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A última prova havia me deixado moído, arrebentado. Entendi que era hora de rever algumas questões. Do contrário, ia perder para minha filha, e o Desafio ficaria para o ano seguinte. Isso eu não admitia de jeito nenhum!

 

Olhando para aquele período e, claro, com certa consciência da preparação para as provas, reconheço que deveria ter ido aumentando as distâncias, aos poucos: 12, 14, 16 km. Tinha tempo e disponibilidade para isso. Por que eu tinha que ir com tanta sede ao pote? O que estava faltando? A resposta para a última pergunta deixarei para outro momento da nossa jornada.

 

Foco

 

Não sei se isso acontece com você, mas às vezes surge uma necessidade de ajustar as lentes diante de um obstáculo. No meu caso, aprendi a criar micro desafios que, de alguma forma, contribuem para a afinação dos tons da vida cotidiana.

 

Em termos práticos, era urgente que eu voltasse a treinar de modo regular. Para isso, criei o #desafiolec: ler / escrever / correr. Uma tríade que, naquele momento, foi uma espécie de norte das ações essenciais na vida de um escritor, professor, que se preparava para a Volta Internacional da Pampulha.

 

A partir daquele momento, comecei a conversar com pessoas que estão na pista há mais tempo. Fui atrás de recomendações, dicas rápidas, quantidade de treinos às vésperas da prova, entre outras questões. Desse contexto de primeiras lições, recordo-me do apoio do Marcelo Camargo, professor de Geografia, autor da máxima "Cama boa é asfalto quente". Com ele, ficou evidente: as orientações, a energia e o entusiasmo são contagiantes.

 

De forma tímida e bem acanhada, quem entrou na minha vida também nessa época foi o João Eustáquio, professor de Educação Física. Quando soube do interesse pela prova, passou a me apoiar de modo discreto, com uma pergunta sempre que nos encontrávamos nas dependências da escola: "Já treinou HOJE?" Independentemente da resposta, ele sempre tinha uma palavra amiga e necessária para somar.

 

E foi assim, nesse novo ritmo, dentro das minhas condições, que segui até o dia do Desafio, que estava muito próximo de acontecer. Aquele certo frio na barriga, mas essa experiência eu só vou contar no próximo episódio, combinado?

 


 

Ah, como eu gostaria que este fosse um episódio incrível, semelhante ao da última estação; mas a coisa foi para o outro lado. Que fique claro: a corrida é da vida real, cheia de desafios. E sim, haverá aquele dia em que tudo dará errado, conforme o ditado: "Nada está tão ruim que não possa piorar."

 

Por conta de uma cirurgia já agendada, minha companheira Estela teve que me abandonar logo no início do segundo semestre. E tudo bem, pois isso vai acontecer com você também. Quantas cirurgias surgiram depois que comecei a correr? Nesses momentos, não há como treinar e resta apenas paciência.


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Agora, vamos ao que antecipa, ou melhor, sinaliza o título: a "quebradeira". Depois de vencer os 10 km, pensei que estivesse preparado para alcançar outros níveis. Apenas pensei.

 

No restante de julho, em pleno recesso escolar, viajei para o interior de Minas. Lá, encontrei aquela culinária indescritível da casa da mamãe e das tias. Somou-se a isso o afastamento da academia. A regularidade dos treinos subiu para o telhado, e o resultado você já imagina.

 

Ainda no período de descanso, pesquisei o calendário de provas, e empolgado, fui lá e me inscrevi numa corrida de 16 km – a da Polícia Rodoviária Federal, agendada para 1º de setembro de 2019. Pela primeira vez, uma prova seria em Contagem, na cidade onde moro.

 

Erros

Assim que o recesso acabou, voltei com tudo para a academia. Ingênuo, imaginei que em um mês conseguiria recuperar a forma. Novamente, inocente, para não dizer "imbecil", fui para a prova com um tênis novo, de procedência duvidosa. Caí na besteira de aproveitar a promoção, e mais anta ainda foi ter estreado o calçado no dia da corrida.

