“Sou frágil o suficiente para uma palavra me machucar, como sou forte o bastante para uma palavra me ressuscitar” sempre afirmava o escritor Bartolomeu Campos de Queirós.
 Na atividade de escritor uma palavra nos devolve a paz da infância, a coragem da adolescência e nos coloca diante dos mistérios que pairam em todas as fases da vida. 
 As palavras são brinquedos que nunca se desgastam como afirmou o poeta.
 Recordo-me do processo de criação dos contos que compõem “A terceira porta da lua”. Nele voaram palavras como vozesruario e silêncio.
 Um crítico literário chegou a dizer que em tais narrativas “o silêncio dos personagens excluídos era um grito de desespero”.  
 Às vezes, encontro nas palavras a única forma para chegar aos lugares onde só a literatura permite, transgredindo o limite do real que não dá conta da ponta do labirinto, dos espelhos que sinto ... no caminho.
 Trato as palavras com carinho. É com elas que reconheço a importância do espinho que há em cada rosa, da poesia que mora na linha da prosa. 

As obras visuais desta crôncia estão disponiveis em: <http://www.alexameade.com> 

Na última manhã tive a oportunidade de palestrar para estudantes do Ensino Médio de uma escola de BH. Iniciei a prosa, descrevendo um pouco sobre a minha relação com as artes, em especial, a literatura. Quando fui despertado para a literatura, como leitor: presenteado com a poesia de Vinícius de Moraes. 

Claro que não podia deixar de mencionar Jean-Michel Basquiat, pintor neoexpressionista que se encontra nas fotografias deste realto. Em outras palavras, para quem está lendo blog pela primeira vez, Basquiat é o artista que homenageei com a criação do pseudônimo Farelo de Quiat. 

Nesses encontros com a rapaziada, não gosto de me estender muito. O lance é contar um pouco mesmo sobre as correrias da quebrada: produção cultural, envolvendo teatro, doação de livros e a manutenção do blog. E a vida de escritor. 

E a minha alegria foi receber o incentivo desses jovens para continuar firme na luta; pois a resposta deles foi bastante positiva. A gente saca essas coisas pela qualidade das perguntas, no brilho do olhar de cada um, dos ouvidos atentos... o carinho de quem mesmo cansado...louco para a chegada do fim do ano letivo deram moral para este poeta vagabundo que vos escreve. A vocês, meu muito obrigado! 


... farelos por aí ... 

Está na hora de lhe contar partes de como tudo começou nesse louco universo da escrita diária. O que você vai ler é do conhecimento de poucas pessoas. Só agora surgiu a vontade de escrever sobre esse assunto.

Como chego alguns minutos mais cedo à escola, resta-me um tempinho para a leitura de frases, para a escrita de observações. Bem, nos anos de 2011 e 2012, ganhamos de presente uma agenda, muito bem confeccionada por sinal, de uma editora. (Não há motivos para citar o nome, continue lendo e entenderá o porquê).

A referida agenda trazia no final das páginas diversas frases, versos, citações diversas de autores da Literatura brasileira. Curiosamente, trechos me motivaram a redigir alguns comentários críticos, às vezes, poéticos e irônicos. Tinha uma média de 15 minutos para ler, interpretar e escrever sobre a citação do dia. Aos poucos, tornou-se uma prática, com pouca disciplina, mas reveladora.

Depois, em 2013, com a criação do blog, a escrita diária para a internet exigiu outras habilidades. O que quero destacar é que apresentei o projeto do blog à editora responsável pela criação da agenda e eles não deram a mínima ideia. Por e-mail, foram frios. Pessoalmente, não acreditaram muita na iniciativa.

Um mês, após a criação do blog, uma grande editora não só me abriu as portas para possíveis parcerias, como foi a primeira a doar cem títulos para o “Projeto Livros em todo lugar”. Em outras palavras, meu amigo, minha amiga, iniciei na praia do não, no horizonte do descaso, com um layout bem raso; mas em busca do oceano do sim, à frente da fonte do caso, à procura de mais artes para você .... que me acompanha, torce, soma, critica, sugere e acredita. 

... farelos por aí ... 

Neste nono mês do ano, quero sonhar com um pesadelo menos amarelo. É o centro dos restos, my friend! As margens desapareceram, mas falta-nos as cores do cotidiano.

