A história que indico para vocês nesse mês começa em 1986, na pequena cidade Anderbury, onde cinco amigos; Eddie, Gav Gordo, Hoppo, Mickey Metal e Nicky passam se comunicar através de uma linguagem só deles. Linguagem essa que os adultos não pudessem entender: homens de giz desenhados pelos lugares. Entretanto, em uma das aventuras desse grupo, eles acabam chegando a um bosque, onde há uma pessoa morta.

Trinta anos se passam, os amigos tentaram retomar suas vidas e segui-las como planejavam, porém, um dia repentinamente, recebem uma carta anônima, que possui o desenho de um homem de giz enforcado. A trama fica mais tensa, pois ninguém consegue imaginar quem poderia ter mandado aquela misteriosa carta.

Essa mudança de tempo se torna algo interessante, pois notamos como as pessoas amadurecem e ainda assim a amizade se mantém. O autor propõe ao leitor uma certa manipulação; pois ao mesmo tempo que faz com que ele saiba o que está acontecendo, arranja reviravoltas do início ao fim.

“O homem de giz”  é escrito pelo britânico C.J Tudor. O livro foi publicado em Janeiro deste ano e possui uma narrativa cativante e bem parecida com o estilo do famoso Stephen King, que mistura suspense com um leve toque de terror,  responsável por nos deixar atônitos a cada palavra que ele usa. Os amantes de “Stranger Things” e de “It: a coisa” adorariam fazer uma leitura desse livro, durante as noites.


Você é um fracote, menino! Não adianta se achar o tal, você está com baixa resistência. Sempre esteve. Qualquer ventinho, uma chuvinha de nada, já fica com dor de cabeça, alergia, coriza – dizia minha voz médica interior, na noite anterior.

Amanhã, você vai tomar umas vitaminas, bem cedo. Mas não pode ser de barriga vazia. Tome seu café, primeiro. Coma o que quiser, aliás, o que tiver, menino – insistia a voz da consciência. 

Acordei atordoado com as cachorras espancando a porta da sala. Já era dia. As cadelas queriam me cumprimentar, mas eu não estava muito receptivo naquela manhã. Amargo.

O barraco estava de pernas pro ar. Sem nenhuma vasilha limpa, uma pia com pilhas de pratos pra arranjar. Queria ser como minha mãe, que sempre deixou tudo arrumadinho antes de dormir. Ainda não consegui.

Sou frouxo até nas tarefas domésticas. Agora, por exemplo, lembro que é dia da coleta de lixo e eu não separei as sacolas. Daqui a pouco vem a  bronca. Sou muito incompetente.

Voltando à voz médica interior, lavei o canecão. Colhi a água, acendi a trempe do fogão. A cabeça a mil. Eu não estava ali. Não era ressaca de nenhuma natureza. Era para tomar o remédio e que se danasse o resto do mundo.

Ainda não consegui retirar o açúcar da minha vida. Adoçante nem a pau. Aquilo estraga qualquer sabor. Um dia vou ser todo in natura! (Que sonho idiota para um sedentário) Cala-te consciência.  Açúcar na água. Nada de adoçar depois, como alguns fazem por aí. Sou à moda antiga. Borbulhou, ferveu, mas eu não estava ali.

Na outra parte do armário, o pó de café estava todo assanhado, lá ao lado dos temperos.  Quem teve a ideia genial de trocar o pó de lugar? Dúvida besta essa minha, a bagunça estava feita. Como assim?

Com mãos de ogro, cérebro de minhoca, cabeça nas nuvens e atos de zumbi, vi quando a vasilha de colorau caiu do armário espatifou em cima da pia e respingou no chão. Deixei tudo lá. Sem grito, palavrões. Acordei naquela hora, acredito. Coloquei o pó, depois foi o momento de coar o café. Lavei uma xícara. Sentei no chão da cozinha, bem perto da tragédia lírica e fiquei ali por uns minutos, ali apreciando os contrastes: o piso quase branco e o colorau dando o tom ao dia que começava.

