Alfredo Lima e Hannah Abranches

Que alegria começar a semana com um presente pra lá especial!! A aluna Hannah Abranches fez uma releitura do protagonista do meu livro “Um estranho para o céu”. 
Aluna ,bibliotecários e o escritor
Corri para a biblioteca para compartilhar com o célebre Trio de Ouro: Juliana Barreto Caetano LisboaIcielne da Silva e Vicente.

Detalhe I. O retrato ao fundo, do padre Sérgio Palombo, foi feito pelo Walter Lara, artista que ilustrou o meu livro.

Detalhe II. Os dois exemplares de "Um estranho para o céu" são emprestados com muita frequência, ou seja, não param na biblioteca.

Quer alegria maior do que ser lido e relido de forma afetuosa e sincera por seus leitores?  

Gratidão!

... farelos por aí...

– Nossa! Faz um tempão que você não indica os livros que eu leio – comentou a Garota do Baú Vermelho.

– Muita coisa rolando, menina. Campanha, série e crônicas e...

– Eu sei, pai, é prova pra corrigir, é prova pra elaborar.

– Bem lembrado, mas não vamos falar disso agora, ok?

– Quero só que você indique um livro meu no seu blog. Espere aí que vou buscar.

Ela retirou do Baú Vermelho um livro lindo, capa dura, um livro elegante.

– Por que você quer que eu indique esse título?

– Porque é uma história muito bonita, uai...

– E quem é essa tal de Nina?

– A gente só descobre no final do livro.

– Como assim? Não entendi.

– É que a Nina, pai, não quem ela é, entendeu? E isso é muito legal!

– Que doido, Cecília!

– Eu também achei!

Ah, a Garota do Baú Vermelho avisa que em algumas partes o livro provoca medo, viu?


– Nossa! Faz um tempão que você não indica os livros que eu leio – comentou a Garota do Baú Vermelho.

– Muita coisa rolando, menina. Campanha, série e crônicas e...

– Eu sei, pai, é prova pra corrigir, é prova pra elaborar.

– Bem lembrado, mas não vamos falar disso agora, ok?

– Quero só que você indique um livro meu no seu blog. Espere aí que vou buscar.

Ela retirou do Baú Vermelho um livro lindo, capa dura, um livro elegante.

– Por que você quer que eu indique esse título?

– Porque é uma história muito bonita, uai...

– E quem é essa tal de Nina?

– A gente só descobre no final do livro.

– Como assim? Não entendi.

– É que a Nina, pai, não quem ela é, entendeu? E isso é muito legal!

– Que doido, Cecília!

– Eu também achei!

Ah, a Garota do Baú Vermelho avisa que em algumas partes o livro provoca medo, viu?

Título: Nina
Autor: David Ausloos
Ilustrador: David Ausloos
Editora: SM


  

Abaixo os fiscais do comportamento! Não se assuste, leitor(a). Você não está diante de um protesto. É somente uma crônica de desabafo. Um café amargo que servirei aos fiscais do comportamento. Só isso.  

Por falar em café – começo por aí – sempre colocamos açúcar nessa bebida. De uns tempos pra cá, minha gente, foi que descobrimos os males do açúcar; mas isso não dá o direito de fazer careta quando peço um café com açúcar, viu?

Não é todo dia que acordamos dispostos e saímos por aí como se tivéssemos encontrado passarinhos azuis. Isso, oh, não lhe confere o direito de me acusar de político por sair cumprimentando Deus e o mundo nas manhãs, entendeu?

Respeito sua alimentação balanceada, os ricos nutrientes da sua dieta importada; mas cá entre nós, não estou a fim de ficar te ouvindo, dentro da minha casa, o que devo comer, que isso causa aquilo outro, compreendeu?   

Não tenho nada contra seu perfil musical. Nada mesmo, agora é duro ter que ouvir suas sugestões de como devo ouvir tal estilo, assim ou assado, na velocidade ideal, isso é....

Pena que ainda não saiu no jornal da noite, na revista da semana, na série da Netflix. Uma pena mesmo. Porque se ainda não sabem, esta crônica está que é um grito só: vocês, fiscais do comportamento, são chatos por demais.

Ah, quer saber?

Amanhã é sexta-feira e vou ouvir Bob Marley.

Até...

...farelos por aí...      