 

Para começar, estava um dia daqueles: um tempo muito abafado, sem nenhum resquício de sombra. A hidratação parecia insuficiente, e eu não tinha treinado para uma prova tão desafiadora. Lá pelos 4 km, o tênis começou a machucar.

 

Recordo-me que, no meio de toda aquela luta, passou um grupo de senhores com a camisa da equipe "Fósseis do Asfalto", em um ritmo cadenciado que parecia cena de filme. Os velhinhos deram um show e nos mostraram como se deve fazer. Fomos humilhados pela falta de preparo e concentração. Por outro lado, fica a inspiração: quero chegar àquela idade com aquela saúde e entrega!


O fim:


Resultado: eu, que tinha me inscrito para correr 16 km, terminei a prova nos 8 km, caminhando... com os tênis nas costas, pé cheio de bolhas, desidratado e com aquela grande vontade de só chegar em casa e repensar todos aqueles deslizes. 

 


 

A chegada da nova estação nos encheu de otimismo e garra. Para minha surpresa, eu estava conseguindo conciliar treino de corrida, atividades da academia e a vida de professor. A alegria proporcionada por aquela sensação era, até então, inexplicável. Nunca tinha vivido tal experiência no contexto de exercício físico.

 

Entusiasmado com os novos ventos, era hora de subir o sarrafo e avançar um pouco em direção ao Desafio. Com mais segurança, advinda dos treinos regulares, eu e minha companheira Estela nos inscrevemos na corrida do Hospital Santa Casa BH, marcada para o dia 7 de julho de 2019.

 

Na pista, com os treinos em dia e temperatura agradável, estávamos ansiosos para correr nossos primeiros 10 km. A energia, o envolvimento das pessoas, tudo naquela prova era muito distinto. Mas por quê?

 

A começar pela causa: a luta contra o câncer. A renda era destinada ao tratamento de pacientes e às obras do Instituto de Oncologia SCBH. Em razão disso, muitos participantes fantasiados de super-heróis acompanhavam crianças em cadeiras de roda, em um ritmo de festa, alegria e aventura.

 

E lá, na linha de chegada, nós tínhamos a certeza de ter concluído uma prova com sucesso. Sentimos gratidão por todos os aspectos: clima, preparação, ritmo e energia. Entregamos nosso melhor! Eis uma daquelas provas que deixou saudade.

 


 

A recuperação do joelho e os treinos regulares na academia foram importantes para pensar, pelo menos, o primeiro semestre do ano a que me propus a vencer desafio dos 18 km – Volta Internacional da Pampulha.


Com treinos regulares, nada de muitas exigências. Isso porque eu não seria louco de ficar brincando com o joelho. Companheira Estela avisou que teria uma prova no final de março, mais precisamente no dina 30/03/2019. “Bora lá!” Praticamente o mesmo percurso da estreia, porém a corrida de Sant Patrick’S tinha um diferencial, era noturna. Quase no mesmo ritmo, conseguimos correr os 05 km.


Não sei se foi benção do santo, mas na manhã seguinte, comecei a sonhar com outras distâncias. Imediatamente fiz contato com a Estela a respeito das próximas provas. Na academia, os professores deram o maior apoio, inclusive, reforçando a importância da regularidade.


De 5 para 8, em menos de 90 dias? Guardadas as devidas proporções de juízo, hoje reconheço que não devia ter ido tão rápido assim; porém é isso que você deve estar imaginando. No dia 19/05/2019, eu e Estela estreamos nos 08 km no Corrida Santander.  Por mais que fosse um percurso plano, não foi uma prova assim tão simples. Faltou preparo, não em relação à academia, mas outro de que trataremos, ao longo da jornada.


O que nos aguardava na próxima estação?  


 

Férias com a família, de molho, sem poder correr foi moleza não. Sempre nesses contextos que surgem as melhores oportunidades, a exemplo da oportunidade de viajar com a família para a cidade de Paraty, no Rio de Janeiro. E só para irritar, de vez em quando, o convite de um ou outro hóspede:


– Bora para uma corridinha leve na beira da praia?


