Pois, não! tô sabendo que é você, vai, diga logo, mas isso está pronto desde a semana passada, você tinha que repassar. Porra, você tinha era que ter entregado do jeito que tava, seu filho da...me desculpe, filha, está bem, chegando ao escritório, eu mesmo encaminho, vê se sai da merda desse computador, paciência é coisa de velho, tchau.
– Pai?
Pode falar, outra reunião, às 14horas? E só agora você avisa, sua incompetente, claro que sei que se trata de um negócio importante, tá bem, obrigado por ter me lembrado.
– Pai, a..?
Fala aí, Marcão! Tô dentro!
– Pai?
Filha, o que foi? Não está vendo que estou no telefone?
– Pai, pai...a polícia.
Ih, sujou, Marcão. A polícia. Bom dia, senhor! A habilitação e a documentação do veículo, por favor!  Tudo certo, senhores? Não, estamos seguindo o senhor há mais de cinco minutos e não precisa perguntar porque, o senhor não tem um pingo de vergonha, não é mesmo. Não entendo. Claro que não, quem age assim diante de uma criança não pode entender. Desculpe, mas continuo sem entender. Multado. Falando ao celular, durante a condução do veículo. Se não tem amor à vida, preserve pelo menos a vida de sua filha.
– Pai, fique calmo.
Calmo? Aqueles desgraçados me multaram.
– O senhor não deve atender, estamos na BR.
Não tem como, filha, o povo lá da empresa fica puto quando não atendo o celular, é o chefe. Sim, na escuta, tudo bem, é que dessa vez vamos subir, não tenha dúvida, o relatório estará sobre a sua mesa, antes das 13 horas, um abraço.
– Posso desligar o celular, pai?
Não. Só até a gente chegar à casa da vovó, afinal só ficamos juntos uma vez por semana, não é mesmo? Bem, mas só vou fazer uma ligação para o incompetente do secretário que até agora não mexeu no relatório que será entregue às 13 horas....
– Pai?
A minha vida profissional está em risco, já pedi pra você não mexer mais com paciência, seu imbecil, desse jeito a gente não vai subir, o chefe acabou de me...
– Pai?
O que foi menina?
– O senhor está correndo demais.
Conserte a planilha, imprima, põe essa merda num envelope e deixe uma cópia na minha mesa.
– Pai?
Entendeu? Tchau.
– Nada, o senhor acabou de ser pego em dois radares.
Merda, merda.
– Era para o senhor apenas ter desligado o aparelho.
É melhor assim, agora são caquinhos espalhados no asfalto, sobre o que mesmo quer conversar?
– A professora trabalhou a letra de uma música com a gente.
Vá direto ao assunto, filha, assim a gente ganha mais tempo.
– Ela deu de dever na semana passada uma espécie de charada.
Não sou bom nisso, mas não era uma letra de música?
– Era. A professora pediu pra gente interpretar o significado da expressão “bucha de balão” que tinha na música.
E de quê falava a música?
– Gente trabalhando, som de armas, mercado, capitalismo, empresa que engole empresa, gente máquina, peça substituível da engrenagem, um troço meio doido, mas a professora disse que se a gente conseguisse entender o que significava essa expressão, entenderíamos a música inteira.
Você já perguntou pra sua mãe?
– Ela estava sem tempo e falou que o senhor saberia me explicar.
Pegue notebook aí, debaixo do meu banco. Pergunte para o doutor Google.
– Nada, eu já tinha olhado na sexta e nada, são mais de trinta significados para bucha e nenhum me serviu. Dizem que a gente acha tudo no Google. A gente tem que juntar as palavras para entender a expressão. Isso leva tempo? Leva. O senhor vai me ajudar? A gente tem que parar na lanchonete pra fazer uma última ligação.
– Ahn?
Você vai entregar o relatório para o chefe, coisa que o outro secretário não deu conta de fazer, ah desmarque a reunião das 14 horas, invente qualquer desculpa: tive que levar minha filha ao, ao... arrume qualquer coisa, você saberá mentir para o patrão como de costume, ah, obrigado e até amanhã.
Pense comigo, que balão pode conter uma bucha? De festa infantil que não é. Muito menos, aquele do parque, cheio de gás que quando solta das mãos da criança, sobe, sobe e depois bum, lá no alto bem alto. Lembrei, querida. Essa música deve ter alguma coisa a ver com o balão de São João.
– Nunca ouvi falar.
Aqui na cidade não tem dessas coisas, cena de meu tempo de criança.
– Fiquei curiosa.
Primeiro, monta-se uma armação de arame de alumínio, um arame leve no formato do balão, depois cobre essa armação com papel acho que de seda.                – Sim, e a bucha?
A bucha é a parte debaixo do balão, é feita com uma espécie de tecido, saco de muá, parece com estopa, sabe?
– Já vi o meu avô usando.
Pois bem, essa bucha é molhada com querosene e fica agarrada na parte inferior do balão.
– Pra que serve o querosene?
Calma, filha, explico: o querosene ou outro combustível qualquer é porque, depois de tudo prontinho, a gente põe fogo na bucha, com o calor da parte debaixo da armação, o balão sobe.
– É a bucha, então, que faz o balão subir?
E também a cair.
– Acho que estou começando entender.
A expressão ou o funcionamento do balão
– As duas coisas; quer dizer que quando a bucha vira cinza ou se apaga o balão cai?
– É.
Entendi.
Mas você não disse que era complicado?
– Era. A música contava de uns meninos que eram bucha de balão.
E daí?
– É que tem muita gente na condição deles.
De que você está falando?
– Pessoas que trabalham, trabalham e têm que fazer um balão subir, mas elas nem sabem que balão é esse e pra que serve.
Filha, você está fic...
– É isso pai, entendi e pronto.
A letra está aí? Posso ler?
– Acho melhor não.
Por favor, fiquei interessado!
– Posso ir ao banheiro enquanto senhor termina de ler?
Vá.
 – O que o senhor tá chorando?
Nada não. A letra toda manchada. Filha, eu também sou uma bucha de balão?

