Para o TA – CSMM-FL

Gosto de cenas, em silêncio, que nos transportam para outros universos. Pode lhe parecer papo de biruta, gente com um parafuso a menos, mas como é bom ficar estudando as cores efêmeras do céu, no início da manhã!

E quando a gente se desliga do mundo diante de uma pintura? E quando deixamos as obrigações de lado para ficar revirando fotografias da família? Quando ia para o trabalho de ônibus, gostava de ler o silêncio e as inquietações dos passageiros. Certamente muitos olharam pra mim com certo ar de desencontro, como quem diz: “Que cara estranho! Nossa, ele não parece ser deste mundo!”

Por conta dessas manias, arrumei confusão esta semana. A cena foi ficando tão inquietante que quase quebrou o respeito do meu silêncio. Poderia não terminar muito bem. Ainda não possui um desfecho, mas você, leitor(a) poderá me ajudar a resolver esse quadro.

– Deixe de ser curioso. Você ficou maluco, homem de Deus? – decretou minha companheira.

– Mas é que não aguento mais. Todo dia no mesmo horário. Ali tem. Você não acha?    

Eis a cena: próximo ao Parque Ecológico de BH, em uma rua deserta, com muitas árvores. Com chuva ou sol, frio ou calor. Não importa a temperatura. De segunda à sexta, sem falta, vemos uma mulher negra, na casa dos quarenta anos, com trajes da rotina doméstica. Às vezes com sandália, chinelo, ora com calças simples e bermuda. Horário: entre 10h e 14h. A mulher geralmente está sentada no mesmo lugar da calçada. Do seu lado esquerdo, uma bolsa simples. Nada eu nos chame a atenção. Até aí tudo bem? Sim. Só que não. O que desperta nossa atenção, então? Ela está sempre lendo um livro, geralmente grosso. Pela lombada, tudo indica ser do gênero romance. Algumas vezes, passei devagar e pude perceber, pela capa, que não se trata do mesmo título.

A cena de uma pessoa com livros sempre me chamou muita atenção; mas no caso dessa leitora, foi ainda mais intenso. Aos poucos foi crescendo a vontade de um dia parar o carro, pedir licença, em seguida, me apresentar, para depois, quem sabe, saber se aquela mulher é de verdade ou coisa da minha imaginação.

– Fique tranquilo, dessa vez você não está ficando doido. Eu também a vejo todas as manhãs, quando estou indo para meu curso na UFMG – informou-me um vizinho. 

Que mulher aquela que, entre o final da manhã, o horário do almoço e o início da tarde, fica sentada na rua lendo? Seria uma funcionária à espera do seu turno de trabalho em uma daquelas casas elegantes da região? Seria uma pessoa com o propósito de se desligar do mundo para viver os enredos de fantasia, em silêncio e deleite? Não queria lhe contar, mas rolou a discussão de que ela era uma garota com a profissão mais antiga do mundo. Não. Não queremos julgar ninguém. Onde ela compra aqueles livros caros? Aquela mulher é mãe? Quantos filhos ela tem? 

Agora, você entende a situação: não consigo tirar aquela leitora da minha cabeça. Também não tiro da cachola a vontade de parar o carro e trocar umas palavras com ela. Será que você poderia me ajudar?  Quem você acha que é aquela mulher?      


...farelos por aí...

Esta crônica não abordará nenhuma expressão do universo juvenil. Peço desculpas àqueles leitores que, vez ou outra, encontraram uma dose de humor nas histórias publicadas aqui. 


Este texto é quase um pedido. Uma pausa, não para apresentar uma novidade linguística, ou comentar uma frase cômica do cotidiano. É simplesmente o tom que encontrei para compor essa incômoda trama dos últimos dias...

           

Não vou acreditar na fraqueza das considerações vazias. Um jovem, na casa dos 18 anos, comentou recentemente que “anda um pouco difícil expressar carinho para as mulheres; pois ser romântico, agora, é sinônimo de ser gay”. Um homem chorar, então? Vergonha total.


Complicado isso.


Quem tem coragem de concordar com tal barbaridade, na certa, nunca sonhou com a experiência do afeto. E ainda não fez silêncio antes de pronunciar palavras que banalizam relações sociais. 
           

Não quero aceitar o comportamento corrosivo desses “desconectados” que passam por aí. Cuidado! Eles querem criticar todos os gestos da delicadeza, repetidos e reinventados por gerações e gerações. Daqui a pouco não reconhecerão a poesia presente num abraço. A ternura dos (re)encontros será apenas a página de um velho diálogo, esquecido no balanço dos nossos avós.   


