O que nos provoca? O que nos inquieta no cotidiano da cidade?
Há um mar branco de gestos mecânicos, ações que refletem as cores do vazio.
Cada vez mais tecnológicos, menos humanos.  
Se reuníssemos todas as atividades infrutíferas, sem fundamento, sem razão de existir; se juntássemos tudo em um pote... Ah, teríamos como resultado uma pasta branca, semelhante a um creme. Uma espuma de barbear.   
Não. Não estou ficando louco. “Rotina é máquina de moer gente”, escreveu o Oswald de Andrade da Periferia. Só que o poeta não viu a tal gota vermelha no mar branco.
.....
            O fluxo contrário ao centro de Belo Horizonte era tranqüilo naquele horário. As aulas já estavam rolando com serenidade na PUC do Coração Eucarístico. Era sexta-feira e os donos dos botecos e restaurantes ainda não tinham aberto as portas para o “Dia de Maldade”.
            Lá na Avenida Teresa Cristina, assisti à cena que nos trouxe até aqui.
            Era um carro dez vezes mais bonito e elegante do que o meu popular. Tão, tão, tão limpo, caro e vistoso e estrangeiro que não tive tempo de ler seu nome. Li somente as ações dos jovens que estavam dentro daquela máquina.
            No semáforo, parei ao lado do passageiro, da máquina. O passageiro estava com o rosto cheio de espuma de barbear – claro – barbeando-se. O motorista da máquina, também tranquilo, ali ao seu lado como se fossem de outro planeta.
Em um “Dia de Maldade”, por volta das 10h, um homem se barbeando no trânsito de BH? Não resisti. Comecei a fazer sinal, a gritar para o mar branco. Ele não ouvia. Eu queria ver a cara do moço. Só tinha acesso ao perfil. Queria guardar na memória aquela imagem. Ele não ouviu. Não me viu. Não quis abaixar o vidro elétrico do carrão.
            Intrometido que sou buzinei e estiquei o braço como que pedindo socorro. O motorista se despertou da rotina, cutucou com força o moço que estava fazendo a barba. Em câmera quase lenta eles olharam para mim, agora com o vidro abaixado. Desajeitado, percebi que tinha uma gota vermelha no mar branco daquele moço. Na hora do susto com o maluco do mundo real buzinando, ele se cortou com a navalha.
            O sinal abriu. Não tive tempo para perguntar nada. Eles também não quiseram saber o que se passava comigo.  Foram embora. Arranquei o carro e também fui.
Partimos.
A imagem ficou na minha cabeça o resto do dia. Aliás, até no meio da tarde, até ser retomada em uma conversa sobre criação literária com os alunos da EE Maria José dos Campos. O bate-papo aconteceu na Biblioteca Municipal Leonor de Aguiar Batista, em Betim.
A cena ainda me espanta, canta em minha lida. Surge um monte de imagens, capítulos inteiros da vida daqueles dois senhores, agora, personagens.
            Fico pensando que o branco daquela espuma tem um pouco de todos nós. Em alguma parte do dia, da vida, nos gestos mecânicos, somos assim mesmo: mecânicos e automáticos.
E a gota vermelha é o sinal de que a vida segue. E, às vezes, é preciso que alguém nos lembre disso, nem que seja a buzina de um maluco.
            Vamos procurar mais gotas vermelhas no mar branco?  


Em um futuro distante, conhecemos June, uma garota exemplar, que acaba de conseguir a nota mais alta em uma prova que decide o seu futuro, que junto com suas habilidades militares, já é praticamente certo: ser a defensora da república.

No outro lado da Los Angeles de 2130, temos Day, conhecido por ser o criminoso mais procurado da cidade, que jura acabar com todo o sistema construído pelos republicanos. Era esperado que o caminho dos dois jovens nunca se cruzasse, porém, a morte do irmão de June, faz com que toda a culpa caia em cima de Day, fazendo com que June queira de todas as forças fazer justiça em nome do irmão. 

O livro se trata de uma distopia, escrita por Marie Lu, que retrata um futuro em que a América do Norte se encontra completamente em guerra, causada pela república a colônias existentes. O lugar está completamente destruído, pragas preocupam a sociedade e forçam a colocar as cidades em quarentena. Além disso, a distribuição de renda e classes sociais são absurdamente desiguais.  