– Você vai devagarinho, já deve dar conta. Bora?


Bora que nada. Teve momento que a cabeça fervilhou de pensamentos que jogaram na areia: será que vou ter que adiar o desafio? e se eu não conseguir correr nunca mais? será que vou ter que fazer sessões de fisioterapia?


O jeito era seguir em frente, no tempo do abençoado. Assim que voltamos da viagem, retornei à academia com aqueles quilinhos a mais.


– Fique tranquilo, logo, logo, você estará bem. Só vamos ter que mudar um pouco sua ficha e fazer alguns ajustes.


Não sei se é assim com você, mas quando machuco, no tombo, fico mais pensativo e na medida do possível, sinto que a concentração aumenta. Era preciso recuperar porque dentro de alguns dias eu estaria de volta à sala de aula, na maior parte do tempo, trabalhando em pé, e o joelho...


Curiosamente, mesmo com a ausência da dor, com o tempo fui ficando inseguro até para caminhar mais rápido na esteira. Não conseguia entender, mas ficava cheio de “larga e me deixa” para acelerar o passo. E o professor lá, depois de uma série específica de exercícios: “Vai lá, moço, você vai dar conta. Já tá recuperado”.


Depois de duas semanas, numa segunda-feira de Carnaval, subi para a Cidade de Minas e lá fui, depois de caminhar por um tempo, resolvi correr de leve. Sem pressa e hora para acabar, fui repetindo até que conseguir completar 01 volta sem ter que parar.  


Ufa! Eu estava com o joelho curado! Ao término do treino, retirei a camisa no calor de fevereiro, sentando-me debaixo de uma árvore. “Muito obrigado, Senhor! Estou de volta!”

 

 


 

De vacilo em vacilo vai nascer um atleta, ao longo das próximas páginas. Faço questão de contar sobre esses perrengues para que você não cometa os mesmos erros. Assim que leu o título do capítulo, deve ter imaginado pista, prova, km e km. Nada disso, calma lá. Como já sabe, comigo nada é assim da noite pro dia.


Primeira prova de corrida aconteceu ali no último domingo do mês, avaliações finais na escola e todo aquele tumulto típico de final de ano e lá se foram os treinos da academia mais uma vez. Aceitável?


A questão do mês seguinte. Dezembro com festas para perder de vista com aqueles pratos imperdíveis, preparados com todo carinho do mundo. Casa da mamãe, da comadre, amigos e confraternização aqui e acolá. E o resultado chega com os dígitos da balança.


Não sei sua relação com essa época do ano, mas no meu caso sempre foi difícil encarar esse contexto. Por outro lado, é também a época de minhas férias, tempo para viajar com a família.


Já na recepção do hotel em Vitória ouço alguns turistas dizendo que iam correr no calçadão mais tarde, que ali perto da praia era um lugar muito agradável para se exercitar. Em respeito ao cansaço de todos da família, tive que deixar o treino para o dia seguinte.


Eu nunca tinha corrida em beira de praia. E aquilo tinha tudo para ser inesquecível. De verdade, quando passei dos 3km, senti que estava podendo e até aumentei um pouco o ritmo. Fui pra cima com vontade e bati meus primeiros 6km. Pensei que estivesse arrasando.


Não tive tempo de comemorar, pois assim que botei os pés no hotel, um dos joelhos acenou para o desavisado que vos escreve: “ô, filhote, você passou dos limites”. À medida que o corpo ia se esfriando, a dor ia tomando conta. Farmácia,relaxante muscular e nada.


Situação: a primeira contusão, minha gente. Passei a última semana daquele ano mancando. E para carregar a filha caçula? Imagina como foi visitar alguns pontos turísticos? Mas poderia ficar ainda mais complicado?


E não é que ficou? Assim que voltei para casa fui procurar um especialista. De cara, a ressonância magnética e um montão de coisa que passa na cabeça da gente. Recordo-me que o doutor disse lá de um tal de menisco. Eu nem quis entrar em muitos detalhes, pois era muita informação. Hora do veredicto:


– Alfredo, você vai ter que ficar 30 dias sem realizar atividade física. Precisa se recuperar dessa contusão. Alguma dúvida?


