Domingo, 31 de maio

 


Sancho, meu caro enfermeiro e fiel escudeiro,

 

Enviei uma mensagem ao treinador João Eustáquio com a notícia de que estou melhor do que ontem. Alternei compressas de gelo com massagens de diclofenaco dietilamônio, tudo devidamente escoltado por cápsulas de cetoprofeno de oito em oito horas.

 

Asfalto e caminhadas ainda são horizontes distantes, confesso. Mas a verdade, Sancho, é que depois de escrever aquela Carta para Deus, o sono finalmente encontrou pouso. Ontem o treino foi outro, na pista da vida miúda: fiz a feira, comprei carne e curvei-me ao banquete da primeira pizza preparada pela nossa Cecília — temperada com todo o afeto que cabe na nossa cozinha. Ali mesmo, entre um aroma e outro, devorei alguns versos de Ryane Leão em “Tudo nela brilha e queima”. De fato, Sancho, há fogueiras que a gente acende longe do asfalto.

 

Depois, enquanto lavava a louça, deixei os olhos colados na tela com os episódios leves de O Mentalista. Deu certo. Foi o analgésico que faltava para espantar os pensamentos intrusos e aquela insegurança que insiste em morder o calcanhar do corredor parado. Olhando o sabão descer pelo ralo, entendi o tamanho da gratidão que devemos ter pela saúde de cada dia.

 

O domingo já começou no ritmo da minha outra maratona. Corrigi uma Atividade Diversificada e garanti o sustento de Laika e Magali com um novo saco de ração. Agora, à tarde e à noite, o "modo professor" assume o comando da pista: é hora de elaborar provas, planejar aulas e mergulhar nas leituras.

 

Aos poucos o corpo se apruma. Sancho, continue rezando por mim.

 

Um abraço fraterno,

D. Farelo

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