Belo Horizonte, 8 de junho de 2026

 

Querido Sancho,

 

Depois de travar batalhas contra moinhos burocráticos (problemas com a biometria, uma primeira consulta perdida nas engrenagens do plano de saúde), cheguei ao segundo consultório. E dele saiu o veredito oficial.

 

Você já estava com os arreios prontos, meu amigo. Mas o meu corpo, não. O diagnóstico? Fratura por estresse no metatarso esquerdo.

 

A vinte dias da linha de chegada. Depois de entregar três meses de asfalto diário, de segunda a sábado; de vigiar o prato e consumir expressivas doses de vitamina N e vitamina S. Estou fora, Sancho. O relógio parou.

 

O veredito do homem de jaleco é implacável: três meses sem corrida. Em seis semanas, retorno para nova avaliação. Até lá, apenas musculação para os membros superiores. Será preciso recalcular a rota, rever o mapa. Esse gigante que se colocou no meu caminho não era moinho de vento; era real, e cobrou seu preço.

Após conversar com a família, com os amigos e com os que nos apoiam nesta preparação, fiz algumas ligações, enchi uma garrafa de água e me sentei diante do papel.

 

Estou arrasado, você sabe. Poxa, Sancho! Eu nunca entreguei tanto o meu corpo e a minha mente a um objetivo físico como fiz agora. Mas a corrida me impôs o ponto final. Ou melhor, um ponto e vírgula. Foi preciso adiar. Entende?

 

Agora, a planilha muda de figura. A substância da vez será a vitamina P. Vitamina da Psicologia, para manter a cabeça no lugar e não chutar o balde que demorei meses para encher.

 

Não me xingue, meu fiel escudeiro, mas as nossas conversas por aqui também precisam de uma pausa. Sem o asfalto sob os pés, este Diário perde o chão. Deixa de fazer sentido. Concorda?

 

Mas não se desespere. Conversaremos por outros canais, sob outras luzes e em outras prosas. E quem sabe no próximo ano, quando o osso colar e a utopia chamar de novo? Não precisa chorar, Sancho. Eu já verti as lágrimas que cabiam a nós dois.

 

Até o próximo ciclo, meu amigo.

 

D. Farelo


Inacreditável!

 

(39/48) Contei pro amigo do Sancho que iria tentar os 21,1k sub 2h e ele me deu uma dica: “Vai lá, campeão! Comece bem cedo!”. Segui à risca! Tá feito! #meiamaratonadebh Segue o plano!

 

Sancho querido, é isso mesmo que você leu: um story do cavaleiro Adriano Britto nos mencionando. Às quatro e meia da manhã, o moço já cruzava o asfalto da Lagoa da Pampulha para aquele treino especial. Motivo de orgulho e pura inspiração.

 

O problema é que o mundo virtual corre rápido demais, meu amigo. Assim que repostei a imagem, choveram mensagens. Teve quem pensasse que o Farelão aqui já tinha batido o martelo em uma nova prova, que o perrengue no pé esquerdo era página virada e que eu já estava de volta às ruas. Ledo engano. A realidade tem outra cadência: meu último treino foi lá no dia 29 de maio, há longos nove dias.

 

Na manhã do último sábado, ainda na casa da minha mãe, o tempo parou. Acessei o resultado da ressonância magnética. Putz! A leitura de um leigo na tela do celular nunca é bom prenúncio.

Pesquisa daqui, levanta hipótese dali, faz contato com o treinador e, de repente, o diagnóstico nos atropela: uma lesão grave, nível 3, às vésperas de uma fratura por estresse. Nessa hora, Sancho, o peito aperta. Diante do visor, dispo-me da armadura e reduzo-me, inevitavelmente, ao Cavaleiro da Triste Figura. O moinho de vento venceu o primeiro assalto.

 

Mas quem tem um exército em casa não cai sem lutar. Minha esposa e as meninas chegaram com tudo, trazendo o bom senso que me faltava:

 

— Calma aí! Você precisa ouvir a opinião de quem entende, do especialista. Vai que, com o repouso dos últimos dias, a sandália ortopédica e os remédios, o cenário mudou e você já melhorou o suficiente para encarar o desafio?

 

A hora da verdade é amanhã, na parte da manhã. Neste dia 8 de junho, teremos o veredito do ortopedista. Ainda há esperança, Sancho. A centelha está lá, viva. Uma réstia que seja, mas há.