Esqueci do pão dormido, do remédio, dos pesadelos da noite, das vozes da consciência médica, da agenda de trabalho, das provas para corrigir, das aulas para preparar.   Eu só tive tempo para o colorau, que não é vermelho, que não é alaranjado nem da cor de mamão maduro. O colorau. Somente o colorau e minha experiência de sentir a magia de sua cor, a alegria do seu valor.

— O que aconteceu aí na cozinha, amor?

— Fique tranquila. Acabei de acordar agora.

— Você foi pra cozinha, sonâmbulo, de novo? Isso é muito perigoso, homem.

— Perigoso é viver sem prestar atenção nas cores do nosso dia.

... farelos por aí ...     

Crédito da imagem: https://come-se.blogspot.com/2011/06/urucum-liquido.html


A manhã do último sábado de setembro foi muito especial. Tive a alegria de conversar com os alunos do CESEC – Nova Pampulha - na divisa de Belo Horizonte com Ribeirão das Neves.

Na ocasião contei um pouco da minha trajetória de leituras, do projeto “Livros em todo lugar”; de como vamos seguindo: de farelo em farelo, transformando-se em um tal “Robin Hood da Quebrada”.

Rolou leitura de poemas do mestre Vinicius de Moraes, da ilustre Cora Coralina, do grande Sérgio Vaz. Rolou entrega de livros (presentes) do Jorge Amado, do talentoso Bartolomeu Campos de Queirós. Obras infantis de Angela Lago e Libério Neves.
“A leitura é a endorfina do cérebro!” Essa foi uma das frases mais impactantes que ouvi do senhor, que voltou a estudar recentemente. Ele falou da importância da leitura com os olhos brilhando, isso porque passou a dar moral pra esse ato, recentemente. O moço falou de uma prova, discorreu sobre “Mito da Caverna”  e para deixar a gente mais envolvido, falou que “a leitura vai deixando a gente mais seletivo, consciente”.

Um jovem na casa dos 20 anos, portando a obra “Mais com mais dá menos”, do Bartolomeu Campos de Queirós, pediu a palavra:

– Farelo, eu sou tímido, num sou de falar em público, tá ligado? Mas tenho que dar os parabéns pela sua atitude, mano. Que Deus abençoe aí seu trampo.

Em momentos assim – diante de um brother negro, trabalhador, morador da quebrada, que passa por n dificuldades como milhões de brasileiros – tenho a certeza de que estamos na rota do Robin Hood. Não tenho vergonha de confessar: fiquei emocionado.

Com as palestras, bate-papos, cresce a vontade de batalhar mais e mais livros, a vontade de percorrer mais e mais escolas públicas, levando esse nosso prazer, nosso encantamento pela literatura.  

Aproveito para agradecer a assessora Lilian, supervisora Aline, ao professor Claudio e demais colegas. Muito obrigado pelo convite!
Dia especial! Escolhi essa data também para a estreia da camiseta oficial “Livros em todo lugar”.

Com a venda dessas camisetas, vamos ampliar algumas ações do projeto. Quem quiser vestir essa ideia, comprando nossa camisa, basta escrever nos comentários EU QUERO! Logo, logo, sairá o primeiro lote.   

... farelos por aí ...


Danço nas cores do balanço, após multiplicar o silêncio que há no sopro da abelha. Minha prosa é centelha. 

Ainda não aprendi a separar os cantos no canto que é a vida. Os ritmos disparam as cores e eu apenas esfarelo os tons.

Tenho acordado no bordado da noite para prestar contas a um grilo que canta nos campos de minha inconsciência. 

Como os sonhos são reais na leveza turva das curvas que se desenham em tuas montanhas!

A manha das manhãs é registrar no teu lenço tudo o que penso, compartilhando pequenas doses do delírio  esfarelante.

