Sancho,
Às 15h22, o corpo ainda é um mapa de dores
silenciosas. Estou moído, é verdade, mas carrego aquela satisfação densa de
quem não negociou com a planilha. Cumpri o rito.
Às vezes, eu mesmo duvido da cena: o relógio
marcando 03h30 e eu lá, na pista, recebendo no rosto o frescor úmido desse
outono que já ensaia o inverno. Foram 16 quilômetros de entrega absoluta. Para
alguns, o diagnóstico é o surto; para outros, o rótulo é o foco ou a disciplina
inabalável. Para mim? É apenas o compromisso de não faltar com a palavra que
dei a mim mesmo. Nada mais.
No ciclo da maratona – que, sejamos sinceros,
não difere tanto assim da vida – a regra é o passo a passo. É o fracionamento
da energia para que nada falte no final. Quem diria que eu teria o estofo
psicológico e a condição física para completar oito voltas na mesma rua onde,
anos atrás, comemorei o meu primeiro quilômetro ininterrupto? A vida insiste em
ser circular para nos mostrar o quanto avançamos.
Gratidão a Deus e a todos que, direta ou
indiretamente, sustentam esse processo — especialmente minha esposa e filhas e
o time da BH Run.
Ah, e um último comentário, meu caro Sancho:
aquela nossa conversa sobre o "chifre" que levei... Olhe, tem dado o
que falar.
Fui.

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