Curió



Parte II

Entrar em todos os ambientes do mundo se o ingresso for uma canção. Um desejo.

 

Que não passe por sua cabeça que eu vá entrar cantando nesses lugares. Minha voz não é do canto. Tocando algum instrumento no ritmo de um estilo qualquer? Longe disso.

 

O passaporte especial, o ingresso iluminado, será o dom de ouvir. A música nos chama. Essa linguagem de outro universo tem efeitos esplêndidos sobre mim — consequências que ainda não consigo explicar.

 

Por que será que, quanto mais ouço músicas distintas, mais aprecio o silêncio?

 

Depois de horas de prosa com um especialista em MPB, ambos atrasados no aeroporto Tom Jobim, o moço soltou a provocação que me levou à PARTE I:

 

— Imagino que o senhor, também um apreciador da música brasileira, como pude testemunhar até agora, não gosta de música clássica. Ou estou equivocado?

 

Parte I

Raimundo Pereira de Lima não deixou herança para os filhos. Deixou um legado. Parte desses valores se relaciona ao respeito e ao alumbramento pelas diversas formas de arte.

 

Para o velho Rai, todo instrumento bem tocado — de corda, metal, sopro — é uma travessia que nos conecta ao sagrado. Reza a lenda que, para o nosso pai, depois que Deus criou o mundo, lá no sétimo dia, a primeira coisa que Ele fez foi ouvir uma canção.

 

Quando Rai partiu, eu tinha seis anos. Filho do meio, cresci ouvindo o que os mais velhos escutavam: rock, pop, caipira, samba. Minha infância foi uma bacia de influências. De modo inconsciente, aprendi a ouvir antes, a entender, para só depois, se fosse o caso, julgar.

 

Na adolescência, morando na casa dos tios para estudar, foi que vim a conhecer a música clássica. Mais precisamente na fábrica de gaiolas do seu Geraldo.

 

De manhã, a escola; à tarde, ajudante na oficina. Eu chegava bem no momento da sesta dos funcionários. Era recebido por diversos gênios: Chopin, Bach, Tchaikovsky, Beethoven, Mozart, Vivaldi.

 

Era a programação da saudosa rádio Guarani FM, de Belo Horizonte, que trazia naquele horário o programa Um Toque de Clássicos. Passei a admirar tanto a seleção que ia mais cedo para o trabalho só para ouvir um pouco mais.

 

Os moleques da rua já achavam esquisito o fato de eu trabalhar com o moço que criava pássaros e fazia gaiolas. Gostar daquele gênero musical era o combo perfeito para me classificarem como o maluco da vez.

 

Loucura ou não, houve uma tarde em que, vindo direto do século XVIII, o senhor Vivaldi me apresentou o Verão, de suas Quatro Estações. E foi de um jeito que ninguém havia conseguido até então.

 

Lixava as peças de uma gaiola enquanto seu Geraldo trocava a água dos passarinhos. Quando soaram os violinos da abertura, aquilo nos veio como feitiçaria.

 

Parei o trabalho mecânico, caminhei com passos lentos em direção ao rádio. Como alguém fora capaz de compor algo tão sublime?

 

Quando o gaioleiro se ajeitou no tanque, pensando que eu estivesse passando mal, cambaleando entre as madeiras, um dos curiós começou a cantar. O jovem pássaro também se encontrava naquela sintonia eletrizante; despertava com a misteriosa estação.

 

Êxtase. O curió, expressivo por ter encontrado conexão com os arranjos de outro século, continuou cantando mesmo quando a música acabou.

 

Seu Geraldo nada disse, mas vi um novo brilho em seus olhos. Acanhado, acenou-me um “joia”, traduzido por mim, trinta e três anos depois, como uma batismo:

 

— É isso aí, menino! Eis o inexplicável encanto da música clássica!



Crédito da imagem: Helena Lopes 

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