Olá! Há uma frase que se repete em vários segmentos da sociedade brasileira. Ela carregou e ainda transporta uma parcela de verdade. A frase é: O brasileiro não lê. Aí, vale perguntar: Não lê o que mesmo? Não lê por que, gente?
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Como explicar o interesse de grandes editoras europeias no mercado brasileiro? Quantos selos a gigante do Brasil possui?
Será que alguém já parou para pensar nas cifras que permeiam as transações de compra/venda de uma editora?
Como as editoras estrangeiras (algumas são fornecedoras de enlatados, vamos combinar, não é mesmo? ) conseguem colocar títulos e mais títulos traduzidos e impressos no próprio país com um preço mais em conta?
Depois de tudo isso, questiono: será que o brasileiro lê pouco mesmo? Ou poucos leem muito? E a maioria não lê por motivos diversos, entre eles, a falta de acesso? Por que essas questões não tratadas de um modo mais claro?
Caros leitores, pesquisas e mais pesquisas comprovam que o mundo nunca leu tanto como agora.
Há quem diga que esse hábito ainda não faz parte da cultura de muitos brasileiros, então cabe a todos, inclusive aos adultos, um momento para (re)pensar o fato de que esse quadro vem melhorando de modo na nossa sociedade. Ficar atribuindo a culpa ao Governo não vai resolver o problema, entende?
Vale lembrar que foi o Governo brasileiro que manteve (antes da crise) muitas editoras com as portas abertas por meio da compra de centenas, milhões de títulos didáticos e literários.
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Mudando de perspectiva: como avançaremos na projeto de um Brasil Leitor?


E, aí, o que você tem a dizer sobre esse assunto? Qual sua opinião? Vamos conversar sobre leitura?  

A vida dos artistas, de maneira geral, conta com fases distintas ou não. Isso deveria correr conosco. Talvez ocorra, mas com os artistas é mais visível. Há outros divisores de água. Tudo trans-parece em ciclos de sucessivas descobertas, semelhante ao que trans-corre com a poesia.

Mia Couto, romancista moçambicano, diz certa vez que está a descobrir escritor em cada livro que escreve. Para Manoel de Barros, “poesia a gente não descreve, poesia a gente descobre”. E assim, esse mestre nos leva ao reino de suas palavras:

“Visão é recurso da imaginação para
dar às palavras novas liberdades?”

Com essa poética indagação, epígrafe do livro “Livre é abelha”, venho dizer aos seguidores do blog que a poesia de Amanda Ribeiro nos conduz à descoberta de ritmos, jogos de palavras, trocadilhos diversos nos reversos do cotidiano.

Suas abelhinhas se misturam com as linhas que costuram o tempo, pois seus cantos nos ajudam a compreender a partitura do vento.

Se alguém me perguntar qual é a canção do vento, Amanda, direi que não sei. Sei que é poesia. Disso você sabe, Manoel sabe, Líria sabe, a abelhinha sabe. E o leitor? Bem, o leitor  poderá descobrir diante do voo das abelhas.


Voltando ao início do texto – ciclo – há uns fios de cabelos brancos deste que escreve. Orgulhosamente, posso dizer que fui professor da poeta Amanda Ribeiro. E é ela a primeira ex-aluna a publicar um livro. Eu os demais ex-professores de Linguagens, em especial, temos orgulho de dizer que ficamos contentes com o lançamento da obra “Livre é abelha”.

escrevidão

nem tudo que eu escrevo eu vivi
quem escreve precisa mentir
minto tanto que quando leio
essas linhas metalambidas
esqueço que as escrevi
(p.24)

Recordo-me de uma estudante que se encantou com a poesia desde muito cedo (acredito), desde as cantigas trovadorescas, aluna que percorria o livro didático em atrás de poemas e dos dilemas em versos. Aquela aluna, hoje, professora! Aquela leitora de poesias, hoje, poeta!

Amanda Ribeiro, que o voo dessas abelhinhas possa te levar a outros campos, poesias e flores. Em outras palavras, queremos mais versos, poemas, queremos mais livros.

sobre voar

asa: palíndromo
que nos leva
e traz de volta


Título: Livre é abelha
Poeta: Amanda Ribeiro
Editora: Impressões de Minas

Crédito da pintura:
https://s3-sa-east-.amazonaws.com/odebate/destaque_editoria/IMG_8100_dic_bt%20120cmX%20270cm%202015%20%20%20Paralelo%20Cor.JPG
    


Que loucura foi essa de começar a escrever crônicas, mais sistematicamente a partir do ano de 2016 para o site?
Por que fui inventar esse lance de postar uma narrativa por semana em pelo menos uma temporada anual?
Onde conseguirei tempo para escrever uma crônica por semana, gente?
­            "Quero saber não. Dá seu jeito, professor?" Ouvi de um aluno que vem acompanhando as crônicas desde o início.
"Que palhaçada é essa de deixar a gente sem as crônicas de quinta-feira, esse tempão?" - disse um leitor do tipo atrevido, depois ler a última crônica ( e lá se foram algumas semanas) e trombar comigo no corredor do colégio.