Agora, em pleno início de século, vamos animalizar as relações? Porque se eles ainda não aprenderam, cada época tem seu jeito de amar; porém os contextos estão entrelaçados no respeito ao próximo. Do contrário, não estaríamos aqui. Contentes ou não, somos frutos do amor dos nossos pais. Será que os desconectados entenderiam isso?


Há quem diga, por exemplo, que enviar flores para a namorada é uma atitude cafona. Trocar mensagens com o noivo está fora de moda. Fazer uma declaração para a esposa é pagar mico. Pior que não respeitar o modo como alguém se declara ao outro é não encontrar uma forma, no mínimo, delicada de se declarar.


Sim.

Temos que alumiar nossos laços! Chega de ficar empregando uma mesma palavra para todas as ocasiões.  Abandone palavras que desgastam as relações, reinvente-se!

           

Ao longo dos anos, empregamos tão mal, mas tal mal... que chegamos a banalizar o conceito da palavra amor. Ou pior, desaparecemos com seu significado em troca de ações violentas, incoerentes. Sim. Sem contar os seus usos indevidos. E você já deve ter ouvido por aí que a pior crise que o mundo enfrenta não é financeira, mas a de valores. Estamos carentes. Precisamos sim ... (re)significar o amor ao próximo, ao mundo.


 HUMANOS

Antes de se preocupar com o presente que ganhará, pense no presente que oferecerá. Um presente sem data de validade, mas com todas as garantias. Um presente que não sofra transformações, durante as estações do ano. Um presente para tremer no verão e arder no inverno. Um presente que seja mais forte que todas as crises, que brilhe no escuro de todas as inseguranças e seja luz para a vida de ambos.  Quer uma sugestão?


– Dê sua presença em todos os gestos, atos e afetos.


– E se alguém criticar?


– Seja exemplo. Ame-se! 

...farelos por aí...


Por Croton*
"...praticas laboriosamente os gestos universais, sentes calor e frio, falta de dinheiro, fome e desejo sexual." E é com esse trecho de Drummond que deixo aqui um grito desesperado por atenção ao mundo que nos rodeia.

Ao ler "Elegia 1938", pela primeira vez, veio até mim, espontaneamente, uma imagem tenebrosa. Penso no mundo coberto pela cor cinza, alusão às Revoluções Industriais, sobretudo a Terceira.

Alusão à conspurcação, à automação da grande massa. Vejo um mundo cinza, ar rarefeito, pulmões que urgem por oxigênio. Seres humanos que uma vez clamaram pela liberdade, gritando "Liberté, Egalité, Fraternité!"; hoje, fazem seus gestos universais - movimentos programados pelos grandes gênios do Fordismo e Taylorismo. 

Tem gente que tá morrendo de fome lá fora, sabia? Tão morrendo sim. Tão com fome e frio. Mas tão com calor também, emanado pelo sangue quente que escorre pelas suas mãos tão exploradas. Tão com fome, fome do alimento e da carne, tesão.

Mas, olhe só, a crise não tirou o emprego da prostituta não. Eu a vejo na rua, sozinha, com medo. Ela também sente frio e fome, mas não sente tesão. Poucas roupas que é pra mostrar sua calcinha vermelha, que comprou com o dinheiro sujo dum cliente satisfeito, o mesmo vermelho que encontramos num cardápio do McDonald's.

Mas o que é aquilo na calcinha dela? Ah, sim. O DÓLAR. Esse daí tá em todo lugar também, sabia? Esse tal de dólar. Nosso Real tá valendo nada não. Mas, olha só, não fica triste não, a vida é assim mesmo.

Agora, menino, vai trabalhar que tá na hora de ir bater o ponto. 15 anos já, tem que pegar seu dinheiro e ir virar homem com aquela prostituta da calcinha vermelha.

*Croton é estudante do 3.º Ano do Ensino Médio, fã de Carlos Drummond de Andrade, Cecília Meireles, e de muitos outros gigantes da poesia brasileira.    

Crédito da imagem: https://www.youtube.com/watch?v=TGh_jvSUNRI


Uma união do clássico adolescente "Clube dos Cinco" com o atual sucesso "Pretty Little Liars" não seria má ideia, e foi graças à autora Karen M. McManus que essa junção pôde acontecer.


Em "Um de nós está mentindo", cinco adolescentes são mandados à detenção do colégio, e são obrigados a conviver em uma sala juntos. Seria um dia complicado já que possuíam personalidades e grupos completamente diferentes, eram eles: a nerd, a princesa, o marginal, o atleta e o fofoqueiro.