... farelos por aí ...
A releitura de uma determinada obra é sempre mais esclarecedora do que o primeiro contato. E a riqueza de um texto literário está justamente nas infinitas possibilidades de interpretação que oferece aos leitores. É essa fonte inesgotável que transforma uma obra em um clássico. Ou, no mínimo, uma referência. Sempre foi assim. Não há novidade.
Por quantas dezenas de anos “Dom Casmurro” iluminará as páginas do Realismo captado por Machado de Assis? Há como pensar a configuração da mulher na literatura brasileira sem se encantar com as dissimulações de Capitu?  
E por falar em mulheres e literatura, ela não pode ficar de fora. Quem? Clarice na teia! Diga-se de passagem, que a obra “Todos os contos”, que venceu um importante prêmio nos Estados Unidos, em 2015, vem dando o que falar entre os fãs. 
Em breve, vou conhecer esse maravilhoso acervo; mas até mergulhar nesses mares, comunico-lhe que andei esfarelando algumas crônicas da autora nos últimos anos. 
Os leitores das antigas sabem disso. Não minto. Sou clariciano e pronto. Qual é mesmo o nome da minha caçula? Está explicado. Porque, como sabe, (ou vai saber um dia) Clarice é personagem, escritora e uma das figuras mais ecléticas da nossa literatura. Uma amiga disse que Clarice é rainha (dá licença, meu?) em outras palavras, estamos falando de escritora clássica.    
Bem, tenho que alertá-lo(a): o que lê nessas modestas linhas é uma espécie de delírio noturno na janela do cotidiano. É que quando leio os textos dessa autora, sinto-me dentro de um sonho. 
É como se estivesse ora dentro de uma pintura de Salvador Dalí, ora na serenidade das pinceladas de Monet. 
Sinto-me tateando agulhas no silêncio da tarde. Parece que ela tinha uma câmera capturando nossos dilemas e intimidades o tempo todo. 
Às vezes, fico procurando abrigo nos braços do amigo mais próximo. Será que devíamos ter amigos em todos os lugares? Ou seria um amigo para todos os lugares?    

E você quer saber por quê? (Hora de ler em voz alta)

Clarice me ensinou que há um vazio em todos nós. A solidão é o que une a humanidade. Certo. No universo somos apenas uma unidade. Verdade. Verso único, íntimo, prosa leve no breve grafite que risca a realidade.
 A solidão está em todos nós. E é só com o outro que podemos enfrentá-la. Para isso, foi preciso muita gente: toda Humanidade. Precisamos do outro para compreender o mundo. Precisamos amar o outro e, assim, transcenderemos o Universo. 
   
Informação desprezível da crônica (Leia-a, se quiser)

 – É nisso que dá ficar lendo clássicos! O menino ficou proético – comentou tia Cristina (aquela da sarradinha no ar, lembra?), que agora passou a ler todas as crônicas antes da publicação.





– Ariel é o nome da sereia?
 É.
– Mas não é o mesmo nome que a dona leu na caixa de sabão?
 É.
– Então alguém não tinha bom gosto, não é?
 É.
– Tanto nome para dar para uma personagem infantil... Ariel?
 É.
– Tanto nome para dar uma marca de sabão... Ariel?
 É.
– Você não cansa de concordar com tudo, menina?

 É... que também me chamo Ariel. 

Imagem diponível em: <www.bolsablindada.com.br/wp-content/uploads/2013/12/testa.png>

Há tempos recebi a ligação de um jovem que havia roubado 384 livros. Na semana passada foi a vez de uma senhora me abordar via e-mail. Depois da troca de algumas mensagens, ela fez o pedido, um pouco receosa.

Será que você poderia publicar esta página do diário da minha filha? Ela não teve tempo de mandar para o jornal.  

Pode deixar, publico sim.
  
A senhora fez uma cópia  das páginas sem data e me enviou. Eis a página do velho "Diário de Hilda":    

Sou uma mulher grave e séria. Gosto de ficar quieta, calada nos meus cantos. Há muitos cantos em nós, Senhores!

Mas se algum de vocês (muitos) ainda não percebeu que as mulheres não são “árvores silenciosas na estrada”, saio de um desses cantos e lanço pedras na cabeça do gigante da ignorância, dos que nos tratam como fêmeas e passivas.

Meus senhores, calma. Muita calma. Prometo que serei mais direta, objetiva. O cérebro dos senhores é da ordem prática, contempla o imediato. Gostam de ir direto ao ponto. Está bem. Eu vou!

Estou farta das cenas representadas na História, dos lugares reservados dentro da casa dos preconceitos.

Estou cheia das pinturas vazias que só nos idealizam, dessas falsas musas inspiradoras. Não ocupamos todos aqueles estágios da elite. Só queremos proximidade e o mínimo de respeito.