 

Por outro lado, o realismo também bate à porta, e o coração vai aceitando o peso de adiar a nossa grande estreia nos 42k para 2027. E as nossas conversas de asfalto? Bem... a gente conversa sobre isso depois.


Um abraço,

D. Farelo


 


Sancho querido,

 

Amanhecemos a caminho da feira nesta sexta! Parecia dia de prova: acordei horas antes, aquela mesma eletricidade no peito.

 

Hoje era dia de levar uma das feirantes mais antigas ao Mercado Municipal de Conceição do Mato Dentro. Há quase sessenta anos, minha mãe recolhe seus trocados na feira e vem construindo amizades por gerações.

 

Quanto mais cedo, melhor. Arrumo a banca com calma, ajeito as bananas, separo o urucum e vou pesando cada saquinho antes de o primeiro cliente despontar. “Esse é seu filho, dona Eva?”

 

Sancho, que mulher arretada é mamãe! Enquanto ergue a banca, ela conversa com as amigas, vende açafrão, ovos caipira e rosquinhas de rapadura. Não para um segundo sequer. Que força!

 

Antes de o sol nascer, fui dar um giro pelo mercado e, de presente, o passado me cruzou o caminho com uma cena inesquecível — o primeiro diagnóstico da minha loucura, Sancho.

Eu tinha uns cinco anos quando o seu Joaquim, que cuidava da balança, sentenciou: “Esse menino parece meio atrapaiado das ideias, dona Eva”. Entre um sorriso e outro, minha mãe rebateu de pronto: “Que nada! Ele só é muito arteiro”.

 

Com apenas cinco anos, Sancho. Eu já tinha tudo para ser. Que orgulho me dá continuar assim: perigosamente arteiro.

 

Abraços,

D. Farelo

 


Sancho,

 

Faltam vinte e quatro dias para a maratona e a pergunta inquieta é: quando, afinal, poderei chutar para longe esta sandália ortopédica?

 

Na tarde da última quarta-feira, entreguei-me à máquina de ressonância magnética. O veredito oficial só sai no dia 9, mas, por ironia ou providência, um dia antes já tenho consulta marcada com o especialista. A ansiedade corre mais rápido neste momento. Não vou mentir.

 

Hoje é feriado santo, Sancho. Estamos na casa da minha mãe, o lugar onde meu irmão mais velho me aguardava para o tão esperado longão de 32 km. A rota já estava desenhada na mente: rasgar o asfalto entre Conceição do Mato Dentro e Dom Joaquim.

 

Ficará para uma próxima oportunidade, meus queridos. O destino recalculou a rota. Por aqui, recolho as armas, dedico-me às leituras e ponho-me a digerir os acontecimentos dos últimos dias.

 

Mas confesso, meu fiel escudeiro: o maior desafio de autocontrole tem sido resistir aos encantos da mesa da vovó. Saladas frescas, abóboras bem temperadas, quitutes variados, canjica, queijos legítimos... Ai, ai, ai, Sancho! Como explicar para o coração de mãe e avó que o atleta lesionado precisa segurar o garfo? Não se pode fazer desfeita.

 

Vou ficando por aqui, meu amigo. Recolhido nos quartéis de inverno, esperando o próximo café.

 

Até breve.


 

 

Sancho,


Era dia de estrear o horário das 5h na academia, logo após o primeiro trote da semana. Mas ao pisar o chão frio da madrugada, os planos mudaram: a musculação ficou para depois do café da manhã.


Era para conseguir ensaiar a primeira parte de um treino leve na esteira, logo após vencer os exercícios de membros inferiores.


Era para ser o dia de entrar em contato com o treinador, dando-lhe boas e aliviadas notícias a respeito do meu quadro.


Era para perceber algum efeito do medicamento mais forte que, desde sábado, venho ingerindo religiosamente, conforme dita a bula.


Era para não perder a cabeça. Para, por um tempo, conseguir não pensar na terrível possibilidade de não cruzar a linha de chegada.


Era para ser uma tarde produtiva, livre do cansaço dessa busca incessante por um ortopedista — um especialista em pé, Sancho. Era para deixar para amanhã, mas não dá mais. Preciso ir, porque careço de respostas sobre quando, afinal, terá fim essa dor.


Era para eu estar mentindo sobre esse perrengue, inventando desculpas. Mas não, meu caro: aqui não tem firula, não tem filtro. Só lhe peço, mais uma vez, o de sempre: continue rezando por mim.


Era para ser uma despedida, mas é somente um até breve (te peguei... risos).

