domingo, 24 de maio de 2026

Domingo, 24 de maio

 

Sancho,

 

eis uma conversa na ponta da caneta — primeiro, no azul tímido das linhas do caderno.

 

A semana começou com tudo para não ser. Veio a inversão dos dias de treino, logo após a virose. Dois dias inteiros para me recuperar. Então, veio o Treino Canequinha, quarta-feira à noite, lá na Lagoa da Pampulha. E lá se foi a 11ª semana.

 

A 35 dias da maratona, meu amigo, é hora de certificar o índice de água, os suplementos e as vitaminas especiais (S e N). Desde nossas primeiras conversas, lembre-se, eu prometi te contar a verdade. Está lembrado?

 

Quando sai tudo errado, nos dias em que não consigo sequer calçar o tênis e sair para correr, eu compartilho. Por outro lado, quando pinta uma conquista (por menor que seja ao longo do caminho), eu também divido com você.

 

E hoje, Sancho, hoje foi um desses dias.

 

Vitamina S, ok! Fui dormir antes das 21h. Carga de carboidrato, antecedida por eletrólitos, ok! E para fechar a conta: agora tenho um novo suplemento durante a corrida. Doce de leite em sachê!

 

Muito obrigado, Deus! Muito obrigado, BH Run! Na manhã deste penúltimo domingo de maio, realizei o melhor treino de 32 km do Ciclo.

 

Agora, preciso descansar. Preciso descansar.

 

Sancho, dê comida e água para o Rocinante, por favor.

...


sábado, 23 de maio de 2026

Sábado, 23 de maio

 



Sancho,

 

Hoje o papo será diferente. O povo tem me feito algumas perguntas nos bastidores desse Desafio e decidi responder a algumas delas. Segure o passo e acompanhe o relatório do seu Cavaleiro.

 

Primeiro, perguntam muito sobre as horas. Sabe bem que treino quando o dever permite. Quase sempre a madrugada é testemunha, mas, às vezes, o asfalto me acolhe sob o sol da manhã, no cair da tarde ou no ritmo da noite. Onde houver chão, haverá passada. E na rua, Sancho! Mais de 90% do caminho é feito no mundo real; a esteira é o castigo para dias sem remédio. Inclusive, você melhor do que ninguém sabe da minha preferência pelas manhãs frias e pelos dias chuvosos, quando a água lava o suor e a alma. É ou não é?

 

Olhando para trás, quem diria? Comecei a maluquice de correr calçando um sapatênis. De 2018 para cá, gastei mais de dez companheiros de sola. O mais caro deles? O Corre 4, da Olympikus. Se me perguntam sobre os badalados tênis de placa de carbono, respondo com a velha prudência: ainda não estou preparado para tamanha tecnologia. Os pés e a técnica marcham em ritmo lento, em pleno processo de crescimento. Quem sabe um dia, em outras estradas?

 

A armadura também precisa de reparos, então bato cartão na academia duas vezes por semana, além dos outros treinos de força. E na alimentação, a ciência é foda. Cansei dos géis de carboidrato que andavam me revirando o estômago e causavam enjoos; agora, testo novas fontes de energia para o dia da nossa maratona. Depois te conto, ainda está em análise.

 

Aliás, por falar em comida, por volta da quarta semana do ciclo, a engrenagem quase travou. Tive que mudar drasticamente o cardápio e injetar mais carboidratos nas veias. Do contrário, Sancho, eu teria surtado e abandonado a missão. A queda de energia estava detonando o espírito, meu amigo. Esposa e filhas foram implacáveis: “Que homem amargo, insuportável! Tá ficando um autêntico cavaleiro da triste figura.” Abençoado o carbo que salvou a paz do lar.

 

Ah, só para constar e deixar registrado aos navegantes: continuo firme, sem o auxílio de Mounjaro ou de qualquer outra caneta emagrecedora. Aqui a gordura se queima no fogo do próprio esforço. Gostou? Tô me achando o tal (risos).

 

Um forte abraço,

Farelo de Cervantes


 

sexta-feira, 22 de maio de 2026

Sexta, 22 de maio

 

Sancho,

 

Não vá ficar chateado ou com ciúmes, mas ontem eu te troquei por uma releitura. Depois de passar horas diante do computador, engolindo uma manhã de pequenos desgastes (ruídos na comunicação, cansaço acumulado), dei o salto.

