Toda noite ele vem e me leva pro seu mundo. Contei pro médico, ele receitou uma vasilha maior de leite, assim eu pegaria mais rápido no sono.

Pena que não tem psicólogo pra gente da minha espécie. Pode não parecer, mas eu sou gente, viu?

Toda noite ele vem, chega de mansinho, passa debaixo da porta, retira os aparelhos da tomada, dispensa as luzes de led. Desconfio de que na sua rápida visita, até a geladeira ele desliga.

Ele emudece os celulares, nem um bip, nenhum sinal de mensagens, e sopra, sopra uma brisa fria que percorre todos os cômodos da casa, enquanto estou no quarto apenas esperando.

Depois ele se acomoda no lavabo, devagarzinho dá um toque na torneira e o silêncio da casa é interrompido.

A torneira começa a pingar, vai gotejando, gotejando até me tirar da cama, do frio ou do calor da cama e vou...

À medida que vou me aproximando da pia, as gotas vão aumentando, parece que estão caindo dentro do meu cérebro. Martela meus miolos.

Fecho os olhos e vou abanando o rabo, farejando a escuridão... e assim que chego ao lavabo, a torneira está intacta, sem nenhuma gota de água. É. Está tudo seco. Acima dessa torneira tem um espelho que reflete meu focinho, minhas orelhas, minha cara de louca.

E ele vem, vem de uma vez, chega por trás, me abraça, envolve. Não tenho tempo de gritar, é ele que já vem. Quem? Ainda não lhe disse? O Medo.    

... farelos por aí... 


Já conhecemos Rick Riordan, autor das aventuras de Percy Jackson, mas ainda não conhecemos a sua nova saga: As crônicas dos Kane. A saga sai do universo grego e parte para o egípcio, em seu primeiro livro “A Pirâmide Vermelha”, o autor narra a história de Carter e Sadie, dois irmãos que perderam a mãe muito cedo. Desde o ocorrido, os irmãos tentam viver a vida de formas distintas, com seus avós e seu pai: Julius Kane, um famoso cientista.

Entretanto, um erro no laboratório de Kane traz acidentalmente os deuses do Egito para a sociedade contemporânea e, ao descobrir isso, os irmãos se envolvem em uma viagem, para salvar o mundo de um dos piores deuses egípcios – Set. No desenrolar da história, descobrimos junto com esses irmãos muitos outros segredos, como por exemplo, que eles possuem habilidades mágicas, que fazem com que essa viagem se torne uma verdadeira aventura.
O livro possui uma narrativa bem semelhante a Percy Jackson, é rápida e prende a atenção do leitor. O fato de demonstrar a visão dos dois irmãos faz com que o leitor entenda melhor o ponto de vista de cada um e se identifique. Além disso, trata-se de uma maneira mais dinâmica de aprender sobre a antiguidade – de forma que o autor explora de forma realista o fator histórico – o que desperta o interesse de saber o que aconteceu naquela época, que não é tão estudada por nós.

A saga conta com mais dois livros: Trono de fogo e Sombra da serpente, e são uma ótima leitura pra agosto, já que é conhecido por ser um mês tão longo.






Chega um tempo que nos orienta via outro vento.

Além do olhar, precisamos experimentar outras sensações, inscrever-se nos ritmos das estações.
Ao completar mais uma primavera, optei por retirar a data das redes sociais.

Queria um tempo para as pessoas mais próximas, familiares e amigos, aqueles que tecem outras redes.

Queria um tempo para ouvir as pessoas do outro lado do telefone. 

Queria um tempo de abraços fraternos.

Um tempo dos pratos da tradicional culinária das Minas.

Tempo de bolo sem chantilly, de coco simplesmente. Eu tive esse tempo na última semana. Foi maravilhoso! Dias de Felicidade.

Ah, se eu pudesse lhe ser útil, minha dica seria: comece a comemorar o aniversário pelo menos uma semana de antecedência.

Desligue-se um pouco das redes sociais.

Abandone provisoriamente o celular.

Visite pessoas que foram, são e serão importantes para sua vida. E certamente receberá o maior de todos os presentes: presença!