– Pai? 

* Conto do livro "A terceira porta da lua", publicado pela Asa de Papel, em 2014.  

Na manhã do último sábado eu e minha família tivemos a honra de adquirir o livro Meu baú de histórias, de Paulo Fernandes, na SCAL – Colégio Loyola (BH). Lá no stand da Cora Editora mesmo já pegamos o autógrafo. Também não perdemos a oportunidade de fazer uma foto para registrar o momento.

À tarde, Cecília, a menina do “Baú Vermelho”, após ler Meu baú de histórias do nosso amigo, gravou um vídeo sugerindo-o. Naquela altura, eu já tinha lido a narrativa duas vezes. Fiquei um bom tempo diante do tesouro e um filme veio a minha mente, desenrolando-se em cenários brilhantes, círculos de afetos, e imagens de eterna gratidão. Peço-lhe licença, caro leitor, ilustre leitora, para descrever (ou pelo menos tentar) um pouco do que senti (naquelas horas) e do que (re)vivo agora, escrevendo sobre o livro.


Para quem não sabe, o primeiro contador de histórias que minha filha mais velha conheceu foi o artista Paulo Fernandes. Tudo aconteceu na estreia do projeto “Livros em todo lugar”, no ano de 2013, lá na principal praça da nossa quebrada. Uma manhã de domingo que entrou de vez pra história.

Paulo Fernandes inaugurou o projeto nos presenteando com histórias, marcando de vez o interesse da Cecília por histórias. Tanto que na segunda edição, ela já tinha adquirido seu baú de histórias, inspirada nas aventuras e lições do contador. Mágico! 

De lá pra cá, Paulo Fernandes leu e indicou centenas de histórias no seu canal “Ler é criar asas”, um projeto magnífico voltado para crianças, professores, papais e mamães. Soma-se a essa iniciativa a contação de histórias em diversos espaços, a organização de rodas de leitura, entre outros eventos diretamente ligados ao universo da literatura. Quem convive com Paulo Fernandes sabe da paixão, do envolvimento, do amor que ele possui pelos livros.