Ah, não somos deusas, apenas heroínas, compreendem?

Cansei de ter meu silêncio ignorado, comprado. O silêncio de uma mulher pode ser uma explosão. Mesmo assim, às vezes sempre – afirmamos com o não, pois desde jovens aprendemos “a dançar na fúria do furacão”. Sabem o que isso significa, senhores?  

Saibam, senhores: eu sou mais que as linhas que compõem esta página, mais do que os versos de uma canção romântica. Eu sou mais viva que todas as cores que se misturam na tela dos artistas, a força de todas as batalhas, mais rica que todas as discussões acerca do feminismo, a protagonista de todos os enredos e desenredos. Sua avó, mãe, tia, irmã, amiga, colega, namorada, MULHER.

Era isso, meus senhores. Que com esses disparos a gente possa conversar sobre quaisquer assuntos, sem reservas. Que as divergências venham convergir para um único diálogo: a vida em sociedade.    

*Nota: esta crônica foi ilustrada por Andrezza Camargo, aluna do 2.º Ano do Ensino Médio. Além de desenhar, ela é fascinada com a sétima arte. 
Não tenho vergonha de escancarar um bom dia para os alunos do terceirão, em plena segunda-feira. Tenho alegria, sabe? Enche-me de satisfação levar um pouco de energia positiva para rapaziada. O mundo está cheio de problemas. Tanto que cada um de nós tem um monte deles, não é mesmo?
Disse segunda, mas o mesmo pode ser estendido para os outros dias da semana e para as outras séries. E fico mais contente por afirmar isso, depois de o aluno Arthur Henrique ter observado essa minha atitude naquelas primeiras horas do dia. Ao postar uma mensagem, no meu niver, ele descreveu “essa mania”. A Rafaela Madureira, aluna da mesma sala, já falou que chego “assim meio elétrico”.   
E por que faço essas coisas? É o que você saberá nas próximas linhas. Bem, se estiver disposto, claro, a conhecer as razões deste estranho que vos escreve.
Antes, tenho que abrir o jogo: ser desse modo tem lá umas interpretações equivocadas. Não é moleza, viu?
Primeiro, tem gente pensando que saio assim, cumprimentando a galera todo dia, (assim do nada), porque vou me candidatar para vereador ou qualquer cargo da política.
Segundo, as pessoas mais desconfiadas imaginam que vou pedir alguma coisa em troca, ou melhor: vou pedir dinheiro emprestado.
Pow! Pow! Pow!
Pensaram errado. Não nasci para a carreira da política e quando peço dinheiro emprestado, não costumo pagar. Por isso parei de pegar dinheiro com os amigos. Amigo é amigo.
Brincadeira à parte (acho que não estou devendo grana pra nenhum dos meus amigos), vamos ao comportamento que queima nosso humor.
Você trabalha no mesmo lugar que a pessoa há anos, ela sabe seu nome, mas é como você simplesmente não existisse. Isso é fogo!
Há aquele colega para quem você capricha no cumprimento (bom dia!, boa tarde! boa noite!) e o tal sujeito lhe ignora na alta. Isso é fogo!
E o tratamento vip de alguns médicos? Médico que mal-mal dá bom dia; mal-mal toca em seu corpo, mal-mal utiliza os equipamentos (fiquei de cara o dia que um “doutor” utilizou a lanterna do celular para “consultar” a garganta minha esposa)); mal-mal despacha uma receita. Bem-bem, você sabe: isso é fogo!
Fogo mesmo. Depois dessas e outras situações que surgiram na sua mente, ao ler esta crônica, confesso que devemos apagar esse tipo de fogo (aliás, gelo) das nossas relações cotidianas:
– Aqui não é a Zumbilândia, meu querido.
– Saia desse corpo que não te pertence.
– Acorda pra vida, criatura!
– Olhe pra mim. Olhe pra mim. Estou aqui. Estamos no mesmo lugar
Agora vocês entenderam porque sou assim meio esquisito no dia a dia.
Ainda não?
Vou lhe contar um segredinho: morro de medo de virar um

Zumbi.
... farelos por aí ...
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