Entretanto, algo acontece e somente quatro deles saem ao final do dia e agora terão que conviver com um terrível mistério, Simon, o fofoqueiro estava morto. Além disso, não poderiam falar desse assunto com ninguém além daquele grupo, por medo de que incriminassem um dos quatro, pois muitos segredos haviam sido compartilhados naquele dia, e Simon poderia colocar a vida de qualquer um nos jornais da escola. 


Apesar de o livro apresentar uma narrativa simples, cada capítulo é narrado pela perspectiva de um dos adolescentes e quando se lê, nos sentimos como um verdadeiro detetive, nos envolvendo com todos os personagens da história e fazendo com que não nos dê vontade de largar tudo aquilo que já descobrimos.  

Outro ponto muito interessante é que o livro não é apenas sobre descobrir quem cometeu o assassinato (ao passar da trama descobrimos isso com facilidade), mas sim como cada personagem foi afetado com esse acontecimento, suas relações pessoais, seus hábitos e até mesmo sua forma de ver o mundo; fugindo de todo o clichê que se espera de um livro de suspense adolescente. 

livro foi lançado no Brasil há pouco tempo, porém tomou grande proporção com o público jovem, sendo disponibilizado não só como em grandes livrarias, mas como e-book e leitura online de pdf. Você é capaz de me dizer quem está mentindo? Quem matou Simon? 






Para Geraldinho, colecionador de flores.

Na última madrugada, por volta das 03h45, um senhor bateu no portão da minha casa. Bateu três vezes e nem esperou que eu perguntasse “quem era” àquela hora da noite. “Eu sou o moço da coleta”.
Era um moço. Um moço com trajes simples, muito bem agasalhado, luvas grossas, boina preta, gorro azul e uma mochila marrom, já gasta. Os sapatos muito rodados. Tive a impressão de que ele lia rapidamente as ideias e atitudes. Sempre antecipava a impressão.
– Não, meu jovem. Não precisa colocar os pés pra fora do portão.
Minha mãe, meu pai, os irmãos, todos lá pensando que eu fosse um maluco de abrir o portão àquela hora da madrugada. E se fosse um ladrão? E se fosse um biruta? E se fosse...
– Como vê, a rua está vazia. A lua está que é uma beleza! Você não acha?
***
– Não venho falar dessas coisas a essa hora. Venho recuperar seus sonhos, sua rotina, sua família, seus amigos, sua vida!
O moço retirou da mochila um caderno antigo, artesanal, capa de madeira, folhas quase amarelas. Ele abriu na página que continha meus dados no cabeçalho. Em seguida, retirou uma Bic verde do bolso esquerdo e disse:
– Meu jovem, escreva nessas páginas somente palavras do seu constante afligir.
Enquanto eu escrevia, ele virou as costas, ficando diante do céu, com os braços para trás e olhos fechados.
– Não tenha pressa.
Concentrei-me na lista que não era pequena. De repente, uma página voou. Continuei no verso. Fiquei exausto. Não tinha como ficar. Não dormia há dias. Não havia dormido nem um pouco nas horas anteriores. Fechei o caderno. Tampei a caneta e devolvi para o moço.
– Meu jovem, ainda é cedo. Aproveite a noite para descansar.
Como assim, cedo? Na verdade, durante o registro, ele atrasou o relógio do mundo. Quando voltei para dentro de casa, um susto: o cuco da sala, todo saliente, marcava 19h. Só sei que quando voltei à rua para pedir explicações, o tal moço havia desaparecido.
Agora, você deve estar se perguntando: o que escrevi no caderno àquela hora da madrugada?
Recordo-me de alguns vocábulos: greve, locaute, blecaute, nocaute, corrupção, lava-jato, crise, desabastecimento, políticos, fila, injustiça, preço, gasolina, diesel, ilegitimidade. Tinha mais, muito mais. Não lembro mais.
Eu não quero lembrar.

... farelos por aí...

Crédito da capa: Pintura de Wilhelm Sasnal, neoexpressionista polonês

– Vá com cuidado, filhinha.
– Não quero.
– Mas seu lugar é aí, atrás.
– Não.
– O que foi?
– Não quero, não quero e não.
– Então não vamos. Você sabe que ainda não tem idade para vir na frente.
– Você sabe que eu tenho medo dele.
– Medo de quem?
– Dele, uai.
– Do bicho papão?
– Não, pai.
– Quem anda colocando medo na minha pequena?
– O Cascão.
– Sério?
– Tire a Revista daqui.
– Como assim? Por quê?
– Ele é mau.
– Não. A Mônica que é.
– O Cascão.
– Ele e o Cebolinha, às vezes, aprontam algumas.
– Eu vou gritar, pai.
– O que ele fez?
– Não faz, né, pai!  
– Só por isso, agora ele é vilão?
– É careca e não toma banho, fede muito.