 


Sancho, meu caro enfermeiro e fiel escudeiro,

 

Enviei uma mensagem ao treinador João Eustáquio com a notícia de que estou melhor do que ontem. Alternei compressas de gelo com massagens de diclofenaco dietilamônio, tudo devidamente escoltado por cápsulas de cetoprofeno de oito em oito horas.

 

Asfalto e caminhadas ainda são horizontes distantes, confesso. Mas a verdade, Sancho, é que depois de escrever aquela Carta para Deus, o sono finalmente encontrou pouso. Ontem o treino foi outro, na pista da vida miúda: fiz a feira, comprei carne e curvei-me ao banquete da primeira pizza preparada pela nossa Cecília — temperada com todo o afeto que cabe na nossa cozinha. Ali mesmo, entre um aroma e outro, devorei alguns versos de Ryane Leão em “Tudo nela brilha e queima”. De fato, Sancho, há fogueiras que a gente acende longe do asfalto.

 

Depois, enquanto lavava a louça, deixei os olhos colados na tela com os episódios leves de O Mentalista. Deu certo. Foi o analgésico que faltava para espantar os pensamentos intrusos e aquela insegurança que insiste em morder o calcanhar do corredor parado. Olhando o sabão descer pelo ralo, entendi o tamanho da gratidão que devemos ter pela saúde de cada dia.

 

O domingo já começou no ritmo da minha outra maratona. Corrigi uma Atividade Diversificada e garanti o sustento de Laika e Magali com um novo saco de ração. Agora, à tarde e à noite, o "modo professor" assume o comando da pista: é hora de elaborar provas, planejar aulas e mergulhar nas leituras.

 

Aos poucos o corpo se apruma. Sancho, continue rezando por mim.

 

Um abraço fraterno,

D. Farelo

 


Sancho, escudeiro fiel,

 

Poucas horas após nossa última conversa, vesti a bermuda azul, a camisa cinza e fui em busca daqueles 16 km lá na Lagoa da Pampulha.

 

A arrancada foi interessante: 5:08 no primeiro milhar; na leve descida, um 4:54; subiu um pouquinho, 5:05, ritmo que consegui sustentar por um tempo. Estava fluindo bem, meu amigo, até o quilômetro 7. E só até aí. Parei para o doce de leite, um gole de água. Antes mesmo de concluir a hidratação, precisei retirar o tênis, a meia. Parecia um pouco inchado, Sancho.

 

“Deve ser nada, vou completar os 8 km da ida e depois retorno leve. Daqui a pouco passa. Já passamos por tantas dessas.” Mas, faltando uns 100 metros para a metade exata do treino, a realidade cobrou o preço: parecia que tinha caído uma bola de fogo em cima do meu pé esquerdo. Cruz credo! Encostei na lixeira. E agora?

 

A outros 8 km do ponto de partida, onde estava o carro, sem aparelho celular para chamar um Uber, incomunicável, inquieto, inconformado. E machucado. A solução? A única saída, Sancho: voltar caminhando, sob a proteção divina, sentindo a irradiação da dor por entre os dedos e a marcha lenta dos pensamentos aflitos.

 

As compressas de gelo podem curar? não pode ser tão simples, como assim, sair para entregar uma distância dessa sem telefone? parece que estou sozinho no mundo? e se acontece algo pior? de mãos para trás, andando entre as mansões da Pampulha, os seguranças de olho neste moço, um ladrão à paisana? e, pela primeira vez no ciclo, sem conseguir entregar o longão da semana, será que vou ter que ir para o médico? o carro, minha casa, a compressa, a pressa pro pouso, nem ouso mais pensar no que está por vir?

 

Nem nos treinos canequinhas, nem nas subidas sob calor intenso, eu senti tanto, Sancho. A exatamente 29 dias da prova, a gente troca essa ideia aqui. Sim, já conversei com o treinador João Eustáquio também. “Se for o caso, vou lhe recomendar um médico que cuida dos atletas da assessoria”, ele me disse. E completou que, se a dor persistisse, era para suspender o treino imediatamente. Às 07h20 de um sábado, a gente conversando por mensagens... nem precisa pensar muito para entender o tamanho do balde de água fria, não é mesmo?

 

Meu amigo, andando com dificuldade, o jeito agora é cuidar do pé esquerdo e dos pensamentos. Desta vez, não foi somente um pequeno gigante cotidiano. Acredito que, antes da nossa próxima conversa, vou precisar escrever outra Carta para Deus. Onde quer que você esteja, reze por mim também.

