Devo ter alguma espécie de ímã que atrai bêbados, loucos, estranhos e desajeitados para uma conversa. Tenho certo orgulho disso, mas nem toda hora, assim de bobeira, gosto de levar uma “batida policial”.

No trampo de “vassourinha” (aquele jovem que limpa as mesas, durante os bailes) o convidado passava a festa, no seu canto, calado. Já no final vinha puxar conversa comigo. Claro, o chef puxava minha orelha. “Nada de papo, viu?”

Desde os tempos de camelô, quando voltava pro barraco; era entrar um policial no busão e já pedia para levantar os braços.

Ah, por falar em policial, passei um aperto daqueles, esses dias.  

— Gente do céu! Foi isso mesmo que eu ouvi?

A senhora não pediu licença para seus colegas de trabalho. Foi falando, antes de se levantar. Caminhou em direção a nossa mesa. A lanchonete inteira parou pra ver no que ia dar.

— Quem é quem aqui?

Que abordagem! Fiquei pálido. Minha esposa controlou a situação. Sorte minha ser casado com uma atriz.

— Está tudo bem. Fique calmo. Não é com você dessa vez.

Ufa! A policial nem olhou pra mim. Ela se entendeu lá com minha esposa.

— Que meninas lindas! Quem é a Clarice? Quem é a Cecília?

Pronto! Agora minhas filhas também estão enroladas. Que sina?! Só pensei. Até tinha me esquecido das associações com a Meireles e a Lispector. Pai bobo.

— Você trabalha com literatura? É das Letras?

— Meu esposo que é...

A policial, muito simpática, pediu desculpas pela abordagem, por incomodar nosso lanche, por chamar atenção de todos ali presentes. A moça se apresentou. Falou com entusiasmo da graduação em Letras, do mestrado que está fazendo na área de Linguística. E falamos de um monte de coisas, menos do capitão. Do capitão não. Graças a Deus que nem entrou no assunto. Só no pensamento.

A policial se despediu, depois de ter passado aquele susto tremendo nesse bobo que vos escreve. 

— Eh, papai! Cê ficou com medo da policial?!

Criança não perdoa mesmo. E o povo da lanchonete riu muito. Eu não sabia onde enfiar a cara.

... farelos por aí ...


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Olá! A Menina do Baú Vermelho aprontou na manhã da última sexta.

Bem cedinho, enquanto preparávamos para sair para a escola, ela passou a mão em um livro novinho. Com muito cuidado, acomodou o tesouro em sua mochila.    

Não falei nada. Só a observei, sem dar bandeira. “Vamos ver no que isso vai dar”, pensei lá com meus botões, entre uma ação e outra da manhã.

Durante o recreio ela leu o livro todinho. Na volta pra casa, a moleca nos surpreendeu mais uma vez.

— Pai, quero que você indique esse livro no Baú Vermelho!

Mas a biblioteca da escola está passando por uma reforma. Onde você conseguiu um livro?

— É esse aqui! Peguei no meio daqueles que a Carminha, da editora Lê, mandou pra Clarice.
Ela abriu a mochila e nos mostrou com detalhes a obra “A Ovelha Negra”, de Bernardo Aibê. Cintos afivelados. Liguei o carro e partimos.  Dessa vez eu e a caçula assumimos o lugar de ouvintes. A Menina do Baú Vermelho foi quem contou todo o enredo do livro. Ainda por cima explicitou a lição que aprendeu com o livro. É mole?

Cecília está com a intenção de ler e indicar um título por semana aqui no blog. O que vocês acham dessa iniciativa?

A partir de agora  ela ficará responsável por tirar e editar as fotos, assim como procedeu dessa vez.
Segundo Cecília, ser a ovelha negra tem lá suas vantagens, inclusive a de ser feliz. Como assim? Ah, para saber é preciso ler o livro.
"Tita era uma ovelha diferente... Ela queria ser igual às suas amigas. Queria, mas não era... Tudo para ela se tornava mais difícil. Até amar era complicado. De nada adiantavam os carinhos e a atenção das outras ovelhas. Será que ser igual a todo mundo é tão bom assim?"

Um forte abraço!
Até breve!


O terminal rodoviário estava um caos dos diabos, aquele calor dos últimos tempos dilatando a impaciência dos passageiros, falta de informação, mal humor dos "pseudo-ricos", atraso das partidas e lá quase no pé da escada, bem pertinho da porta do ônibus, ELA.

Clarice pediu água mineral, Cecília queria comprar chicletes, a esposa vigiando as bolsas, eu ali sem acreditar que era ELA. 

