“Livros em todo lugar” marcando presença na Escola Cidade dos Meninos – Ribeirão das Neves.  A professora de Química, Luciana Carla da Silva, por meio de uma linda iniciativa presenteou seus alunos com obras arrecadadas pelo nosso projeto. Parabéns, Luciana! Boa leitura, meninos!  


A garota do Baú Vermelho está férias. E com mais tempo livre, vire e mexe, está lá misturada nos livros espalhados em todos os lugares da casa.  

Na última sexta, à tarde, eu nem tinha acabado de retirar uma sacola cheia de livros da estante e ela já foi comemorando. Sentiu o cheiro de novidade. O olfato dela pra essas coisas está ficando bom, viu? Que ela seja Ratinha por muitos e muitos anos...   


Sempre procurei tratar com cuidado o modo como o livro, ao apresentar uma obra literária aos leitores, seja na sala de aula, seja em rodas de leitura ou palestras. Os livros merecem toda nossa atenção. E na medida do possível tento passar isso para minha filha.

Espalhei os títulos que estavam na sacola sobre a cama, todos da escritora Roseana Murray, que foram publicados pelas editoras Abacatte e Lê. Na sequência, chamei a garota.


– Cecília, qual desses livros você quer ler, primeiro, para indicar no blog?

Os olhos dela brilharam. Aquele inesquecível e saboroso cheiro dos tesouros saindo de suas casas. E de repente ela partiu pra cima de dois. Um deles era Kira, o outro, você já sabe. Nessas horas, eu só acompanho a cena. Não posso interferir. Muito menos emitir minha opinião. É ela quem dá o parecer.

– Vamos ler esse, primeiro, pai!


Estiramos na cama daquele quarto bagunçado. Um lado ao outro. Eu comecei a leitura. Só que ela não resistiu e tomou o livro da minha mão.

– Eu vou ler, pai!  

E leu mesmo. Leu em voz alta, encantando-se com as ilustrações.  Umas duas vezes, ela falou:

– Nossa! Que efeito tem essas imagens!

Nessas horas, a gente se derrete todo, como professor de leituras, ao descobrir que o tal efeito a que ela se refere tem a ver com as cores e os traços da ilustradora Elvira Vigna.

A história dos dois irmãos, abraçados pelas janelas azuis, deixou a Cecília pensativa. Depois dessa parte, ele focou toda sua atenção no azul. E para nos alegrar ainda mais, comentou orgulhosamente as cores do título na capa. Claro que não vamos contar nenhum segredo para os leitores.



Tenho que falar uma última coisinha a respeito desse último momento. Naquela hora, a garota do Baú Vermelho me fez lembrar um moço que virou estrela em 2014, quando afirmou, certa vez que: “poesia a gente não descreve, poesia a gente descobre”. 
Olá! É com muita alegria e satisfação que compartilho as boas novas dos últimos dias. Estamos iniciando uma nova fase do Projeto “Livros em todo lugar”.
            Depois de doar os 11.200 títulos na comemoração dos 4 anos da iniciativa, entre outubro e novembro, criamos o prêmio OBRA HOMENAGEADA DO ANO. Isto é, a partir de agora, vamos prestigiar uma obra infantojuvenil da Literatura Brasileira.
OBRA HOMENAGEADA 2017 - LIVROS EM TODO LUGAR
          O primeiro livro foiFardo de carinho. E para nossa alegria, a autora Roseana Murray recebeu a homenagem com muito carinho. Tive a honra de conversar um pouco com a autora. Roseana Murray é simplesmente encantadora.
Em parceria com a editora Lê, vamos sortear um exemplar do título homenageado. Se você quiser participar desse sorteio, bastar compartilhar o post “Carta para Roseana Murray”, publicado no face no dia 11.12. Vá à minha  time line. 
672 títulos doados pelos alunos do 1.º ANO - EM - Colégio Loyola - 
As novidades não param por aí... Meus alunos super fofos, da 1ª Série do Ensino Médio – Colégio Loyola – doaram em seis dias exatos 672 (seiscentos e setenta e dois) títulos para o “Livros em todo lugar”. Em nome dos moradores da nossa quebrada, MUITO OBRIGADO!
Não para por aí mesmo, no próximo domingo (17/12), vamos colar no “Mais cores, mais vida”, evento beneficente na Vila Francisco Mariano.Vai rolar muita coisa legal: doação de brinquedo, grafite, corte de cabelo, desenho, pintura e, claro, livros para os moradores.

E vamos que vamos...

... farelos por aí...
 

