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Por passar um certo tempo com as obras de um artista, a gente vai sendo contaminado, ficando doente.

 

Bastou a pergunta de uma jovem estudante para que eu me desmanchasse em incertezas. A pergunta?

 

“Por que nem sempre é tempo de ler Clarice Lispector?”

 

Às vezes, as palavras apenas surgem como tinta, em cores ainda sem nome, à disposição na paleta de um pintor expressionista.

 

Leio para me despertar de sonhos intranquilos da noite imprecisa que se estende por muitas semanas.

 

Leio para voltar à superfície, frágil, mesmo deixando as raízes dos meus dilemas à mostra.

 

Leio por estar cansado de fugir. Existir dói menos que pensar. Leio para encontrar uma gota de força na rua do reencontro. 


Leio e escrevo porque preciso me reencontrar.

 

Será que com essas linhas de nuvem eu consegui responder?



 "Porque o silêncio em si é como o som dos diamantes que podem cortar tudo!” escreveu Jack Kerouac. Arrisco-me a afirmar que o porta-voz da Geração Beat, do final dos anos 1950, tinha consciência do alcance do seu timbre nas gerações futuras.

 

Primeiras constatações foram o impacto sobre a contracultura e o movimento Hippie da década seguinte. Embora seja um escritor muito conhecido, sobretudo pela publicação da obra "On the Road" (Pé na Estrada, 1957), que ainda não li, escolhi ficar apenas com a frase inicial. Em alguns momentos, uma frase basta, em outros, uma palavra.

 

Se possível, releia-a mais uma vez, antes de seguir. O mundo contemporâneo não tem lidado muito bem com os tempos de silêncio. Em certos contextos, quaisquer segundos sem som representam uma batalha.

 

A impressão é de que fazer silêncio, calar-se diante daquilo que a gente não sabe, não conhece, silenciar-se para ouvir melhor, tem sido cada vez mais difícil.

 

Parece-me que só vale o silêncio dos outros, a recusa, o afastamento. Cansei dos gritos das redes na artificialidade das telas. Cada vez mais venho apreciando o silêncio dos encontros e a paz das descobertas.


Nesse templo, apreciar os sons do silêncio pode nos levar para outras terras dessa comparação: som dos diamantes/silêncio. E bendito seja o livreiro Paulo Fernandes que, na manhã de domingo, nos trouxe Jack Kerouac!

 

A partir dessa citação, nossa! Uma série de representações do silêncio foram pousando nas páginas azuis da minha rotina. Porque além do poder de cortar que nem diamante, o silêncio tem peso.

 

Porque há o silêncio que nos derruba e o que nos levanta, o da poeira e o da lama. Não sei por que, mas sempre imaginei a eternidade como uma das dimensões do silêncio. Tá vendo aí, Paulo? Olha só pra onde a gente está indo...

 

E por fim, ou o início de um sim para as singularidades do silêncio – contrariando – quero que fique com uma cena: o estouro de uma bolha de sabão diante das asas de um beija-flor.


... farelos por aí ... 

 



Os vencedores sempre encontram o endereço com a maior precisão do mundo. Falar que se trata de um bairro de divisa não cola mais.

 

Em uns boletos, consta-se que sou morador do Conjunto Carajás; em outras contas, a residência está localizada no bairro Pedra Azul.

 

De uns tempos pra cá e com a permanência do CEP, deixei de lado essas fronteiras, aceitando como veredicto o segundo. Pedra Azul tem mais sustância para a vadiagem, para aqueles que gostam de bater pernas por aí. Antes de sentar-se para escrever esta migalha, eu estava vadiando por aí.

 

Aqui as ruas têm nome de pedras e águas. Tenho a magia de morar entre a Granito e a Safira, acima das Águas Marinhas. Para se ter uma noção, a mercearia mais antiga do bairro se encontra nas Águas Formosas. São nomes interessantes!  

  

A principal referência para quem vem de longe é a Cidade de Minas, rua mais larga da região. Lá tem posto de gasolina, uma renca de botecos e algumas hamburguerias. Com seus 1.300 metros quase planos, atua também como pista de caminhada e corrida.

  

 Ao contrário dessa relativa extensão, minha casa fica em uma rua que compõe apenas um quarteirão, quase uns 300 metros e olhe lá... se dá isso. Embora seja classificada como preciosa, brilho metálico, a coitada é sempre confundida com outra pedra, a pirita. O nome da nossa?  

 

            Marcassita. Uma pedra leve, frágil, além de possuir uma estrutura cristalina diferente da tal pirita. Um antigo morador me explicou que marcassita é um sulfeto de ferro. Com fotos no celular e lembranças das lições de Química (FeS2), mostrou algumas imagens da pedra que dá nome a nossa rua.  

 

            Ao ir atrás de mais mistérios da tal pedra, descobri que a marcassita também é conhecida por seu visual vintage; possui capacidade de adicionar um toque elegante e sofisticado a joias.

 

Longe de ser um ourives, uma coisa posso garantir: nossa rua é uma joia rara! Desde que aqui chegamos, há uns 17 anos, essa rua possui um brilho para cada estação. Quem foi embora, ainda sente saudade.

 

Não se sabe se tem a ver com a atmosfera das cidades do interior. Ora parece com as rotinas de uma vila, ora fica a impressão de que todos os moradores se conhecem intimamente:  

 

– Pode deixar sua neta brincando aqui com minha filha, enquanto o senhor vai à farmácia.

 

– Vai chegar uma encomenda aí para mim, posso pedir para entregar na sua casa?

 

Seu Geovane caminha com a esposa antes de levar as gaiolas de canarinho para fora. Seu Lopez com as três lindas netas aguarda o motoqueiro com a broa de fubá quentinha para o café da manhã. Dona Rosa rega as plantas do passeio, sorrindo-nos com um bom dia. O vidraceiro brinca com seu cão caramelo levado, no fim da tarde. O frentista que, nos finais de semana se veste de Homem-Aranha para vender pipas na Cidade de Minas. A dona Carolina que prepara um lanche especial para os rapazes da coleta, aos sábados. Seu Neco fez três casinhas para os cachorros da rua, ainda por cima dá comida, banho, vacina e passeio das 17h.  

 

Pedra no nome, brilho nas memórias, cor dos encontros, brinde da partilha, Rua Marcassita.  


    ... farelos por aí ...

 


– O homi tá cuspindo bala na cozinha. Era hora já de tá na rua atrás de mais uns quilômetros pra cumprir com o tal do desafio.


– Como sabe que ele tá nervoso?


– Ah, isso é fácil de perceber. Como sal com esse traste aí um tempo bão, menina.


– Já é vem a senhora de novo querer maltratar o pai. Só fiz uma pergunta boba e...


– Boba sou eu que tem que aturar aquela praga fazendo essa barulhada, antes das sete. Vai quebrar outra vasilha daqui a pouco, vá escutando aí. Ahh o jeito que o infeliz joga os talheres na pia. Perigoso nem olhar se tem algum copo lá.


– Então é assim que a senhora identifica que ele tá bravo, chateado?


– Fica pior do que a gente naqueles dias. E o diacho tem que descontar na pia lotada? Ô vontade de descer lá e chamar na xinxa. Ô vontade.


– Bobeira, mãe. Até sair da cama, se preparar e descer, meu pai já vai tá calmo. Deve ter perdido hora, não achou um copo limpo ou o pó de café acabou.


– Verdade. Pensando pro bem, vamu deixar isso pra lá. Vamu dormir mais, tamu de férias.


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