 

Abraços,

D. Farelo


 


Sancho, meu fiel escudeiro,

 

Há quanto tempo a gente não se fala? Pois saiba que estes últimos dois dias foram de uma intensidade preciosa, meu amigo.

 

Você está ligado que nunca fui de romantizar o ciclo preparatório para a maratona. Mas parece que, com o tempo, a mente e o corpo — como um todo integrado — vão se adaptando ao processo. Já que o sofrimento faz parte da jornada, por que não se divertir um pouco e transformar esse asfalto em moinhos de aventura?

 

Ontem, a rotina girou em alta rotação. Depois de passar a manhã na sala de aula e dedicar a tarde à elaboração e revisão de provas, busquei as crianças na escola. A noite caiu trazendo uma provocação: quem topava acompanhar o papai no Treino Canequinha, lá na Lagoa da Pampulha?

 

Para minha surpresa, as três aceitaram o desafio. Minha esposa e as meninas alugaram as bicicletas e, a cada tiro de velocidade que eu dava, lá estavam elas, pedalando e dando o maior apoio para o papaizão aqui. Ver a família ali, na beira da pista, transformou o treino em uma experiência e tanto.

 

Mas o descanso é breve na vida de um cavaleiro andante. Dia 28 de maio. O corpo nem bem havia esfriado e o "Treino Espelho dos Princípios" já batia à minha porta com um aviso: “Vamos, que mais tarde você tem uma atividade de campo com os estudantes no Instituto Inhotim”. Sem vacilar, às 04h04 eu já estava na pista, correndo para acolher o dia que nascia.

 

E que dia, Sancho! Ver os estudantes perdidos entre as galerias Cosmococa e Adriana Varejão, perplexos com tanta beleza, foi um espetáculo. A arte dialogando com os diversos tons da natureza... e aquela exposição, “Esconjuro”, do grande artista Paulo Nazareth? Que força! Sem explicação. Fiquei um tempão estático, só pensando, processando e agradecendo a Deus por poder viver tudo isso.

 

Porém, a conta da jornada chega. Os treinos seguidos, as longas andanças pelo museu, as filas e o trânsito dantesco na volta para casa pesaram. Foi tomar um banho de "apague a luz" e eis que conquistei o sono profundo — a cabeça virou uma pedra no travesseiro. Quando os olhos abriram, já eram 04h20. Putz! O relógio correu mais rápido. Não dava mais tempo para cumprir a distância do dia.

 

Em outros tempos, Sancho, eu ficaria chateado, me cobrando por não conseguir realizar a planilha. Hoje, a maturidade me estende a mão. Reconheço que meu corpo tem limites, recordo-me de que não sou um atleta profissional e aceito que o descanso também ajuda a polir o brilho da disciplina.


 

Sancho querido,

 

Lá vem a pequena Clarice. Carrega uma mochila quase do seu tamanho, a lancheira atravessada a tiracolo, após descer três andares de escadas. Mal cumprimenta o pai e já sai em disparada para o banheiro. Quer saber se comprei seu lanche, volta correndo, e eu coloco em seu pescoço o crachá da turminha — faltam menos de cinco minutos para a saída. Ajeito o estojo dentro da pasta de inglês e assumo o peso da mochila. Enquanto os colegas vão chegando, ela se delicia com algumas colheradas de salada de frutas, já de olho na Paçoquita que vai devorar no caminho. De repente, o apito: hora de partir para a próxima aula do dia. O pai precisa ficar ali, firme no posto, até vê-la descer para o andar de baixo e ganhar a rua. Ela não vai embora sem o meu tchauzinho.

 

Sabe, Sancho, há tempos eu queria te contar como têm sido as terças e quintas, mas com ênfase na vida da minha pequena, entende? Uma rotina para guardar na memória. O milagre simples do crescimento. Que Deus abençoe nossos filhos, meu amigo! Eu ouvi um amém?

 

Agora, com a mochila dela nas costas, viro um autêntico assaltante de merendeiras: resgato um resto de suco de maracujá e um pedaço caprichado de sanduíche natural. Jogar fora? Que nada, Sancho. Daqui a pouco tem trote na pista, treino leve, aquele clássico no pace fofoca, e eu não posso chegar lá de estômago vazio, né?

 

E vamos que vamos, meu caro escudeiro, colecionando as lembranças dessa nossa abençoada correria em família.


 

 

Sancho,

 

eis uma conversa na ponta da caneta — primeiro, no azul tímido das linhas do caderno.