“Dominar a agressividade, suavizar as arestas, moderar as palavras”, eis aí a lição que aprendi,completando mais uma primavera.

... farelos por aí...



Para início de conversa, Silvana de Menezes, é a madrinha do Baú Vermelho. Foi com o livro Cabelinho Vermelho e o Lobo Bobo, da Abacatte Editorial, que demos início a esse projeto de indicação de livros para crianças aqui no blog.

Numa linda manhã de sábado dessas aí, tivemos a alegria de conhecer a artista Silvana de Menezes. “Nossa, pai, como ela é estilosa!” Verdade! Ela é sinônimo de estilo, talento e carinho com seus fãs.
Naquela mesma manhã eu e minha esposa deixamos Cecília escolher mais um livro da madrinha do Baú Vermelho. A menina mais do que depressa comprou a obra Vanda Vamp e, de quebra, ganhou um autógrafo e tirou uma foto com a autora.

Ao contrário dos últimos livros, esse a Cecília já leu sozinha umas duas vezes, em voz alta. Fiquei de longe. À medida que vai avançando no enredo da vampirinha Vanda, ela começa a soltar umas gargalhadas assim do nada. Trem estranho, viu?

– Ela é verde, pai! Cê já leu algum livro de vampiro assim?

– Assim, não. Eu tenho medo de qualquer vampiro. Falou que é vampiro estou vazando.   
– Da Vanda cê num vai ter medo não.

– Por que? Como você sabe?

– Ela é vegetariana!
Depois disso, a Cecília sorriu novamente. Também não consegui segurar o riso. Não o tinha o que falar. O melhor foi correr para o computador e registrar mais essa experiência de leitura com A menina do Baú Vermelho.

Um forte abraço,

Cecília e Alfredo

Título: Vanda Vamp – Espelho meu, como sou eu?
Autora e ilustradora: Silvana de Menezes
Editora: Elementar


“Há muito tempo, em uma época obscura da história, existiu um homem que tudo possuía. Sua riqueza era imensa e todos os seus desejos eram realizados.” Assim começa um dos contos infantis de que mais curto: Barba Azul, de Charles Perrault.   

Recentemente tive a oportunidade de apresentar esse clássico para Cecília, A menina do Baú Vermelho. Essa viagem foi possível graças à leitura da belíssima obra Barbazul, publicada pela Aletria, editora de Belo Horizonte, no ano de 2017. 
Assim que recebi o exemplar das mãos da consultora Vânia Diniz, em uma feira de livros, a Cecília ficou curiosa para saber qual era tal história do senhor Barba Azul. Numa tardes dessas aí de julho, fiz o convite a minha filha: “Vamos ler juntos esse livro?” O sim veio mais rápido do que o pensamento.

Primeiro aquela sensação que todos os leitores curtem de montão, retiramos o plástico, sentimos o cheiro de livro novo (1ª edição por sinal). Depois aquela folheada, como quem diz coisas do tipo: é verdade mesmo que estou diante de um livro novinho? Que ilustrações maneiras?

“Pai, começa logo!” Era A menina do Baú Vermelho que não mais aguentava mais de ansiedade. Pronto! Comecei a ler obra em alto e bom tom. Já nas primeiras cenas, aliás, de cara, a descrição do protagonista fisgou de vez a ouvinte.

“Por que ninguém chegava perto dele? Era só por que ele tinha uma barba azul? Vai ver que ele era muito bonito!” Ah, isso eu não sei, temos que esperar pra ver. Os olhos da Cecília brilhavam a cada virar de página, a cada ilustração. Entre um espanto e outro, claro, pedia para que ela lesse um trechinho.

“Eu não estou com medo não, pai.” Quando ouvi essa história pela primeira vez, fiquei borrando, viu? “Ah, mas você sempre foi frouxo!” Ah, menina isso é coisa lá que se diz? “Foi a vovó que me contou que você sempre foi medroso”.  Uma história puxando a outra até que ela voltou ao enredo:

“Pai, cê entraria no quarto proibido, como a esposa dela está querendo fazer?

