o café mais amargo da vida


 
A água no meio do canecão, quase em borbulhas. Próximo do fogão, o coador verde escuro, com a veste branca, aguardava o ritual.

A garrafa de boca preta também esperava o café preto para habitar seu interior e, depois, cobrir o vazio dos homens com Energia. A energia do início do dia. 

Quase tudo pronto. Era o tempo de colocar meia xícara de açúcar e coar o café; mas não havia açúcar. O pó preto não queria escorrer sozinho pelo gargalo da garrafa (também verde, só que um verde-claro). 
Quase tudo pronto, mas sem açúcar não seria possível. A mulher reclamaria daquele descuido. “Em pleno sábado, você tem a coragem de me servir café sem açúcar, homem de Deus? ” Seria a primeira observação do dia. 

5h33 da madrugada eu estava na porta da primeira padaria 24h da quebrada (lê-se comunidade, periferia). Por uma portinha o funcionário nos atende, busca os produtos, cobra, recebe; tona-se o multiuso do seu turno. 

5h35. Eu ainda não havia sido atendido, pois na minha frente um profissional da construção civil fazia sua pequena compra.

– Pô, mano, estou ralando pra burro. Tô fazendo de tudo lá. Preparo a massa do reboco, coloco na lata, subo os andaimes. Ninguém pra ajudar. Tá osso!  

Primeiro, ele reclamou do preço do maço de cigarro. Estava um real mais caro. E depois, assim do nada, começou a falar da violência dos últimos tempos, da novidade de uma padaria 24h na quebrada e reclamou:

– Besteira! Tinha que deixar as portas abertas, nada de ficar atendendo por essa portinha de merda não, sô. Isso aqui não segura bandido não, gente. Se o cara quiser roubar mesmo, chega, ó, berrado, e leva tudo, entende?

A essa altura, ele já havia retirado um cigarro, acendido, e dado uns tragos. O vício o aliviou. Imediatamente retirou o lacre do latão, já mais calmo. Naquela hora, ele olhou para o céu que quase dava adeus para a noite e confessou:

– Não queria ficar aqui no sereno tomando esse café amarelo. Queria tá lá, sentadinho, de boa, tomando um café preto, entendeu?

Café preto, café amarelo. Não foi preciso perguntar ao pedreiro sobre outras cores de café. Quando ia saindo com o pacote de açúcar, ele me convidou para dar uma passada na obra onde ele estava trabalhando. Disse que eu parecia ser bom de prosa.

– Vai lá, mano! De repente a gente toma um café transparente. Uma dose só...
No caminho, de volta pra casa, preparando-me para preparar de vez o café, aquele moço tingiu minha manhã de desvios, destroços, entulhos e vazio.  

O moço ficou no meu dia, em sua transparência, tomando a primeira latinha do dia e deixando espaço para o transparente, aquela dose antes do almoço, que dizem que é para abrir o apetite.  

Nunca tomei um café preto tão amargo. Talvez – ainda não se sabe – você poderá me dizer um dia desses que o único açúcar daquela manhã foi a crônica que acabou de ler.

Talvez.

...farelos por aí...

+