Baú de Bandeira



            O presente poeta, escolhido para leitura é dono de uma vasta obra. A palavra vasta foi aqui empregada não só no sentido quantitativo, mas, sobretudo, no que se refere à rica contribuição deixada a nossa cultura.
            Aos 18 anos, o poeta obteve um terrível diagnóstico: tuberculose. Era o ano de 1904 e não havia cura para a doença. O então estudante de arquitetura viu-se forçado a abandonar a prancheta e a recolher-se à cama, sob o olhar amoroso e vigilante de sua irmã e enfermeira, Maria Cândida. Nas palavras do autor temos:

Continuei esperando a morte para qualquer momento, vivendo sempre como que provisoriamente. Nos primeiros anos da doença me amargurava muito a idéia de morrer sem ter feito nada: depois a forçosa ociosidade. Se publiquei em 1917 A Cinza das Horas, foi para, de certo modo, iludir o meu sentimento de vazia inutilidade.


            Graças à ironia do destino, o nosso poeta estava equivocado. Imagina-se que viver esperando “a indesejada das gentes” não seja lá algo tão agradável. Felizmente, Manuel Bandeira conseguiu transformar a sua biografia em obra, sua vida em arte. O seu primeiro grande ato foi, de certa forma, prolongar os dias aqui na terra produzindo versos que mudaram os rumos da nossa literatura. Quanto aos outros traços que confirmam a genialidade de Bandeira, o leitor só descobrirá ao longo deste breve estudo.
            Após a publicação do primeiro livro, A Cinza das Horas, Manuel Bandeira prosseguiu com a escrita de vários livros até a sua morte, em 1968. Parte dessa extensa produção é a antologia Melhores Poemas, poemas selecionados por Francisco de Assis Barbosa, a convite da Global Editora.
            O que posso adiantar é que estamos diante de uma obra marcada por uma “angustiante busca pelo significado das coisas, pela reflexão da poesia em si e pela falta de limites para o lirismo”. Vamos abrir o Baú de Bandeira e nele procurar a delícia de poder sentir as coisas mais simples!


BANDEIRA: O SÃO JOÃO BATISTA DO MODERNISMO

          “A obra de Manuel Bandeira engloba criações que vão de um pós-Parnasianismo e um Pós-Simbolismo às experiências concretistas das décadas de 1950 e 1960”. Tendo em vista essas considerações de William Roberto Cereja, torna-se difícil enquadrar o poeta em apenas um estilo, uma vez que o mesmo tenha atravessado as mais significativas escolas literárias. E como resultado dessa travessia o leitor tem, por exemplo, o mestre do verso livre no Brasil.

A REALIDADE E IMAGEM

O arranha-céu sobe no ar puro pela chuva
E desce refletido na poça de lama do pátio.
Entre a realidade e a imagem, no chão seco que as separa,
Quatro pombas passeiam

NEOLOGISMO

Beijo pouco, falo menos ainda.
Mas invento palavras
Que traduzem a ternura mais funda
E mais cotidiana.
Inventei, por exemplo, o verbo teadorar.
Intransitivo:
Teadoro, Teodora. (p.89)
                                       
            Os dois poemas, que além de apresentarem versos que não obedecem a nenhuma métrica, ilustram o estilo “batizado” por Manuel Bandeira no país: o Modernismo.
            No ano de 1922, morando no Rio, o poeta estava distante do grupo paulista que centralizava os ataques à cultura oficial e propunha mudanças. Mesmo tendo conhecido, um ano antes, Mário de Andrade, um dos maiores expoentes dessa escola, Bandeira preferiu “ficar na miúda”, ausentando-se da Semana de Arte Moderna. Essa falta foi compensada com o envio do famoso poema Os sapos, que, lido por Ronald de Carvalho, tumultuou o Teatro Municipal.
            O texto possui o ritmo do coaxar dos tais anfíbios e critica os parnasianos, poetas extremamente formais. A plateia não gostou nada de ver esses elegantes poetas serem comparados a sapos e terem suas técnicas devidamente insultadas no poema, de modo que acompanharam a leitura coaxando, uivando, miando, enfim, foi uma confusão. Segundo os historiadores da literatura, houve um momento que um indivíduo mais exaltado do teatro começou a ganir muito alto. Quando Ronald terminou de declamar, disse: — “Senhores, há um cão na platéia, e ele não está do nosso lado!”  
 