Com essa pergunta, senti que minha parceira tinha capturado a alma do conto. Os riscos da curiosidade. O que estaria por detrás daquela porta que precisava de uma chave estranha?

Não. Claro que não vamos revelar o final da história. Spoiler aqui é crime (risos), mas confesso que se trata de uma experiência muito rica ler essa versão com uma criança aí na casa dos seus oito, nove anos. Certamente você correrá o risco de ouvir um suspiro semelhante ao daquela tarde:

“Nossa! Já acabou? Que história legal!”     

Por mais leitura em família!   

Um forte abraço,

Cecília e do Alfredo


Título: Barbazul* 
Adaptação e ilustração: Anabella López
Tradução: Susana Ventura
Editora: Aletria 


*Curiosidade: a alteração da grafia do nome Barba Azul para Barbazul , segundo, Anabella López, foi uma “escolha estética inspirada pela energia animalesca do personagem, transmutado em bicho-homem”. (Nota da editora)


No último mês de maio, Marcus Vinícius de Souza, professor e músico, lançou a obra “Ecos de uma escrita”, pela Ramalhete, casa editorial de Belo Horizonte. Na ocasião, não pude comparecer ao evento. Em razão das atividades que desenvolvemos na quebrada, também não fui ao segundo lançamento no mês seguinte. 
   
MAS esses desencontros não impediram que um exemplar autografado chegasse até minha morada. Como sabem, sou fascinado com o universo dos livros, em especial, os de literatura como este que tenho em minhas mãos.

Perdoe-me, Marcus Vinícius de Souza, por não ter lhe escrito antes. Estive no epicentro das obrigações. Como dizem, meio apertado de costuras, compreende? Gostaria que soubesse que é com muito orgulho e satisfação, companheiro, que venho tecer umas palavras sobre seu livro. Bora lá?!

Depois de percorrer os Reflexos da invenção, conhecer um pouco as sonoridades biográficas do músico, poeta e professor, depois de chegar ao tema e, na sequência,  ser tocado pelas improvisações, encontrei-me numa espécie de labirinto das sensações. A cada verso, estrofe, a cada virar de página, surgia um fio de pensamento; ora no ritmo da indagação, questionamento; ora na imagem da canção, rios de vento.
Marcus Vinícius, depois de sentar diante desse maravilhoso banquete de sinestesias, ficou uma pergunta em forma de poesia: como se faz para abraçar o silêncio?

Tive que escrever de verde essa indagação na esperança de construir uma resposta, uma, pois acredito que há inúmeras por aí, com variações mil. Desconfio que uma das formas de abraçar o silêncio seja com as palavras em estado de poesia. No seu caso, porém, com melodias, harmonias e ritmos, em outro tom, com música.

Felicidade nossa a de contemplar os versos do professor e saxofonista, do compositor e letrista! O artista que com sua escrita pulsante nos apresenta o eco magnético, a onda arrepiante. Certa vez li que Hemingway afirmava que uma ideia é boa “quando os pelos dos braços se arrepiam”. E o que dizer de um poema que nos arrepia diante do piano na rua? Que tal a leitura da Sonata ao luar, em voz alta?

Vi um piano na rua
Melodias vou poder tocar
Vi um piano na rua
Colorido, muitos rabiscos e formas ao azar

Vi um piano na rua
Uma senhora, o menino a cantar
Vi um piano na rua
Um protesto, uma voz que quer martelar

Vi um piano na rua
Objeto esculpido no ar
Vi um piano na rua
Cacos, arames, lembranças pro lixeiro catar

Não tem piano na rua
Vidas cinzas que seguem
A vagar        

Mais do que uma ideia, esse poema nos recolhe para uma pausa do dia. Nesse tom, na esfera da música, no balanço, nas batidas rítmicas do verso “Vi um piano”, a gente vai encontrando o oceano, que às vezes, se perde no rio do cotidiano.  

Que “Ecos de uma escrita” seja o primeiro de muitos títulos, Marcus! Que você possa com a poesia nos ensinar mais algumas Lições de música! 

