urucum cum calma


Você é um fracote, menino! Não adianta se achar o tal, você está com baixa resistência. Sempre esteve. Qualquer ventinho, uma chuvinha de nada, já fica com dor de cabeça, alergia, coriza – dizia minha voz médica interior, na noite anterior.

Amanhã, você vai tomar umas vitaminas, bem cedo. Mas não pode ser de barriga vazia. Tome seu café, primeiro. Coma o que quiser, aliás, o que tiver, menino – insistia a voz da consciência. 

Acordei atordoado com as cachorras espancando a porta da sala. Já era dia. As cadelas queriam me cumprimentar, mas eu não estava muito receptivo naquela manhã. Amargo.

O barraco estava de pernas pro ar. Sem nenhuma vasilha limpa, uma pia com pilhas de pratos pra arranjar. Queria ser como minha mãe, que sempre deixou tudo arrumadinho antes de dormir. Ainda não consegui.

Sou frouxo até nas tarefas domésticas. Agora, por exemplo, lembro que é dia da coleta de lixo e eu não separei as sacolas. Daqui a pouco vem a  bronca. Sou muito incompetente.

Voltando à voz médica interior, lavei o canecão. Colhi a água, acendi a trempe do fogão. A cabeça a mil. Eu não estava ali. Não era ressaca de nenhuma natureza. Era para tomar o remédio e que se danasse o resto do mundo.

Ainda não consegui retirar o açúcar da minha vida. Adoçante nem a pau. Aquilo estraga qualquer sabor. Um dia vou ser todo in natura! (Que sonho idiota para um sedentário) Cala-te consciência.  Açúcar na água. Nada de adoçar depois, como alguns fazem por aí. Sou à moda antiga. Borbulhou, ferveu, mas eu não estava ali.

Na outra parte do armário, o pó de café estava todo assanhado, lá ao lado dos temperos.  Quem teve a ideia genial de trocar o pó de lugar? Dúvida besta essa minha, a bagunça estava feita. Como assim?

Com mãos de ogro, cérebro de minhoca, cabeça nas nuvens e atos de zumbi, vi quando a vasilha de colorau caiu do armário espatifou em cima da pia e respingou no chão. Deixei tudo lá. Sem grito, palavrões. Acordei naquela hora, acredito. Coloquei o pó, depois foi o momento de coar o café. Lavei uma xícara. Sentei no chão da cozinha, bem perto da tragédia lírica e fiquei ali por uns minutos, ali apreciando os contrastes: o piso quase branco e o colorau dando o tom ao dia que começava.

Esqueci do pão dormido, do remédio, dos pesadelos da noite, das vozes da consciência médica, da agenda de trabalho, das provas para corrigir, das aulas para preparar.   Eu só tive tempo para o colorau, que não é vermelho, que não é alaranjado nem da cor de mamão maduro. O colorau. Somente o colorau e minha experiência de sentir a magia de sua cor, a alegria do seu valor.

— O que aconteceu aí na cozinha, amor?

— Fique tranquila. Acabei de acordar agora.

— Você foi pra cozinha, sonâmbulo, de novo? Isso é muito perigoso, homem.

— Perigoso é viver sem prestar atenção nas cores do nosso dia.

... farelos por aí ...     

Crédito da imagem: https://come-se.blogspot.com/2011/06/urucum-liquido.html
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