dançando na fúria do furacão


Há tempos recebi a ligação de um jovem que havia roubado 384 livros. Na semana passada foi a vez de uma senhora me abordar via e-mail. Depois da troca de algumas mensagens, ela fez o pedido, um pouco receosa.

Será que você poderia publicar esta página do diário da minha filha? Ela não teve tempo de mandar para o jornal.  

Pode deixar, publico sim.
  
A senhora fez uma cópia  das páginas sem data e me enviou. Eis a página do velho "Diário de Hilda":    

Sou uma mulher grave e séria. Gosto de ficar quieta, calada nos meus cantos. Há muitos cantos em nós, Senhores!

Mas se algum de vocês (muitos) ainda não percebeu que as mulheres não são “árvores silenciosas na estrada”, saio de um desses cantos e lanço pedras na cabeça do gigante da ignorância, dos que nos tratam como fêmeas e passivas.

Meus senhores, calma. Muita calma. Prometo que serei mais direta, objetiva. O cérebro dos senhores é da ordem prática, contempla o imediato. Gostam de ir direto ao ponto. Está bem. Eu vou!

Estou farta das cenas representadas na História, dos lugares reservados dentro da casa dos preconceitos.

Estou cheia das pinturas vazias que só nos idealizam, dessas falsas musas inspiradoras. Não ocupamos todos aqueles estágios da elite. Só queremos proximidade e o mínimo de respeito.

Ah, não somos deusas, apenas heroínas, compreendem?

Cansei de ter meu silêncio ignorado, comprado. O silêncio de uma mulher pode ser uma explosão. Mesmo assim, às vezes sempre – afirmamos com o não, pois desde jovens aprendemos “a dançar na fúria do furacão”. Sabem o que isso significa, senhores?  

Saibam, senhores: eu sou mais que as linhas que compõem esta página, mais do que os versos de uma canção romântica. Eu sou mais viva que todas as cores que se misturam na tela dos artistas, a força de todas as batalhas, mais rica que todas as discussões acerca do feminismo, a protagonista de todos os enredos e desenredos. Sua avó, mãe, tia, irmã, amiga, colega, namorada, MULHER.

Era isso, meus senhores. Que com esses disparos a gente possa conversar sobre quaisquer assuntos, sem reservas. Que as divergências venham convergir para um único diálogo: a vida em sociedade.    

*Nota: esta crônica foi ilustrada por Andrezza Camargo, aluna do 2.º Ano do Ensino Médio. Além de desenhar, ela é fascinada com a sétima arte. 
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