Estou
em um novo relacionamento. Coisa de algumas semanas. A essa altura da vida eu
não esperava por um lance desses, mas aconteceu.
Ela chegou de repente. Como eu poderia prever um caso assim, em pleno inverno, duas semanas antes do Dia dos Namorados?
Quando parei para pensar na loucura que estava aprontando, ela já estava dentro da minha casa. “Só quero ver se você vai conseguir conviver com essa baixinha”, comentou minha esposa. Não sei se por ciúme ou pela velha mania de me criticar, querendo espalhar para a nova companheira o quanto posso ser difícil.
Problema
dela! Pelo visto, será uma dessas paixões de inverno, um relacionamento moderno.
Mas chega: nada de ficar falando da outra lá de casa.
Minha nova companheira vai comigo para todos os cantos: do trabalho para a feira, do mercado para a praça. Viajamos juntos. Ela fica toda contente quando é elogiada por sua discrição e firmeza. Ah, Rapenga é o seu nome, gente.
Alguns
vizinhos mais atentos e dados à fofoca andaram fazendo piada com o nome da minha
companheira no grupo do condomínio. De pura pirraça, saí do grupo. Quem tem passos
vacilantes são eles; o nariz desse povo é que parece torto.
Vizinho
é um caso sério! Eles nem conseguem disfarçar o quanto são inconvenientes. Uma moradora
do 307 andou espalhando pelo prédio que a Rapenga não tem nada a ver com o meu
estilo, que ela merecia coisa melhor e que eu não presto. E foi além: disse
que, com um trato no visual, a Rapenga arrumaria sujeitos bem mais
interessantes do que eu. Vê se pode... Quanta dor de cotovelo!
Eu
poderia ficar aqui contando um monte de absurdos dessa gente. Se não fosse
tomar mais do seu precioso tempo, comentaria até as confissões íntimas que ando
tendo com a Rapenga.
Mas
em respeito ao espaço que me cabe nesta crônica semanal, preciso confessar que
já começo a vislumbrar o fim desse relacionamento. Não que eu seja frio; tem
sido bom, compreende? Os amigos, mesmo que contrários ao caso lá no início,
chegaram a concordar que era necessário que eu passasse por essa experiência.
Acredita?
Embora
a Rapenga tenha entrado em nossa vida de modo avassalador, agitando a poeira dos
sentimentos, o fato é que começo a desejá-la longe da minha rotina doméstica.
Que vá encontrar outros companheiros mundo afora. Sim, claro, ainda tem sido
bom, Rapenga. Não espero, porém, ter como companhia na primavera, dezoito horas
por dia, a minha simpática bota ortopédica... aquela estrutura onde acomodo o
meu pé machucado, entende?
Que
assim seja. Amém!

0 Kommentare:
Postar um comentário