Terça, 26 de maio


 

Sancho querido,

 

Lá vem a pequena Clarice. Carrega uma mochila quase do seu tamanho, a lancheira atravessada a tiracolo, após descer três andares de escadas. Mal cumprimenta o pai e já sai em disparada para o banheiro. Quer saber se comprei seu lanche, volta correndo, e eu coloco em seu pescoço o crachá da turminha — faltam menos de cinco minutos para a saída. Ajeito o estojo dentro da pasta de inglês e assumo o peso da mochila. Enquanto os colegas vão chegando, ela se delicia com algumas colheradas de salada de frutas, já de olho na Paçoquita que vai devorar no caminho. De repente, o apito: hora de partir para a próxima aula do dia. O pai precisa ficar ali, firme no posto, até vê-la descer para o andar de baixo e ganhar a rua. Ela não vai embora sem o meu tchauzinho.

 

Sabe, Sancho, há tempos eu queria te contar como têm sido as terças e quintas, mas com ênfase na vida da minha pequena, entende? Uma rotina para guardar na memória. O milagre simples do crescimento. Que Deus abençoe nossos filhos, meu amigo! Eu ouvi um amém?

 

Agora, com a mochila dela nas costas, viro um autêntico assaltante de merendeiras: resgato um resto de suco de maracujá e um pedaço caprichado de sanduíche natural. Jogar fora? Que nada, Sancho. Daqui a pouco tem trote na pista, treino leve, aquele clássico no pace fofoca, e eu não posso chegar lá de estômago vazio, né?

 

E vamos que vamos, meu caro escudeiro, colecionando as lembranças dessa nossa abençoada correria em família.


 

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