 

Isso mesmo que você leu. Chega! Levantei-me num salto da cadeira: “Quer saber? Vou-me embora para a Rússia, e é agora!”

 

O contexto não parecia muito convidativo, admito, mas viagem é viagem. Em poucos minutos, Sancho, desembarquei direto no velório de Ivan Ilitch.

 

O cheiro da cera, o incenso das relações de aparência, a viúva com suas conversas atravessadas... Tudo aquilo me desligou por completo do dia, do mundo.

 

Ah, Sancho, naquele templo que só a leitura nos oferta, encontrei a anestesia para a dor dos últimos treinos; surgiu dali um espanador capaz de tirar a poeira dos pensamentos. Não sei explicar direito, mas tente imaginar alguém desanuviando a sua mente e polindo as suas ideias com poucas linhas. Tolstói é desses sábios que não precisam de apetrechos, de grandes arranjos com a palavra para nos encantar. Gênio!

 

Sancho, perdoe-me! Mas este desabafo era preciso: um pedido de desculpas e, acima de tudo, um relato de gratidão.

 

Um abraço e até o próximo treino.


quarta-feira, 20 de maio de 2026

Quarta, 20 de maio

 


Sancho amigo,

 

Vá lá que só consegui conversar contigo ontem, meu amigo. Não tive espaço nem para fazer a meditação do dia, acredita?

 

E quer saber? Não sofri. Consegui realizar o treino de corrida que era para segunda-feira, ao lado da minha esposa, depois das 21h. Passada ritmada, o asfalto fresco da noite, os dois juntos.

 

E por que não antes? Antes busquei a Clarice na aula de inglês, tive a honra de apresentar o “Livros em Todo Lugar” para a deputada estadual Lohanna França, troquei uma ideia federal com o vereador Helton Júnior e lecionei manhã e tarde. Reclamar de quê, Sancho?

 

Cheguei a um ponto em que cada tarefa realizada representa uma alegria enorme. “Ah, não consegui entregar tal atividade dentro do prazo?” Paciência, gente. Eu não sou máquina. Viu só como estou mais atrevido hoje?

 

Por aqui, tudo correndo bem. Daqui a pouco faço o treino que era para ontem, parceiro. O de hoje, amanhã, e assim vou rodando até o próximo domingo. E vamos que VAMOS — aos poucos, lento, isento e sempre.

 ...


segunda-feira, 18 de maio de 2026

Segunda, 18 de maio

 

Sancho querido,

 

Há três dias desaparecido, seu amigo aqui está o puro pó da rabiola. Bem, talvez não chegue a tanto. Exagerei um pouco, mas a verdade é que tô feito pipoca, pulando de um lado para o outro.

 

Ainda sinto o corpo meio tonto, fraco. Sei lá o que aconteceu, meu caro. No sábado, o treino já começou com atraso. Para ajudar, uma dor de barriga me pegou quando faltavam 5 das 12 voltas programadas na Rua Cidade de Minas. Terminei e saí de casa no galope: precisava levar a Cecília para o Simulado do Enem. O banho e o café da manhã ficaram para o meio do caminho; o repouso necessário, esse nem existiu, Sancho.

 

 

Ao retornar para casa, antes do almoço, inventei de abrir uma garrafa de vinho. Queria comemorar a façanha de rodar a maior distância da minha vida até aqui — 24 km — na principal rua do bairro. O tombo veio logo depois. Da hora da sesta até a noite do dia seguinte, fui assolado por uma indisposição total. Daquelas de nem ter coragem de colocar a cara na janela. Na semana passada foi a Cecília; ao longo dos dias, a esposa; e eu, o cavaleiro tardio, fiquei por último na fila da virose.

Correr hoje? Não corri. O tempo que seria da pista foi compensado em cima do trono. Cruz credo! E você acredita que, depois de deixar a mais velha na escola, ainda tive a cara de pau de ir à academia?

