Eu durmo e vivo ao sol como um cigano,
Fumando meu cigarro vaporoso;
Nas noites de verão namoro estrelas;
Sou pobre, sou mendigo e sou 1ditoso!

Ando roto, sem bolsos nem dinheiro
Mas tenho na viola uma riqueza:
Canto à lua de noite serenatas,
E quem vive de amor não tem pobreza.
(...)

Oito dias lá vão que ando cismado
Na donzela que ali defronte mora.
Ela ao ver-me sorri tão docemente!
Desconfio que a moça me namora!...

Tenho por meu palácio as longas ruas;
Passeio a gosto e durmo sem temores;
Quando bebo, sou rei como um poeta,
E o vinho faz sonhar com os amores.

O degrau das igrejas é meu trono,
Minha pátria é o vento que respiro,
Minha mãe é a lua macilenta,
E a preguiça a mulher por quem suspiro.

Escrevo na parede as minhas rimas,
De painéis a carvão adorno a rua;
Como as aves do céu e as flores puras
Abro meu peito ao sol e durmo à lua.
(...)

Ora, se por aí alguma bela
Bem doirada e amante da preguiça
Quiser a 2nívea mão unir à minha,
Há de achar-me na Sé, domingo, à Missa.


Poeta: Álvares de Azevedo





Quando eu morder
a palavra,
por favor,
não me apressem,
quero mascar,
rasgar entre os dentes,
a pele, os ossos, o tutano
do verbo,
para assim versejar
o âmago das coisas.
Quando meu olhar
se perder no nada,
por favor,
não me despertem,
quero reter,
no adentro da íris,
a menor sombra,
do ínfimo movimento.
Quando meus pés
abrandarem na marcha,
por favor,
não me forcem.
Caminhar para quê?
Deixem-me quedar,
deixem-me quieta,
na aparente inércia.
Nem todo viandante
anda estradas,
há mundos submersos,
que só o silêncio
da poesia penetra.

Poeta: Conceição Evaristo
Livro:  “Poemas da recordação e outros movimentos”





Ó Mulher! Como és fraca e como és forte!
Como sabes ser doce e desgraçada!
Como sabes fingir quando em teu peito
A tua alma se estorce amargurada!

Quantas morrem saudosa duma imagem.
Adorada que amaram doidamente!
Quantas e quantas almas endoidecem
Enquanto a boca rir alegremente!

Quanta paixão e amor às vezes têm
Sem nunca o confessarem a ninguém
Doce alma de dor e sofrimento!

Paixão que faria a felicidade.
Dum rei; amor de sonho e de saudade,
Que se esvai e que foge num lamento!

Poeta: Florbela Espanca


— Vê se pode? cê passa na recepção, o moço te encaminha pra triagem, umas enfermeiras magricelas te atendem, dão umas ideias erradas querendo acertar, num é?

— Só procuram ser gentis, quem consegue ser gentil o tempo inteiro nessa loucura?

— Minha pequena tá que é preocupação só, cê conhece criança nessa idade que nunca teve febre, moço?

— Ah, esses desenhos da Peppa Pig... ninguém merece, sei as falas de có, esse Papai é todo desajeitado que nem o seu, num posso ficar falando assim dele não, o coitado tem se esforçado, passou a noite em claro, de um lado pro outro, medindo sua febre, levando água pra gente, dizem que tá meio escasso de homi assim no mercado, seu pai presta sim, tá? quem é a única pessoa no mundo que pode falar mal dele? quem?

— Tá bem, tá bem, num teima não, depois que tomá os antibióticos, depois, ouviu? eu compro o balão que ocê quiser,  esses balões tão caro demais, moça? num acha que é covardia vender balão de ouro pra criança na porta de hospital?

— Até que esse troço do painel num é má ideia, a gente põe um zói lá e o outro no pirralho e acaba esquecendo os problemas do mundo lá fora, como deve ser trabalhar em hospital de pediatria?

— Viu só, filho? o menino estuda na mesma escola que você, disfarça, disfarça, ele é chato demais, se acha o popular do colégio, é canseira, posso esconder no seu colo?

— Sua filha não possui nenhuma fratura. A garganta está muito inflamada. Se a febre não abaixar, por favor, retorne ao hospital. O senhor está liberado. Moço do plano: O senhor pode responder a uma pesquisa rápida?

— Seu atendimento foi muito rápido. Você tem sorte, dona. Já está indo embora?

— Cê tá doido? Fiquei aqui quase duas horas, com comida pra fazer, roupa para tirar da máquina, tem que buscá o outro filho na escola pelo visto cê num faz ideia do que é o dia na vida de uma dona de casa, mãe, secretária, esposa, faz?   

 — Por que tenho que intrometer na vida dos outros?


