Sofá

 

     Moído. Parece que levei soco por tudo quanto é canto do corpo. O pescoço está dolorido até agora. Há, claro, o fator idade. Isso tem de ser levado em conta. Mas a conta que me levou a dormir no sofá saiu cara demais.

      

       Isso mesmo que você leu. A mulher que reina lá em casa, mãe das minhas filhas, mandou-me passar a noite no velho sofá da sala. E olhe que, dessa vez, eu nem fiz nada de propósito. Foi tudo uma mera questão de ponto de vista. Ou de falta dele.

      

       Tinha tudo para ser o dia mais comum da semana, não fosse mais um descuido deste desavisado que vos escreve. Início da tarde, as duas filhas no banco de trás: “Bora lá, que o papai tem um montão de coisas para resolver no trabalho”. Deixei a caçula na escola; a mais velha ficou no curso de inglês, de onde sairia mais tarde com uma amiga. Até aí, tudo certo. Só até aí.

 

       Lá pelas tantas, no meio do expediente, resolvo olhar o celular. Havia nove chamadas perdidas e uma enxurrada de mensagens da patroa. Fiquei gelado. O que teria acontecido? Algum acidente? Uma emergência? Liguei de volta com o coração na boca. Ela atendeu, respirou fundo, limpou a garganta com uma frieza cirúrgica e disparou:


       — Eu quero te matar. Só isso.

 

       Eu já vi minha esposa brava muitas vezes, mas ouvi-la congelar a linha telefônica daquele jeito me deu um medo daqueles. “Lascou. Agora eu estou completamente ferrado”, foi o único pensamento que orbitou meu cérebro naquele instante.

 

       — Será que você não pensa em checar o que está levando no meio dessas suas bugigangas? — continuou ela, o tom subindo um oitavo. — Certamente está dentro da sua mochila. Sou capaz de apostar que está no estojo, misturado com as suas canetas coloridas...  

 

       Inocentemente, com aquela audácia típica dos ignorantes, pedi que ela ficasse calma, garantindo que tudo se resolveria. Enquanto falava, abri o zíper da mochila, puxei o estojo e encontrei a prova do crime. Tentei argumentar, mas ela não me deu espaço para respirar.

 

       — Logo hoje que eu ia ao shopping! Tinha que trocar o presente da Priscila, olhar os figurinos da próxima montagem... O creme de cabelo das meninas está acabando! Só porque eu tinha tirado a tarde livre para resolver a vida... — a fúria dela do outro lado era quase palpável.

 

       Assim que o monólogo deu uma trégua e ela recuperou o fôlego, comecei a desfiar um rosário de mil desculpas, consciente de que seriam votos nulos. Afinal, como perdoar o marido que, por puro automatismo, deixa a esposa trancada dentro da própria casa?

 

       — Por que você tinha que trancar o portão e levar a minha chave junto? Não bastava levar apenas a sua cópia, infeliz? Fiquei igual a uma louca aqui, procurando em todos os cômodos. Tentei ligar para o seu Ronaldo trazer uma escada e me ajudar a pular o muro, mas ele tinha saído para passear com as netas. Os vizinhos do lado só voltam tarde da noite. Ah, se eu não conhecesse a sua velha lerdeza, juraria que foi de propósito!

      

       Ela voltou a cuspir fogo, prometendo que o vacilo custaria caro. Eu só não fazia ideia do tamanho do prejuízo. No início da noite, retornei com as crias para o lar. Destranquei o portão — usando o chaveiro do crime — e fomos recebidos por um silêncio pesado, daqueles que dá para cortar com faca. Veio a hora do banho, a hora do jantar, a hora do capítulo da novela, a hora de colocar as crianças para dormir. O silêncio do acerto de contas permaneceu intacto. Só quando cheguei à porta do nosso quarto é que o ultimato foi proferido, quebrando o gelo de forma implacável:

 

       — Aqui suas coisas. Hoje você dorme no sofá.

 

       Não houve “boa-noite”, nem segunda instância para apelação. Juntei meu travesseiro, a coberta, o lençol e fui saindo de fininho, com o rabinho entre as pernas, acomodando-me na sala e pensando... Tudo por conta de uma maldita chave.

 

       

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