  Só raiva mesmo (risos) Era a primeira semana do mês de janeiro e o primeiro perrengue. E quem nunca se machucou na corrida que me dê um par de tênis novo, combinado?  

 


 


 



Casado com uma atriz e professora de teatro, sempre respeitei a mística das estreias. Aprendi com Leandra Pacífico que a estreia é sempre um tempo de ansiedade, insegurança, ausência e mistério. Só de pensar que aquela seria minha primeira prova, bateu o famoso friozinho na barriga.

 

Para minha alegria e satisfação, embora a inscrição tenha sido feita pela internet, quem retirou o kit foi minha comadre, Maria Estela. Ela, os meninos João Pedro e Toddy, foram os parceiros da minha estreia. Completando o time, quem nos levou até a pista foi o compadre Ronaldo Silva. Além de motorista, ele é o nosso incentivador número 1.

 

Na madrugada do dia 25 de novembro de 2018, choveu bastante. Era o anúncio da edição de verão do conhecido Circuito das Estações. Fato é que chovia tanto que, enquanto saía de casa, na inocência, imaginei até que a corrida pudesse ser cancelada.

 

Fomos direto para a casa da Estela. Lá, todos leram em meus gestos o clima da estreia. Sabe quando você está prestes a realizar uma atividade e fica sem entender muito bem o que está acontecendo? Eu me perguntava, em silêncio: "É isso que tá rolando? Vamos descer para a Pampulha de verdade?"

 

De fato, estava acontecendo. Debaixo de uma chuva relativamente fria, eu e Estela estávamos na pista para os 5 quilômetros. A parceira já havia participado de outras provas. Os meninos, adolescentes fininhos, se inscreveram para os 10 km. Cada um no seu ritmo, e eu, ansioso.

 

Seguindo os trejeitos típicos de um estreante, fiz os alongamentos e fui para a pista. Eis a largada e mais de 1 km para o corpo sedentário entender o que estava acontecendo. Nem fiz questão de me hidratar no 2º km. Segredinho só entre a gente aqui: era a insegurança de parar e não conseguir concluir a prova. Então, reduzi o ritmo para que a parceira se hidratasse.

 

Lá pelo 3º km, comecei a apreciar a prova. A chuva trazia um certo encanto, lavava o suor e refrescava meu corpo, que, a essa altura, já aceitava a ideia de que seria possível correr até a linha de chegada. Uma câmera desavisada facilmente capturaria minha expressão de gratidão, a alegria de quase chegar lá.

 

Ao meu lado, Maria Estela, com todo entusiasmo, companheirismo e incentivo. "Vamos conseguir! Falta pouco." Claro que não era tão simples assim. "Pouco" que nada. Eu só queria que terminasse logo, mas, sem muito o que fazer, o jeito era seguir firme.

 

Quando eu já pensava que estava perto, uns 200 metros antes da tão desejada linha de chegada, lá estava Ronaldo Silva, gritando e nos incentivando: "Vai, Farelo! Vai, Estela! Vocês estão quase lá. Bora! Bora!" Ter alguém torcendo por você faz toda a diferença. Guarde com carinho essa lição.

 

Inacreditável. Difícil descrever todas as sensações de cruzar a linha de chegada, de correr ininterruptamente os primeiros 5 km da minha vida. A gratidão pela primeira conquista, debaixo de chuva. Em 35 minutos, o batismo: um importante passo rumo ao Desafio proposto pela minha filha.

 

Agora, você sabe: a prova dos meus primeiros 05 quilômetros foi no famoso Circuito das Estações. O que será que vem por aí?

                                                            

O primeiro aplicativo baixado no celular, o primeiro tênis de corrida. A marca? Um Mizuno bem básico. E que tal conhecer a minha primeira pista oficial de treino? Ah, o aplicativo de corrida? Era o Nike Run. Nem se ainda está ativo. Temos outros melhores, mais intuitivos hoje. 