 

A semana começou com tudo para não ser. Veio a inversão dos dias de treino, logo após a virose. Dois dias inteiros para me recuperar. Então, veio o Treino Canequinha, quarta-feira à noite, lá na Lagoa da Pampulha. E lá se foi a 11ª semana.

 

A 35 dias da maratona, meu amigo, é hora de certificar o índice de água, os suplementos e as vitaminas especiais (S e N). Desde nossas primeiras conversas, lembre-se, eu prometi te contar a verdade. Está lembrado?

 

Quando sai tudo errado, nos dias em que não consigo sequer calçar o tênis e sair para correr, eu compartilho. Por outro lado, quando pinta uma conquista (por menor que seja ao longo do caminho), eu também divido com você.

 

E hoje, Sancho, hoje foi um desses dias.

 

Vitamina S, ok! Fui dormir antes das 21h. Carga de carboidrato, antecedida por eletrólitos, ok! E para fechar a conta: agora tenho um novo suplemento durante a corrida. Doce de leite em sachê!

 

Muito obrigado, Deus! Muito obrigado, BH Run! Na manhã deste penúltimo domingo de maio, realizei o melhor treino de 32 km do Ciclo.

 

Agora, preciso descansar. Preciso descansar.

 

Sancho, dê comida e água para o Rocinante, por favor.

...


 



Sancho,

 

Hoje o papo será diferente. O povo tem me feito algumas perguntas nos bastidores desse Desafio e decidi responder a algumas delas. Segure o passo e acompanhe o relatório do seu Cavaleiro.

 

Primeiro, perguntam muito sobre as horas. Sabe bem que treino quando o dever permite. Quase sempre a madrugada é testemunha, mas, às vezes, o asfalto me acolhe sob o sol da manhã, no cair da tarde ou no ritmo da noite. Onde houver chão, haverá passada. E na rua, Sancho! Mais de 90% do caminho é feito no mundo real; a esteira é o castigo para dias sem remédio. Inclusive, você melhor do que ninguém sabe da minha preferência pelas manhãs frias e pelos dias chuvosos, quando a água lava o suor e a alma. É ou não é?

 

Olhando para trás, quem diria? Comecei a maluquice de correr calçando um sapatênis. De 2018 para cá, gastei mais de dez companheiros de sola. O mais caro deles? O Corre 4, da Olympikus. Se me perguntam sobre os badalados tênis de placa de carbono, respondo com a velha prudência: ainda não estou preparado para tamanha tecnologia. Os pés e a técnica marcham em ritmo lento, em pleno processo de crescimento. Quem sabe um dia, em outras estradas?

 

A armadura também precisa de reparos, então bato cartão na academia duas vezes por semana, além dos outros treinos de força. E na alimentação, a ciência é foda. Cansei dos géis de carboidrato que andavam me revirando o estômago e causavam enjoos; agora, testo novas fontes de energia para o dia da nossa maratona. Depois te conto, ainda está em análise.

 

Aliás, por falar em comida, por volta da quarta semana do ciclo, a engrenagem quase travou. Tive que mudar drasticamente o cardápio e injetar mais carboidratos nas veias. Do contrário, Sancho, eu teria surtado e abandonado a missão. A queda de energia estava detonando o espírito, meu amigo. Esposa e filhas foram implacáveis: “Que homem amargo, insuportável! Tá ficando um autêntico cavaleiro da triste figura.” Abençoado o carbo que salvou a paz do lar.

 

Ah, só para constar e deixar registrado aos navegantes: continuo firme, sem o auxílio de Mounjaro ou de qualquer outra caneta emagrecedora. Aqui a gordura se queima no fogo do próprio esforço. Gostou? Tô me achando o tal (risos).

 

Um forte abraço,

Farelo de Cervantes


 

 

Sancho,

 

Não vá ficar chateado ou com ciúmes, mas ontem eu te troquei por uma releitura. Depois de passar horas diante do computador, engolindo uma manhã de pequenos desgastes (ruídos na comunicação, cansaço acumulado), dei o salto.

 

Isso mesmo que você leu. Chega! Levantei-me num salto da cadeira: “Quer saber? Vou-me embora para a Rússia, e é agora!”

 

O contexto não parecia muito convidativo, admito, mas viagem é viagem. Em poucos minutos, Sancho, desembarquei direto no velório de Ivan Ilitch.

