08 de junho de 2026

 


Belo Horizonte, 8 de junho de 2026

 

Querido Sancho,

 

Depois de travar batalhas contra moinhos burocráticos (problemas com a biometria, uma primeira consulta perdida nas engrenagens do plano de saúde), cheguei ao segundo consultório. E dele saiu o veredito oficial.

 

Você já estava com os arreios prontos, meu amigo. Mas o meu corpo, não. O diagnóstico? Fratura por estresse no metatarso esquerdo.

 

A vinte dias da linha de chegada. Depois de entregar três meses de asfalto diário, de segunda a sábado; de vigiar o prato e consumir expressivas doses de vitamina N e vitamina S. Estou fora, Sancho. O relógio parou.

 

O veredito do homem de jaleco é implacável: três meses sem corrida. Em seis semanas, retorno para nova avaliação. Até lá, apenas musculação para os membros superiores. Será preciso recalcular a rota, rever o mapa. Esse gigante que se colocou no meu caminho não era moinho de vento; era real, e cobrou seu preço.

Após conversar com a família, com os amigos e com os que nos apoiam nesta preparação, fiz algumas ligações, enchi uma garrafa de água e me sentei diante do papel.

 

Estou arrasado, você sabe. Poxa, Sancho! Eu nunca entreguei tanto o meu corpo e a minha mente a um objetivo físico como fiz agora. Mas a corrida me impôs o ponto final. Ou melhor, um ponto e vírgula. Foi preciso adiar. Entende?

 

Agora, a planilha muda de figura. A substância da vez será a vitamina P. Vitamina da Psicologia, para manter a cabeça no lugar e não chutar o balde que demorei meses para encher.

 

Não me xingue, meu fiel escudeiro, mas as nossas conversas por aqui também precisam de uma pausa. Sem o asfalto sob os pés, este Diário perde o chão. Deixa de fazer sentido. Concorda?

 

Mas não se desespere. Conversaremos por outros canais, sob outras luzes e em outras prosas. E quem sabe no próximo ano, quando o osso colar e a utopia chamar de novo? Não precisa chorar, Sancho. Eu já verti as lágrimas que cabiam a nós dois.

 

Até o próximo ciclo, meu amigo.

 

D. Farelo

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  1. Eita! Fez de uma decepção um texto maravilhoso! É isso! A Literatura nos salva sempre!!!!!

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