quinta-feira, 31 de outubro de 2019

a descoberta e o presente

A Menina sabe o quanto o pai gosta da Clarice. Com frequência, ouço dela a seguinte pergunta: “Esse livro grossão de contos aí quem te deu? ”  Verdade! A Menina me presenteou com todos os contos da Clarice Lispector.

Por outro lado, o que essa Menina não sabia é que eu nunca tinha lido uma obra infantil da Lispector. Nenhuma

Outra surpresa!

Um dia desses aí, a Menina veio me mostrar um dos tesouros da rainha:

“Jura! Você pegou um livro da Clarice Lispector na biblioteca da sua escola? ”

“É ué! Você não está vendo? ”

É que pai fica meio abobado diante de umas cenas assim... (sem palavras). Não é todo dia que uma garota com quase-quae dez anos tira da mochila um exemplar de “O Mistério do Coelho Pensante”, concorda?         

“Não me conte nada a respeito desse livro. Nada de spoiler, viu? Vou ler e depois a gente conversa com a respeito, combinado? ”

A Menina balançou a cabeça em tom desafio:

“Vou ler muito antes de você”.

E leu.

Entre uma prova e outra, semana da criança, um resfriado, febre; o livro ficou esquecido no fundo mochila até o dia de em que não resisti...  

Fui gatinhoso. Sem pedir licença, sem saber se a tal Menina já havia percorrido aquelas páginas. 

Por que o nariz do coelho é cor-de-rosa?

O que os coelhos pensam dos seres humanos?

A verdade é que encontrei uma Clarice muito diferente daquela das obras adultas. Lúdica, muito engraçada, divertida para crianças de todas as idades. Inteligente como sempre. 

Li a o livro duas vezes por não acreditar que estava diante de uma narrativa tão agradável e tão cheia de laços, com diálogos mil.

A verdade é que estava louco para sentar com a Menina para contar minhas impressões. Fui todo entusiasmado e ela me brecou.

“Ah, você gostou? Eu amei. Mas acho que você vai pirar mesmo é com esse outro aqui.”

De repente, ela foi ao fundo do guarda-roupa e de lá me apresentou um outro título.

A Menina do Baú Vermelho exibiu toda contente o segundo livro infantil da rainha: “A vida íntima de Laura”.

Amanhã, ela vai completar dez anos. Esse é, sem dúvida, um dos maiores presentes que nossa filha nos dá: descobrir Clarice Lispector.   



... farelos por aí ...


quarta-feira, 23 de outubro de 2019

enroscar-se ao silêncio


Antes dos dez, um miúdo, lá nos ventos mágicos do entroncamento de Serro e Dom Joaquim, tive os primeiros exercícios de contemplação.

Toda quarta era dia de ir à fazenda do Seu Zé Ribeiro. Dia de comprar leite para tia Celeste, Chico e Mané.

Era um compromisso, uma tarefa que algum adulto determinou para um moleque arteiro. Sé que, agora, com o cantar dos anos, compreendo que não foi obrigação.

Claro que naquelas estacoes da vida, eu não entendia as lacunas da economia e o porquê de todo mês o preço do leite subir. O vaqueiro Lúcio afirmava “avise pros seus tios que a culpa é do presidente”.

Minha preocupação era outra: a solidão do caminho com suas voltas, o retorno na semana próxima.

Agora, vai tudo se iluminando... buscar leite para os três era uma forma de me enroscar ao silêncio. Foi a partir desse encontro que passei a escrever sem lápis, a dançar fora dos ritmos da vida comum.

“Esse filho de Eva está meio panado das ideias. Tão menino ainda”. É o que o povo diria se trombasse comigo em alguma encosta.

A cabeça tava lá na água suja pra pescar mandi de dia. O pé de manga lindo de flores. “Vai sê cada teteia, Zezé! ”

E o silêncio, um dia, correu atrás dos marimbondos. Atrevido, fui lá e interrompi o silêncio do lar deles. Que pedrada! Nunca corri tanto. Quase caí na lagoa, mas como dó a raiva daqueles bichinhos. Costas inchadas.

Minutos depois, estava lá chutando outras pedras, puxando diálogos com as pinturas do céu, mergulhado nas cores do silêncio.

Eu não sabia, mas essa queda pela prosa, migalhas da fala, pelo canto do grito, que tudo isso chegou antes de eu completar dez anos.

Escrevo para me descobrir. Às vezes, enroscar-me ao silêncio.

... farelos por aí ...

quinta-feira, 17 de outubro de 2019

o psicanalista que pediu


Fiquei um longo tempo sem escrever. Esqueci como se faz isso em um diário. Sei que não há problema com esse tipo de perrengue.

Se não quiser perder seu tempo, abandone a leitura dessa joça. O que lê é o rascunho de um sujeito em esboço.

Antes de chegar a esse formato, escrevi a lápis, num caderno velho, tudo com a certeza de que ninguém leria. Eu não tenho leitores. Meus dias estão contados. Os seus não?

— Pare de ler e me dê isso aqui. Vamos continuar a consulta.    

O mundo está se destruindo sob o efeito de antítese.

— Do que p senhor estava falando mesmo?

— O último “Auto da Compadecida”, montagem de um grupo foda (perdoe-me, esse tipo de palavra não pode) lá de Belo Horizonte, teve cenas vaiadas e aplaudidas ao mesmo tempo.

– Ahn? O senhor está bem?

— Não era uma partida de futebol, doutor? Aonde é que é que isso vai parar? Parece que a vida só tem dois lados, vencedor e perdedor, sol e lua, dia e noite. Gente, e o tempo para pensar, refletir e viver e...

— As vaias e os aplausos te incomodaram?

— Que pergunta idiota é essa? Ainda bem que estudou para ouvir. Quero meu diário de volta.

— Continue escrevendo, você precisa. Até semana que vem ...

A vontade era mandar esse psicanalista do Sul para a cidade de Bacurau.

... farelos por aí ...