– Está vindo do rumo do 163.
– Eu vou bater lá. Nem que seja para dizer: “Oi, tudo bem?”.
– E você acha que isso nunca passou pela minha cabeça?
– Tô nem lixando para o que o moço vai pensar da gente.
Aquela conversa, pelo visto, ia longe. Discussão e curiosidade das boas.
O motivo daqueles fios de conversa era a playlist do vizinho da rua de baixo. Um sujeito de quem ninguém fazia ideia da identidade: não se sabia se era homem ou mulher, rapaz ou senhora.
Cheguei a imaginar que fosse motorista. Minha filha discordou, dizendo que o som não vinha da direção dos caminhões quando olhávamos pela janela. Levantei a suspeita porque não é toda semana que a pessoa está em casa.
Mas,
quando está, o abençoado ou iluminada aumenta o volume e põe para tocar músicas
de todas as épocas.
O barato de tudo é que ele ou ela solta uma sequência que se equaliza aos diversos momentos do nosso dia.
Arrumar a cozinha depois do café ou varrer a sala só se for ao som das animadas.
Na hora de abrir uma lata e tomar uma gelada nos preparativos do almoço, só vem pedrada boa. Depois, para o merecido descanso e aquela soneca rápida, entram as lentas, as baladas.
No último inverno, com o cair da tarde, pensei que talvez a gente não deva mesmo revelar a identidade desse mago. Concluí que vale a pena guardar o mistério e continuar tecendo as mais diversas fabulações: será um DJ contratado por algum filho de Deus para nos alegrar? Um fantasma disfarçado de algoritmo que entrega o que a rotina necessita?
Quer saber? Vizinhos assim, com bom gosto e alto-astral, têm que ser protegidos. Vai que tem algum invejoso querendo levar o nosso homem da música embora?

0 Kommentare:
Postar um comentário