"Que palhaçada é essa de deixar a gente sem as crônicas de quinta-feira, esse tempão?" - disse um leitor do tipo atrevido, depois ler a última crônica ( e lá se foram algumas semanas) e trombar comigo no corredor do colégio.
Calma aí, gente. Muita serenidade... Eu também estava com saudade dessas crônicas matinais. Como não (re)descobrir o encanto da "odisseia" que se desenrola nosso cotidiano? 
Como deixar para o vento aquela impressão equivocada sobre os rumos do país? Confesso, confesso-lhe com afeto: o tempo que você gasta lendo uma crônica (poema, conto, novela ou romance) é uma lanterna. Uma lâmpada que se acende diante do caos.
Não.
Luz.
Sim. 
É gratidão! Só de saber que você tira um tempo nesse mundo tão veloz e feroz para ler, entre tantas coisas, meus textos... Nossa! Eu fico muito satisfeito, contente. Na escrita, há o encontro de nossas lacunas, rios de solidão, estrelas vão se espalhando pelo chão...
Seja bem-vindo(a)! Esta crônica marca oficialmente a nova temporada 2018! Conto com seu apoio, crítica e sugestão.
...farelos por aí...      



Anderson de Oliveira, poeta e escritor. 
Olá, olá, queridos leitores! É com alegria e satisfação que vamos entrevistar o primeiro escritor da série “Conversas sobre leitura”. Refiro-me ao poeta Anderson de Oliveira. Vocês vão se encantar com esse dedo de prosa. Bora lá? 
CSL: Como e quando você descobriu o universo da leitura?

A leitura sempre me foi algo caro, no sentido de muito precioso. Na minha casa, havia um dicionário que era publicado pelo MEC, um outro dicionário bastante antigo, três romances já amarelados pelo tempo e um exemplar do “Meu pé de laranja lima”, de José Mauro de Vasconcelos, que era tratado como joia, posto na cristaleira, protegido pelo vidro e pela madeira. Minha mãe sabia muitas histórias de cabeça. Eu era magro feito uma folha de palmeira e brincavam comigo dizendo-me que o vento me carregaria. Somente comia se ouvisse uma história. E elas me alimentaram. Eu imaginava o desenrolar dessas muitas histórias, até que, ao ser introduzido no universo da escola, vim a conhecer outros livros e descobri neles o registro do que ouvia minha mãe contar. Em casa, eu lia os dicionários e fui conhecendo palavras. Na escola, os livros passaram a ser o incentivo ao próprio estudo. Eu cheirava os livros, tocava suas folhas, deliciava-me com as ilustrações. Para mim, havia livros, histórias. Muito mais tarde, ouvi dizer que havia autores, pessoas distantes, que as escreviam. 

CSL: Gostaria que nos contasse de um livro, uma história que marcou seu primeiro contato com as obras literárias.

O livro, entendido aqui como objeto (capa, texto, ilustrações), me atraía mais que o conteúdo a ser lido. Livro novo, com o cheiro de saído da gráfica, era uma experiência sensorial inigualável, dadas as circunstâncias em que o meu contato era com material já lido e relido.
Gostava de imaginar o que lia, voado no meu mundo, no silêncio.  O diário de Abner”, de Graziella Lydia Monteiro, me marcou bastante. Remontava uma história real, próxima ao meu cotidiano, com a qual me identifiquei e despertou em mim o prenúncio de uma visão crítica das relações sociais. Algo nele tirou de mim a inocência da ludicidade do entretenimento fortuito das palavras, pois o livro foi capaz de me emocionar e dicotomizar meus pensamentos.  Descobri, de uma forma aprazível e assustadora, que os livros tinham poderes, inclusive o de nos despir.

CSL: Por falar em contato com os livros, é verdade que você já trabalhou em uma livraria em belo Horizonte?

