Quinta, 04 de junho

 


Sancho,

 

Faltam vinte e quatro dias para a maratona e a pergunta inquieta é: quando, afinal, poderei chutar para longe esta sandália ortopédica?

 

Na tarde da última quarta-feira, entreguei-me à máquina de ressonância magnética. O veredito oficial só sai no dia 9, mas, por ironia ou providência, um dia antes já tenho consulta marcada com o especialista. A ansiedade corre mais rápido neste momento. Não vou mentir.

 

Hoje é feriado santo, Sancho. Estamos na casa da minha mãe, o lugar onde meu irmão mais velho me aguardava para o tão esperado longão de 32 km. A rota já estava desenhada na mente: rasgar o asfalto entre Conceição do Mato Dentro e Dom Joaquim.

 

Ficará para uma próxima oportunidade, meus queridos. O destino recalculou a rota. Por aqui, recolho as armas, dedico-me às leituras e ponho-me a digerir os acontecimentos dos últimos dias.

 

Mas confesso, meu fiel escudeiro: o maior desafio de autocontrole tem sido resistir aos encantos da mesa da vovó. Saladas frescas, abóboras bem temperadas, quitutes variados, canjica, queijos legítimos... Ai, ai, ai, Sancho! Como explicar para o coração de mãe e avó que o atleta lesionado precisa segurar o garfo? Não se pode fazer desfeita.

 

Vou ficando por aqui, meu amigo. Recolhido nos quartéis de inverno, esperando o próximo café.

 

Até breve.


 

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