Viciado

 



— O que foi? Pelo amor de Deus, de novo você com essa dor de cabeça dos infernos?

— Também não é para tanto, Maria Clara.

— Porque não é com você, infeliz.

A discussão saborosa daquele meio de tarde apontava para os fios do roteiro da família.

Maria Clara, a filha mais velha, já estava no limite da paciência com a tal dor no canto esquerdo da testa do pai. Nossa! Tão específica!

Dona Lussandra, sábia esposa e mãe, chega minimizando os sobressaltos do viciado:

— Pode ir fazer suas coisas que desse aqui cuido eu.

— Mas, mãe, e se for alguma coisa grave?

Lussandra acalmou a menina e a despachou rapidamente, como quem diz “eu tenho a solução”. E não é que tinha?

— Sente-se aqui no jardim, Tonhão. Enquanto vai tomando essa água aí, vou...

Foi interrompida pelo inconveniente:

— Aonde você vai? Que seja para buscar um remédio para o velho. E se esse troço piorar, Lu?

— Homem dramático fui arrumar para a minha vida... Fique quieto que eu vou... Espera um pouco.

Os gemidos com supostos calafrios e as olhadas para o céu foram diminuindo à medida que a solução vinha da cozinha.

Chegou! Lussandra trouxe uma garrafa de café novinho, forte, direto na xícara favorita de Tonhão. E, na outra mão, o romance amargo de um tal de Paulo Honório.

Em outros tempos, Dona Lussandra chamaria seu companheiro de “folgado” ou “fresco”. Só que, assistindo a ele agora, ali na segunda xícara, imerso entre as páginas, calmo, não quis confusão.

— Não quero biscoitos. Assim está ótimo. Só café mesmo, Lu.

— Só o café, sei... e a dor de cabeça?

— Que dor?


 

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