Sexta, 05 de junho

 


Sancho querido,

 

Amanhecemos a caminho da feira nesta sexta! Parecia dia de prova: acordei horas antes, aquela mesma eletricidade no peito.

 

Hoje era dia de levar uma das feirantes mais antigas ao Mercado Municipal de Conceição do Mato Dentro. Há quase sessenta anos, minha mãe recolhe seus trocados na feira e vem construindo amizades por gerações.

 

Quanto mais cedo, melhor. Arrumo a banca com calma, ajeito as bananas, separo o urucum e vou pesando cada saquinho antes de o primeiro cliente despontar. “Esse é seu filho, dona Eva?”

 

Sancho, que mulher arretada é mamãe! Enquanto ergue a banca, ela conversa com as amigas, vende açafrão, ovos caipira e rosquinhas de rapadura. Não para um segundo sequer. Que força!

 

Antes de o sol nascer, fui dar um giro pelo mercado e, de presente, o passado me cruzou o caminho com uma cena inesquecível — o primeiro diagnóstico da minha loucura, Sancho.

Eu tinha uns cinco anos quando o seu Joaquim, que cuidava da balança, sentenciou: “Esse menino parece meio atrapaiado das ideias, dona Eva”. Entre um sorriso e outro, minha mãe rebateu de pronto: “Que nada! Ele só é muito arteiro”.

 

Com apenas cinco anos, Sancho. Eu já tinha tudo para ser. Que orgulho me dá continuar assim: perigosamente arteiro.

 

Abraços,

D. Farelo

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