... farelos por aí ... 




Desculpe-me, leitor(a), mas a confissão que vou fazer não será do seu agrado, talvez.

Se por um acaso, você torcer o nariz, eu vou compreender. Você joga no time da maioria.

Confissão: eu gosto da segunda-feira!

Eu não sou louco. Depois de conviver com alguns japoneses, passei a curtir a segunda.

De acordo com alguns alunos, disparou um “bom dia” diferenciado, cheio de energia.  Não sei explicar.  

Sei que a última segunda-feira, por exemplo, entrou para minha História da Gratidão (mais à frente vou explicar melhor essa tal HG).

Nos primeiros minutos das sete, uma aluna me procurou na sala dos professores:

— Comprei um presente para você, Farelo!

Nossa! Poderia ser uma dúvida, crítica, reclamação, um comentário sobre a Disgreta Voadora (vulgo Enem).

— É diferente de tudo que li.

Nessas horas fico sem graça. Sem jeito, compreende? Meio bicho do mato. Será que merecia um presente tão distinto assim?

— Gostei tanto que fui à livraria e comprei um exemplar para cada pessoal especial do meu convívio. Espero que você goste também.

Bateu o primeiro sinal.

Recebi o livro da jovem. Primeiro, senti seu cheiro. Em seguida, encantei-me com sua lombada, cheio de brilho, dourada. Percorri os relevos da fonte, na capa.

Bateu o segundo sinal.

Tive tempo de ler os textos da quarta capa. Eram escritores e críticos, apresentando a obra do escritor português que eu nunca havia lido.

Bateu o terceiro e último sinal.
A aula já ia começar. Abracei a aluna, em sinal de gratidão. Despedimo-nos.

A vontade era não ministrar aula nenhuma naquela manhã. Não fazer chamada. Não passar exercícios. O desejo era sentar debaixo de uma árvore, desligar-se do tempo para poder ler o livro inteirinho.

Só no meio da tarde foi possível me perder naquelas páginas em branco, com desenhos em azul e metal, feitos pelo próprio autor. Ah, o nome dele: Valter Hugo Mãe. O título do livro? “O paraíso são os outros”.

Na manhã de terça, saí mostrando livro para todos os amigos. Na quarta, não consegui guardar as alegrias desse encantamento. Quando percebi estava na frente do computador, redigindo esta crônica.

Eis um capítulo da minha HG. Se você tivesse que escrever um livro sobre sua História de Gratidão, com qual dádiva você começaria?   

... farelos por aí ... 

  
           


Teus olhos me olham 
longamente,
imperiosamente...
de dentro deles teu amor me espia.
Teus olhos me olham numa tortura
de alma que quer ser corpo,
de criação que anseia ser criatura
Tua mão contém a minha
de momento a momento:
é uma ave aflita
meu pensamento
na tua mão.
Nada me dizes,
porém entra-me a carne a persuasão
de que teus dedos criam raízes
na minha mão.
Teu olhar abre os braços,
de longe,
à forma inquieta de meu ser;
abre os braços e enlaça-me toda a alma.
Tem teu mórbido olhar
penetrações supremas
e sinto, por senti-lo, tal prazer,
há nos meus poros tal palpitação,
que me vem a ilusão
de que se vai abrir
todo meu corpo
em poemas.

Poeta: Gilka Machado 



Poesia
é brincar com palavras
como se brinca
com bola, papagaio, pião.
Só que
bola, papagaio, pião
de tanto brincar
se gastam.
As palavras não:
quanto mais se brinca
com elas
mais novas ficam.
Como a água do rio
que é água sempre nova.
Como cada dia
que é sempre um novo dia.
Vamos brincar de poesia?
Poeta: José Paulo Paes


 
Tua sedução é menos
de mulher do que de casa:
pois vem de como é por dentro
ou por detrás da fachada.

Mesmo quando ela possui
tua plácida elegância,
esse teu reboco claro,
riso franco de varandas,

uma casa não é nunca
só para ser contemplada;
melhor: somente por dentro
é possível contemplá-la.

Seduz pelo que é dentro,
ou será, quando se abra;
pelo que pode ser dentro
de suas paredes fechadas;

pelo que dentro fizeram
com seus vazios, com o nada;
pelos espaços de dentro,
não pelo que dentro guarda;

pelos espaços de dentro:
seus recintos, suas áreas,
organizando-se dentro
em corredores e salas,

os quais sugerindo ao homem
estâncias aconchegadas,
paredes bem revestidas
ou recessos bons de cavas,

exercem sobre esse homem
efeito igual ao que causas:
a vontade de corrê-la
por dentro, de visitá-la.

Poeta: João Cabral de Melo Neto
Livro:  Quaderna
Foto: Oscar Cabral

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