O meu primeiro emprego foi na Livraria Van Damme, que funcionava àquela época no Edifício Malleta. A mim competia cuidar da organização das estantes, buscar livros nas editoras e distribuidoras, atender ao público e cuidar dos livros, retirando deles a poeira e dispondo-os nas prateleiras com a lombada voltada para a mesma direção, a fim de que os consumidores não necessitassem ficar deslocando o pescoço em variadas posições, para lerem os títulos. Com isso, de uma certa maneira, eu passei a conhecer uma variedade imensa de obras produzidas no Brasil e no exterior.
"Livros em todo lugar" aos livros do Anderson de Oliveira
CSL: Da leitura para a escrita, de leitor para escritor, foi um processo lento? Quando você se descobriu escritor?

Aos dez anos, eu gostava de escrever pequenos poemas. Guardava-os escondido. Na escola acabaram encontrando alguns poemas no meu caderno. Mostraram-nos para os outros colegas de classe. A professora também viu. Começaram a dizer que eu era poeta. Pediam versos. Eu não deveria ter levado tão a sério. A partir daquele dia, estudei cada vez menos e, isolando-me preservado, escrevia como um moinho movimentado pela água da correnteza.
O caminho foi longo e exaustivo entre a escrita e o livro. E ainda estou nessa descoberta.

  
CSL: Um de seus textos publicados teve a quarta capa assinada pelo escritor Bartolomeu Campos de Queirós. Você se considera um discípulo do Bartolomeu?

O livro “Pá & Pedra”, foi o vencedor do Prêmio João de Barro da Prefeitura de Belo Horizonte, em 2000. Foi publicado pela Editora Lê, em 2008, tendo a quarta capa honrosamente assinada pelo sr. Bartolomeu Campos de Queirós. O manuscrito chegou às mãos do sr. Bartolomeu, e ele me contactou, desejando publicar o texto, pois era também editor. Foram cinco anos de encontros e tentativas de lançar o livro, que já possuía, inclusive, as ilustrações concluídas. Porém, tivemos de cancelar o contrato, em função do mercado que não se apresentava favorável. O livro foi lançado pela Editora Lê, ilustrado pela Ana Raquel, com a quarta capa elaborada pelo sr. Bartolomeu. Não poderia ter sido melhor! Quanto a ser discípulo do sr. Bartolomeu, é inegável a qualidade esmerada de sua obra, a qual eu já conhecia e a discutia em um grupo de estudos na UFMG, junto à Profª Doutora Ana Maria Clark Peres, que tanto nos ensinou e concorreu para o aprimoramento da nossa percepção sobre a produção de literatura infantojuvenil no Brasil. Destaco que o livro “Ciganos” é um dos melhores livros que já li em minha vida, que exerceu intensa influência na minha percepção poética. Influências muitas, do sr. Bartolomeu e de muitos outros seletos autores. Discípulo mesmo, só do meu pai!



CSL: Ainda sobre Bartolomeu Campos de Queirós, uma curiosidade: você chegou a conviver com o escritor? Como foi essa experiência?

Inicialmente, eu corava só de pensar em ficar diretamente em contato com o sr. Bartolomeu, embora já tivéssemos nos encontrado em palestras, escolas e bibliotecas. Eu sempre o tratei por senhor, mesmo diante da nossa proximidade. Ele amava o que fazia, foi um homem extremamente generoso, cativante, inteligente e perspicaz, consciente de sua genialidade, acessível, afeito aos amigos. O sr. Bartolomeu não se furtou a levar o seu trabalho a escolas públicas e particulares, a vilarejos, a grandes metrópoles,  congressos internacionais, a feiras de livros, bienais, enfim, não poupou esforços em contribuir para a ampliação e difusão do livro, das leituras, da análise crítica, da estética,  da ética. Poucas vezes falamos sobre literatura. Éramos tímidos para esses assuntos. Falávamos sobre Papagaios (sua cidade natal), crianças, política, sorvete (de que ele tanto gostava), nossos amigos em comum, o mercado editorial, as oportunidades da vida, o tempo que se esvaía. E muitas vezes rimos, ficamos sérios, calados para pensar. Era sempre muito bom estarmos bem perto. Sinto muitas saudades dele. Visitei o seu jazigo, quando estive no Cemitério Parque da Colina. Tudo simples, como foi a sua vida. Que falta ele faz!

CSL: Encerrando nossa conversa, aproveito para lhe agradecer por ter aceitado o convite. E gostaria que você indicasse aos seguidores dessa série pelo menos três livros. Pode ser?