 

Já que não vou meter um atestado, já que estou cumprindo todas as obrigações e amanhã estarei firme com meus alunos, não ia ficar de bobeira esperando a melhora cair do céu. Nada disso, Sancho. Água de coco, xícaras de café e fé. Logo, logo estaremos de volta às pistas. Afinal, a folha do calendário não espera: daqui a 41 dias, a Maratona. Esses pequenos gigantes, os dias e os obstáculos, vão caindo um a um ao longo do caminho.

 

Que eu não desapareça por tanto tempo assim.

 

Um abraço


 


quinta-feira, 14 de maio de 2026

Quinta, 14 de maio

 



Sancho,

 

Às 15h22, o corpo ainda é um mapa de dores silenciosas. Estou moído, é verdade, mas carrego aquela satisfação densa de quem não negociou com a planilha. Cumpri o rito.

 

Às vezes, eu mesmo duvido da cena: o relógio marcando 03h30 e eu lá, na pista, recebendo no rosto o frescor úmido desse outono que já ensaia o inverno. Foram 16 quilômetros de entrega absoluta. Para alguns, o diagnóstico é o surto; para outros, o rótulo é o foco ou a disciplina inabalável. Para mim? É apenas o compromisso de não faltar com a palavra que dei a mim mesmo. Nada mais.

 

No ciclo da maratona – que, sejamos sinceros, não difere tanto assim da vida – a regra é o passo a passo. É o fracionamento da energia para que nada falte no final. Quem diria que eu teria o estofo psicológico e a condição física para completar oito voltas na mesma rua onde, anos atrás, comemorei o meu primeiro quilômetro ininterrupto? A vida insiste em ser circular para nos mostrar o quanto avançamos.

 

Gratidão a Deus e a todos que, direta ou indiretamente, sustentam esse processo — especialmente minha esposa e filhas e o time da BH Run.

 

Ah, e um último comentário, meu caro Sancho: aquela nossa conversa sobre o "chifre" que levei... Olhe, tem dado o que falar.

 

Fui.



quarta-feira, 13 de maio de 2026

Quarta, 13 de maio

 



“Tem dias que a gente se sente / como quem partiu ou morreu”, Sancho. É exatamente assim que saio daqueles treinos "canequinhas": o famigerado intervalado.


Mas ontem a conversa foi outra. Saí mais forte, confiante e, acima de tudo, consciente de que sou capaz de encarar as próximas etapas. Só nos faltou tempo para conversar, não foi?


Não sei explicar direito, mas sinto que os treinos desta semana estão me desbloqueando. É como se abrissem novas janelas na mente. Como tudo isso ainda é muito novo para mim, sigo apenas apreciando o momento, entende?


Não que esteja fácil. No trabalho, as demandas atropelam; na vida pessoal, exames inesperados deram um nó na saúde financeira da família; no instituto, o silêncio dos editais preocupa. Mas o treino desse ciclo me traz o respiro necessário — é a chance de não enlouquecer. 


A essa altura, imagino você rindo, com aquele ar de quem já viu de tudo, pronto para dizer: “calma, tudo isso passa, daqui a pouco melhora”.


Mas, ó, hoje eu não quero pedir nada. Quero apenas agradecer a Deus, Nosso Senhor, por todas as coisas do Céu e da Terra. Só isso.


Até breve, Sancho.

segunda-feira, 11 de maio de 2026

Segunda, 11 de maio

 

Sancho,

 

preciso te contar o que aconteceu na última noite. Prepare o espírito, meu amigo, porque a notícia é de cair o queixo. Só te peço uma coisa: não me chame de trouxa, combinado?

 

Flagrei minha esposa me traindo na última madrugada. E o pior: foi na nossa cama. Virei para o lado e lá estava ela, abraçadinha com o outro. Hug é o nome do infeliz.

 

Não, Sancho, não precisa preparar ciladas, armadilhas ou carregar a espingarda. Vou ter que conviver com esse sujeito por muito tempo. E antes que você me chame de chifrudo, saiba que as meninas já garantiram a cota de zombaria do dia:

 

— "Pai, a mãe disse que o novo marido dela é muito mais fofinho que você!"

 

— "Lá vem ele, o 'corno' arrumadinho, só esperando os braços da esposa para mais tarde..."

 

Vou protestar na porta da fábrica da Ortobom. Como permitem criar um travesseiro carinhosamente batizado de “marido”?