Título: Ecos de uma escrita
Autor: Marcus Vinícius de Souza
Editora: Ramalhete
Onde comprar: http://www.lojaeditoraramalhete.com.br

... farelos por aí... 


Para quem ainda não sabe, desde a estreia da CENA Cursos Livres de Teatro, lá no ano de 2011, realizamos o Festival de Cenas Curtas no final do primeiro semestre letivo. Um dos principais objetivos desse evento é apresentar aos amigos e familiares dos alunos um pouco das atividades desenvolvidas na CENA. Por isso mesmo em todas as edições tivemos alunos estreando.
Por outro lado, muitos familiares também tiveram a oportunidade, nessas edições, de assistirem pela primeira vez a uma encenação teatral. Esses primeiros encontros muito nos motivaram até aqui. Com tanto trabalho e dedicação da atriz e professora Leandra Pacífico, percebemos que era preciso ampliar e investir em tal evento.

De cara, percebemos que o quintal de nossa casa ficou pequeno para receber o público. Mesmo com todas as cadeiras que possuímos, chegamos à conclusão de que não estava confortável, alguns convidados ficavam de pé. Alternativa? Alugamos um salão de festas e lá montamos a estrutura necessária para as apresentações.

Como organizar e montar um festival na quebrada em poucas semanas? Como alugar o espaço, cadeiras, fazer divulgação na quebrada, sem grana? Na raça! Só foi possível com o patrocínio de três empresas: Livraria Leitura Shopping Contagem (que fica a km da quebrada), Salão do Zezim, principal do bairro, e da Casa de Carnes Oliveira. Aproveito para agradecer a todos os empresários e para dizer também que em 2019 teremos a 9ª edição.

Na real? Quer saber? Valeu o esforço! Detalhes: foram quatro apresentações distintas, nos intervalos sorteamos kits de brindes da Leitura. Ao final, agradecemos ao público, doando centenas de livros. Foi pra lá de especial!

Conforme prometido, fique com agora com algumas imagens do evento:



 