OS SAPOS

(...)
O sapo-tanoeiro,
Parnasiano aguado,
Diz: - “Meu cancioneiro
É bem martelado.

Vede como primo
Em comer os hiatos!
Que arte! E nunca rimo
Os termos cognatos.
(...)

Clame a saparia
Em críticas céticas:
Não há mais poesia,
Mas há artes poéticas ...”

Urra o sapo-boi:
— “Meu pai foi rei!” — “Foi...”
— “Não foi!” —“Foi!” —  “Não foi!”

Brada em um assomo
O sapo-tanoeiro:
— A grande arte é como
Lavor de joalheiro.
(...) p.40-42

            Nessa mesma linha polêmica, encontra-se o texto “Poética” (p.52), em que a voz poética banderiana rejeita o lirismo dos românticos por excesso de sentimentalismo, e o dos parnasianos pelo excesso de artificialidade: “— Não quero mais saber do lirismo que não é libertação.” Esses poemas se tornaram uma espécie de profissão de fé do movimento modernista. Aí sim, é possível a compreensão do título desse tópico. Em virtude do notável diálogo entre produção artística e contexto histórico, Mário de Andrade denominou  Manuel Bandeira de o “São João Batista do Modernismo brasileiro”.


BAÚ ABERTO

Na antologia Melhores Poemas são apresentados os temas mais comuns da produção de Manuel Bandeira, marcada pela experiência da doença e do afastamento advindo dela, são, entre outros: o cotidiano, a paixão pela vida, a morte, a solidão, a angústia existencial e a infância, tema que o torna um dos mais expressivos poetas da história da literatura.





Detalhes:
6º Título: Melhores Poemas 
Autor : Manuel Bandeira
Editora: Global


1. Uma luz sobre o cotidiano

No Pão de Açúcar
De Cada dia
Dai-nos senhor
A Poesia
De cada dia

Oswald de Andrade

          Os versos transcritos desta epígrafe cujo autor completa a tríade maior da primeira fase do Modernismo –  Mário de Andrade, Manuel Bandeira e Oswald de Andrade – enaltecem o cotidiano, temática muito explorada na poesia banderiana.
            Tanto neste tema quanto nos outros listados acima, o leitor vai se deparar com a simplicidade com que o poeta escreveu seus textos.

POEMA DO BECO

Que importa a paisagem, a Glória, a baía, a linha do horizonte?
— O que eu vejo é o beco.
(p. 63)

O BICHO

Vi ontem um bicho
Na imundície do pátio
Catando comida entre os detritos.

Quando achava alguma coisa,
Não examinava nem cheirava:
Engolia com voracidade.

O bicho não era um cão,
Não era um gato,
Não era um rato.

O bicho, meu Deus, era um homem. (p. 90)

               Poema do Beco é um bom exemplo de texto da primeira geração modernista, isso em virtude da economia das linhas, o emprego do verso livre e é o que chamo de poema-cena
            Nesta mesma esteira, temos O Bicho, que consiste na imagem (cena) do eu lírico diante de um bicho “catando comida entre os detritos”. Além da simplicidade no tratamento dado à fome, percebe-se um olhar transfigurador do poeta, que choca o leitor com o seu “fazer poético”. Nesses versos, o eu lírico transita do campo denotativo para o conotativo, apresentando o último verso em tom de assombro: “O bicho, meu Deus, era um homem.”
            Ainda com base nesse olhar transfigurador do poeta, vamos encontrar um eu lírico solitário. Seria mesmo solidão? Acho que não, Bandeira estava muito bem acompanhado. Afinal, ele foi iluminado pela Estrela da vida inteira:

A ESTRELA

Vi uma estrela tão alta,
Vi uma estrela tão fria!
Vi uma estrela luzindo
Na minha vida vazia.

Era uma estrela tão alta!
Era uma estrela tão fria!
Era uma estrela sozinha
Luzindo no fim do dia.

Por que da sua distância
Para a minha companhia
Não baixava aquela estrela?
Por que tão alta luzia?

E ouvi-a na sombra funda
Responder que assim fazia
Para dar uma esperança
Mais triste ao fim do meu dia
. (p. 75)

            Não satisfeito com o diálogo entre o eu poético e a estrela, o leitor pode-se deleitar com mais um poema-cena em que a protagonista da vez, se é que assim podemos chamá-la, é a Lua. Esta que recebe um tratamento natural, bastante diferente daquele oferecido pelos poetas das escolas anteriores, e vem com uma leve dose de lirismo.

