quinta-feira, 23 de outubro de 2025

O relógio ficou em casa

Para João Eustáquio - BH Run


Acordei atrasado, a noite mal dormida ainda pesava. Para piorar, martelava na cabeça a pulga do recado importante que não foi dado — aquele aviso que deveria ter chegado no momento exato ao destinatário. Que danado!

 

A manhã já nascia com sabor de pressa e erro.

 

Saí em disparada. Quando menos esperei, a constatação gelada:

 

Putz! O relógio da corrida ficou para trás. O gadget que registra o exercício!

 

Para completar a sinfonia do desastre, no desespero de sair rápido, acabei amarrando o tênis um pouco mais apertado.

 

Ainda bem que só fui sentir a pontada de incômodo e a leve dormência lá pelas tantas voltas do treino.

 

Quase finalizando o percurso, veio o golpe de misericórdia. Um apito no celular: bateria esgotando. Quinze, quatorze, treze... Antes da tela se apagar, deu tempo de registrar a atividade feita até ali. Ufa! Um sopro de vitória em meio ao caos.

 

"Santo dos Corredores! Santo dos Atletas Amadores!", implorei mentalmente: "Que minha manhã finalize bem e que a tarde e a noite sejam, por favor, melhores!"

 

Porque, até aquele ponto, a impressão que ficava era que eu nem deveria ter saído para a rua. Aquele era um dia de cama e silêncio.

 

Ao retornar, a mulher ouviu tudo, do recado perdido ao tênis apertado, com a atenção de quem conhece os tropeços do cotidiano. E arrematou com a sabedoria que só ela tem:

 

"Verdade! Não era para você ter calçado o tênis. O universo acenou para você ficar. Mas NÃO... você foi lá, contra todos os imprevistos e descuidos, e treinou. E é isso que importa."

 

Depois dessa conversa, meu dia não apenas melhorou: foi salvo.

V.I.P

 

Era a manhã de 8 de dezembro de 2019. Lá estava eu: ansioso, temeroso, inseguro. Enfrentaria a Volta Internacional da Pampulha, e já com alguns percalços.


Percalços? Sim. Não dormi bem na noite anterior, pois fui para a cama tarde. O sábado havia sido dedicado à comemoração do aniversário triplo das mulheres da minha vida.


Na manhã daquele sábado, durante os preparativos da festa, o bico de uma garrafa PET de Coca-Cola pulou desajeitado no meu dedão direito. O freezer estava bagunçado, e meu pé levou a pior. Coitado!


Tudo parecia conspirar para dar errado naquele calor sufocante de dezembro. Não havia sol, mas o mormaço nos fazia sentir como se estivéssemos sobre brasas.


Nos primeiros três quilômetros, estava muito difícil desenvolver o ritmo. O rio de gente era quase um convite à caminhada. Lá pelo oitavo quilômetro, bateu a lembrança da dor aguda no dedão atingido pela garrafa de dois litros.


Depois do pórtico dos 10 km, comecei a aumentar o ritmo, mesmo sentindo muita dor. E eis que surge um anjo, desses que compartilham palavras de incentivo; ora com humor, ora com diversão. Eles sabem transformar a pista em festa.


Eu disse "anjo" porque, pela voz, reconheci o moço. Júlio é educador financeiro e havia ministrado uma palestra em uma das escolas onde eu trabalhava.


De repente, começamos a trocar ideias. Assim que descobriu que aquela era minha estreia, ele me aconselhou: "Então, professor, pode economizar energia. É melhor diminuir o ritmo e guardar fôlego para o final. Você vai precisar na rampa do Mineirão."


Eu disse "anjo" porque ele simplesmente poderia ter continuado na velocidade dele. O moço estava na sexta ou oitava Volta; tinha experiência de sobra, mas decidiu apoiar-me.


Quando descobriu o que me levou a estar ali, ficou mais empolgado ainda. Parecia que o desafio era dele. Faltando poucos quilômetros, a dor havia cessado. Com a prosa, um filme de mais de um ano se desenrolou em minha mente. Era o gás que eu precisava para encarar os últimos duzentos metros.


Com o dedo inchado, o rosto vermelho como um pimentão, e dores em todas as partes do corpo, venci o primeiro grande Desafio da minha vida: completar a Volta Internacional da Pampulha.


Não que o tempo fosse importante, mas quis deixar registrado: corri os 18 km em 02h20. Após agradecer ao Júlio pela força, lembro-me de gravar um vídeo para o Instagram e voltar para casa muito contente.


Missão cumprida. O primeiro passo estava dado.

sexta-feira, 17 de outubro de 2025

A encomenda de Clarice

 


– Senhor Alfredo, estou com uma entrega pro senhor. Não tem ninguém em casa.

 

– Tem como você deixar na casa de grade aí da frente? Por favor, procure pelo seu Ronaldo. Muito obrigado!

 

Pelo menos dessa vez o entregador ligou, porque da vez que tive que retirar a encomenda no depósito foi uma canseira daquelas.

 

No carro cheio de crianças do teatro, deixei um aqui, o outro desceu no quarteirão de lá, fiz questão de guardar segredo. A destinatária da encomenda não fazia ideia da surpresa.

 

Depois de guardar o carro, tomar uma xícara de café, esqueci de bater lá na residência do seu Ronaldo. Até que Júlia, sua netinha, bateu no portão:

 

– Tio Farelo! Tio Farelo! O moço deixou isso pro senhor.

 

Era um embrulho simples, desses bem comerciais, padrão, no interior envolvido com plástico bolha. Senti.


Agradeci a vizinha e o seu Ronaldo que se encontrava do outro lado da rua. Nem bem fechei o portão e um berro:

 

– CLARICE! CLARICE! Olha só o que chegou. Vem ver, depressa...

 

Assim ela fez, largou desenho, pincel e tinta, o chinelo ficou pelos caminhos e VAPO! Pegou a encomenda e ali no escuro entre a garagem e a sala foi abrindo o pacote e...

 

Clarice sorriu dos pés à cabeça. Pulos de satisfação. Encantada. A menina comemorou com o corpo inteiro. Imediatamente foi para o canto do sofá da sala. Sentou-se e começou a leitura. O mundo parou.

 

Na sala, aos olhos dos outros moradores, tudo se movia em câmera lenta, ao redor daquela pequena leitora.

 

Em seguida, ajeitou a almofada, esticando os pés e, segurando o livro, eis que se desligou por completo da realidade.


A mãe que assista à telenovela dela pra lá. A irmã que ficasse de papo com as amigas nas redes sociais. O pai que fosse preparar a salada da noite.

 

Segundo a mãe, ela só fez uma parada na viagem, antes de dormir. Nesse tempo, fugiu para o escritório e lá começou a desenhar, inspirada, de forma livre. A leitura!

 

A forma como recebeu a encomenda, o mergulho nas páginas, os traços das histórias que também vai compondo, tudo isso nos enche de alegria.

 

A menina Clarice ainda não sabe, mas naquele outubro foi ela quem presenteou os pais na Semana das Crianças.


... farelos por aí ...