(Meu caro, abrir o baú e saber que estou entre uma das pessoas a quem você dedicou o livro... deixou-me emocionado, engasgado mesmo. Tanto que fiquei sem palavras, pois não consegui agradecê-lo pessoalmente. Espero que com este post, eu consiga, viu? É a primeira vez, mano, que um escritor me dedica uma narrativa infantojuvenil. Não vou mentir: fiquei esfarelado de emoção, ... em estado de gratidão)   

Agora, Paulo Fernandes estreia na literatura, presenteando-nos com Meu baú de histórias. Convido-o(a) a  conceber esse baú como um tesouro, desses que ouvimos nas histórias de todos os tempos, ventos e direções. O que há no baú? Um pouco de lições?  Diversas emoções você vai encontrar lá. Para conhecer o mistério, bem,  é preciso abrir o baú.

Bem, mas depois de ler essa história, você verá que é preciso cuidar do baú, carregá-lo para todos os lados. Paulo Fernandes vem fazendo isso desde muito, muito tempo. Como assim? Você não sabe?  Num é? É verdade: o moço carrega um bauzinho, entre tambores e instrumentos de magia. Ah, tem mais:   o baú também está inscrito no seu corpo, ora! Agora, chega em forma de livro. Está pensando que é brincadeira?

Então, não fique de bobeira, adquira já seu exemplar! Meu baú de histórias traz uma narrativa leve, engraçada e muito prazerosa. Assim, como a Cecília e tantas outras crianças (e papais) vocês vão se encantar com o livro.

No próximo sábado, oh, tem lançamento! 




Você já imaginou um lugar onde ao invés de livros nas prateleiras, o que se tem são mortos, que estão lá para compartilhar suas experiências? 

Em "A guardiã de histórias” é exatamente isso que acontece. Esses mortos são chamados de "Histórias" e a nossa protagonista, Mackenzie Bishop, é uma de suas guardiãs. Sua função é impedir que histórias muito violentas sejam acordadas, entretanto, Bishop descobre que há alguém alterando e apagando pedaços essenciais de histórias, e terá que solucionar esse problema.

Mackenzie é uma jovem de 16 anos, que acaba de perder seu irmão mais novo e seu avô/ mentor. Com tudo isso, Mac vive uma relação bem estreita com seus pais e, além disso, ela não pode contar para ninguém que é uma guardiã, o que piora sua vida social com os pais e os amigos.

Após notar que há algo errado com as memórias do arquivo, o lugar onde são guardadas as histórias, Mac tenta a qualquer custo descobrir a verdade. E acaba se envolvendo em alguns dilemas desse lugar, o que faz com que ela seja perseguida por alguns membros que não querem que ela descubra alguma verdade.
O livro oscila entre o presente e o passado. Em alguns dos capítulos vemos memórias narradas por Mac, dos momentos em que esteve com o avô, embora possua muita informação, é isso que torna a leitura do livro mais dinâmica e rápida.

Além de Mac, os personagens são muito bem construídos, os pais da garota são intrigantes e nos fazem querer entender um pouco mais. E no meio disso tudo temos Wesley , que se envolve com a protagonista de modo que nós leitores não sabemos se apoiamos ou não, pois ao mesmo tempo que vivem uma história fofa e bonita, percebemos que em muitos episódios o garoto é responsável pela distração de Bishop.

A guardiã de histórias é um livro de 2016 escrito por Victoria Schwab, e faz parte de uma trilogia denominada " The Archived".  Se você ler um, vai querer ler o outro.

Então, desejo uma boa leitura!!!

No início da tarde de ontem, alguns minutos antes da partida de futebol. Ali atrás do sol, em nuvens, efêmero como o cinza do céu. 

Ali distante do certame diário, dos burocratas, dos preços altos, ali disposto a botar fogo na caixa de falsos.

Ali entre entre a elaboração e a correção, no tráfego das obrigações. Bem ali, não, lá. Foi entre a porta do banheiro e o quartinho de ferramentas, latas de tinta, rolos, vassouras, lixas de parede e seladores.     
Foi lá longe...
Tudo aconteceu nesses cômodos – isolados – de frente para o estacionamento do colégio. Cômodos praticamente esquecidos, ignorados por mim até então, pelo menos.   

