco vira a recuperação para amanhã soltar um trote leve – só para avisar o corpo que o longão de sábado está chegando.

 

Vida de corredor tem dessas: a gente planeja o cenário no detalhe, mas a realidade impõe os seus arranjos. Como venho escrevendo aqui: sem filtro, sem firulas. É aceitar o tranco, se cuidar e seguir.

Farelo na Pista

 

(amanhã, com fé).

 


Quarta-feira, 15 de abril de 2026

 

A 74 dias da maratona, o celular desperta. Se eu tentasse negociar com a minha mente, perderia fácil. Ela diria assim:

 

“Fique mais uns 30 minutos na cama. Você merece descansar, pois ontem trabalhou manhã e tarde, e ainda entregou o treino intervalado. Coitado! Foi dormir tarde... blá, blá, blá!”

 

Como dizem por aí: “nem pensa, só vai”. Fui. Sem me preocupar com a performance, uma vez que o treino de hoje era leve, estilo regenerativo — compreende?

 

Nos primeiros três horários, treinei panturrilha enquanto aplicava provas; depois, uma aula com questão discursiva e duas janelas para sonhar. Janelas na rotina de um professor são templos de respiro na jornada. Adoro.

 

Nenhum motivo para reclamar de nada. Se estou de boa? Com muitas tarefas da profissão — trabalhos e provas para corrigir, projeto para escrever, entre outras demandas urgentes —, mas sim, estou em paz, em ritmo de ajustes.


Encerro por aqui a escrita de hoje, pois ainda tenho uma reunião e um curso de formação pela frente.


E vamos que VAMOS...


Farelo na Pista


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