SATÉLITE

Fim de tarde.
No céu plúmbeo
A Lua baça
Paira
Muito cosmograficamente
Satélite.

Desmetaforizada,
Desmitificada,
Despojada do velho segredo de melancolia,
Não é agora o golfão de cismas,
O astro dos loucos e dos enamorados.
Mas tão-somente
Satélite.

Ah Lua deste fim de tarde,
Demissionária de atribuições românticas,
Sem show para as disponibilidades sentimentais!
Fatigado de mais-valia,
Gosto de ti assim:
Coisa em si,
- Satélite. (p.101)
             
           



2. Infância: criação e fantasia

          Eis uma peça muito valiosa no Baú: os poemas que se relacionam à infância de Bandeira. Mirrado, entre a doença e a solidão, o poeta criou, por meio da memória, uma espécie de paraíso perdido, a sua mitologia, que vai servir como uma válvula de escape para as agruras da vida.

            Dos seis aos dez anos, nesses quatro anos de residência no Recife [...] construiu-se a minha mitologia, e digo mitologia porque os seus tipos, um Totônio Rodrigues, uma D. Aninha Viegas, a preta Tomásia, velha cozinheira da casa de meu avô Costa Ribeiro, têm para mim a mesma consistência heróica das personagens e dos poemas homéricos. [...] Quando comparo esses quatro personagens de minha meninice a quaisquer outros anos da minha vida de adulto, fico espantado do vazio destes últimos em cotejo com a densidade daquela quadra distante.
                                                                
           
            Este comentário de Bandeira, em Itinerário de Pasárgada, vai se confirmar com o poema “Evocação do Recife”(p.54), versos que fazem uma descrição da cidade natal do autor no fim do século XIX.  É curiosa a forma como o eu lírico tece essas recordações, “chamamentos”. Na primeira estrofe, para apresentar a cidade, ele nega todos os adjetivos que já lhe foram atribuídos.

Recife
Não a Veneza americana
Não a Mauritsstad dos armadores das Índias Ocidentais
Não o Recife dos Mascates
Nem mesmo o Recife que aprendi a amar depois
— Recife das revoluções libertárias
Mas o Recife sem história nem literatura
Recife sem mais nada
Recife da minha infância
           
            Nesse mundo fantástico, o autor vai incorporar as brincadeiras da cultura popular, como Coelho sai da toca e Chicote-queimado. E como personagens desse reino, o leitor vai encontrar alguns personagens da “mitologia bandeiriana”:

Uma pessoa grande dizia:
Fogo em Santo Antônio!
Outra contrariava: São José!
Totônio Rodrigues achava sempre que era São José.
Os homens punham o chapéu saíam fumando
E eu tinha raiva de ser menino porque não podia ir ver o fogo

            Ao ajustar um pouquinho a lente, o leitor terá em “Evocação do Recife” diversas técnicas que firmam o poeta nas terras da linguagem modernista.  É o caso da linha a seguir, em que há uma enumeração caótica, num único verso, dos vários objetos arrastados pela água, que imita formalmente o caos promovido pelas cheias, que arrastam tudo de uma só vez:
Cheia! As cheias! Barro boi morto árvores destroços redemoinho sumiu

Já quase no final da composição, mais uma estrofe que valoriza a espontaneidade da língua falada, proposta pelos modernistas. Trata-se de um ponto de vista que marca a evolução no tratamento dado à questão da língua.


Língua certa do povo
Porque ele é que fala gostoso o português do Brasil
Ao passo que nós
O que fazemos
É macaquear
A sintaxe lusíada

Recife...
       Rua da União...
               A casa de meu avô...
Nunca pensei que ela acabasse!
Tudo lá parecia impregnado de eternidade
Recife...
       Meu avô morto.
Recife morto, Recife bom, Recife brasileiro
como a casa de meu avô.

            Nos últimos versos do poema, percebe-se certa tristeza do eu lírico em relação ao Recife da sua infância, pois com a morte do seu avô – um dos personagens centrais da mitologia da infância – ocorre também a morte da cidade que vivia na memória do poeta.
            Há um outro poema-cena muito importante que não poderia ficar de fora dessa temática, “Porquinho-da-índia”:
Quando eu tinha seis anos
Ganhei um porquinho-da-índia.
Que dor de coração me dava
Porque o bichinho só queria estar debaixo do fogão!
Levava ele prá sala
Pra os lugares mais bonitos mais limpinhos
Ele não gostava:
Queria era estar debaixo do fogão.
Não fazia caso nenhum das minhas ternurinhas . . .

