Pai, um caminho novo


Aprendi a ser pai recentemente. Bem, estou aprendendo. Eis uma lição pra vida inteira. Se você ama seu pai, convido-o para ler um pouco da minha experiência. Sei que todo pai, a partir de uma dada perspectiva, poderia escrever páginas e páginas sobre a relação com seus tesouros. Nesta crônica apenas reflito um pouco sobre a missão de ser pai, como educador e escritor.  Bora lá?!

Na primeira semana que levei a minha filha mais velha para escola – na época ela estava com 05 anos – constatei que nunca teria a competência da mãe. Meu Deus, nunca seria malabarista o suficiente para tanta coisa ao mesmo tempo: acorda menina, lava rosto, escova dentes, arruma material, enquanto coloca uniforme, prepara lanche, carrega para o carro. Nossa! É muita coisa.

A partir daquela correria toda, pensei quando seria útil, quando poderia ajudar de algum modo; pois até o momento eu não era pai. Falo sério. Só trabalho e trabalho. Eu trabalhava para colocar as coisas dentro de casa. Minha filha tinha um pai, mas eu não sabia. Ela me ensinou. Com ela tenho aprendido como.

Como?

No caminho para a escola, nas livrarias, em casa, nos passeios, nas dúvidas, nos sorrisos...na vida.

– Pai, conta uma história?

– Está bem, filha. “Era uma vez...”

– Não, pai. Não quero história que começa com “era uma vez”.

– Pode ser a de Chapeuzinho Vermelho?

– Não, pai. Essa história toda mundo já conhece. Por que o senhor não inventa uma agora?

– Mas, filha, eu não sou contador de histórias. Eu apenas escrevo.

– Mas eu quero uma história. Uma história das páginas de sua cabeça.  

Naquele dia aprendi que todo pai aprende a ser contador de história e que toda criança (jovem, adulto) adora histórias. E somos heróis, vilões, anjos, figuras do além. E o percurso de ida/volta da escola passou a ser iluminado por histórias inventadas por nós. Tudo passou a fazer sentido o dia que ela disse queria ganhar de presente um camaleão.

Depois entrou em cena o Curupira que, para minha garotinha, será sempre o “Cabelinho de Fogo”. Veio também um ladrãozinho azul muito interessado em carregar a história da “Bonequinha Preta”. 

Só que com o excesso de trabalho, de cansaço, naquele trânsito caótico, às vezes, eu não conseguia me concentrar no enredo da história que criávamos. Ela ficava muito chateada. Recordo-me que num desses dias, com a cabeça cheia de abacaxis para descascar nas próximas horas, ela jogou um feixe de luz na minha tristeza.  Foi do nada. Aconteceu de modo poético.

– O senhor viu, pai?

– O quê?

– Tem uma nuvem rosa seguindo a gente!

Nesse momento parei o carro, retirei-a do banco e juntos olhamos para o céu. Depois dessa dose de alegria, umas poucas lágrimas rolaram do meu rosto. Abracei e beijei minha filha.

Naquela amanhã aprendi com ela que, independente do problema, o céu estará sempre lá, firme e que por debaixo dele passam muitas nuvens. Aprendi que as nuvens na cor rosa são as mais belas... numa manhã ao lado dos nossos filhos.

Oswald de Andrade disse que “aprendeu com o filho de dez anos/ que poesia é a descoberta das coisas que nunca viu”.  Estou aprendendo com a minha filha que o caminho novo sempre é desafio, mais uma oportunidade para se chegar mais longe.

– Pai, quero um caminho novo.

Agora, não resisto mais. Na verdade, ela quer um novo trajeto. Quer conhecer novas ruas, outros bairros; mesmo correndo o risco de chegar em casa um pouco atrasada, depois de ficar perdida com o pai (é que sou meio lerdo, não tenho GPS, perco-me facilmente). Mas é que nesse tipo de situação, aprendi com minha filha que não faz mal se perder para encontrar...encontrar um outro modo de viver.

– Chega, pai. O senhor já escreveu demais hoje. Todo mundo já entendeu.

Cecília tem razão. Hora de dizer adeus. Antes de encerrar, ressalto que pai não é aprendizado da noite para o dia (como viu, estou em processo). E sabe qual é um dos maiores presentes de que nossos filhos precisam?
PRESENÇA

Bem, e o maior presente que deles recebemos é o privilégio de

SER PAI.

Fotografia: Luiz Henrique Xavier
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