 

Depois dessa "traição" de espuma, só me restou buscar refúgio no asfalto. Saí para o treino de 50 minutos. O ritmo estava bom, a respiração cadenciada, mas, por um vacilo de cronômetro ou de destino, entreguei 49min50seg. Dez segundos que o ego reclama, mas que as pernas ignoram. De lá, direto para o consultório da nutricionista — afinal, maratona se corre com o coração, mas se sustenta com o que se coloca no prato.

 

Para quem quiser saber como estão as medidas, os cortes e as novas metas dessa jornada rumo aos 42km, deixem um comentário aqui na página.

 

Já para você, Sancho, não esconderei nada. Muito menos as próximas traições.


...

domingo, 10 de maio de 2026

Domingo, 10 de maio

 

Sancho,

 

Em pleno domingo, despertei muito antes das 06h. Talvez essa seja uma das grandes recompensas de dormir cedo após os treinos longos: ganhar o dia enquanto o mundo ainda silencia.

 

Cuidei dos preparativos para um café da manhã especial de Dia das Mães. E não é que nos saímos bem na cozinha? A surpresa parece ter cumprido seu papel, e o sorriso da minha esposa foi o melhor feedback. O entusiasmo foi tanto que acabei incentivado a assumir também o almoço; no embalo, já deixei pronta a base das marmitas da semana — arroz e feijão devidamente garantidos. Ficou faltando apenas o lanche da tarde.

 

Por conta dessa busca por uma alimentação balanceada, desde a última primavera a cozinha tornou-se meu habitat nos fins de semana, especialmente aos domingos. É um espaço de dupla jornada: entre o fogão e a mesa, também habito o trabalho. Leitura, escrita, correções de provas e planejamentos de aulas dividem o tempo com o aroma do tempero.

 

Ainda sobre o autocuidado, tenho nova consulta com a nutricionista batendo à porta. Será que atingirei a meta? A ansiedade, como você sabe, é companheira de jornada. Mas deixemos o suspense no ar: quer que eu lhe conte os detalhes na nossa conversa de amanhã?

sábado, 9 de maio de 2026

Sábado, 09 de maio

 


Sancho,


quebrado não; moído. Foi assim que enfrentei os desastres do treino desta manhã, meu amigo. Uma sucessão de equívocos: quebradeira total.


Pela primeira vez, não consegui entregar a quilometragem proposta pela assessoria; dos 32 km previstos, saíram apenas 28. Os 4 restantes foram ca-mi-nhan-do.


Agora, passada a decepção inicial, eis uma análise dos erros, meu amigo. E veja que não foram poucos:


1. larguei forte, pensando que sustentaria o ritmo até o final. Da metade para a frente, comecei a ficar tonto, com as vistas escurecendo;


2. o plano era correr 16 km e voltar, dividindo o esforço em dois movimentos. Inventei de fazer 18 km para depois tentar fechar com 7 + 7. Caí na besteira de negociar com a mente e perdi feio;


3. pela primeira e última vez, deixei de ingerir a cápsula de cafeína. Certamente é ela que segura a onda na segunda metade do treino;

4. a hidratação dos últimos dias foi insuficiente. Nunca fui de beber muita água e ainda estou lutando para melhorar esse quadro;


5. Faltou carboidrato na noite anterior. Inventei de sair com a família para comer uma porção de carne e acabei tomando uma caipirinha também;


6. Com a nova palmilha, por conta da fascite plantar, algumas unhas foram maltratadas — coitadas.


Quebradeira. Além desse quadro, senti muita dor nos membros superiores. Ao chegar em casa, tomei banho, comi uma banana e apaguei: exausto, decepcionado.


Assim foi a 9ª semana do ciclo de treinamento. Estamos a 50 dias da maratona e, até lá, esses erros não poderão ocorrer novamente. Preciso ajustar o peso e levar a hidratação a sério.


Sancho, que esta conversa de hoje sirva de lição para outros cavaleiros-corredores. Como pude ser tão ingênuo?


Boa noite!


quinta-feira, 7 de maio de 2026

Quinta-feira, 07 de maio de 2026

 


Sancho,

 

Após trabalhar manhã e tarde, tive uma reunião com a equipe de Linguagens, das 19h às 20h30. Na sequência, a correria ao shopping para comprar o presente da mãe das meninas e um jantar tardio. Cama, só depois das 23h. Quarta-feira, 06 de maio de 2026.

