Sancho,
Não vá ficar chateado ou com ciúmes, mas
ontem eu te troquei por uma releitura. Depois de passar horas diante do
computador, engolindo uma manhã de pequenos desgastes (ruídos na comunicação,
cansaço acumulado), dei o salto.
Isso mesmo que você leu. Chega! Levantei-me
num salto da cadeira: “Quer saber? Vou-me embora para a Rússia, e é agora!”
O contexto não parecia muito convidativo,
admito, mas viagem é viagem. Em poucos minutos, Sancho, desembarquei direto no
velório de Ivan Ilitch.
O cheiro da cera, o incenso das relações de
aparência, a viúva com suas conversas atravessadas... Tudo aquilo me desligou
por completo do dia, do mundo.
Ah, Sancho, naquele templo que só a leitura
nos oferta, encontrei a anestesia para a dor dos últimos treinos; surgiu dali
um espanador capaz de tirar a poeira dos pensamentos. Não sei explicar direito,
mas tente imaginar alguém desanuviando a sua mente e polindo as suas ideias com
poucas linhas. Tolstói é desses sábios que não precisam de apetrechos, de
grandes arranjos com a palavra para nos encantar. Gênio!
Sancho, perdoe-me! Mas este desabafo era
preciso: um pedido de desculpas e, acima de tudo, um relato de gratidão.
Um abraço e até o próximo treino.
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