Será que ELA vai me cumprimentar? porque tem ex que não está nem aí pra gente, tem ex que faz questão de esconder o rosto, fingir que a gente nem fez parte da vida dela. Na real? já tive ex que me maltratou com comentários tão indelicados, mas tão indelicados que cheguei a ouvir: “Ah, veja o que esse infeliz foi fazer da vida!”;

E ELA?

Ah, não resisti. Não fiquei pensando demais, nem quis saber com quem estava, fui até a ex, todo espalhafatoso. Ela ficou toda surpresa, soltou o sorriso bonito dos velhos tempos, lasquei um abraço. Que abraço gostoso! 

— Nossa! Como suas filhas cresceram? Outro dia mesmo a Clarice estava nascendo.

— Eu não acredito que vamos viajar juntos!

— Vou viajar com meus pais. Tenho uma praia só minha, desde pequenina.

— Ah, não! Vocês vão do meu lado?

Ela com a mãe, à esquerda. Eu com a Cecília. Minha esposa com a Clarice na poltrona da frente. Bem, o pai da ex atrás na poltrona atrás da minha.

Você não faz ideia do quanto a família da ex nos ajudou. Eu não conhecia o trajeto. Sem a presença deles, certamente cometeria muitos erros, como por exemplo, descendo no terminal errado.

Naquelas horas de viagem, entendi porque a ex é uma pessoa tão engajada, crítica, reflexiva. Conversamos muito sobre diversos assuntos. Às vésperas de descer nosso destino, fiz uma revelação para mãe e filha (ex):

 — Toda vez que vou trabalhar com Clarice Lispector, lembro-me da sua filha. Ela despertou um grande interesse pela autora.

— Verdade! Tanto que vira e mexe está no sebo atrás dos livros da escritora.

— Clarice Lispector é uma das minhas favoritas, professor.

Aquele depoimento me levou às nuvens. Por um instante, esqueci completamente das mais de 12 horas de viagem. Aquele relato foi mais do que bálsamo para os ruídos daquela amanhã, foi a prova de que vale a pena ser um farelo por aí. A descoberta de que despertei o gosto pela literatura (em especial, a brasileira) em uma jovem, como a ex, me deixa assim... emocionado.

... farelos por aí ...


Crédito da imagem: http://nilcatalano.blogspot.com/2010/09/explosao-em-cores.html

A pior parte após terminar um relacionamento é a arte de desapegar de vez de tudo aquilo que você e a pessoa haviam construído. Boa parte das pessoas não sabe como lidar com isso, e é nesse ponto que a história desse mês será a solução para esse problema.

O livro “Não se apega não” narra a história da mineira Isabela, que acaba de terminar seu relacionamento de anos com Gustavo, por simplesmente não achar que deveria seguir em frente. O que Isabela não sabia é que era muito difícil conviver com essa decisão depois de todos que estavam próximos de acharem que eles eram um casal “ideal”

Dessa forma, ela nos conta tudo o que está acontecendo de maneira bem humorada, além de falar sobre suas outras relações importantes, com os pais e com os amigos. Conforme a história vai se passando, nós vamos nos reconhecendo um pouco mais com cada personagem, o que torna a leitura muito rápida e divertida.

Quando comecei a ler o livro, imaginei que fosse uma espécie de autoajuda, mas conforme fui lendo e me envolvendo na história, notei que tinha muito mais uma identidade com as histórias da Paula Pimenta do que com qualquer outra coisa. Você se apaixona e acredita que toda aquela história é verdadeira, quando na verdade é só uma ficção que poderia acontecer com qualquer um.

Além do primeiro livro, a autora escreveu uma trilogia que continua a história da jovem. É uma ótima leitura pra quem gosta de fazer uma maratona de leituras rápidas.

Boa leitura!
 Um abraço da Emanuelle


Conviver demais com uma pessoa pode levar à morte. Eu,como muitos outros maridos, tenho o hábito de chamar a esposa de AMOR.  

Bem, tratamento carinhoso e aceitável, não é mesmo?Errado. 

De férias, bastante tempo ao lado da família, vai o bobo aqui arrumar a bicicleta da filha. 

O mecânico muito educado, negão forte, tipo 4x4. Ao acabar o serviço, pergunto de forma inocente:

— Quanto foi, AMOR?

Tentei consertar rapidamente, dizendo em seguida, AMIGO; a meleca já estava feita. 

Os outros funcionários repetiram a expressão em tom sarcástico.Peguei a bicicleta e casquei no cerrado. 

Minha esposa está rindo sozinha até hoje. E eu também.

Imagem disponível em: www.euvoudebike.com
Oi, Silvana! Espero encontrá-la bem. Depois de indicar duas obras que você ilustrou, lá da editora IMEPH, a menina do Baú Vermelho fez um comentário. Um comentário que vai deixar a madrinha de cabelo em pé:

— Pai, acho que o Cabelinho Vermelho tá com ciúme.