 

Acordei antes do alarme, fui ao banheiro com os olhos ainda fechados, sem acender a luz e com uma dor de cabeça medonha, pesando sobre os olhos. O cálculo do treino: aquecimento, depois uns 6,7 km num ritmo forte; se eu ficasse até completar 1h15, daria tempo de voltar e despertar a Cecília? A conta não fechava. Era a soma dos cansaços juntamente com a carência de Vitamina S.

 

Voltei para a cama com os olhos cheios de areia, o embaraço dos pensamentos e os sintomas de uma gripe — seria esse outono um presságio de inverno? Ou apenas a insatisfação de não conseguir subir para a pista, interrompendo o segundo treino da semana? Esse negócio de ser disciplinado mexe com a gente.

 

Só nos dirigindo ao trabalho, em conversa com a Cecília (ô menina boa de prosa, gente; você teria orgulho de trocar umas ideias com ela), cheguei à conclusão de que tudo isso não passa de moinhos de vento espalhados ao longo dos caminhos daqueles que inventam de correr uma maratona. Em contextos do Mestre Cervantes, ouso dizer que se trata da penosa luta que travamos com os pequenos gigantes do cotidiano.

 

Enquanto aqui estou em diálogo com meu fiel escudeiro, liberto-me da ideia de que inventei uma desculpa esfarrapada para não treinar. Nada disso. No limite. E de uma coisa estou certo: ao escrever, aprimoro o manuseio da espada, alimento o Rocinante e vou tirando as palavras sombrias da caixola.

 

Sancho, perdoe-me por estar assim, nesse estado confuso; estou sob o efeito de uma Dipirona. Que Deus me abençoe! Dor de cabeça não presta.

 

Abraço,

...


 


quarta-feira, 6 de maio de 2026

Quarta-feira, 06 de maio de 2026


 Sancho, meu amigo,

 

Na parte da manhã, contei das nossas conversas para umas três turmas da 1ª série do Ensino Médio. E não é que os estudantes nos acharam uns "pancados das ideias"?

 

Agora, mudando de assunto: ontem eu fracassei bonito no plano, viu? Rapaz, o CANEQUINHA me derrubou faltando uns 30 minutos para o fim. Falhei miseravelmente.

 

Cabeça pesada, psicológico frágil e os excessos do final de semana prolongado... não deu outra: quebrei. Essa foi uma das poucas vezes em que tive que abandonar um treino intervalado.

 

Mas não posso desistir. Lavei o suor e dormi um pouco mais na última noite. Como vou com as filhas comprar presentes para minha senhora — o Dia das Mães está chegando —, provavelmente não conseguirei treinar hoje. Já amanhã... que Deus nos abençoe.

 

Estou com umas ideias para tratar contigo depois. O que você acha?

 

Até!

...

terça-feira, 5 de maio de 2026

Terça-feira, 05 de maio de 2026

 

Sancho,

 

Este ciclo de preparação para a maratona está me deixando em cada situação inusitada que, vou te contar, viu?

 

Há dias em que, se pudesse, eu passaria horas falando do quão prazeroso é calçar o tênis, tomar uma xícara de café e se jogar num desses treinos longos... Ali, depois que o ritmo encaixa, a noite se despede das horas e o céu laranja do outono se engraça com o inverno, numa temperatura que acolhe até nossos pensamentos.

 

Há dias também em que a gente amanhece com todas as adversidades em ebulição. Na última manhã, por exemplo, um "cavaleiro" veio descontar todos os seus problemas em mim. Fui insultado, cobrado... Eu não ia perder a paciência logo antes de pegar no batente, só que...

 

... a situação me desequilibrou um pouco. Mantive a calma, na medida do possível, e não vou mais me meter nesses escândalos gratuitos. De difíceis, já bastam as contas para pagar, as planilhas para preencher, o treino por fazer e a vida para sorrir.

Sancho, eis a saída: surfar no caos e encontrar a leveza nos embalos do tumulto de cada dia.

 

Já estou indo, viu?

 

...

segunda-feira, 4 de maio de 2026

Segunda-feira, 04 de maio de 2026

 

Segundou, Sancho!


