Sancho querido,
Lá vem a pequena Clarice. Carrega uma mochila
quase do seu tamanho, a lancheira atravessada a tiracolo, após descer três
andares de escadas. Mal cumprimenta o pai e já sai em disparada para o
banheiro. Quer saber se comprei seu lanche, volta correndo, e eu coloco em seu
pescoço o crachá da turminha — faltam menos de cinco minutos para a saída.
Ajeito o estojo dentro da pasta de inglês e assumo o peso da mochila. Enquanto
os colegas vão chegando, ela se delicia com algumas colheradas de salada de
frutas, já de olho na Paçoquita que vai devorar no caminho. De repente, o
apito: hora de partir para a próxima aula do dia. O pai precisa ficar ali,
firme no posto, até vê-la descer para o andar de baixo e ganhar a rua. Ela não
vai embora sem o meu tchauzinho.
Sabe, Sancho, há tempos eu queria te contar
como têm sido as terças e quintas, mas com ênfase na vida da minha pequena,
entende? Uma rotina para guardar na memória. O milagre simples do crescimento.
Que Deus abençoe nossos filhos, meu amigo! Eu ouvi um amém?
Agora, com a mochila dela nas costas, viro um
autêntico assaltante de merendeiras: resgato um resto de suco de maracujá e um
pedaço caprichado de sanduíche natural. Jogar fora? Que nada, Sancho. Daqui a
pouco tem trote na pista, treino leve, aquele clássico no pace fofoca, e
eu não posso chegar lá de estômago vazio, né?
E vamos que vamos, meu caro escudeiro,
colecionando as lembranças dessa nossa abençoada correria em família.



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