 

O cheiro da cera, o incenso das relações de aparência, a viúva com suas conversas atravessadas... Tudo aquilo me desligou por completo do dia, do mundo.

 

Ah, Sancho, naquele templo que só a leitura nos oferta, encontrei a anestesia para a dor dos últimos treinos; surgiu dali um espanador capaz de tirar a poeira dos pensamentos. Não sei explicar direito, mas tente imaginar alguém desanuviando a sua mente e polindo as suas ideias com poucas linhas. Tolstói é desses sábios que não precisam de apetrechos, de grandes arranjos com a palavra para nos encantar. Gênio!

 

Sancho, perdoe-me! Mas este desabafo era preciso: um pedido de desculpas e, acima de tudo, um relato de gratidão.

 

Um abraço e até o próximo treino.


 


Sancho amigo,

 

Vá lá que só consegui conversar contigo ontem, meu amigo. Não tive espaço nem para fazer a meditação do dia, acredita?

 

E quer saber? Não sofri. Consegui realizar o treino de corrida que era para segunda-feira, ao lado da minha esposa, depois das 21h. Passada ritmada, o asfalto fresco da noite, os dois juntos.

 

E por que não antes? Antes busquei a Clarice na aula de inglês, tive a honra de apresentar o “Livros em Todo Lugar” para a deputada estadual Lohanna França, troquei uma ideia federal com o vereador Helton Júnior e lecionei manhã e tarde. Reclamar de quê, Sancho?

 

Cheguei a um ponto em que cada tarefa realizada representa uma alegria enorme. “Ah, não consegui entregar tal atividade dentro do prazo?” Paciência, gente. Eu não sou máquina. Viu só como estou mais atrevido hoje?

 

Por aqui, tudo correndo bem. Daqui a pouco faço o treino que era para ontem, parceiro. O de hoje, amanhã, e assim vou rodando até o próximo domingo. E vamos que VAMOS — aos poucos, lento, isento e sempre.

 ...


 

Sancho querido,

 

Há três dias desaparecido, seu amigo aqui está o puro pó da rabiola. Bem, talvez não chegue a tanto. Exagerei um pouco, mas a verdade é que tô feito pipoca, pulando de um lado para o outro.

 

Ainda sinto o corpo meio tonto, fraco. Sei lá o que aconteceu, meu caro. No sábado, o treino já começou com atraso. Para ajudar, uma dor de barriga me pegou quando faltavam 5 das 12 voltas programadas na Rua Cidade de Minas. Terminei e saí de casa no galope: precisava levar a Cecília para o Simulado do Enem. O banho e o café da manhã ficaram para o meio do caminho; o repouso necessário, esse nem existiu, Sancho.

 

 

Ao retornar para casa, antes do almoço, inventei de abrir uma garrafa de vinho. Queria comemorar a façanha de rodar a maior distância da minha vida até aqui — 24 km — na principal rua do bairro. O tombo veio logo depois. Da hora da sesta até a noite do dia seguinte, fui assolado por uma indisposição total. Daquelas de nem ter coragem de colocar a cara na janela. Na semana passada foi a Cecília; ao longo dos dias, a esposa; e eu, o cavaleiro tardio, fiquei por último na fila da virose.

Correr hoje? Não corri. O tempo que seria da pista foi compensado em cima do trono. Cruz credo! E você acredita que, depois de deixar a mais velha na escola, ainda tive a cara de pau de ir à academia?

 

Já que não vou meter um atestado, já que estou cumprindo todas as obrigações e amanhã estarei firme com meus alunos, não ia ficar de bobeira esperando a melhora cair do céu. Nada disso, Sancho. Água de coco, xícaras de café e fé. Logo, logo estaremos de volta às pistas. Afinal, a folha do calendário não espera: daqui a 41 dias, a Maratona. Esses pequenos gigantes, os dias e os obstáculos, vão caindo um a um ao longo do caminho.

 

Que eu não desapareça por tanto tempo assim.

 

Um abraço


 


 



Sancho,

 

Às 15h22, o corpo ainda é um mapa de dores silenciosas. Estou moído, é verdade, mas carrego aquela satisfação densa de quem não negociou com a planilha. Cumpri o rito.

 

Às vezes, eu mesmo duvido da cena: o relógio marcando 03h30 e eu lá, na pista, recebendo no rosto o frescor úmido desse outono que já ensaia o inverno. Foram 16 quilômetros de entrega absoluta. Para alguns, o diagnóstico é o surto; para outros, o rótulo é o foco ou a disciplina inabalável. Para mim? É apenas o compromisso de não faltar com a palavra que dei a mim mesmo. Nada mais.

