Gratidão ao trio Bruna, Tonico Poesia e Paulo Fernandes! 

                 

                                        

Dar-se um nome, que seja na forma de um apelido, é o que o menino de camisa de listras se deu, na narrativa que se inicia e se conclui com a palavra “Silêncio”, no que é “Um Estranho para o Céu”, de 2016, o seu prenúncio de uma vida andante, a vida do Dito, nosso personagem magnífico, dócil e encantador.

 

A boa-vontade do garoto desponta em suas primeiras ações, atos das mãos, dos pensamentos que elabora, das palavras que pronuncia, dos gestos que empreende. Dito mora com quem o recebeu, desmedidamente, acolhendo-o com afeto e carinho, aos quais ele retribui em similar medida. Piedade e Miguel proporcionam a Dito um lar, e ele irá fazer resplandecer sobre o povoado o fogo que trouxe do céu, o reavivamento da esperança e da solidariedade.

 

Neste texto, insere-se o personagem Bartô, que “deita a vida em livros”, um eu-outro do escritor Alfredo Lima, reflexo e espelho, homenagem e reconhecimento das influências estimuladoras de um fazer poético.

 

“Nublado”, de 2024, se inicia com uma palavra nebulosa “Nuvem”, título que nos reporta ao estado de cobrir-se de nuvens, mas a narrativa é finalizada com a palavra “Céu”, termos que levam à reflexão de que os substantivos configuram estados de alma, camadas viscerais que se transmutam e se transformam, embora ambos sejam espaços integrantes do éter, solúveis, gasosos, finos ao tato, delicados, pois são estágios e sensações do sentimento.

 

Dito cresceu, é um adolescente. Sensível, bem-conversado, tenaz, perspicaz, atuante, ousado, integrador, a desenvolver, cada vez mais, as capacidades em semente, presentes nos episódios de sua infância.

 

A tônica da solidão, do coração que dói perante o abandono, das casas que se esvaziam, dos entes que se distanciam são os elementos que as nuvens carregam no peito do sr. Rafael, nome de arcanjo, sentindo as faltas, mas resgatado pelo próprio nome que significa a cura de Deus. E essa cura vem via Dito, (uma espécie de Santo Expedito, invocado diante dos problemas urgentes, protetor da família?).

 

Estamos lidando com uma escrita que mescla terra e valores espirituais muito elevados, derivados da virtude, da filosofia, dos diálogos, dos olhares, das percepções. E tudo oferece um grande perigo aos que delegam ao destino as agruras e as soluções em si-mesmas.

 

Porque há em “Nublado” intercessões pelo veio da bondade. O mal não é qualificado ou recebe lugar na mesa da narrativa, sobre ele estando a toalha deveras esticada. Não se dá lugar ao mal, ele é simplesmente expulso, afastado, e o bem assume o protagonismo de toda e qualquer situação.

 

Para as perturbações do mundo em que vivemos, texto de Alfredo Lima é uma afronta ao poder mais mesquinho, bélico, vampiresco, grotesco, imperialista, fascista, porque ele põe abaixo dos pés toda tentativa de golpe. A bondade viceja abundante, sorridente, pacificadora, restauradora, “gostosa e demorada como um abraço”, sem que haja fresta para a infiltração do ódio e da malevolência.

 

É de misericórdia e de paz que a narrativa ergue a potência do texto, por isso atingimos o “Céu”, quando o enredo nos conduz a ele, lapidando-nos pela ternura, pelo desnudar dos nossos padrões mesquinhos, pelo desvestir das nossas imoralidades, pelo romper das nossas tradições atravancadas, ultrapassadas, nutridas pela falta de um refletir mais coerente.

 

E vendo-nos nuvens no vazio, ansiamos o alimento às nossas carências e faltas, o que de graça nos é ofertado, pela faculdade de compreendermos ser o amor que vivifica e agrega o homem, que o faz homem, que o preserva na condição humana, pela colaboração, pelo desprendimento, pela vocação de constituirmos a humanidade, independentemente de qualquer argumento que possa diminuir qualquer ser entre nós.

 

Se era objetivo do autor nos ciceronear pelo caminho da luz, o vale das trevas não seduziu ou nos fez desmoronar nos desfiladeiros agonizantes; atingimos o Céu, com passos mesmo, numa solidária direção, nem nos foram necessárias asas.