Linha tênue, bamba, invisível, frouxa. Divisória. A vontade de não ser. Minha vó Clarice foi quem me ensinou a brincar tristemente com as palavras.
– Jó, vá apurar a pureza do branco-manhã, azul-noite, verde-tarde, é sempre tempo de polir os móveis da sala de espera, esperando encontrar, na oculta face, a candura das faces que entram e saem sem esperar por nada. O escuro do claro e a luminosidade na fresta da janela evocam a poeira que ficou pelos cantos dessa sala.
– Grita não, seu irmão tá dormindo. O coitado chegou tarde e pregado do trabalho. Colocar as coisas dentro de casa num era pra ser tarefa dele não.
– É Deus que dá força, viu? Arrastar balaios de mandiocas maiores do que ele ladeira acima é serviço de homem. Ele é gente grande descansando como um menino.
Dizem que aprendi foi com ela a receber todo mundo bem.
– Bem até demais, né, Olímpico?
– Cale a boca, Glória, e deixe eu respeitar a velha, com ela não tinha miséria, fartura que nunca se viu, colocava a gamela cheia de biscoito em cima da mesa e só não comia quem era bobo. Queijo, quitanda, litros e mais litros de leite, café, chá com bolacha.
– Acabou? Faça mais, depressa, a alegria de pobre é ter o que comer, não é, meu filho? Então come direito, uai... Se a gente num comê, a terra come, né?
            O silêncio na hora do tumulto, ah, ela ficava quietinha observando a chuva passar, depois dava um toque no ombro da gente: menino, depois da tempestade, o céu fica mais bonito num azul-maravilha, o sol brilha que brilha na cabeça da gente, esquentando até os miolos. O tumulto no silêncio. Soltava os gatos, rasgava o verso e matava a sobra. A gente brigava com ela
– Vó Clarice, vá calçar chinelo! Larga de bobiça, menina, andar descalço é lá pecado? Sentir o frio da terra faz bem pra saúde.
            Fale mais baixo, ela pode estar te espreitando de piscadela. Nada disso. Cê num lembra, vovó, lá, cochilando com o cachimbo no colo, apagado, a gente pensando que estava passando por um sono, de repente:
Não se preocupem, meninos, já vou pra cama, num tô dormindo não. Só foi uma madorna, coisa de quem levanta cedo. Com as galinhas, não é, vó?
Roncava de olho aberto nas madornas, mas a gente nunca fazia peraltice como fazíamos com o vovô. Ah, cê lembra o dia que eu ia pegar o cachimbo dela? Sim, ela agarrou sua mão e: o que cê vai fazer com isso, Rodrigo?
            Corre que o café tá saindo, Glória! Tá cheirando o danado. Tudo que ela preparava de gostoso mandava um pedaço, pote, bacia, gole pra gente, ela gostava tanto de agradar que até desagradando, agradava.
– Ah, mas o silêncio dela é que constituía... marcava minhas horas.
– Que é isso, mulher? Eu que bebo e o cê que fica tonta? Dona Clarice marcar suas horas, como assim? Cê nunca vai entender, Olímpico, no silêncio ela contava muitas histórias de como devemos... Chega com esse papo de linha frouxa, bamba, tênue, se não vai ficar doida igual a sua filha.
– Nossa filha.
– Pai? Mãe? Silêncio!
– O caixão vai se fechar em poucos minutos.
QUIAT, Farelo de. A terceira porta da lua

Belo Horizonte: Asa de Papel, 2014.p.30-31.

Fotografia disponível em: <http://s1.1zoom.me/b5050/475/349128-blackangel_2048x1152.jpg>

A violência está em nós. Ao pensar e reconhecer que o problema está em nós, em mim, e não no outro - lá longe - levamos uma espécie de solavanco na cadeira das irrealidades.

Outros continuam na mira da ignorância.

Escrevo àqueles que sentem os solavancos desse busão que é nossa realidade, reinventando-o, esfarelando-o. Assim, sinto-me muito feliz por estar contigo nesse movimento de paz e serra, no olho mil das migalhas do cotidiano.

Quero, neste momento, agradecer aos brothers que estão conosco nesses riscos esfarelantes da quebrada para o mundo. 

E aí? Você vai encarar a verdade de que "a vida é um soco no estômago" ou vai ficar aí "perdoando a Deus"? 

As aspas são da Clarice e as migalhas, uns farelos do que há por aí...