A história é contada em 1º pessoa, alternando as visões dos dois personagens principais, o que torna tudo mais interessante para quem lê, pois tem uma versão de ambos os lados e podemos acompanhar a evolução de cada personagem da trama.

Legend” é o primeiro livro da trilogia escrita pela autora, seguidos por “Prodigy” e “Champion”. no Brasil, o livro ainda não é tão conhecido, porém, no exterior fez tanto sucesso, que uma adaptação para o cinema já vem sendo gravada, prometendo um sucesso no nível de “Jogos Vorazes”.

Boa leitura!

Abraços,
Emanuelle Silva  



"De onde ela vem? De que matéria bruta
Vem essa luz que sobre as nebulosas
Cai de incógnitas criptas misteriosas
Como as estalactites duma gruta?!

Vem da psicogenética e alta luta
Do feixe de moléculas nervosas,
Que, em desintegrações maravilhosas,
Delibera, e depois, quer e executa!

Vem do encéfalo absconso que a constringe,
Chega em seguida às cordas do laringe,
Tísica, tênue, mínima, raquítica...

Quebra a força centrípeta que a amarra,
Mas, de repente, e quase morta, esbarra
No molambo da língua paralítica!"

Poeta: Augusto dos Anjos
Livro: Eu e outras poesias 



Eu durmo e vivo ao sol como um cigano,
Fumando meu cigarro vaporoso;
Nas noites de verão namoro estrelas;
Sou pobre, sou mendigo e sou 1ditoso!

Ando roto, sem bolsos nem dinheiro
Mas tenho na viola uma riqueza:
Canto à lua de noite serenatas,
E quem vive de amor não tem pobreza.
(...)

Oito dias lá vão que ando cismado
Na donzela que ali defronte mora.
Ela ao ver-me sorri tão docemente!
Desconfio que a moça me namora!...

Tenho por meu palácio as longas ruas;
Passeio a gosto e durmo sem temores;
Quando bebo, sou rei como um poeta,
E o vinho faz sonhar com os amores.

O degrau das igrejas é meu trono,
Minha pátria é o vento que respiro,
Minha mãe é a lua macilenta,
E a preguiça a mulher por quem suspiro.

Escrevo na parede as minhas rimas,
De painéis a carvão adorno a rua;
Como as aves do céu e as flores puras
Abro meu peito ao sol e durmo à lua.
(...)

Ora, se por aí alguma bela
Bem doirada e amante da preguiça
Quiser a 2nívea mão unir à minha,
Há de achar-me na Sé, domingo, à Missa.


Poeta: Álvares de Azevedo





Quando eu morder
a palavra,
por favor,
não me apressem,
quero mascar,
rasgar entre os dentes,
a pele, os ossos, o tutano
do verbo,
para assim versejar
o âmago das coisas.
Quando meu olhar
se perder no nada,
por favor,
não me despertem,
quero reter,
no adentro da íris,
a menor sombra,
do ínfimo movimento.
Quando meus pés
abrandarem na marcha,
por favor,
não me forcem.
Caminhar para quê?
Deixem-me quedar,
deixem-me quieta,
na aparente inércia.
Nem todo viandante
anda estradas,
há mundos submersos,
que só o silêncio
da poesia penetra.

Poeta: Conceição Evaristo
Livro:  “Poemas da recordação e outros movimentos”





Ó Mulher! Como és fraca e como és forte!
Como sabes ser doce e desgraçada!
Como sabes fingir quando em teu peito
A tua alma se estorce amargurada!

Quantas morrem saudosa duma imagem.
Adorada que amaram doidamente!
Quantas e quantas almas endoidecem
Enquanto a boca rir alegremente!

Quanta paixão e amor às vezes têm
Sem nunca o confessarem a ninguém
Doce alma de dor e sofrimento!

Paixão que faria a felicidade.
Dum rei; amor de sonho e de saudade,
Que se esvai e que foge num lamento!

Poeta: Florbela Espanca


— Vê se pode? cê passa na recepção, o moço te encaminha pra triagem, umas enfermeiras magricelas te atendem, dão umas ideias erradas querendo acertar, num é?

— Só procuram ser gentis, quem consegue ser gentil o tempo inteiro nessa loucura?

