Um mundo coberto de cinza


Por Croton*
"...praticas laboriosamente os gestos universais, sentes calor e frio, falta de dinheiro, fome e desejo sexual." E é com esse trecho de Drummond que deixo aqui um grito desesperado por atenção ao mundo que nos rodeia.

Ao ler "Elegia 1938", pela primeira vez, veio até mim, espontaneamente, uma imagem tenebrosa. Penso no mundo coberto pela cor cinza, alusão às Revoluções Industriais, sobretudo a Terceira.

Alusão à conspurcação, à automação da grande massa. Vejo um mundo cinza, ar rarefeito, pulmões que urgem por oxigênio. Seres humanos que uma vez clamaram pela liberdade, gritando "Liberté, Egalité, Fraternité!"; hoje, fazem seus gestos universais - movimentos programados pelos grandes gênios do Fordismo e Taylorismo. 

Tem gente que tá morrendo de fome lá fora, sabia? Tão morrendo sim. Tão com fome e frio. Mas tão com calor também, emanado pelo sangue quente que escorre pelas suas mãos tão exploradas. Tão com fome, fome do alimento e da carne, tesão.

Mas, olhe só, a crise não tirou o emprego da prostituta não. Eu a vejo na rua, sozinha, com medo. Ela também sente frio e fome, mas não sente tesão. Poucas roupas que é pra mostrar sua calcinha vermelha, que comprou com o dinheiro sujo dum cliente satisfeito, o mesmo vermelho que encontramos num cardápio do McDonald's.

Mas o que é aquilo na calcinha dela? Ah, sim. O DÓLAR. Esse daí tá em todo lugar também, sabia? Esse tal de dólar. Nosso Real tá valendo nada não. Mas, olha só, não fica triste não, a vida é assim mesmo.

Agora, menino, vai trabalhar que tá na hora de ir bater o ponto. 15 anos já, tem que pegar seu dinheiro e ir virar homem com aquela prostituta da calcinha vermelha.

*Croton é estudante do 3.º Ano do Ensino Médio, fã de Carlos Drummond de Andrade, Cecília Meireles, e de muitos outros gigantes da poesia brasileira.    

Crédito da imagem: https://www.youtube.com/watch?v=TGh_jvSUNRI

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