Azucrinado

                                        

Acordei revoltado no último sábado. A manhã já foi logo servindo uma xícara de irritações, sem poupar uma série de palavras indelicadas.


— Se demorar demais aí nessas leituras, vai perder a hora da coleta — disse a mulher que mora lá em casa.


É um tanto quanto desastroso sair correndo atrás do caminhão com um saco de lixo nas mãos.


Ufa! Pelo menos dessa vez eles não tinham passado ainda. Até os vizinhos comemoraram o feito, como quem diz: "Dessa vez deu certo".


Bem lá no fundo, eles queriam mesmo era assistir à minha derrota: eu correndo de pijama, despenteado, atrás do amarelinho. Meus vizinhos são... aguarde, à frente conhecerá um deles.


A água quase fervendo, o filtro ajeitado no coador... e cadê o pó? Cadê o pó de café? Nem um pouquinho no fundo da lata. Desde que a mulher quebrou minha garrafa, a cozinha ficou de pernas para o ar. Água no filtro sem pó? Nem pensar. Paciência!


Saí à rua. Na padaria, o assunto era o grande Vozinha, goleiro da seleção de Cabo Verde. Não comprei café lá. Com todo respeito, mas o de lá é do tipo horrível. Cansei de ser enganado.


De volta ao doce lar, uma voz punitiva lá do quarto gritou:


— Não está esquecendo de nada?


A comida das cachorras, trocar a água e a parte da higiene. Óbvio que eu tinha esquecido.


Nessa hora, deu uma enorme vontade de lançar as sujidades das cadelas na casa do vizinho. Que caísse cada pá de estrume no jardim do infeliz. É que ontem à noite, em plena Copa do Mundo de Futebol, o querido, o ilustre morador da casa ao lado, estava torcendo para a seleção da Argentina. Ô vontade de xingar, de mergulhar a cara dele no xixi de todos os cachorros da rua. Controle-se.


Na hora da feira, não consegui me controlar.


— E hoje tem o limão-capeta aí?


— Sim, senhor. Mas aqui, o dono mudou de religião, o senhor deve ter ficado sabendo. Ele não gosta que a gente fale assim da fruta. Está lá na placa, o correto é limão-rosa — corrigiu o gerente da loja. 


Nessa hora, eu não resisti. Soltei o verbo:


— Eu falo da forma que eu quiser. Que palhaçada é essa de mudar o nome do limão agora? Todo mundo sabe que se trata de limão-capeta e pronto.


— Calma, o senhor parece um pouco alterado hoje.


— Estou calmo. Fale para o seu patrão cuidar da vida dele. E que esse negócio de trair a esposa com duas amantes é que é coisa do diabo, viu?


Meu Deus! Eu tinha falado aquilo em alto e bom tom. Funcionários e clientes paralisados. Como assim? O seu Fernando trai a patroa. Todos sabem disso, mas ser explanado assim, antes do meio-dia de um sábado?


O mal estava feito. Até tentei disfarçar o estrago no ambiente. Fiz o pagamento, guardei as sacolas no carro e comecei a pensar:


— Que manhã louca! Aqui eu não volto tão cedo. E se o patrão descobrir onde eu moro?

 

Crédito da imagem: https://www.bbc.com/portuguese/vert-fut-60057457


0 Kommentare:

Postar um comentário

+