Tudo aconteceu muito rápido, mas de um jeito assim, assim assombroso. Unindo as portas, eu vi uma linha branca, quase transparente, quase invisível. Reeduquei meus gestos, caminhei bem devagar em direção ao mistério. Há quanto tempo uma linha tão frágil não dançava diante dos meus olhos? Será que só na infância eu parei para observar essas maravilhas?   

Naqueles poucos segundos, eu quis ser uma aranha. Uma aranha dessas bem discretas, uma aranha que constrói suas teias no silêncio do mundo. Uma aranha que com sua transparente música sopra luz em nossa súplica.

Como alguns sabem, já tive o desejo de ser formiga, já quis saber da ceia das borboletas; mas ontem à tarde, à noite, só fiquei imaginando como será oficina das aranhas.

É quase dia, a manhã vem chegando! Depois desse encontro, meu desejo é que você também encontre alguns fios de luz por aí.

... farelos por aí...

Crédito da pintura: Gerhard Richter 


 
A água no meio do canecão, quase em borbulhas. Próximo do fogão, o coador verde escuro, com a veste branca, aguardava o ritual.

A garrafa de boca preta também esperava o café preto para habitar seu interior e, depois, cobrir o vazio dos homens com Energia. A energia do início do dia. 

Quase tudo pronto. Era o tempo de colocar meia xícara de açúcar e coar o café; mas não havia açúcar. O pó preto não queria escorrer sozinho pelo gargalo da garrafa (também verde, só que um verde-claro). 
Quase tudo pronto, mas sem açúcar não seria possível. A mulher reclamaria daquele descuido. “Em pleno sábado, você tem a coragem de me servir café sem açúcar, homem de Deus? ” Seria a primeira observação do dia. 

5h33 da madrugada eu estava na porta da primeira padaria 24h da quebrada (lê-se comunidade, periferia). Por uma portinha o funcionário nos atende, busca os produtos, cobra, recebe; tona-se o multiuso do seu turno. 

5h35. Eu ainda não havia sido atendido, pois na minha frente um profissional da construção civil fazia sua pequena compra.

– Pô, mano, estou ralando pra burro. Tô fazendo de tudo lá. Preparo a massa do reboco, coloco na lata, subo os andaimes. Ninguém pra ajudar. Tá osso!  

Primeiro, ele reclamou do preço do maço de cigarro. Estava um real mais caro. E depois, assim do nada, começou a falar da violência dos últimos tempos, da novidade de uma padaria 24h na quebrada e reclamou:

– Besteira! Tinha que deixar as portas abertas, nada de ficar atendendo por essa portinha de merda não, sô. Isso aqui não segura bandido não, gente. Se o cara quiser roubar mesmo, chega, ó, berrado, e leva tudo, entende?

A essa altura, ele já havia retirado um cigarro, acendido, e dado uns tragos. O vício o aliviou. Imediatamente retirou o lacre do latão, já mais calmo. Naquela hora, ele olhou para o céu que quase dava adeus para a noite e confessou:

– Não queria ficar aqui no sereno tomando esse café amarelo. Queria tá lá, sentadinho, de boa, tomando um café preto, entendeu?

Café preto, café amarelo. Não foi preciso perguntar ao pedreiro sobre outras cores de café. Quando ia saindo com o pacote de açúcar, ele me convidou para dar uma passada na obra onde ele estava trabalhando. Disse que eu parecia ser bom de prosa.

– Vai lá, mano! De repente a gente toma um café transparente. Uma dose só...
No caminho, de volta pra casa, preparando-me para preparar de vez o café, aquele moço tingiu minha manhã de desvios, destroços, entulhos e vazio.  

O moço ficou no meu dia, em sua transparência, tomando a primeira latinha do dia e deixando espaço para o transparente, aquela dose antes do almoço, que dizem que é para abrir o apetite.  

Nunca tomei um café preto tão amargo. Talvez – ainda não se sabe – você poderá me dizer um dia desses que o único açúcar daquela manhã foi a crônica que acabou de ler.

Talvez.

...farelos por aí...

Para o TA – CSMM-FL

Gosto de cenas, em silêncio, que nos transportam para outros universos. Pode lhe parecer papo de biruta, gente com um parafuso a menos, mas como é bom ficar estudando as cores efêmeras do céu, no início da manhã!

