Vassoura

 


A Zulmira sempre me acusa de ser um sujeito quadrado logo na primeira curva do dia. Só tenho levado na cabeça ultimamente, e você aí, a uma hora dessas, em pleno sábado, com a vassoura na mão? – reclamou o Seu Lopez.

 

– Homem de Deus! Onde cê tá com a cabeça? Quer quebrar a gente mais uma vez? É a Renata botar a cara na rua que já me pede pra fazer o mesmo – emendou Seu Raul, aproximando-se do nosso portão.

 

Caí na risada, sem entender o motivo para tanta chateação antes das oito da manhã:

 

– Bom dia para os senhores também! Só estou dando um jeito no passeio. Varro, jogo uma água para assentar a poeira e pronto. O que foi que eu fiz?

 

– Por sua culpa, agora tenho que caminhar com a patroa umas três vezes por semana. Por que você foi inventar esse troço de “corridas curtinhas”?

 

Que povo revoltado! Uma conversa atravessada que, naquele início de dia, me fez achar que ia apanhar. Os vizinhos estavam mesmo furiosos, num puro tom de desabafo:

 

– Quem começou com as ideias erradas de fazer “pequenas reformas” em plena pandemia? Quem foi o gênio do lar?

 

– Não é bom nem lembrar disso, gente... – ponderei, meio sem graça.

 

Continuei a tarefa ouvindo aquele absurdo todo. A vontade era de gargalhar, mas me contive. Eles falavam pelos cotovelos, inconformados.

 

– Em ano de Copa do Mundo, eu queria era começar a levantar copo antes das onze da manhã. Mas, se a Zul vê a gente aqui parado, me coloca pra lavar a garagem.

 

– Cê acaba isso logo que a gente ensaca as folhas. Estica a mangueira lá, Seu Lopez! Depois que a gente terminar aqui, você vai caminhar, correr, fazer o que quiser. Pode ser?

 

Para não contrariar o comitê de crise, concordei. O medo real deles era de as esposas acordarem e o mutirão ganhar a rua. Conversa vai, conversa vem, surgiram as pautas da vizinhança: lâmpada para trocar, cachorro para vacinar, vazamento na pia... a infinita lista que sustenta os maridos de aluguel por aí.

 

Ao retornar para casa, nem me despedi direito. Foi a conta de fechar o portão para um cheiro de queimado invadir o ar.

 

Corri até a cozinha e veio o estalo na memória: eu tinha deixado uma panela no fogo. Era para amolecer a sujeira e lavar a vasilha favorita da minha esposa assim que terminasse lá fora. Uma relíquia, presente de casamento.

 

Ô vontade de xingar meus vizinhos! Agora quem estava no sal era eu. E o pior: contra o flagrante da fumaça, não há álibi que salve.


Crédito da imagem:  https://www.tupi.fm/entretenimento/conversar-com-vizinhos-sem-pressa-era-parte-da-rotina/#google_vignette

 


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