Acordei antes do despertador, meu chapa. Corpo descansado, pronto pra luta. Claro que nem tanto assim... Você me conhece.


Evitando deixar para depois, já fui logo entregando o treino do dia. Como diz o cavaleiro Adriano Britto, hoje foi dia do famoso “pace preguiça”. Leve, bem leve. Um trote.


Depois de deixar a mais velha na escola, passar na padaria e encerrar o desjejum, hora de marcar presença na academia. Dia de dedicar atenção às pernas. O treino foi bruto lá, campeão.


E num é que hoje eu preparei o almoço, os lanches da semana e, ainda por cima, levei a outra filha para a escola antes do trabalho?


Sancho, Sancho... vida de atleta amador, professor e pai é uma aventura sem tamanho. Não sei, não faço a menor ideia de como a gente dá conta. Deus e minha esposa sabem. Como sabem!


Até o próximo registro, hein?!

domingo, 3 de maio de 2026

Domingo, 03 de maio de 2026

 


Caraca, Sancho!

 

Dois dias sem tocar em um teclado. Na última sexta-feira, lutei contra as teclas minúsculas do celular para registrar nossa conversa; um exercício de paciência que quase rivalizou com os quilômetros finais de um treino longo.

 

Nesse intervalo, rendi-me ao ócio absoluto: uma série ordinária, dessas que servem de anestesia para o intelecto, permitindo-me não pensar em absolutamente nada. Às vezes, a diversão barata é o luxo de que o espírito precisa.

 

Mas o asfalto deu lugar ao barro. Corri em estrada de terra, sob o céu da Serra do Cipó, entre cachoeiras e o ar rarefeito da liberdade. Foi magnífico, meu caro. Contudo, saí da trilha da disciplina: a hidratação ficou escassa, a salada foi ignorada e as proteínas — e os horários — tornaram-se anárquicos. Até nos deslizes, a gente ri.

 

Agora, o retorno à linha é imperativo. No dia 11, a nutricionista me espera para aquela conversa que, confesso, já me causa arrepios. O tribunal da balança não costuma aceitar metáforas como desculpa.


Enquanto isso, os comentários ao redor florescem como ervas daninhas. Eu apenas rio. Dizem que o "marido está se achando", ou que "o humor se foi junto com o peso" — a clássica comparação com o Leandro Hassum. Há quem sugira, entre o sarcasmo e o desconhecimento, que eu corra até Lagoa Santa ou que vire um David Goggins das ultramaratonas.

 

Pois eu lhe digo, Sancho: se a nossa movimentação gera ruído, é sinal de que estamos avançando. O incômodo alheio costuma ser o rastro da nossa evolução e eu me divertindo com tudo isso.

 

Faltam 56 dias. A direção está traçada e o comando é superior. Vamos em frente!

 

...

   

sexta-feira, 1 de maio de 2026

Sexta-feira, 1º de maio de 2026


Sancho,

 

Que conversa na lata foi aquela de ontem? Fui sincero demais, amigo. Por conta disso, muito provavelmente só você leu a página inteira.



Paciência, mas não retiro uma vírgula sequer do que conversamos. Entre Clarice e Rosa, vale lembrar: "Viver dói. A vida é um soco no estômago. Viver é perigoso".



Virando a página, Sancho:



 1. Às 03h12, eu já estava na pista para os 28km. Sim, em plena sexta-feira, o longão de uma semana de treinos antecipados.



 2. Nem bem corri os primeiros 2km e surgiu sangue — muito sangue — do talho que levei na mão esquerda antes de sair de casa.



 3. Com a toalha, fui "secando", passando água gelada e, com o tempo, estancou. Mas os pensamentos foram longe...



Gratidão a Deus, aos anjos protetores e aos profissionais da BH Run! Ali, entre um quilômetro e outro, vieram imagens da superação contínua, da força da disciplina, dos benefícios do foco, da realização de cada entrega e a felicidade de se divertir e amadurecer no processo.



Pensa que foi só o treino e "bora" voltar para casa? Que nada! Minha família já me aguardava na rua para uma pequena viagem para um distrito perto da Serra do Cipó. Banho tomado e pé na estrada.



Até mais, Sancho.

PS: Hoje eu estou que é só gratidão e alegria