— Minha pequena tá que é preocupação só, cê conhece criança nessa idade que nunca teve febre, moço?

— Ah, esses desenhos da Peppa Pig... ninguém merece, sei as falas de có, esse Papai é todo desajeitado que nem o seu, num posso ficar falando assim dele não, o coitado tem se esforçado, passou a noite em claro, de um lado pro outro, medindo sua febre, levando água pra gente, dizem que tá meio escasso de homi assim no mercado, seu pai presta sim, tá? quem é a única pessoa no mundo que pode falar mal dele? quem?

— Tá bem, tá bem, num teima não, depois que tomá os antibióticos, depois, ouviu? eu compro o balão que ocê quiser,  esses balões tão caro demais, moça? num acha que é covardia vender balão de ouro pra criança na porta de hospital?

— Até que esse troço do painel num é má ideia, a gente põe um zói lá e o outro no pirralho e acaba esquecendo os problemas do mundo lá fora, como deve ser trabalhar em hospital de pediatria?

— Viu só, filho? o menino estuda na mesma escola que você, disfarça, disfarça, ele é chato demais, se acha o popular do colégio, é canseira, posso esconder no seu colo?

— Sua filha não possui nenhuma fratura. A garganta está muito inflamada. Se a febre não abaixar, por favor, retorne ao hospital. O senhor está liberado. Moço do plano: O senhor pode responder a uma pesquisa rápida?

— Seu atendimento foi muito rápido. Você tem sorte, dona. Já está indo embora?

— Cê tá doido? Fiquei aqui quase duas horas, com comida pra fazer, roupa para tirar da máquina, tem que buscá o outro filho na escola pelo visto cê num faz ideia do que é o dia na vida de uma dona de casa, mãe, secretária, esposa, faz?   

 — Por que tenho que intrometer na vida dos outros?


... farelos por aí ... 




Desculpe-me, leitor(a), mas a confissão que vou fazer não será do seu agrado, talvez.

Se por um acaso, você torcer o nariz, eu vou compreender. Você joga no time da maioria.

Confissão: eu gosto da segunda-feira!

Eu não sou louco. Depois de conviver com alguns japoneses, passei a curtir a segunda.

De acordo com alguns alunos, disparou um “bom dia” diferenciado, cheio de energia.  Não sei explicar.  

Sei que a última segunda-feira, por exemplo, entrou para minha História da Gratidão (mais à frente vou explicar melhor essa tal HG).

Nos primeiros minutos das sete, uma aluna me procurou na sala dos professores:

— Comprei um presente para você, Farelo!

Nossa! Poderia ser uma dúvida, crítica, reclamação, um comentário sobre a Disgreta Voadora (vulgo Enem).

— É diferente de tudo que li.

Nessas horas fico sem graça. Sem jeito, compreende? Meio bicho do mato. Será que merecia um presente tão distinto assim?

— Gostei tanto que fui à livraria e comprei um exemplar para cada pessoal especial do meu convívio. Espero que você goste também.

Bateu o primeiro sinal.

Recebi o livro da jovem. Primeiro, senti seu cheiro. Em seguida, encantei-me com sua lombada, cheio de brilho, dourada. Percorri os relevos da fonte, na capa.

Bateu o segundo sinal.

Tive tempo de ler os textos da quarta capa. Eram escritores e críticos, apresentando a obra do escritor português que eu nunca havia lido.

Bateu o terceiro e último sinal.
A aula já ia começar. Abracei a aluna, em sinal de gratidão. Despedimo-nos.

A vontade era não ministrar aula nenhuma naquela manhã. Não fazer chamada. Não passar exercícios. O desejo era sentar debaixo de uma árvore, desligar-se do tempo para poder ler o livro inteirinho.

Só no meio da tarde foi possível me perder naquelas páginas em branco, com desenhos em azul e metal, feitos pelo próprio autor. Ah, o nome dele: Valter Hugo Mãe. O título do livro? “O paraíso são os outros”.

Na manhã de terça, saí mostrando livro para todos os amigos. Na quarta, não consegui guardar as alegrias desse encantamento. Quando percebi estava na frente do computador, redigindo esta crônica.

Eis um capítulo da minha HG. Se você tivesse que escrever um livro sobre sua História de Gratidão, com qual dádiva você começaria?   

... farelos por aí ... 

  
           

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