monólogo noturno de Baleia



Toda noite ele vem e me leva pro seu mundo. Contei pro médico, ele receitou uma vasilha maior de leite, assim eu pegaria mais rápido no sono.

Pena que não tem psicólogo pra gente da minha espécie. Pode não parecer, mas eu sou gente, viu?

Toda noite ele vem, chega de mansinho, passa debaixo da porta, retira os aparelhos da tomada, dispensa as luzes de led. Desconfio de que na sua rápida visita, até a geladeira ele desliga.

Ele emudece os celulares, nem um bip, nenhum sinal de mensagens, e sopra, sopra uma brisa fria que percorre todos os cômodos da casa, enquanto estou no quarto apenas esperando.

Depois ele se acomoda no lavabo, devagarzinho dá um toque na torneira e o silêncio da casa é interrompido.

A torneira começa a pingar, vai gotejando, gotejando até me tirar da cama, do frio ou do calor da cama e vou...

À medida que vou me aproximando da pia, as gotas vão aumentando, parece que estão caindo dentro do meu cérebro. Martela meus miolos.

Fecho os olhos e vou abanando o rabo, farejando a escuridão... e assim que chego ao lavabo, a torneira está intacta, sem nenhuma gota de água. É. Está tudo seco. Acima dessa torneira tem um espelho que reflete meu focinho, minhas orelhas, minha cara de louca.

E ele vem, vem de uma vez, chega por trás, me abraça, envolve. Não tenho tempo de gritar, é ele que já vem. Quem? Ainda não lhe disse? O Medo.    

... farelos por aí... 

+