A cor da poeira que tingiu suas roupas já deu tchau. Sem festas, "Minas não há mais". Chega de gemer, porque chorar não vale. É isso ali, ele não sabe o que está fazendo. Por favor, sem espancá-lo. 

Das notícias que chegavam pelo Super, a melhor era a da gata sem silicone que posou no cone dos atrasados, mordeu milhões de otários com grana fácil, moeda de mostrar apenas as pontas. Calma, estou terminando.    

A festa estava tão boa, mãe. É verdade, minha filha, mas o que você ouviu, eu vi. Eu vi um monte de rapazes, tramando uma cilada pro seu irmão. "Onde ele está?" A essa hora, está bem ao lado de Nossa Senhora, proseando com o verde que ainda nos resta. "Por que Zarinha tá chorando, mãe?" 

      ... farelos por aí ...                                                       

Daqueles lances que a gente não consegue imaginar.  Só depois que rola, acontece, cê vira e diz: “que experiência fantástica, mano!” Estou falando do FestFrance Brasil  na nossa quebrada. Rolou no último sábado.

Antes de descrever um pouco do festival, venho aqui mandar um SALVE para o Maizena, grafiteiro, artista responsa da nossa região, mano que tá sempre lutando contra a “cena anêmica de Contagem”. Sem ele, brother, o evento não aconteceria no Parque Vale das Amendoeiras. Gratidão, Maizena!  
Infelizmente não pude acompanhar toda programação. De manhã, estava no colégio. À tarde, só fui levar a Leandra Pacífico, minha esposa, ao evento. Fiquei cuidando das nossas filhas, curtindo o parque, ali entre fazer uma mamadeira e preparar um lanche, tá ligado? De babá!

Já Leandra curtiu tudo que tinha direito. Fez oficinas de roteiro e direção com a artista Sonadie San. Minha esposa ficou simplesmente encantada. Depois de passar toda tarde no parque, saiu com aquele gostinho de quero mais, acompanhado de um “uau! que mulher fera!”  
Sonadie San
Quando voltei com as crianças para buscar a Leandra, tive a oportunidade de assistir a dois curtas, o primeiro dirigido pela Sonadie San, intitulado Ouvre lês yeux. Depois rolou aquele bate-papo com a plateia sobre o processo de criação que tanto curto. Foi de arrepiar, mano!

Maizena perguntou se o curta tinha influência do cinema norte-americano. E Sonadie San respondeu que sim, pois cresceu ouvindo rap. Disse ainda que aquele trabalho tinha sido influenciado por Quentin Tarantino e Pedro Almodóvar.      
Aquilo foi demais: ter na nossa quebrada uma diretora francesa retratando sua trajetória, contando-nos sobre o submundo de Paris; de periferia pra periferia, sacou? Sem rodeios, sem mi-mi-mi, ali, na real, mandando ver, sem evitar nenhum tipo comentário, tipo... na lata.   
Fechando: estamos em êxtase!

Por mais arte nas quebradas do Brasil
... farelos por aí ...


Ando sentindo falta de uma vida mais vida, mais pessoa, mais humana. Menos máquina, menos avanços tecnológicos. Será que as tais redes sociais estão fortalecendo mesmo os laços?

Orgulhosamente, sinto-me ultrapassado mantendo um blog na era dos hiperlinks, enviando e-mail. Sinto falta de ouvir a voz das pessoas, o encontro real com os amigos, o abraço. 

Gente, sou da geração que curte voz e violão em volta da fogueira, dentro do bar, da sala, no passeio ... bate-papo com os presentes no presente.

Se você me leu até aqui é porque no mínimo também se sente um pouco assim. E para você confesso que este desabafo na era das incertezas veio das releituras dos textos de Alberto Caeiro.


Qualquer dia nos encontraremos por aí para falar sobre qualquer coisa, pode ser?

A tarde da última quinta-feira, 14 de setembro de 2018, foi muito especial. Fui bater um papo, trocar umas ideias com os alunos do 6.º Ano, da Escola Estadual Ordem e Progresso, de Belo Horizonte. Lídia e Karol, professoras de Língua Portuguesa, adotaram o livro “Um estranho para o céu”, de minha autoria, com as ilustrações do artista Walter Lara. O encontro foi maravilhoso!
Fui carinhosamente recebido, acolhido por todos os funcionários. Na recepção, perguntei para a Ayra: “que música maravilhosa é essa ao fundo? Todos os dias vocês colocam músicas instrumentais para os alunos?” Ela sorrindo, disse:

- Essa música é para o senhor!   

