Sancho, meu fiel escudeiro,
Há quanto tempo a gente não se fala? Pois
saiba que estes últimos dois dias foram de uma intensidade preciosa, meu amigo.
Você está ligado que nunca fui de romantizar
o ciclo preparatório para a maratona. Mas parece que, com o tempo, a mente e o
corpo — como um todo integrado — vão se adaptando ao processo. Já que o
sofrimento faz parte da jornada, por que não se divertir um pouco e transformar
esse asfalto em moinhos de aventura?
Ontem, a rotina girou em alta rotação. Depois
de passar a manhã na sala de aula e dedicar a tarde à elaboração e revisão de
provas, busquei as crianças na escola. A noite caiu trazendo uma provocação:
quem topava acompanhar o papai no Treino Canequinha, lá na Lagoa da Pampulha?
Para minha surpresa, as três aceitaram o
desafio. Minha esposa e as meninas alugaram as bicicletas e, a cada tiro de
velocidade que eu dava, lá estavam elas, pedalando e dando o maior apoio para o
papaizão aqui. Ver a família ali, na beira da pista, transformou o treino em
uma experiência e tanto.
Mas o descanso é breve na vida de um
cavaleiro andante. Dia 28 de maio. O corpo nem bem havia esfriado e o
"Treino Espelho dos Princípios" já batia à minha porta com um aviso:
“Vamos, que mais tarde você tem uma atividade de campo com os estudantes no
Instituto Inhotim”. Sem vacilar, às 04h04 eu já estava na pista, correndo para
acolher o dia que nascia.
E que dia, Sancho! Ver os estudantes perdidos
entre as galerias Cosmococa e Adriana Varejão, perplexos com
tanta beleza, foi um espetáculo. A arte dialogando com os diversos tons da
natureza... e aquela exposição, “Esconjuro”, do grande artista Paulo
Nazareth? Que força! Sem explicação. Fiquei um tempão estático, só
pensando, processando e agradecendo a Deus por poder viver tudo isso.
Porém, a conta da jornada chega. Os treinos
seguidos, as longas andanças pelo museu, as filas e o trânsito dantesco na
volta para casa pesaram. Foi tomar um banho de "apague a luz" e eis
que conquistei o sono profundo — a cabeça virou uma pedra no travesseiro.
Quando os olhos abriram, já eram 04h20. Putz! O relógio correu mais rápido. Não
dava mais tempo para cumprir a distância do dia.
Em outros tempos, Sancho, eu ficaria
chateado, me cobrando por não conseguir realizar a planilha. Hoje, a maturidade
me estende a mão. Reconheço que meu corpo tem limites, recordo-me de que não
sou um atleta profissional e aceito que o descanso também ajuda a polir o
brilho da disciplina.

0 Kommentare:
Postar um comentário