Sexta, 22 de maio

 

Sancho,

 

Não vá ficar chateado ou com ciúmes, mas ontem eu te troquei por uma releitura. Depois de passar horas diante do computador, engolindo uma manhã de pequenos desgastes (ruídos na comunicação, cansaço acumulado), dei o salto.

 

Isso mesmo que você leu. Chega! Levantei-me num salto da cadeira: “Quer saber? Vou-me embora para a Rússia, e é agora!”

 

O contexto não parecia muito convidativo, admito, mas viagem é viagem. Em poucos minutos, Sancho, desembarquei direto no velório de Ivan Ilitch.

 

O cheiro da cera, o incenso das relações de aparência, a viúva com suas conversas atravessadas... Tudo aquilo me desligou por completo do dia, do mundo.

 

Ah, Sancho, naquele templo que só a leitura nos oferta, encontrei a anestesia para a dor dos últimos treinos; surgiu dali um espanador capaz de tirar a poeira dos pensamentos. Não sei explicar direito, mas tente imaginar alguém desanuviando a sua mente e polindo as suas ideias com poucas linhas. Tolstói é desses sábios que não precisam de apetrechos, de grandes arranjos com a palavra para nos encantar. Gênio!

 

Sancho, perdoe-me! Mas este desabafo era preciso: um pedido de desculpas e, acima de tudo, um relato de gratidão.

 

Um abraço e até o próximo treino.


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