papagaio de maio

                                                                                                                                     Para Gielton Lima e Lucas Eugênio

A maré não estava para nenhum tipo de peixe. Os investimentos não conseguiam encontrar as cifras do salário. O vermelho insistia em tingir mais uma vez o orçamento da família.

A família também tinha se perdido nos embalos da estação. Agora, em cacos, vez ou outra, se reuniam para tratar dos tempos daquele reino do “Era uma vez...”

Tinha tudo para não seguir o caminho da Confiança até que um dia, em uma tarde, a companheira gritou:

– ...só avisou!

Era o Matheus, o cobrador de impostos, avisando para esposa de Jonas qual seria o valor do próximo juro.

Juros. Ele jurou que não havia entendido a parte do SÓ AVISOU! Ele não quis ouvir. A vida nem sempre poupa os juros, ela é quem faz as contas. A vida lança os cálculos e a gente paga. Bem, que nem sempre isso ocorre. A gente tenta resolver esses problemas, mas nunca se chega ao mesmo resultado. Jonas aprendeu com o velho Barthô que: “viver um dia é ter menos um dia”. Nessa matemática da vida, “mais com mais dá menos”. Seria isso? Ficou ali pensando enquanto dirigia para o trabalho.

Naquela tarde, Jonas ganhou muitos dias. Foi assim de repente, de graça, de magia. Tudo se desenrolou quando uma pipa com um rabo enorme deixou o céu da quebrada para cair sobre o para-brisa do carro. 

Jonas não sabia de onde vinha. A linha havia arrebentado? A pipa tinha sido vítima do cerol de outro morador? Não sabia.

Sabia que a pipa era linda. E em todas aquelas cores ele via a infância... um moleque que ficava doido que chegasse a temporada de papagaios. O céu colorido, a correria atrás dos “mandados”, o grito da disputa e da vitória de quem mandava mais pipas. Jonas já era “corpo de delírio” nessa época, não se importando com os cortes, o talho. Seu lance era ver o céu lotado de pipas de plástico e seda, a dança das rabiolas, a liberdade das cores.

Parou o carro, colheu a pipa e trocou a expressão “Só avisou” por “suavizou”. De duas palavras, restou uma. Que na vida de outros Jonas apareça um papagaio de maio, clareando nossos instantes de dívidas e dúvidas...


...farelos por aí...


Crédito da imagem : http://www.apucarana.pr.gov.br/site/promatur-realiza-1o-festival-ventos-em-pipa/




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