Sexta, 29 de maio

 


Sancho, meu fiel escudeiro,

 

Há quanto tempo a gente não se fala? Pois saiba que estes últimos dois dias foram de uma intensidade preciosa, meu amigo.

 

Você está ligado que nunca fui de romantizar o ciclo preparatório para a maratona. Mas parece que, com o tempo, a mente e o corpo — como um todo integrado — vão se adaptando ao processo. Já que o sofrimento faz parte da jornada, por que não se divertir um pouco e transformar esse asfalto em moinhos de aventura?

 

Ontem, a rotina girou em alta rotação. Depois de passar a manhã na sala de aula e dedicar a tarde à elaboração e revisão de provas, busquei as crianças na escola. A noite caiu trazendo uma provocação: quem topava acompanhar o papai no Treino Canequinha, lá na Lagoa da Pampulha?

 

Para minha surpresa, as três aceitaram o desafio. Minha esposa e as meninas alugaram as bicicletas e, a cada tiro de velocidade que eu dava, lá estavam elas, pedalando e dando o maior apoio para o papaizão aqui. Ver a família ali, na beira da pista, transformou o treino em uma experiência e tanto.

 

Mas o descanso é breve na vida de um cavaleiro andante. Dia 28 de maio. O corpo nem bem havia esfriado e o "Treino Espelho dos Princípios" já batia à minha porta com um aviso: “Vamos, que mais tarde você tem uma atividade de campo com os estudantes no Instituto Inhotim”. Sem vacilar, às 04h04 eu já estava na pista, correndo para acolher o dia que nascia.

 

E que dia, Sancho! Ver os estudantes perdidos entre as galerias Cosmococa e Adriana Varejão, perplexos com tanta beleza, foi um espetáculo. A arte dialogando com os diversos tons da natureza... e aquela exposição, “Esconjuro”, do grande artista Paulo Nazareth? Que força! Sem explicação. Fiquei um tempão estático, só pensando, processando e agradecendo a Deus por poder viver tudo isso.

 

Porém, a conta da jornada chega. Os treinos seguidos, as longas andanças pelo museu, as filas e o trânsito dantesco na volta para casa pesaram. Foi tomar um banho de "apague a luz" e eis que conquistei o sono profundo — a cabeça virou uma pedra no travesseiro. Quando os olhos abriram, já eram 04h20. Putz! O relógio correu mais rápido. Não dava mais tempo para cumprir a distância do dia.

 

Em outros tempos, Sancho, eu ficaria chateado, me cobrando por não conseguir realizar a planilha. Hoje, a maturidade me estende a mão. Reconheço que meu corpo tem limites, recordo-me de que não sou um atleta profissional e aceito que o descanso também ajuda a polir o brilho da disciplina.

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