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Anderson de Oliveira é escritor. Participou de inúmeras coletâneas, publicou Pá & Pedra, finalista do Concurso Nacional João de Barro, em 2000; Dona Feia narrativa selecionada para o PNBE 2011; A lenda dos dinossauros foi escolhida para o Catálogo de Bolonha, no ano de 2014; A, B… Z Bicho é um “bichonário” de musicalidade; A neta de Anita, cuja temática é o processo de reconhecimento racial e identitário, destacou-se entre os 13 livros mais marcantes da literatura infantil pela Casa Vogue/2019.  Um dos seus mais recentes títulos é Mona Lua e o Monstro Cinzento, publicado pela editora Alumbre.





  


- Que papo é esse que você lê menos livros que a gente?

Por um tempo, eu cansei de explicar os motivos, as razões. Então, decidi escrever esta crônica na ilusão de deixar registrado esse meu perfil sincero a respeito da quantidade de títulos.

Que fique claro desde já: eu ostento a leitura, mas nunca a quantidade de livros. Convivo com alguns estudantes que são leitores assíduos, estão com hábito consolidado, que leem mais de 50 livros por ano.

Não entrando no mérito da velha questão da fábrica de tempo, reconheço que a rotina deles contribui bastante. Lá na minha adolescência, nas quebradas do Céu Azul, recordo-me que até a derrota do Brasil para a França, na Copa de 1998, eu tinha lido 44 livros.

Que fique claro, meus heróis, de vocês eu tenho o maior orgulho e admiração. Tenho o profundo respeito pela disciplina, pelo drible sinistro nas distrações das redes sociais, o bloqueio nas fontes ridículas de liberação de dopamina das telas. Sigam em frente!

Mesmo que de forma inútil, antes de tentar discorrer sobre meu perfil de leitor-tartaruga, gostaria de mencionar aqui a hipocrisia de alguns gurus das redes. Reconheço e admiro o trabalho sério de muitos autores, professores, bibliotecários, mediadores de leitura e livreiros nas redes, principalmente, no Youtube. Aprendo muito com esses parceiros.  

Por outro lado, não vou dizer nomes, que você possa os identificar. Passo a tratar dos gurus que leram-tudo e faço questão de crescer a lista de adjetivos: leitor-foguete, leitor-sabe-tudo e a leitora-trem-bala. Desses, meus heróis, quero que vocês mantenham distância.

– Hipocrisia não é muito forte, professor?  

Verdade. Picaretagem soa melhor. Os tais gurus só estão atrás de likes, de muitos e muitos comentários. São sempre os mesmos títulos que pairam na rede. Nem o leitor mais superdotado, com o maior tempo do mundo dá conta de ler e indicar tantos calhamaços em tão pouco tempo. 

Minha sugestão: desconfie desses gênios. Porque bem lá no fundo eles mal, mal leram algumas resenhas, comentários de outros perfis. A leitura integral dos títulos que indicam não acontece. Repito: eles só querem crescer nas redes sociais. Machado de Assis diria que esses aí são uns “medalhões”, ilustres leitores de aparência. Será que eles de fato leram os Papéis Avulsos do Bruxo do Cosme Velho?    

Agora, nesse contexto de aceleração, da velocidade dos cliques, da rolagem da tela, dos shorts, eu repito: sou um leitor lento. E cada vez mais importo menos com a quantidade de livros.

Ah, talvez quem sabe, comece a registrar o número de livros em função de um desafio que tenho para você, leitor, ao final desta crônica.

Que fique claro, novamente, eu ostento o processo da leitura. Quase sempre, estou lendo e estudando ao mesmo tempo. Leio com marca-texto ou com canetas coloridas, lapiseira 2.0 e post-it colorido. Há livros que compartilho com os estudantes; os teóricos/técnicos são para algum estudo específico e aqueles pelo bel-prazer de buscar entender o processo de criação do artista. Isso tudo contribui para uma leitura mais lenta e não faço questão nenhuma de mudar, por enquanto. Insisto.

Sem precisar mentir, o tio serão aqui muitas vezes é visto como chato e eu não estou nem aí. O lance é que tenho a consciência tranquila para falar só daquilo que li ou estou lendo. E no processo eu vou cultivando meus processos, implementando meu padrão. Como assim?

Ler no mínimo dois livros, ao mesmo tempo, é um tanto quanto satisfatório. Para as narrativas curtas (contos ou crônicas) leio nos intervalos das tarefas do dia a dia. Já para as novelas, os romances e livros técnicos, preciso separar um momento específico na agenda. Com isso, mesmo sendo tartaruga, sempre estou lendo e de verdade.    