Pronto! Ali, já me senti em casa. Quer alegria maior do que ser recebido com música, minha gente?

Depois caminhamos para a quadra. Lá fui apresentado pela professora Lídia. Contei um pouco da minha história, da paixão pela leitura, das minhas aventuras. Mas nesses encontros, penso que o mais importante é o bate-papo, em si. Gosto mais de ouvir. Deixei um espaço maior para perguntas.

Um momento mágico! Perguntas de todas as direções. Curiosidades. Alunos abrindo o livro para conferir as datas. Uma surpresa aqui, outra revelação lá. Gente, que energia maravilhosa!
Não tinha como não se encantar com toda aquela magia, pois o Alexandre foi à frente e leu um poema super fofo sobre “Um estranho para o céu”. E outra aluna, que agora, esqueci o nome, me presenteou com uma caneta toda chique para autografar os títulos. Haja coração... estava esfarelando de emoção...  

Mas antes dos autógrafos, claro, teve que rolar aquela foto especial com a galera. 
Este texto é uma simples forma de demonstrar minha gratidão aos alunos e professores da Escola Estadual Ordem e Progresso, em especial, professoras Lídia e Karol. Parabéns por cada ação, cada movimento, cada gesto de carinho que fez desse encontro uma festa literária. 
A releitura dos alunos, com a arte da Ingrid, do 9.º Ano, a caneta, o poema, o chocolate do Ciclo do Livro, o Café Literário que tanto adoro. Gente, que alegria ter recebido um girassol! Uau!

Aproveito para agradecer ao pessoal da Book Distribuidora de Livros, de Belo Horizonte, que sempre cuida de tudo com o maior carinho e respeito aos escritores. Terezinha, muito obrigado pelo apoio e pelas fotos. 

A todos que não mediram esforços para que esse encontro acontecesse, 

Muito Obrigado!

... farelos por aí ...
   

Não sou de criar polêmicas, alimentar rede de intrigas, mas quando o assunto é Literatura Brasileira, gosto de soltar uns gritos, espalhar algumas revoltas por aí. 

Não leia este texto como um manifesto, por favor. Apenas tenha em mente que literatura é linguagem e se constitui de metáforas. Desse modo, compreenderá o desabafo.

No último domingo, 04 de maio, o ator Paulo Fernandes me enviou uma matéria da Folha de S.Paulo cujo título faço questão de enfatizar “ESCRITORA MUDA OBRA DE MACHADO DE ASSIS PARA FACILITAR A LEITURA”.

O primeiro parágrafo traz a seguinte declaração da autora: “Entendo por que os jovens não gostam de Machado de Assis. Os livros dele têm cinco ou seis palavras que não entendem por frases. As construções são muito longas. Eu simplifico isso.” Segundo a autora, essa simplificação não fere o estilo de Machado de Assis, “a ideia não é mudar o que ele disse, só tornar mais fácil.”

Não vou entrar no mérito dos números, muito menos nos detalhes das obras que foram transformadas nessa gentileza do descomplicar os clássicos. Nada disso. Repare que nem revelei o nome da autora, mesmo porque essa postagem não chegará aos responsáveis pela publicação de 6oo mil exemplares de um “Alienista” descomplicado, não é mesmo?

Quero propor algumas questões: será que a aprovação de um projeto dessa natureza não é o retrato irônico do país de Machado de Assis, que lê sem assinar as propostas? As palavras complicadas do nosso grande escritor não poderiam servir de estímulo à formação de uma competência leitora? Entre gostar e não ser bem apresentado à obra de um clássico não faz toda diferença? Para finalizar, será que a escritora que teve a coragem de assassinar tal texto, de fato, entendeu algum livro do Machado de Assis? 

Brás Cubas está de olho na distribuição da versão descomplicada do “Alienista”. Vocês não acham? Perguntando-se assim:

— “Nossa, o que será do Bentinho nas mãos de uma equipe descomplicada, hein?”


... farelos por aí ...

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