 

Rua Cidade de Minas, entre os bairros Pedra Azul e Carajás, em Contagem, Minas Gerais: uma pista quase plana, com 1.300 metros, que atrai interessados em cultivar novos hábitos. Correr, andar, sozinho ou acompanhado. Para se ter uma ideia, às 4h da manhã já tem gente treinando por lá. Em outros capítulos, você saberá um pouco mais sobre esse povo que sai para caminhar ou correr a essa hora.

 

Consciente da distância da pista e do meu ritmo, era hora de investir nas próximas conquistas, começando pela primeira volta completa. Sem nenhuma orientação, fui aumentando o percurso aos poucos. A cada semana, ia ampliando a distância entre um poste e outro.

 

Nem vou tentar explicar os efeitos daquela sensação de progresso; deixo isso para um professor de Educação Física. O fato é que comecei a gostar daquilo, mesmo com as dores e a falta de fôlego.

 

Na academia, os colegas de treino começaram a perceber a diferença nas minhas medidas. A balança também reconheceu algumas perdas. Sabendo da minha postura, senti que poderia fazer mais em direção ao Desafio.

 

Levei aproximadamente três meses me preparando para a inscrição na minha primeira prova, treinando duas vezes por semana. A certeza de pagar a inscrição no Circuito das Estações só veio depois da minha maior conquista: correr o primeiro quilômetro. Como isso aconteceu?

 

Na manhã de um sábado de quase primavera, pulei da cama mais cedo e subi para a pista. Ajustei o aplicativo e... pá! O primeiro quilômetro dentro do tempo razoável, embora eu soubesse que poderia ter sido mais rápido. Com 2,6 km, completei a primeira volta sem parar e, de repente, me deparei com o km 3, com a leve inclinação e o ritmo encaixado.

 

Na outra ponta da pista, cruzei o quarto km e pensei: “Vamos lá, você consegue, hoje vai mais longe.” E, naquela conversa firme com as pernas, joelhos... não, eu não vou parar, estou quase lá, falta muito pouco. Que isso, você já correu 4,5 km? Nem quis pensar nos 500 metros para completar a distância da futura prova. Fiquei tão empolgado que incluí os 200 metros da pista na conta e acelerei. Consegui completar as duas primeiras voltas na Cidade de Minas: 5,2 km. Ufa! 

 

Para comemorar o feito, sentei-me no primeiro meio-fio que encontrei. Tirei a camisa; estava um bagaço, exausto. Parecia que tinha corrido de um fantasma, como nos pesadelos da infância. Olhei para o celular e para o céu. A distância, o tempo e o infinito de mais um passo. O Circuito das Estações que me aguardasse.

Não sei você, mas eu já estou ansioso para o próximo episódio. 


O primeiro aplicativo baixado no celular, o primeiro tênis de corrida. A marca? Um Mizuno bem básico. E que tal conhecer a minha primeira pista oficial de treino?

 

Rua Cidade de Minas, entre os bairros Pedra Azul e Carajás, em Contagem, Minas Gerais: uma pista quase plana, com 1.300 metros, que atrai interessados em cultivar novos hábitos. Correr, andar, sozinho ou acompanhado. Para se ter uma ideia, às 4h da manhã já tem gente treinando por lá. Em outros capítulos, você saberá um pouco mais sobre esse povo que sai para caminhar ou correr a essa hora.

 

Consciente da distância da pista e do meu ritmo, era hora de investir nas próximas conquistas, começando pela primeira volta completa. Sem nenhuma orientação, fui aumentando o percurso aos poucos. A cada semana, ia ampliando a distância entre um poste e outro.

 

Nem vou tentar explicar os efeitos daquela sensação de progresso; deixo isso para um professor de Educação Física. O fato é que comecei a gostar daquilo, mesmo com as dores e a falta de fôlego.

 

Na academia, os colegas de treino começaram a perceber a diferença nas minhas medidas. A balança também reconheceu algumas perdas. Sabendo da minha postura, senti que poderia fazer mais em direção ao Desafio.