  Nessa manhã li duas crônicas do José Falero, presentes no livro Mas em que mundo tu vive? Desde o ano de 2021, venho conhecendo o trabalho deste gigante da literatura contemporânea. Leitura sem hora para acabar. Leitura para ostentar, conhecer as estratégias, o processo criativo do autor.  

Ainda hoje vou ler alguns episódios da biografia de João Cabral de Melo Neto. Só por curiosidade, compreende? Ao longo da semana, vou começar a reler O Livro das ignorãças, do Manoel de Barros, livro adotado na escola.

Fico muito ansioso para esses momentos de leitura compartilhada, análise das obras literárias. Aí, sem dúvida, vou com a caixa completa de ferramentas, pois eis a deliciosa missão de apresentar aos meus heróis o contexto de criação e recepção de um novo livro, a construção da protagonista, a imagem poética, entre outras questões relevantes da metalinguagem.

Ah, sinceramente, espero que tenha ficado menos confuso o perfil de leitor-tartaruga. Se falhei na proposta, perdoe-me, mas não caia no golpe do leitor-foguete. Boas leituras!

 

PS: que tal ler pelo menos 02 livros por mês? Está bem, 01 livro, então. Bora?  

 

"... um grito de liberdade não se guarda na garganta". ( José Falero)

Aquela nota adormecida na garganta, 

coitada, muito tempo abafada 

pelas imposições sem o nexo das 

cobranças inválidas. 

A voz emudecida de quem precisa 

subir o tom, tornando-se 

irreconhecível aos distantes; porém 

o gigante das raízes, reconhecido

na força dos troncos, 

na segurança dos galhos, 

está consciente na 

respiração das folhas.

As cores do canto dançam

na leveza das flores e acenam 

para o sucesso dos frutos.

Eu vejo a árvore, 

respiro o perfume das estações do divino,

menino, sei que é hora de 

me preparar para o grito.   

...


– Não vá. Não vá ainda – disse a mulher, um pouco sem jeito, segurando meu braço direito.

Um pedido daqueles, naquele horário, o restaurante enchendo.
Quero apenas que veja a foto que tirei na última manhã – entusiasmada, entregou-me o celular.
A princípio, gostei da luz. Uma ponta da igreja, à esquerda, um tronco e nada demais. Pensei.
– Sabe quem sou eu na imagem?
Era a primeira vez que eu me sentava à mesa com a tal mulher. Um por acaso. Não fazia a ideia do que ela perguntava.
– Não precisa refletir muito. Eu sou a solidão da ave. Nessa idade, moço, eu só aprecio as extensões do vazio...
No caixa, descobri que Dona Robertinha, com quase oitenta, vai lá todos os dias (no mesmo horário) para se encantar com a alegria das crianças da escola.
Dona Robertinha é a melhor imagem do meu dia.

Caderno Azul
imagem: farelo

Outro dia eu quase convidei o Frentista Sorriso para tomar uma água de coco.

Era véspera de feriado, desses prolongados, bom para reunir toda família. O posto estava vazio, gasolina nas alturas.

– O senhor deseja mais alguma coisa? – quis saber, olhando para o capô.

– Apenas isso por hoje.

Digitei a senha, recolhi o comprovante e enquanto ajeitava o cartão, a despedida inusitada:

– Bom feriado pra você e sua família!

– Pra você também. Ah, se tiver churrasco lá amanhã, fico aqui até às 14h. Cê vem me buscar?

Assim, ele encerrou o atendimento, com o sorriso mais escandaloso do planeta.  

– Da próxima vez, o senhor vai abastecer com ele, certo? – indagou a caçula no banco de trás.

 

Caderno Azul

... farelos por aí ...

imagem: Pixabay

Era o canto de pássaro mais estridente da rua. Passei o portão e lá estava o canarinho em cima do poste, que fica de frente pra nossa casa. Cantava de estalar.

De repente sai da casa dele lá o seu Geovane, nosso vizinho e dono do amarelinho fujão.

– Toda vez que foge, ele não vai pra longe.

– Que canto incrível! Há quantos anos não ouço o canto de um canarinho, meu Deus!

– O senhor sabe por que ele tá cantando assim, afinado, alto, de parar o quarteirão?

– Sei não.

– Em conversa de passarinhos, ele está chamando a fêmea. Por isso que esse canário sempre voltou.

Nessa hora, eu não sabia se apreciava o canto ou buscava entender a história de amor que o moço me contava:

– ... ele só vai se a companheira for.

 


Caderno Azul

... farelos por aí ...

Crédito da imagem: Yassir Abbas

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