Sábado, 30 de maio

 


Sancho, escudeiro fiel,

 

Poucas horas após nossa última conversa, vesti a bermuda azul, a camisa cinza e fui em busca daqueles 16 km lá na Lagoa da Pampulha.

 

A arrancada foi interessante: 5:08 no primeiro milhar; na leve descida, um 4:54; subiu um pouquinho, 5:05, ritmo que consegui sustentar por um tempo. Estava fluindo bem, meu amigo, até o quilômetro 7. E só até aí. Parei para o doce de leite, um gole de água. Antes mesmo de concluir a hidratação, precisei retirar o tênis, a meia. Parecia um pouco inchado, Sancho.

 

“Deve ser nada, vou completar os 8 km da ida e depois retorno leve. Daqui a pouco passa. Já passamos por tantas dessas.” Mas, faltando uns 100 metros para a metade exata do treino, a realidade cobrou o preço: parecia que tinha caído uma bola de fogo em cima do meu pé esquerdo. Cruz credo! Encostei na lixeira. E agora?

 

A outros 8 km do ponto de partida, onde estava o carro, sem aparelho celular para chamar um Uber, incomunicável, inquieto, inconformado. E machucado. A solução? A única saída, Sancho: voltar caminhando, sob a proteção divina, sentindo a irradiação da dor por entre os dedos e a marcha lenta dos pensamentos aflitos.

 

As compressas de gelo podem curar? não pode ser tão simples, como assim, sair para entregar uma distância dessa sem telefone? parece que estou sozinho no mundo? e se acontece algo pior? de mãos para trás, andando entre as mansões da Pampulha, os seguranças de olho neste moço, um ladrão à paisana? e, pela primeira vez no ciclo, sem conseguir entregar o longão da semana, será que vou ter que ir para o médico? o carro, minha casa, a compressa, a pressa pro pouso, nem ouso mais pensar no que está por vir?

 

Nem nos treinos canequinhas, nem nas subidas sob calor intenso, eu senti tanto, Sancho. A exatamente 29 dias da prova, a gente troca essa ideia aqui. Sim, já conversei com o treinador João Eustáquio também. “Se for o caso, vou lhe recomendar um médico que cuida dos atletas da assessoria”, ele me disse. E completou que, se a dor persistisse, era para suspender o treino imediatamente. Às 07h20 de um sábado, a gente conversando por mensagens... nem precisa pensar muito para entender o tamanho do balde de água fria, não é mesmo?

 

Meu amigo, andando com dificuldade, o jeito agora é cuidar do pé esquerdo e dos pensamentos. Desta vez, não foi somente um pequeno gigante cotidiano. Acredito que, antes da nossa próxima conversa, vou precisar escrever outra Carta para Deus. Onde quer que você esteja, reze por mim também.

 

Abraços,

D. Farelo


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