E quando a gente se desliga do mundo diante de uma pintura? E quando deixamos as obrigações de lado para ficar revirando fotografias da família? Quando ia para o trabalho de ônibus, gostava de ler o silêncio e as inquietações dos passageiros. Certamente muitos olharam pra mim com certo ar de desencontro, como quem diz: “Que cara estranho! Nossa, ele não parece ser deste mundo!”

Por conta dessas manias, arrumei confusão esta semana. A cena foi ficando tão inquietante que quase quebrou o respeito do meu silêncio. Poderia não terminar muito bem. Ainda não possui um desfecho, mas você, leitor(a) poderá me ajudar a resolver esse quadro.

– Deixe de ser curioso. Você ficou maluco, homem de Deus? – decretou minha companheira.

– Mas é que não aguento mais. Todo dia no mesmo horário. Ali tem. Você não acha?    

Eis a cena: próximo ao Parque Ecológico de BH, em uma rua deserta, com muitas árvores. Com chuva ou sol, frio ou calor. Não importa a temperatura. De segunda à sexta, sem falta, vemos uma mulher negra, na casa dos quarenta anos, com trajes da rotina doméstica. Às vezes com sandália, chinelo, ora com calças simples e bermuda. Horário: entre 10h e 14h. A mulher geralmente está sentada no mesmo lugar da calçada. Do seu lado esquerdo, uma bolsa simples. Nada eu nos chame a atenção. Até aí tudo bem? Sim. Só que não. O que desperta nossa atenção, então? Ela está sempre lendo um livro, geralmente grosso. Pela lombada, tudo indica ser do gênero romance. Algumas vezes, passei devagar e pude perceber, pela capa, que não se trata do mesmo título.

A cena de uma pessoa com livros sempre me chamou muita atenção; mas no caso dessa leitora, foi ainda mais intenso. Aos poucos foi crescendo a vontade de um dia parar o carro, pedir licença, em seguida, me apresentar, para depois, quem sabe, saber se aquela mulher é de verdade ou coisa da minha imaginação.

– Fique tranquilo, dessa vez você não está ficando doido. Eu também a vejo todas as manhãs, quando estou indo para meu curso na UFMG – informou-me um vizinho. 

Que mulher aquela que, entre o final da manhã, o horário do almoço e o início da tarde, fica sentada na rua lendo? Seria uma funcionária à espera do seu turno de trabalho em uma daquelas casas elegantes da região? Seria uma pessoa com o propósito de se desligar do mundo para viver os enredos de fantasia, em silêncio e deleite? Não queria lhe contar, mas rolou a discussão de que ela era uma garota com a profissão mais antiga do mundo. Não. Não queremos julgar ninguém. Onde ela compra aqueles livros caros? Aquela mulher é mãe? Quantos filhos ela tem? 

Agora, você entende a situação: não consigo tirar aquela leitora da minha cabeça. Também não tiro da cachola a vontade de parar o carro e trocar umas palavras com ela. Será que você poderia me ajudar?  Quem você acha que é aquela mulher?      


...farelos por aí...

Esta crônica não abordará nenhuma expressão do universo juvenil. Peço desculpas àqueles leitores que, vez ou outra, encontraram uma dose de humor nas histórias publicadas aqui. 


Este texto é quase um pedido. Uma pausa, não para apresentar uma novidade linguística, ou comentar uma frase cômica do cotidiano. É simplesmente o tom que encontrei para compor essa incômoda trama dos últimos dias...

           

Não vou acreditar na fraqueza das considerações vazias. Um jovem, na casa dos 18 anos, comentou recentemente que “anda um pouco difícil expressar carinho para as mulheres; pois ser romântico, agora, é sinônimo de ser gay”. Um homem chorar, então? Vergonha total.


Complicado isso.


Quem tem coragem de concordar com tal barbaridade, na certa, nunca sonhou com a experiência do afeto. E ainda não fez silêncio antes de pronunciar palavras que banalizam relações sociais. 
           

Não quero aceitar o comportamento corrosivo desses “desconectados” que passam por aí. Cuidado! Eles querem criticar todos os gestos da delicadeza, repetidos e reinventados por gerações e gerações. Daqui a pouco não reconhecerão a poesia presente num abraço. A ternura dos (re)encontros será apenas a página de um velho diálogo, esquecido no balanço dos nossos avós.   