TEC

Imagem disponível em: <http://catracalivre.com.br/wp-content/uploads/2013/10/Alexandre_Orion.jpg>
Incomoda-me a mecanicidade das “batidas”. Deve haver alguma autenticidade no girar da chave de uma conversa corriqueira. A pessoa sempre começa a fiar um assunto sobre o excesso de calor, ou suspira indignado com a falta da chuva?
Não. Não há uma luva para todas as partes do corpo. Como alguém conseguiu luvar os poros do diálogo, em situações introdutórias de comunicação?    
Que seja cru, mas sem crueldade! É que deveríamos procurar uma xícara de crueza nesses contextos anteriores a uma conversa. Nada de começar uma prosa qualquer, falando do tempo, do time de futebol, da situação execrável da política brasileira.
Que seja cru, porém sem crueza! É que deveríamos procurar umas palavras que não se encontram azulejadas no chão do cotidiano. Nada de começar uma fala qualquer, recorrendo ao emprego daquela expressão que fará com que o outro indivíduo se sinta um robô.
Que tal enunciar vocábulos que afastem dos interlocutores a resposta com interjeições bovinas ou monossílabas?
Que seja aprazível pensar no que o outro entoa, tendo que lhe dirigir um olhar de atenção. Gostaria muito de encontrar ditos-cujos que começassem assim a conversa:
– E aí, você viu quantas formigas já atravessaram a rua?
– Nossa, moça, será que alguém contou quantas telas o céu pintou nas últimas horas?
– Menino do céu, você viu que político foi aquele que escalou do inferno pra cá?
– Se este elevador acuar, vamos ter mais tempo para jogar fora. Legal, não é?
– Estou distribuindo abraços para todas as idades. Você aceita esse tipo de doação?
– De lance em lance, que você alcance o principal lance, nesse jogo que é a vida.    
De repente um moço bateu no meu ombro:
“Com licença, meu querido.”
– Pois sim, qual sua contribuição para essa crônica que se desenrola aqui e agora, nesta esplendorosa noite? – quis ser atencioso com o senhor.
“Nada, não meu filho. Com quem você estava conversando mesmo? São 04h45 da manhã e você nesse ponto solitário...”
– Eu?
“Com que fantasmas você desembolava suas ideias?”  
– Gostei dessa indagação, meu senhor. Assim se começa uma conversa!
Depois daquela madrugada, vou ser acordado com outras vontades de começar uma prosa. 



Entre a noite e o início de mais um raio de esperanças, acostumei com a ideia de levantar cedo. 
Às vezes, acordo um pouco mais tarde, atrasado no silêncio da prata que elimina a escuridão, para depois se misturar ao róseo do céu que se vai com a aurora. 
Em boa hora, o meu despertar se alegra com o universo das pequenas cenas. O dia cresce à luz azul do contorno amarelo, na trempe do fogão, meu irmão! Vou preparar o café e pedir ao Criador para iluminar nossa quebrada.
Imagem disponível em: <http://deniseludwig.blogspot.com.br/2013/01/arte-em-fotografias-e-pinturas-da.html> 

Contagem, 09 de dezembro de 2017

Prezada Roseana Murray,
Meu nome é Alfredo Lima, moro no Conjunto Carajás, que fica na cidade de Contagem – Região Metropolitana de Belo Horizonte. Sou, entre outros versos, uma pessoa apaixonada por livros, literatura, alguém que acredita no poder transformador da leitura. É sobre isso que venho conversar contigo. Em outras fontes, venho falar sobre um “Vaga-lume lume lume que ilumina meu caminho”.

A paixão pelos livros levou à criação do “Livros em todo lugar”, no ano de 2013. Trata-se de um simples projeto de incentivo à leitura, que tem como principal objetivo tornar o livro mais acessível aos moradores da nossa quebrada. A iniciativa nasceu como uma crônica, nas conversas corriqueiras de um sábado à tarde, no salão de beleza mais movimentado da região. Um dia, quem sabe, posso lhe contar como tudo aconteceu. O que acha?      
No último outubro, atingimos a marca de 11.200 títulos doados. Foram livros em praça pública, empórios, apresentações teatrais, escolas públicas, no quintal da nossa casa. Para se ter uma ideia, até no açougue já doamos livros.

Os títulos são doados por editoras parceiras, livreiros, amigos, alunos e professores. No momento contamos com três pontos fixos de doação. Em outras ocasiões, levamos os livros para a principal praça do bairro.  Além das doações, rolam apresentações teatrais e contação de histórias.  

Você deve estar se perguntando: “por que esse maluco está dizendo essas coisas pra mim?”

Bem, Roseana Murray, uma última curiosidade sobre o projeto e entenderá o motivo desta correspondência. Desde o início, lá em 2013, a nossa maior demanda foi de livros do universo infantojuvenil. Pensando na relevância da literatura brasileira e, claro, nessa procura ao longo desses quatro anos, decidimos dar mais um passo: homenagear uma obra por ano! Não se trata de um prêmio. Não é um concurso. É uma das formas que encontramos de agradecer aos escritores do nosso Brasil.

Em nome de todos os colaboradores do Projeto, com enorme satisfação, informo-lhe que a obra homenageada em 2017 pelo “Livros em todo lugar” é: Fardo de Carinho.  
Espero que esta notícia chegue até você, via e-mail, rede social... que chegue assim como pousou em nossa casa...exibindo um feixe de cores em sua asa. Foi mágico! Se possível, um dia lhe conto os detalhes.

Como foi seu primeiro livro de poemas, foi também a primeira obra homenageada pelo nosso projeto.
Um forte abraço,
Alfredo Lima, filho Eva e Raimundo.


Crédito das imagens: ilustrações da artista Elvira Vigna para o livro Fardo de carinho 
       
     
+