Sancho, meu caro enfermeiro e fiel escudeiro,
Enviei uma mensagem ao treinador João
Eustáquio com a notícia de que estou melhor do que ontem. Alternei compressas
de gelo com massagens de diclofenaco dietilamônio, tudo devidamente escoltado
por cápsulas de cetoprofeno de oito em oito horas.
Asfalto e caminhadas ainda são horizontes
distantes, confesso. Mas a verdade, Sancho, é que depois de escrever aquela Carta
para Deus, o sono finalmente encontrou pouso. Ontem o treino foi outro, na
pista da vida miúda: fiz a feira, comprei carne e curvei-me ao banquete da
primeira pizza preparada pela nossa Cecília — temperada com todo o afeto que
cabe na nossa cozinha. Ali mesmo, entre um aroma e outro, devorei alguns versos
de Ryane Leão em “Tudo nela brilha e queima”. De fato, Sancho, há
fogueiras que a gente acende longe do asfalto.
Depois, enquanto lavava a louça, deixei os
olhos colados na tela com os episódios leves de O Mentalista. Deu certo.
Foi o analgésico que faltava para espantar os pensamentos intrusos e aquela
insegurança que insiste em morder o calcanhar do corredor parado. Olhando o
sabão descer pelo ralo, entendi o tamanho da gratidão que devemos ter pela
saúde de cada dia.
O domingo já começou no ritmo da minha outra
maratona. Corrigi uma Atividade Diversificada e garanti o sustento de Laika e
Magali com um novo saco de ração. Agora, à tarde e à noite, o "modo
professor" assume o comando da pista: é hora de elaborar provas, planejar
aulas e mergulhar nas leituras.
Aos poucos o corpo se apruma. Sancho,
continue rezando por mim.
Um abraço fraterno,
D. Farelo
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