Pois, não! tô sabendo que é você, vai, diga logo, mas isso está pronto desde a semana passada, você tinha que repassar. Porra, você tinha era que ter entregado do jeito que tava, seu filho da...me desculpe, filha, está bem, chegando ao escritório, eu mesmo encaminho, vê se sai da merda desse computador, paciência é coisa de velho, tchau.
– Pai?
Pode falar, outra reunião, às 14horas? E só agora você avisa, sua incompetente, claro que sei que se trata de um negócio importante, tá bem, obrigado por ter me lembrado.
– Pai, a..?
Fala aí, Marcão! Tô dentro!
– Pai?
Filha, o que foi? Não está vendo que estou no telefone?
– Pai, pai...a polícia.
Ih, sujou, Marcão. A polícia. Bom dia, senhor! A habilitação e a documentação do veículo, por favor!  Tudo certo, senhores? Não, estamos seguindo o senhor há mais de cinco minutos e não precisa perguntar porque, o senhor não tem um pingo de vergonha, não é mesmo. Não entendo. Claro que não, quem age assim diante de uma criança não pode entender. Desculpe, mas continuo sem entender. Multado. Falando ao celular, durante a condução do veículo. Se não tem amor à vida, preserve pelo menos a vida de sua filha.
– Pai, fique calmo.
Calmo? Aqueles desgraçados me multaram.
– O senhor não deve atender, estamos na BR.
Não tem como, filha, o povo lá da empresa fica puto quando não atendo o celular, é o chefe. Sim, na escuta, tudo bem, é que dessa vez vamos subir, não tenha dúvida, o relatório estará sobre a sua mesa, antes das 13 horas, um abraço.
– Posso desligar o celular, pai?
Não. Só até a gente chegar à casa da vovó, afinal só ficamos juntos uma vez por semana, não é mesmo? Bem, mas só vou fazer uma ligação para o incompetente do secretário que até agora não mexeu no relatório que será entregue às 13 horas....
– Pai?
A minha vida profissional está em risco, já pedi pra você não mexer mais com paciência, seu imbecil, desse jeito a gente não vai subir, o chefe acabou de me...
– Pai?
O que foi menina?
– O senhor está correndo demais.
Conserte a planilha, imprima, põe essa merda num envelope e deixe uma cópia na minha mesa.
– Pai?
Entendeu? Tchau.
– Nada, o senhor acabou de ser pego em dois radares.
Merda, merda.
– Era para o senhor apenas ter desligado o aparelho.
É melhor assim, agora são caquinhos espalhados no asfalto, sobre o que mesmo quer conversar?
– A professora trabalhou a letra de uma música com a gente.
Vá direto ao assunto, filha, assim a gente ganha mais tempo.
– Ela deu de dever na semana passada uma espécie de charada.
Não sou bom nisso, mas não era uma letra de música?
– Era. A professora pediu pra gente interpretar o significado da expressão “bucha de balão” que tinha na música.
E de quê falava a música?
– Gente trabalhando, som de armas, mercado, capitalismo, empresa que engole empresa, gente máquina, peça substituível da engrenagem, um troço meio doido, mas a professora disse que se a gente conseguisse entender o que significava essa expressão, entenderíamos a música inteira.
Você já perguntou pra sua mãe?
– Ela estava sem tempo e falou que o senhor saberia me explicar.
Pegue notebook aí, debaixo do meu banco. Pergunte para o doutor Google.
– Nada, eu já tinha olhado na sexta e nada, são mais de trinta significados para bucha e nenhum me serviu. Dizem que a gente acha tudo no Google. A gente tem que juntar as palavras para entender a expressão. Isso leva tempo? Leva. O senhor vai me ajudar? A gente tem que parar na lanchonete pra fazer uma última ligação.
– Ahn?
Você vai entregar o relatório para o chefe, coisa que o outro secretário não deu conta de fazer, ah desmarque a reunião das 14 horas, invente qualquer desculpa: tive que levar minha filha ao, ao... arrume qualquer coisa, você saberá mentir para o patrão como de costume, ah, obrigado e até amanhã.
Pense comigo, que balão pode conter uma bucha? De festa infantil que não é. Muito menos, aquele do parque, cheio de gás que quando solta das mãos da criança, sobe, sobe e depois bum, lá no alto bem alto. Lembrei, querida. Essa música deve ter alguma coisa a ver com o balão de São João.
– Nunca ouvi falar.
Aqui na cidade não tem dessas coisas, cena de meu tempo de criança.
– Fiquei curiosa.
Primeiro, monta-se uma armação de arame de alumínio, um arame leve no formato do balão, depois cobre essa armação com papel acho que de seda.                – Sim, e a bucha?
A bucha é a parte debaixo do balão, é feita com uma espécie de tecido, saco de muá, parece com estopa, sabe?
– Já vi o meu avô usando.
Pois bem, essa bucha é molhada com querosene e fica agarrada na parte inferior do balão.
– Pra que serve o querosene?
Calma, filha, explico: o querosene ou outro combustível qualquer é porque, depois de tudo prontinho, a gente põe fogo na bucha, com o calor da parte debaixo da armação, o balão sobe.
– É a bucha, então, que faz o balão subir?
E também a cair.
– Acho que estou começando entender.
A expressão ou o funcionamento do balão
– As duas coisas; quer dizer que quando a bucha vira cinza ou se apaga o balão cai?
– É.
Entendi.
Mas você não disse que era complicado?
– Era. A música contava de uns meninos que eram bucha de balão.
E daí?
– É que tem muita gente na condição deles.
De que você está falando?
– Pessoas que trabalham, trabalham e têm que fazer um balão subir, mas elas nem sabem que balão é esse e pra que serve.
Filha, você está fic...
– É isso pai, entendi e pronto.
A letra está aí? Posso ler?
– Acho melhor não.
Por favor, fiquei interessado!
– Posso ir ao banheiro enquanto senhor termina de ler?
Vá.
 – O que o senhor tá chorando?
Nada não. A letra toda manchada. Filha, eu também sou uma bucha de balão?

– Pai? 

* Conto do livro "A terceira porta da lua", publicado pela Asa de Papel, em 2014.  
+