Aura

 


— Adoro seus agradecimentos. Você é igual ao ChatGPT, muito gentil sempre!

 

— É assim que começam as brigas — pensou, ao receber a mensagem.

 

Tanta coisa no mundo para servir de comparação e o menino vem logo com essa? O último presente que gostaria de receber naquela tarde era um elogio ordinário desses.

 

Problemas, preconceito com as IAs? Nada disso. Só ranço de indivíduos que fazem comparações indevidas.

 

— Por acaso minha gentileza anda em sintonia com o lixo das latas esquecidas em dia de coleta?

 

— O quê? Eu não entendi, seu Aurélio.

 

— Óbvio que não. Está tão viciado nos prompts que é incapaz de interpretar os gestos, os pequenos atos de humanidade que ainda restam neste escritório.

 

— Vixi. O moço apelou! Tá que nem um tiozão no finado Twitter, meu. Ultrapassado. Chatão!


— Ah, e que culpa tenho de lhe responder à altura? Querido, foi uma ofensa. Quer que eu seja mal-educado, destile meu ódio estilo X? Que tal?

 

Nessa troca de farpas, o clima pesou. O jovem saiu da frente do computador, caminhou em direção à mesa do Aurélio e disparou:

 

— Era para ser apenas uma brincadeira. Tipo para quebrar o clima dessa sala esquisita, entendeu?


O moleque se desculpou. E ainda terminou com um elogio destes tempos:

 

— É que, no fundo, eu queria dizer que o senhor sempre "farma aura" nas mensagens que envia para todos aqui do trampo.

 

Nessa hora, Aurélio levantou os óculos, esfregou os olhos, respirou fundo, pediu para que o rapaz repetisse a expressão e disse:

 

— Ah, deixa pra lá!


Crédito da imagem: Akbar Fathi

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