 

Levei aproximadamente três meses me preparando para a inscrição na minha primeira prova, treinando duas vezes por semana. A certeza de pagar a inscrição no Circuito das Estações só veio depois da minha maior conquista: correr o primeiro quilômetro. Como isso aconteceu?

 


Na manhã de um sábado de quase primavera, pulei da cama mais cedo e subi para a pista. Ajustei o aplicativo e... pá! O primeiro quilômetro dentro do tempo razoável, embora eu soubesse que poderia ter sido mais rápido. Com 2,6 km, completei a primeira volta sem parar e, de repente, me deparei com o km 3, com a leve inclinação e o ritmo encaixado.

 

Na outra ponta da pista, cruzei o quarto km e pensei: “Vamos lá, você consegue, hoje vai mais longe.” E, naquela conversa firme com as pernas, joelhos... não, eu não vou parar, estou quase lá, falta muito pouco. Que isso, você já correu 4,5 km? Nem quis pensar nos 500 metros para completar a distância da futura prova. Fiquei tão empolgado que incluí os 200 metros da pista na conta e acelerei. Consegui completar as duas primeiras voltas na Cidade de Minas: 5,2 km.

 

Para comemorar o feito, sentei-me no primeiro meio-fio que encontrei. Tirei a camisa; estava um bagaço, exausto. Parecia que tinha corrido de um fantasma, como nos pesadelos da infância. Olhei para o celular e para o céu. A distância, o tempo e o infinito de mais um passo. O Circuito das Estações que me aguardasse.


 

– Quer dizer que agora você está correndo?

– Não é bem assim. Estou bem no começo.

– De vez em quando te vejo treinando lá perto de casa. Parabéns!

Dessa conversa com o motoboy de um restaurante local, aprendi a lidar com duas situações que ajudaram nos meus primeiros passos.

Renato treinava, naquela época, uma média de 4 vezes por semana. Com isso, demonstrava certa experiência. Em outras conversas, confirmou a participação em algumas provas, mostrando o quadro de medalhas no celular.

À medida que fazia entregas em nossa casa, ele fazia questão de tocar no assunto: “E aí, tá firme nos treinos?” Usava palavras do mundo da corrida que só fui aprender e experimentar mais tarde.

Voltando à situação inicial, que está diretamente ligada a esses termos, um dia ele perguntou qual era o meu “pace”, já que eu pretendia correr uma prova de 5 km ainda naquele ano.

– O que é isso? Como a gente encontra esse trem? – foi minha mais sincera resposta.

O rapaz não conseguiu segurar o riso. Com a maior paciência, explicou que se tratava do ritmo médio de um corredor em uma determinada distância e que isso era medido em minutos por quilômetro.

A essa altura, ele me mostrou o aplicativo de corrida que usava. Pediu licença para instalá-lo no meu celular e, com boa vontade, explicou como eu deveria utilizar a ferramenta.

Antes de finalizar a entrega, surgiu a outra situação embaraçosa:

– Bem rápido, tem como mostrar o tênis com que você está correndo?

Assim que mostrei o par de sapatênis, já bem detonado, ele sorriu novamente e passou outras dicas breves:

– Moço, com isso não dá pra treinar. Você vai acabar se machucando. Faça o seguinte: primeiro, vai a uma loja e pede para experimentar tênis para corrida, entendeu? Sabendo o modelo e a numeração, depois você compra pela internet e aproveita umas promoções, entendeu?

Sim, entendi uma parte daquelas orientações: eu precisava de um outro pisante.

Lição: Utilizar um aplicativo gratuito de corrida e providenciar um tênis confortável, específico para corrida, vão ajudar bastante nessa modalidade esportiva.


 


                                                              

Por um mínimo de resistência física, era hora de voltar à academia, mesmo que de maneira esporádica durante a semana. Não sei avaliar se foi a alternativa mais adequada para o contexto, mas entendia que precisava perder peso para começar a correr.


Minha ficha sempre incluía atividades na esteira: caminhada ou corrida leve. Recordo-me de que aqueles 10, 20 e 30 minutos eram difíceis, tanto pela exigência de um corpo sedentário quanto pela monotonia. A vontade de desistir era grande, mas o Desafio nem havia começado.


