Equilibrista

 

Contagem, outubro de 2026.


Seu Aldir, querido PG, o trem por aqui num tá nada bem. Depois que vocês partiram, conseguimos enfrentar os desafios de viver de arte por uns tempos. Poucos anos. Só que queremos mais.


Seu Aldir, graças à Lei em homenagem ao senhor, o que era um projeto de incentivo à leitura cresceu e se transformou em instituto. E num é que já nos transformamos num Ponto de Cultura?


Ah, PG! Cê tinha que tá aqui pra ver a festa que fizemos quando decretaram também a sua Lei. Pra se ter uma ideia, deu pra promover um grande sarau no CRAS com convidados de BH e Sabará.


Parecia até que estávamos vivendo nossa primeira primavera das artes na quebrada. Só parecia.


Porque, da primeira segunda-feira do mês pra cá, veio apenas a parte inquietante daqueles outros tempos a nos atravessar. “O que será que será que nos bole por dentro que será?”


Seu Aldir, a esperança está cada dia mais equilibrista. Os becos estão tomados pelas declarações que saem a todo instante da caixa de ódio.


Difícil de acreditar, PG... Dado o tamanho do espanto, melhor listar um pouco desses desencontros que se desenrolam por aí:


Roubaram a camisa da seleção canarinha; a amarelinha de que tanto gostavam agora é só deles. E, com as últimas escalações, estamos tomando ferro. Todo dia tem sido gol da — nem precisa lembrar —, intermináveis 7 x 1.


E, na covardia de um nacionalismo ufanista, cultivado em passeios bregas a Miami, roubaram a bandeira do País.


Muitos assaltos nas diferentes esquinas da paz, da saúde e do conforto da nossa gente. Só pra se ter noção, roubaram os aposentados, roubaram a fé. Tripudiaram da fé do povo.


Dona Elis, se aqui estivesse... nossa! Nem sei. Chega a ser difícil contar. Imagine ela, Elis Regina, com tamanha devoção, descobrir que estão querendo roubar de Nossa Senhora Aparecida o título de Padroeira do Brasil?


É difícil aceitar esses disparates. Parecem mentira esses quadros. Só que não para por aí. Além de idiotas e covardes, eles são muitos. São obedientes, bem-mandados... “Os homens de amarelo não melhoram e proliferam-se como percevejos.” Drummond ficaria de queixo caído.


Seu Aldir, não quero me alongar, mas dói ter que te contar sobre esses capítulos revisitados, esses cenários tingidos com as tintas dos anos 60 e 70, entende?


PG, dói acompanhar a execução dos planos carimbados com os traços da Alemanha de 1930, com gente disposta a contribuir com os cortes, com as retiradas. E o foda dessa merda toda é ver gente esquecendo de onde veio. Gente que é pobre que nem a gente. Gente brigando na rua, dentro de casa e no trabalho...


Ah. Chega. Paro por aqui. Finalizo com as reticências da esperança equilibrista.


Só e fui.

...

Crédito da imagem: Darshak Pandy


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