àquela hora da madrugada


Para Geraldinho, colecionador de flores.

Na última madrugada, por volta das 03h45, um senhor bateu no portão da minha casa. Bateu três vezes e nem esperou que eu perguntasse “quem era” àquela hora da noite. “Eu sou o moço da coleta”.
Era um moço. Um moço com trajes simples, muito bem agasalhado, luvas grossas, boina preta, gorro azul e uma mochila marrom, já gasta. Os sapatos muito rodados. Tive a impressão de que ele lia rapidamente as ideias e atitudes. Sempre antecipava a impressão.
– Não, meu jovem. Não precisa colocar os pés pra fora do portão.
Minha mãe, meu pai, os irmãos, todos lá pensando que eu fosse um maluco de abrir o portão àquela hora da madrugada. E se fosse um ladrão? E se fosse um biruta? E se fosse...
– Como vê, a rua está vazia. A lua está que é uma beleza! Você não acha?
***
– Não venho falar dessas coisas a essa hora. Venho recuperar seus sonhos, sua rotina, sua família, seus amigos, sua vida!
O moço retirou da mochila um caderno antigo, artesanal, capa de madeira, folhas quase amarelas. Ele abriu na página que continha meus dados no cabeçalho. Em seguida, retirou uma Bic verde do bolso esquerdo e disse:
– Meu jovem, escreva nessas páginas somente palavras do seu constante afligir.
Enquanto eu escrevia, ele virou as costas, ficando diante do céu, com os braços para trás e olhos fechados.
– Não tenha pressa.
Concentrei-me na lista que não era pequena. De repente, uma página voou. Continuei no verso. Fiquei exausto. Não tinha como ficar. Não dormia há dias. Não havia dormido nem um pouco nas horas anteriores. Fechei o caderno. Tampei a caneta e devolvi para o moço.
– Meu jovem, ainda é cedo. Aproveite a noite para descansar.
Como assim, cedo? Na verdade, durante o registro, ele atrasou o relógio do mundo. Quando voltei para dentro de casa, um susto: o cuco da sala, todo saliente, marcava 19h. Só sei que quando voltei à rua para pedir explicações, o tal moço havia desaparecido.
Agora, você deve estar se perguntando: o que escrevi no caderno àquela hora da madrugada?
Recordo-me de alguns vocábulos: greve, locaute, blecaute, nocaute, corrupção, lava-jato, crise, desabastecimento, políticos, fila, injustiça, preço, gasolina, diesel, ilegitimidade. Tinha mais, muito mais. Não lembro mais.
Eu não quero lembrar.

... farelos por aí...

Crédito da capa: Pintura de Wilhelm Sasnal, neoexpressionista polonês
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