Após algumas semanas, em uma tarde de domingo melancólica, criei coragem, nem sei de onde, calcei um sapatênis e fui caminhar na Cidade de Minas, a principal rua da nossa quebrada. Guarde esse nome, porque, vez ou outra, vou mencioná-lo por aqui.


Não sei como, mas consegui dar duas voltas naquele dia, sem parar nenhum momento. A caminhada durou uns 50 minutos e senti pela primeira vez o tal cansaço de uma atividade física.


Quando contei para o treinador da academia, ele vibrou com a iniciativa e disse que eu deveria fazer isso mais vezes durante a semana, e que, em breve, já conseguiria até correr. Levei um tempo para acreditar naquele incentivo. "Ah, deve ser mais um papo de professor de Educação Física".


Eu estava enganado. No mês seguinte, já conseguia repetir a ficha da esteira na rua. Corria 3 minutos e caminhava 1, e fui ampliando as variações. Claro que o tempo de corrida parecia uma eternidade, mas fui “destravando” e começando a perceber alguns sinais de progresso.


Quanto tempo gastei para alcançar a primeira conquista? Não faço a menor ideia, mas correr o primeiro quilômetro na Cidade de Minas foi um dos dias mais felizes da vida daquele sedentário.


Lição: O dia em que você conseguir correr seu primeiro quilômetro, comemore. Foi o que fiz e, de lá para cá, aprendi a comemorar todas as conquistas. Correr aqueles 1000 metros representou um sinal de esperança.


 


A data exata eu não sei informar, mas acredito que tenha sido no final do primeiro semestre de 2018. Em uma das rotas de casa para o trabalho, tenho o privilégio de passar pela região da Pampulha. Adianto que foi lá onde tudo começou.

Aconteceu em uma daquelas manhãs, depois de ver tantas pessoas caminhando ou correndo. Recordo-me de ter soltado a seguinte frase:

– Um dia, vou participar da Volta Internacional da Pampulha.

Na hora, a garotinha se ajeitou na cadeira, parecia um pouco desconfiada, mas logo retrucou:

– Correndo, pai? Coitado!

Ela nem esperou uma explicação. Não tive tempo nem de abrir a boca direito.

– Eu duvido. Você não dá conta de brincar com a gente direito.

A verdade. Ela só falava a verdade, mas aproveitou para rir à vontade. Pensou que eu estava de brincadeira, que seria mais uma daquelas falsas promessas. Mas, como fiquei sério, ela mudou o tom da conversa:

– Já que é assim, te desafio a correr a volta, então!

– Desafio aceito!

Claro que, naquele momento, eu não tinha a mínima ideia da aventura que tinha pela frente. Como aceitar o desafio de correr 17,8 km sem nunca ter trotado 1 km inteiro? Guardei aquilo só para a família, porque, se dissesse para outras pessoas, com certeza iriam me chamar de louco.

Maluco ou sem noção, não tinha como desistir. Eu havia prometido à minha filha. E tinha certeza de que, se não cumprisse, ela sempre iria tocar na derrota.

Com aquele quadro de sedentarismo e a balança em pé de guerra com minhas medidas, você já deve imaginar para onde tive que voltar para dar os primeiros passos rumo ao desafio.


 

 

Um jeito na vida assim de uma hora para outra?

Quando o assunto é atividade física, no meu caso, nada aconteceu tão rapidamente. Enfrentei alguns tropeços, especialmente na época em que o médico recomendou a musculação.

Baixa imunidade, resistência frágil, alimentação irregular e o retrato do sedentarismo foram sinais que me indicaram a necessidade de procurar uma academia perto de casa. Nem preciso dizer o quanto admirava o ambiente da academia.

Era fevereiro. Uma academia recém-inaugurada, com todas aquelas promessas encantadoras. A conversinha mansa dos proprietários e lá fui eu, comprar um pacote anual, mais em conta. O desconto era interessante. Os benefícios, infinitos.