 

No ciclo da maratona – que, sejamos sinceros, não difere tanto assim da vida – a regra é o passo a passo. É o fracionamento da energia para que nada falte no final. Quem diria que eu teria o estofo psicológico e a condição física para completar oito voltas na mesma rua onde, anos atrás, comemorei o meu primeiro quilômetro ininterrupto? A vida insiste em ser circular para nos mostrar o quanto avançamos.

 

Gratidão a Deus e a todos que, direta ou indiretamente, sustentam esse processo — especialmente minha esposa e filhas e o time da BH Run.

 

Ah, e um último comentário, meu caro Sancho: aquela nossa conversa sobre o "chifre" que levei... Olhe, tem dado o que falar.

 

Fui.



 



“Tem dias que a gente se sente / como quem partiu ou morreu”, Sancho. É exatamente assim que saio daqueles treinos "canequinhas": o famigerado intervalado.


Mas ontem a conversa foi outra. Saí mais forte, confiante e, acima de tudo, consciente de que sou capaz de encarar as próximas etapas. Só nos faltou tempo para conversar, não foi?


Não sei explicar direito, mas sinto que os treinos desta semana estão me desbloqueando. É como se abrissem novas janelas na mente. Como tudo isso ainda é muito novo para mim, sigo apenas apreciando o momento, entende?


Não que esteja fácil. No trabalho, as demandas atropelam; na vida pessoal, exames inesperados deram um nó na saúde financeira da família; no instituto, o silêncio dos editais preocupa. Mas o treino desse ciclo me traz o respiro necessário — é a chance de não enlouquecer. 


A essa altura, imagino você rindo, com aquele ar de quem já viu de tudo, pronto para dizer: “calma, tudo isso passa, daqui a pouco melhora”.


Mas, ó, hoje eu não quero pedir nada. Quero apenas agradecer a Deus, Nosso Senhor, por todas as coisas do Céu e da Terra. Só isso.


Até breve, Sancho.

 

Sancho,

 

preciso te contar o que aconteceu na última noite. Prepare o espírito, meu amigo, porque a notícia é de cair o queixo. Só te peço uma coisa: não me chame de trouxa, combinado?

 

Flagrei minha esposa me traindo na última madrugada. E o pior: foi na nossa cama. Virei para o lado e lá estava ela, abraçadinha com o outro. Hug é o nome do infeliz.

 

Não, Sancho, não precisa preparar ciladas, armadilhas ou carregar a espingarda. Vou ter que conviver com esse sujeito por muito tempo. E antes que você me chame de chifrudo, saiba que as meninas já garantiram a cota de zombaria do dia:

 

— "Pai, a mãe disse que o novo marido dela é muito mais fofinho que você!"

 

— "Lá vem ele, o 'corno' arrumadinho, só esperando os braços da esposa para mais tarde..."

 

Vou protestar na porta da fábrica da Ortobom. Como permitem criar um travesseiro carinhosamente batizado de “marido”?

 

Depois dessa "traição" de espuma, só me restou buscar refúgio no asfalto. Saí para o treino de 50 minutos. O ritmo estava bom, a respiração cadenciada, mas, por um vacilo de cronômetro ou de destino, entreguei 49min50seg. Dez segundos que o ego reclama, mas que as pernas ignoram. De lá, direto para o consultório da nutricionista — afinal, maratona se corre com o coração, mas se sustenta com o que se coloca no prato.

 

Para quem quiser saber como estão as medidas, os cortes e as novas metas dessa jornada rumo aos 42km, deixem um comentário aqui na página.

 

Já para você, Sancho, não esconderei nada. Muito menos as próximas traições.


...

 

Sancho,

 

Em pleno domingo, despertei muito antes das 06h. Talvez essa seja uma das grandes recompensas de dormir cedo após os treinos longos: ganhar o dia enquanto o mundo ainda silencia.

 

Cuidei dos preparativos para um café da manhã especial de Dia das Mães. E não é que nos saímos bem na cozinha? A surpresa parece ter cumprido seu papel, e o sorriso da minha esposa foi o melhor feedback. O entusiasmo foi tanto que acabei incentivado a assumir também o almoço; no embalo, já deixei pronta a base das marmitas da semana — arroz e feijão devidamente garantidos. Ficou faltando apenas o lanche da tarde.