– Está bem, vou guardar a Revista no porta-luvas.
Até a última década eu acreditava que resenha fosse apenas um gênero textual muito solicitado nas universidades. Presente também nos jornais e revistas. As famosas resenhas críticas de livros, filmes, peças e shows.  
Depois de um tempo, o vocábulo ganhou força naqueles comentários televisivos – sempre inteligentes, enriquecedores, pós-partida de futebol.
Diferente desse tipo de resenha, mantido pelas emissoras de TV (um dinheirinho muito mal investido, porque cá entre nós, os comentaristas esportivos, no geral, são prolixos por demais; com raras exceções, claro). 
Por outro lado, aquele momento após a peladinha do fim de semana, também recebeu o nome da resenha. Há quem diga que, nesse caso, às vezes a resenha é melhor do que o jogo. Sério! Como não tenho habilidades nem para gandula do futebol de várzea, não vou intrometer nesse lance.
Meu lance é outro: as resenhas que têm dado o que falar pelas bandas da capital mineira.  
Calma, leitor com as mesmas primaveras do que eu. Muita calma nessa hora. Você compreenderá logo, logo.
Tudo aconteceu numa segunda-feira. Após o 3º horário, uma jovem do terceirão se juntou com mais algumas colegas na sala onde eu estava e começaram com a “resenha da última resenha”. Assunto vai, crítica vem; de repente a Mary alfinetou os brothers que não possuem iniciativa para chegar nas garotas e por isso mesmo representam o “quadrado da frouxisse”. É aquele lance de falar pra mina que |tipo| o amigo do seu amigo |tipo| tá a fim dela, sacou? 
– Eu não entendi nada. Por que o próprio sujeito não vai até a menina com quem quer ficar?
– Porque o cara é frouxo, fessor! Preciso dos seus amiguinhos pra pegar uma garota.   
– Nessa hora, a gente vai logo usando o velho truque de que é lésbica e descarta o cara – comentou uma das colegas.
– Ou a gente levanta a mão e mostra a aliança ou anel (falsos) para ver se o infeliz vaza logo. 
– Na boa? Um cara sem atitude assim cai uns 10 pontos na escala – conclui Mary.
Para uma segunda-feira, aquilo estava bom demais. As alunas foram para o intervalo e eu fiquei com a tal da resenha na cabeça. Claro que todo professor já ouviu falar dos sucessos e insucessos desses eventos. Isso mesmo, ilustre leitor, resenha de uns anos pra cá é o nome de uma festa, um “encontro dos jovens”. Como nunca participei de um evento dessa natureza, fui atrás dos perfis que a gente encontra por lá. Não consegui a lista completa, mas caso algum brother queira completá-la, por favor. Sem mais delongas, do contrário, vou ficar parecendo com a resenha dos comentaristas esportivos, não é mesmo?
1.      Há o “tipo dançarino”, que arrasa. Se for axezeiro então, ninguém segura.
2.      Por outro lado, tem o tipo que critica axé, mas que adora dançar na boquinha da garrafa em outros rolês.   
3.      Disseram-me que lá também, claro, encontramos “sarradores” e “marmiteiros”.
4.      Tem o tipo “otário” que vai com o intuito de ficar “louco” e acaba estragando a resenha.
5.      Somam-se a esse grupo os famosos “ideias erradas”, também conhecidos como “PTzeiros”.
6.      Não podemos esquecer que os jogadores de LOL também frequentam as resenhas (Quero conhecer melhor esse perfil)
7.      Há os manos que “inventam que fazem PROERD só pra cair fora”.
8.      Mas não se engane, minha querida. Cuidado com as Falsianes de plantão! Elas vão de bonde pra resenha.
9.      Não precisa dizer. Precisa sim. Nas resenhas também rolam PT. Nesse cenário surge outro perfil, muito prestativo: As enfermeiras. “Os anjos que são amigos suficientemente pra perder a festa e ficar cuidando dos outros quando o álcool aperta”
Não faço PROERD, mas tô vazando; e qual seria mesmo o 10º tipo das resenhas? Que perfil ficou de fora, gente?
Fui. 


Imagem disponível em: <disneybabble.uol.com.br> 
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