Surfei um pouco na onda do verão, vésperas de carnaval, e a academia estava lotada. Com certo esforço, ia três vezes por semana. O resultado começou a aparecer, mas, lá por abril, peguei dengue. Com os sintomas, claro, sem chance de fazer qualquer atividade física. Uma semana de molho.

Outra semana sem frequentar a academia. Depois, ia, no máximo, duas vezes por semana. Minha carga horária de trabalho aumentou e ficou fácil inventar desculpas para abandonar a musculação. Não é o final da história ainda, mas a moral você já conhece: tornei-me um patrocinador daquela empresa.

Do efeito sanfona ao retorno ao perfil de sedentário foi um pulo. Desde então, nunca mais paguei por um pacote promocional. O pessoal até fica irritado comigo, mas peguei ranço desses “descontos”.

Antes de voltar a caminhar, reforço que continuo não gostando da academia. Só vou por necessidade e para continuar firme no propósito, evitando complicações que vou tratar ao longo da nossa jornada.


 



Até o ano de 2018, a atividade que mais me causava preguiça era a tal da caminhada. A ideia de colocar uma bermuda, uma meia, calçar um tênis e ir para o parque caminhar parecia uma das atividades mais sem noção do mundo.


Outra verdade: atividade física nunca foi meu forte. No futebol, minha habilidade como gandula é, no mínimo, questionável. Sempre tive um certo interesse pelo basquete, mas, assim como no vôlei, acreditava que, além de altura, era preciso tino e jeito para a coisa.

Como centenas de crianças das décadas de 80 e 90, influenciadas por astros como Bruce Lee, Jean-Claude Van Damme e Jackie Chan, cheguei a sonhar que seria um praticante de kung fu. Delirava com as cenas de kickboxing e, para minha surpresa, cheguei até a fazer aulas experimentais de Taekwondo.


Certa vez, meu irmão mais velho, depois de assistir a uma de minhas “lutas” com o primo na rua, comentou: “Para você, que não é de briga, o melhor é praticar o esp-2 (corrida de alta velocidade). Para não apanhar tanto, você tem que ser ligeiro”.


Ali residia a verdade: adoro ficar longe de brigas e confusões. Só que isso não mudava o fato de eu ser desajeitado, e até hoje ter uma coordenação motora digna de palco de comédia.


Talvez, seja por conta dessa carência de habilidade com praticamente todos os esportes que desenvolvi uma certa repulsa à caminhada como atividade física. Inocentemente, achava que já havia caminhado demais na vida, afinal, ao longo de toda a educação básica, ia e voltava para a escola a pé.


Por que tanto ranço com a caminhada? Em palavras, reproduzo a seguir uma espécie de fotografia dos pensamentos que eu tinha naquela época. “Oh, que raiva desses médicos que vêm com esse papo de fazer caminhada. Quer saber? Não tenho paciência para esse troço, não. Caminhada é perda de tempo, gente. E a máxima dos preconceitos: caminhada é exercício para velhos e pessoas que não têm nada o que fazer na vida.”


Reconheço que essas imagens dos meus antigos pensamentos podem até assustar. Confesso que não consigo imaginar que pensei assim por tanto tempo, mas, como prometido, não vou mentir. Tive que registrar isso em palavras.


A esta altura, peço ao Universo que perdoe todas as pessoas que praticam caminhada, aquelas que eu tratei com tanto preconceito. Perdão também pelas desculpas esfarrapadas que inventei para não caminhar com as pessoas mais próximas, especialmente minha esposa e minhas filhas.


Falando em filhas, e antes de contar como comecei a caminhar, sempre me recordo de um episódio em dezembro de 2015. Acredito que tenha sido meu primeiro grande sinal de sedentarismo: eu ficava ofegante só de abaixar para amarrar o cadarço do tênis.


Naquele fim de ano, enquanto brincava com minha filha, percebi que caminhar rápido estava ficando muito difícil. A verdade, que demorei a aceitar, era que meu preparo físico estava bem perto da nota zero.


Era hora de dar um jeito nesse capítulo da minha vida.


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