Para quem não sabe, a série Baú Vermelho estreou com a indicação da obra Cabelinho Vermelho e o Lobo Bobo.  Uma outra curiosidade: a Cecília tem tanto carinho com esse livro que não deixar emprestá-lo para nenhuma outra criança. E o medo do título não voltar (risos) 

Aqui, Silvana, agorinha mesmo você vai ficar por dentro dessa treta literária.  

— DO LOBO! DO LOBO! DO LOBO!

Clarice, a irmã mais nova da Cecília, está cheias de amor por um dos seus lobos. Essa é a verdade, minha querida. Se for preciso, Clarice até dança e canta com os Três Porquinhos para ficar pertinho do Lobo.
Na casa da Vovó, assim que abriu o livro pela primeira vez disse: “lobinho engraçado”. Depois na viagem de trem, ninguém sem entender a algazarra de uma menininha vibrando com a aventura de um Lobo Barrigudo. Outro dia ela estava na banheira, tomando banho e gritou:

— Papai, quero o Lobo Baligudo. Conta, conta....

Era isso, Silvana. Acho que agora você entendeu a causa do ciúme. Encurtando um pouco a história, Cabelinho Vermelho e o Lobo Bobo prepararam o caminho para os Três Porquinhos e o Lobo Barrigudo.  

Tava demorando ela pedir pra mandar uma dica inusitada no blog. Os colchões espalhados na sala. A menina do Baú Vermelho e a irmã, as descabeladas, brincavam de tudo quanto era riso no fim da tarde.

— Cês vão jogar tudo no chão. Ah, quando mamãe chegar vai dá BO pra todo mundo.

— Vai nada. Tamu é tudo louca!

— Deu pra ver. Ai, ai...

Assim do nada, a mais velha deu o grito:

— Ah, pai, pensa que esqueci, né?

— Do que cê tá falando?

— A gente tá que nem a dona do livro que cê falou que ia indicar no blog...
Ah, não prometa nada para sua filha de nove anos. Ela vai cobrar, mais cedo, mais tarde. Ela leu o livro no mês passado, antes do Natal, falou que era pra indicar e tal. Só que esqueci.

Quando a gente leu, na tranquilidade da casa da vovó, ela comentou:

— Nossa, pai, essa Dona Maluca chega a dar medo.      

— ?

— Sei lá. Maluca não. Ela é muito é corajosa de viver numa casa enorme sozinha.
  
“Era uma casa pouco engraçada, tinha teto e muita papelada”. Oh, eu lembrando de outra casa aqui.  Voltando à conversa:

Cê num vai ficar dando pistas, né? Daqui a pouco vai contar o que tinha nos quartos da Dona e o que acontece no final.

— Ok! Parei de contar. Quem quiser saber que leia a obra....

— Disso todo mundo sabe, pai. Acaba aí logo e vem brincar com a gente.

– Fui

  
 Título: A casa da Dona Maluca
Autora: Sandra Branco
Ilustradora: Silvana de Menezes
Editora: IMEPH


Se tem um lance que muito nos orgulha dentro das ações do projeto “Livros em todo lugar”, é entrar em contato com o trabalho de autores e ilustradores de todos os cantos do país.Quando o assunto é literatura infantojuvenil, então, essa descoberta vem com um sabor especial.
No dia da entrega do “Troféu Livros em todo lugar 2018”, Silvana de Menezes, a homenageada, presenteou-nos com alguns títulos de sua autoria (ilustração e texto, é que ela é uma multiartista) e outros que havia ilustrado.
Após conversar com a “A garota do Baú Vermelho” sobre o título que escolheríamos para abrir 2019, a sugestão foi “Livrorescer”, de Fernanda de Oliveira.

É a primeira vez que recebemos um título da IMEPH, editora do Ceará. A obra traz uma edição primorosa, com ilustrações belíssimas e projeto gráfico que atrai a atenção de crianças de várias idades (por que não dizer mamãe, papai e professores?).

Livrorescer aborda de forma poética o nascimento de um leitor: o primeiro contato com o título na estante, a leitura de pedacinho em pedacinho, curiosidade e carinho. O caminho de flores de quem adora a biblioteca ou espaço de leitura... num universo de aventura... livrorescendo...

Livrorescer narra as surpresas da infância. Descreve o olhar azul para o verde caminhando para o amarelo, rumo ao amadurecer dos tempos, dos ventos descobertos nas asas da imaginação.  
Autora: Fernanda de Oliveira
Ilustradora: Silvana de Menezes
Editora: IMEPH

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