Deixe-me indicar não três, mas trezentos? Eu indicaria livrarias, bibliotecas, sebos, feiras de livros, salas de aulas com livros dispostos ao acesso dos estudantes. Eu indicaria presentes de aniversário, de comemorações constantes no calendário, eu indicaria livros. Eu indicaria livros às crianças, aos jovens, aos adultos, aos que nos olham sábios e pacientes do alto de seus anos, aos que não têm fim. Eu indicaria livros aos presos, aos governantes, aos acamados, aos apaixonados, aos solitários, aos que viajam, aos que chegaram por agora, aos que buscam um sentido, aos que não encontraram ainda o caminho. Indico livros. Quanto aos títulos a serem indicados, bem, não caberiam nessa entrevista!

 Obrigado, Alfredo Lima, poeta, escritor e potencializador cultural, agitando o frasco que contém a essência dos nossos encantamentos literários. Viva a proesia!






Olá! O post desta semana é dedicado ao leitor-livreiro. Você conhece ou conheceu algum? Desculpe-me o modo estranho como iniciei nossa conversa. Dependendo da idade, você também ficará um pouco espantado com o fato de que muitos adolescentes e jovens nunca entraram em uma livraria física.
Espanto II. Muitas das livrarias físicas da Região Metropolitana de Belo Horizonte fecharam suas portas nos últimos anos. As livrarias físicas estão concentradas nos Shoppings. Sabemos que vários fatores levaram a esse lamentável quadro. Não é o caso de discorrer sobre as causas desse triste episódio, no momento. O que sabemos é que: quando uma livraria é fechada, todos nós perdemos muito.
Diante desses espantos, outra verdade nos assusta no Brasil: muita gente não conheceu, nem conhecerá a figura do livreiro que, em sua essência, sempre estará além de um vendedor de livros.
O livreiro é um sábio que nos guia, um profissional que ilumina nossos passos no labirinto das publicações. Alguém por dentro de todas as novidades. O livreiro é sim uma rica mistura de professor e mágico. Em seu discurso e atitudes, a literatura se torna ainda mais sedutora.
Isso porque, antes de tudo, o livreiro é um leitor, a representação de muitos personagens, a tessitura de vários enredos em uma única pessoa. É uma enciclopédia humana, uma cartografia das sensações. Vou lhe revelar um segredo: sempre sonhei em ser um livreiro. Atrás desse segredo, conto-lhe de três livreiros que marcaram minha vida. 
Na adolescência, assim que comecei a trabalhar na rua como carregador de gelo e bebidas, entrei por acaso, uma vez, na antiga Livraria Van Damme (fechada em 2016), localizada na Rua Guajajaras, 505. Não tenho vergonha de dizer que eu não tinha dinheiro para comprar borracha escolar naquela tarde. Por outro lado, não há dinheiro no mundo que pague aquela experiência.
Fui muito bem recebido pelo próprio senhor Van Damme. Ele falou de suas preferências, mostrou-me a lista de títulos que havia lido e indicava para seus clientes. Sim, ele é um leitor voraz. Deixou que eu abrisse dezenas e dezenas de livros. Conversamos por horas. Saí com aquela sensação: “esse homem não é deste mundo”. A vontade era passar lá todas as tardes para namorar os títulos e, claro, trocar umas ideias com aquele senhor.
O segundo encantamento foi na PUC do Coração Eucarístico. Que estudante de Letras da minha época não conheceu o profissionalismo da William Livros? Conhecido de todos os professores, todo livro que a gente pedia, o William e seus funcionários providenciavam. Podíamos confiar. Sem sombra de dúvida, 90% da minha biblioteca de livros teóricos, ao longo da graduação, comprei lá.
E o terceiro livreiro, mais recentemente em minha trajetória, foi o parceiro Álvaro Gentil. Recordo-me da nossa primeira conversa na livraria Asa de Papel, Rua Piauí, 631. Entre uma xícara de café e outra, observava como o Álvaro falava ao telefone, anotava os pedidos dos seus clientes; ou quando alguém entrava na loja e ele dava toda atenção do mundo. Tudo com carinho e dedicação. Impossível não se encantar com profissionais assim.
Álvaro Gentil foi o primeiro livreiro que encontrei, em toda minha vida, que é um ávido leitor das narrativas curtas e do gênero poema. Para quem não sabe, o meu primeiro livro de contos, “A terceira porta da lua”, saiu pela editora Asa de Papel, com a produção editorial do Álvaro Gentil.
Com os livreiros, criamos laços para a vida inteira.
            Boa leitura!


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