 

Por conta dessa busca por uma alimentação balanceada, desde a última primavera a cozinha tornou-se meu habitat nos fins de semana, especialmente aos domingos. É um espaço de dupla jornada: entre o fogão e a mesa, também habito o trabalho. Leitura, escrita, correções de provas e planejamentos de aulas dividem o tempo com o aroma do tempero.

 

Ainda sobre o autocuidado, tenho nova consulta com a nutricionista batendo à porta. Será que atingirei a meta? A ansiedade, como você sabe, é companheira de jornada. Mas deixemos o suspense no ar: quer que eu lhe conte os detalhes na nossa conversa de amanhã?

 


Sancho,


quebrado não; moído. Foi assim que enfrentei os desastres do treino desta manhã, meu amigo. Uma sucessão de equívocos: quebradeira total.


Pela primeira vez, não consegui entregar a quilometragem proposta pela assessoria; dos 32 km previstos, saíram apenas 28. Os 4 restantes foram ca-mi-nhan-do.


Agora, passada a decepção inicial, eis uma análise dos erros, meu amigo. E veja que não foram poucos:


1. larguei forte, pensando que sustentaria o ritmo até o final. Da metade para a frente, comecei a ficar tonto, com as vistas escurecendo;


2. o plano era correr 16 km e voltar, dividindo o esforço em dois movimentos. Inventei de fazer 18 km para depois tentar fechar com 7 + 7. Caí na besteira de negociar com a mente e perdi feio;


3. pela primeira e última vez, deixei de ingerir a cápsula de cafeína. Certamente é ela que segura a onda na segunda metade do treino;

4. a hidratação dos últimos dias foi insuficiente. Nunca fui de beber muita água e ainda estou lutando para melhorar esse quadro;


5. Faltou carboidrato na noite anterior. Inventei de sair com a família para comer uma porção de carne e acabei tomando uma caipirinha também;


6. Com a nova palmilha, por conta da fascite plantar, algumas unhas foram maltratadas — coitadas.


Quebradeira. Além desse quadro, senti muita dor nos membros superiores. Ao chegar em casa, tomei banho, comi uma banana e apaguei: exausto, decepcionado.


Assim foi a 9ª semana do ciclo de treinamento. Estamos a 50 dias da maratona e, até lá, esses erros não poderão ocorrer novamente. Preciso ajustar o peso e levar a hidratação a sério.


Sancho, que esta conversa de hoje sirva de lição para outros cavaleiros-corredores. Como pude ser tão ingênuo?


Boa noite!


 


Sancho,

 

Após trabalhar manhã e tarde, tive uma reunião com a equipe de Linguagens, das 19h às 20h30. Na sequência, a correria ao shopping para comprar o presente da mãe das meninas e um jantar tardio. Cama, só depois das 23h. Quarta-feira, 06 de maio de 2026.

 

Acordei antes do alarme, fui ao banheiro com os olhos ainda fechados, sem acender a luz e com uma dor de cabeça medonha, pesando sobre os olhos. O cálculo do treino: aquecimento, depois uns 6,7 km num ritmo forte; se eu ficasse até completar 1h15, daria tempo de voltar e despertar a Cecília? A conta não fechava. Era a soma dos cansaços juntamente com a carência de Vitamina S.

 

Voltei para a cama com os olhos cheios de areia, o embaraço dos pensamentos e os sintomas de uma gripe — seria esse outono um presságio de inverno? Ou apenas a insatisfação de não conseguir subir para a pista, interrompendo o segundo treino da semana? Esse negócio de ser disciplinado mexe com a gente.

 

Só nos dirigindo ao trabalho, em conversa com a Cecília (ô menina boa de prosa, gente; você teria orgulho de trocar umas ideias com ela), cheguei à conclusão de que tudo isso não passa de moinhos de vento espalhados ao longo dos caminhos daqueles que inventam de correr uma maratona. Em contextos do Mestre Cervantes, ouso dizer que se trata da penosa luta que travamos com os pequenos gigantes do cotidiano.

 

Enquanto aqui estou em diálogo com meu fiel escudeiro, liberto-me da ideia de que inventei uma desculpa esfarrapada para não treinar. Nada disso. No limite. E de uma coisa estou certo: ao escrever, aprimoro o manuseio da espada, alimento o Rocinante e vou tirando as palavras sombrias da caixola.

 

Sancho, perdoe-me por estar assim, nesse estado confuso; estou sob o efeito de uma Dipirona. Que Deus me abençoe! Dor de cabeça não presta.

 

Abraço,

...


 


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