O menino da Chuteira Vermelha

 


Contagem, 10 de julho de 2026.

 

Caro Anderson de Oliveira,

 

Espero sinceramente encontrá-lo bem. Peço que me perdoe pela demora em deitar estas linhas ao papel; as demandas que antecedem as pausas do trabalho costumam nos roubar o tempo e o compasso. Por aqui, entre os corredores da escola, costuma-se brincar que o Dia dos Pais chegará antes do Recesso. Exageros do cansaço à parte, confesso-lhe que, quando sua carinhosa mensagem me alcançou, trazendo o aviso do livro, eu já havia iniciado a leitura da sua mais nova obra.

 

Leitura? Não. O que fiz foi embarcar. Viagem pura, daquelas que nos tomam por inteiro, na companhia do menino Félix e do senhor Inácio. Afinal, como você sabiamente escreveu: “A gente viaja é para ver a beleza.”

 

E quanto encanto há nessa travessia, Anderson! Achei de um lirismo genial a escolha do enredo-viagem. Nós, leitores, acomodamo-nos no assento ao lado do protagonista e de seu padrinho; assistimos e participamos de cada cena, proseando com os passageiros que cruzam nosso caminho de estação em estação, nessa riqueza viva de idades, sotaques, costumes e culturas que pulsam no interior do nosso Brasil.

 

A capa e as ilustrações do talentoso Lelis, aliadas a um projeto gráfico impecável, parecem flutuar em sintonia fina com sua escrita de mestre. Cada página virada abre janelas para outras viagens visuais que emolduram perfeitamente a delicadeza do seu texto.

 

E aqui, meu amigo, preparo-lhe um momento de revelação. Ao acompanhar a jornada do Félix, fui inevitavelmente transportado de volta ao ano de 1993, quando eu chegava à cidade de Belo Horizonte. Para poder estudar, fui morar na casa do meu padrinho Tonhão. Foi ele quem foi até Conceição do Mato Dentro me buscar. Assim como o seu protagonista, quantas experiências profundas e transformadoras não vivi ao longo das tantas estações daquela minha própria viagem! Sua literatura teve o poder mágico de pescar as minhas memórias mais guardadas e trazê-las de volta à superfície.

 

Parabéns por colocar “tanta alma nas palavras” e por colorir os nossos dias com uma história tão repleta de humanidade e afeto. Seus livros possuem essa rara virtude: eles nos colhem, nos abraçam. Que imensa satisfação é partilhar desse tempo e ter você como companheiro de vagão nesta vida. Que felicidade, meu querido irmão de letras! Que a caminhada do Félix e do velho Inácio ganhe o mundo, semeando a magia, a poesia e a esperança que o seu olhar tão bem sabe colher da realidade.

 

Um forte e caloroso abraço,

 

Alfredo Lima


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