fios de luz

No início da tarde de ontem, alguns minutos antes da partida de futebol. Ali atrás do sol, em nuvens, efêmero como o cinza do céu. 

Ali distante do certame diário, dos burocratas, dos preços altos, ali disposto a botar fogo na caixa de falsos.

Ali entre entre a elaboração e a correção, no tráfego das obrigações. Bem ali, não, lá. Foi entre a porta do banheiro e o quartinho de ferramentas, latas de tinta, rolos, vassouras, lixas de parede e seladores.     
Foi lá longe...
Tudo aconteceu nesses cômodos – isolados – de frente para o estacionamento do colégio. Cômodos praticamente esquecidos, ignorados por mim até então, pelo menos.   

Tudo aconteceu muito rápido, mas de um jeito assim, assim assombroso. Unindo as portas, eu vi uma linha branca, quase transparente, quase invisível. Reeduquei meus gestos, caminhei bem devagar em direção ao mistério. Há quanto tempo uma linha tão frágil não dançava diante dos meus olhos? Será que só na infância eu parei para observar essas maravilhas?   

Naqueles poucos segundos, eu quis ser uma aranha. Uma aranha dessas bem discretas, uma aranha que constrói suas teias no silêncio do mundo. Uma aranha que com sua transparente música sopra luz em nossa súplica.

Como alguns sabem, já tive o desejo de ser formiga, já quis saber da ceia das borboletas; mas ontem à tarde, à noite, só fiquei imaginando como será oficina das aranhas.

É quase dia, a manhã vem chegando! Depois desse encontro, meu desejo é que você também encontre alguns fios de luz por aí.

... farelos por aí...

Crédito da pintura: Gerhard Richter 

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