De pedra



Os vencedores sempre encontram o endereço com a maior precisão do mundo. Falar que se trata de um bairro de divisa não cola mais.

 

Em uns boletos, consta-se que sou morador do Conjunto Carajás; em outras contas, a residência está localizada no bairro Pedra Azul.

 

De uns tempos pra cá e com a permanência do CEP, deixei de lado essas fronteiras, aceitando como veredicto o segundo. Pedra Azul tem mais sustância para a vadiagem, para aqueles que gostam de bater pernas por aí. Antes de sentar-se para escrever esta migalha, eu estava vadiando por aí.

 

Aqui as ruas têm nome de pedras e águas. Tenho a magia de morar entre a Granito e a Safira, acima das Águas Marinhas. Para se ter uma noção, a mercearia mais antiga do bairro se encontra nas Águas Formosas. São nomes interessantes!  

  

A principal referência para quem vem de longe é a Cidade de Minas, rua mais larga da região. Lá tem posto de gasolina, uma renca de botecos e algumas hamburguerias. Com seus 1.300 metros quase planos, atua também como pista de caminhada e corrida.

  

 Ao contrário dessa relativa extensão, minha casa fica em uma rua que compõe apenas um quarteirão, quase uns 300 metros e olhe lá... se dá isso. Embora seja classificada como preciosa, brilho metálico, a coitada é sempre confundida com outra pedra, a pirita. O nome da nossa?  

 

            Marcassita. Uma pedra leve, frágil, além de possuir uma estrutura cristalina diferente da tal pirita. Um antigo morador me explicou que marcassita é um sulfeto de ferro. Com fotos no celular e lembranças das lições de Química (FeS2), mostrou algumas imagens da pedra que dá nome a nossa rua.  

 

            Ao ir atrás de mais mistérios da tal pedra, descobri que a marcassita também é conhecida por seu visual vintage; possui capacidade de adicionar um toque elegante e sofisticado a joias.

 

Longe de ser um ourives, uma coisa posso garantir: nossa rua é uma joia rara! Desde que aqui chegamos, há uns 17 anos, essa rua possui um brilho para cada estação. Quem foi embora, ainda sente saudade.

 

Não se sabe se tem a ver com a atmosfera das cidades do interior. Ora parece com as rotinas de uma vila, ora fica a impressão de que todos os moradores se conhecem intimamente:  

 

– Pode deixar sua neta brincando aqui com minha filha, enquanto o senhor vai à farmácia.

 

– Vai chegar uma encomenda aí para mim, posso pedir para entregar na sua casa?

 

Seu Geovane caminha com a esposa antes de levar as gaiolas de canarinho para fora. Seu Lopez com as três lindas netas aguarda o motoqueiro com a broa de fubá quentinha para o café da manhã. Dona Rosa rega as plantas do passeio, sorrindo-nos com um bom dia. O vidraceiro brinca com seu cão caramelo levado, no fim da tarde. O frentista que, nos finais de semana se veste de Homem-Aranha para vender pipas na Cidade de Minas. A dona Carolina que prepara um lanche especial para os rapazes da coleta, aos sábados. Seu Neco fez três casinhas para os cachorros da rua, ainda por cima dá comida, banho, vacina e passeio das 17h.  

 

Pedra no nome, brilho nas memórias, cor dos encontros, brinde da partilha, Rua Marcassita.  


    ... farelos por aí ...

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