A experiência de passar sete semanas envolvido na leitura da obra fundadora do romance moderno destravou uma das janelas da Casa Jornada.
A começar pela extensão do inciso na entrada, sinto-me à vontade para revelar: a janela lateral foi a primeira a ser reaberta.
Responsável pela principal entrada de luz natural, é por ela que recebemos o anúncio das estações meninas — o leque sereno de cores na primavera e as notas rústicas, à base de amêndoas, aos ritmos dos violoncelos no outono.
Para desemperrar
essa moldura, foi preciso chamar o maior marceneiro de todos os tempos. De tudo
o que há de mais moderno na mobília do mundo ocidental, um de seus traços sempre
lá está.
A cada dia que vinha
à minha sala para o ajuste da fresta, Mestre Cervantes abria sua caixa de
ferramentas. Discorria docemente, entre risos, sobre como cada aparato fora
utilizado em sua principal empreitada, lá nos tempos de prisão. A verdade? Eu sempre
me dividia durante essas sessões de concerto cervantino, enquanto ele operava o
conserto urgente da minha casa.
Por ribeiros,
estalagens, castelos, luas e lutas, ecoavam sinfonias de liberdade pelas
estradas da aventura. Entre glosas de cenários, estiletes de diálogos, martelos
de vozes e o serrote dos cochichos; sob o prego dos adjetivos, o parafuso do
disfarce, a cola dos embustes e o esquadro do humor sobre a mesa da ironia, eu
me perdia...
Até que chegou o dia em que o serviço ficou pronto. Na manhã de um 26 de janeiro, Mestre Cervantes partiu antes das nove. O carpinteiro não aceitou pagamento. Disse apenas estar grato pela água fresca do filtro de barro e pelo chá com biscoitos de cada encontro. E antes de ganhar a estrada, sentenciou:
— Como prestastes atenção em cada parte do ofício, menino, agora estás preparado para cuidar das outras janelas — e até das portas — de sua Jornada.
Que o Mestre
continue consertando janelas mundo afora.


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