Machado de Assis descomplicado?

Não sou de criar polêmicas, alimentar rede de intrigas, mas quando o assunto é Literatura Brasileira, gosto de soltar uns gritos, espalhar algumas revoltas por aí. 

Não leia este texto como um manifesto, por favor. Apenas tenha em mente que literatura é linguagem e se constitui de metáforas. Desse modo, compreenderá o desabafo.

No último domingo, 04 de maio, o ator Paulo Fernandes me enviou uma matéria da Folha de S.Paulo cujo título faço questão de enfatizar “ESCRITORA MUDA OBRA DE MACHADO DE ASSIS PARA FACILITAR A LEITURA”.

O primeiro parágrafo traz a seguinte declaração da autora: “Entendo por que os jovens não gostam de Machado de Assis. Os livros dele têm cinco ou seis palavras que não entendem por frases. As construções são muito longas. Eu simplifico isso.” Segundo a autora, essa simplificação não fere o estilo de Machado de Assis, “a ideia não é mudar o que ele disse, só tornar mais fácil.”

Não vou entrar no mérito dos números, muito menos nos detalhes das obras que foram transformadas nessa gentileza do descomplicar os clássicos. Nada disso. Repare que nem revelei o nome da autora, mesmo porque essa postagem não chegará aos responsáveis pela publicação de 6oo mil exemplares de um “Alienista” descomplicado, não é mesmo?

Quero propor algumas questões: será que a aprovação de um projeto dessa natureza não é o retrato irônico do país de Machado de Assis, que lê sem assinar as propostas? As palavras complicadas do nosso grande escritor não poderiam servir de estímulo à formação de uma competência leitora? Entre gostar e não ser bem apresentado à obra de um clássico não faz toda diferença? Para finalizar, será que a escritora que teve a coragem de assassinar tal texto, de fato, entendeu algum livro do Machado de Assis? 

Brás Cubas está de olho na distribuição da versão descomplicada do “Alienista”. Vocês não acham? Perguntando-se assim:

— “Nossa, o que será do Bentinho nas mãos de uma equipe descomplicada, hein?”


... farelos por aí ...

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