Agora, em pleno início de século, vamos animalizar as relações? Porque se eles ainda não aprenderam, cada época tem seu jeito de amar; porém os contextos estão entrelaçados no respeito ao próximo. Do contrário, não estaríamos aqui. Contentes ou não, somos frutos do amor dos nossos pais. Será que os desconectados entenderiam isso?


Há quem diga, por exemplo, que enviar flores para a namorada é uma atitude cafona. Trocar mensagens com o noivo está fora de moda. Fazer uma declaração para a esposa é pagar mico. Pior que não respeitar o modo como alguém se declara ao outro é não encontrar uma forma, no mínimo, delicada de se declarar.


Sim.

Temos que alumiar nossos laços! Chega de ficar empregando uma mesma palavra para todas as ocasiões.  Abandone palavras que desgastam as relações, reinvente-se!

           

Ao longo dos anos, empregamos tão mal, mas tal mal... que chegamos a banalizar o conceito da palavra amor. Ou pior, desaparecemos com seu significado em troca de ações violentas, incoerentes. Sim. Sem contar os seus usos indevidos. E você já deve ter ouvido por aí que a pior crise que o mundo enfrenta não é financeira, mas a de valores. Estamos carentes. Precisamos sim ... (re)significar o amor ao próximo, ao mundo.


 HUMANOS

Antes de se preocupar com o presente que ganhará, pense no presente que oferecerá. Um presente sem data de validade, mas com todas as garantias. Um presente que não sofra transformações, durante as estações do ano. Um presente para tremer no verão e arder no inverno. Um presente que seja mais forte que todas as crises, que brilhe no escuro de todas as inseguranças e seja luz para a vida de ambos.  Quer uma sugestão?


– Dê sua presença em todos os gestos, atos e afetos.


– E se alguém criticar?


– Seja exemplo. Ame-se! 

...farelos por aí...


Por Croton*
"...praticas laboriosamente os gestos universais, sentes calor e frio, falta de dinheiro, fome e desejo sexual." E é com esse trecho de Drummond que deixo aqui um grito desesperado por atenção ao mundo que nos rodeia.

Ao ler "Elegia 1938", pela primeira vez, veio até mim, espontaneamente, uma imagem tenebrosa. Penso no mundo coberto pela cor cinza, alusão às Revoluções Industriais, sobretudo a Terceira.

Alusão à conspurcação, à automação da grande massa. Vejo um mundo cinza, ar rarefeito, pulmões que urgem por oxigênio. Seres humanos que uma vez clamaram pela liberdade, gritando "Liberté, Egalité, Fraternité!"; hoje, fazem seus gestos universais - movimentos programados pelos grandes gênios do Fordismo e Taylorismo. 

Tem gente que tá morrendo de fome lá fora, sabia? Tão morrendo sim. Tão com fome e frio. Mas tão com calor também, emanado pelo sangue quente que escorre pelas suas mãos tão exploradas. Tão com fome, fome do alimento e da carne, tesão.

Mas, olhe só, a crise não tirou o emprego da prostituta não. Eu a vejo na rua, sozinha, com medo. Ela também sente frio e fome, mas não sente tesão. Poucas roupas que é pra mostrar sua calcinha vermelha, que comprou com o dinheiro sujo dum cliente satisfeito, o mesmo vermelho que encontramos num cardápio do McDonald's.

Mas o que é aquilo na calcinha dela? Ah, sim. O DÓLAR. Esse daí tá em todo lugar também, sabia? Esse tal de dólar. Nosso Real tá valendo nada não. Mas, olha só, não fica triste não, a vida é assim mesmo.

Agora, menino, vai trabalhar que tá na hora de ir bater o ponto. 15 anos já, tem que pegar seu dinheiro e ir virar homem com aquela prostituta da calcinha vermelha.

*Croton é estudante do 3.º Ano do Ensino Médio, fã de Carlos Drummond de Andrade, Cecília Meireles, e de muitos outros gigantes da poesia brasileira.    

Crédito da imagem: https://www.youtube.com/watch?v=TGh_jvSUNRI

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