— O meu porquinho-da-índia foi minha primeira namorada. (p.53)


               A pesquisadora Clenir Bellezi de Oliveira, no ensaio “Moderno, lírico, genial”, assinala que

a simplicidade dos textos escritos por Bandeira não deve em nenhuma hipótese ser confundida com coisa rasa. Chegar a esse grau de depuração exige muita competência literária. Em “Porquinho-da-índia” temos um poemeto narrativo, onde o enunciador conta um episódio da infância que parece corriqueiro, mas que lhe deixou uma matriz emocional profunda. As coisas, os brinquedos e, claro, os bichos. O fascínio do menino pelo porquinho-da-índia devia aterrorizar o pobre animal. A diligência em querer agradá-lo, levando-o aos lugares que, aos seus olhos de criança, seriam os “mais bonitos, mais limpinhos”, certamente incomodava o bichinho de natureza arredia. Ele queria mesmo era “estar debaixo do fogão”, lugar quente que o mantinha longe das mãozinhas amorosas do dono. Daí a sentença do enunciador: “ – O meu porquinho-da-índia foi minha primeira namorada”. Isso é verdade: na medida que involuntariamente o porquinho-da-índia recusa as “ternurinhas” do menino. Ele o seduz, para depois o abandonar. E, como sabemos, quanto mais o objeto do desejo negaceia, mais se intensifica o desejo. Tem-se aí a primeira lição de amor apreendida pelo enunciador.  (p.24-25)



2.1Lá a existência é uma aventura”

            Isso mesmo. O título do tópico é um verso dos mais conhecidos poemas de Manuel Bandeira, Vou-me embora pra Pasárgada, (p. 58). Vale lembrar que esse texto foi musicado por Gilberto Gil em 1986. Cereja assinala que Pasárgada é o mundo da liberdade, do permitido, da realização plena dos desejos, trata-se de lugar fictício inventado para dar vazão aos sonhos e às fantasias do poeta cuja realização foi cruelmente negada pela vida. Esse mundo imaginário ganha vida na explicação do seu criador:

               “Vou-me embora pra Pasárgada” foi o poema de mais longa gestação em toda minha obra. Vi pela primeira vez esse nome de Pasárgada quando tinha os meus dezesseis anos e foi num autor grego. [...] Esse nome de Pasárgada, que significa “campo dos persas”, suscitou na minha imaginação uma paisagem fabulosa, um país de delícias [...] Mais de vinte anos depois, quando eu morava só na minha casa da Rua do Curvelo, num momento de findo desânimo, da mais aguda sensação de tudo o que eu não tinha feito na minha vida por motivo da doença, saltou-me de súbito do subconsciente esse grito estapafúrdio: “Vou-me embora pra Pasárgada!” Senti na redondilha a primeira célula de um poema, e tentei realizá-lo, mas fracassei. [...] Alguns anos depois, em idênticas circunstâncias de desalento e tédio, me ocorreu os mesmo desabafo de evasão da “vida besta”. Desta vez o poema saiu sem esforço, como se já estivesse pronto dentro de mim.

            A criação desse outro mundo pode ser lida como o desejo do eu lírico de fugir da realidade concreta e experimentar outro tipo de realidade, idealizada, “Vou-me embora pra Pasárgada/ Aqui eu não sou feliz”. Lá, onde a existência é uma aventura, ele possui como vantagem estar acima de todas as leis, “Em Pasárgada tem tudo/ É outra civilização/Tem um processo seguro/ De impedir a concepção”; não há proibições, regras de lógica e de moral.

- Lá sou amigo do rei -
Terei a mulher que eu quero
Na cama que escolherei
Vou-me embora pra Pasárgada


3. “Meu verso é sangue”

          A esta altura de nossa busca, das páginas (re)viradas do admirável Baú, do olhar transfigurador do poeta para o cotidiano, das brincadeiras na infância, resta-nos dizer que o grande tema em Manuel Bandeira é o da morte: a Indesejada das gentes, o fim de todos os milagres — como registrou o autor.
            A maneira como o escritor tratou esse aspecto muito nos impressiona. Bandeira deixou aos leitores a cena de um jogo, talvez a imagem de uma excepcional luta, em que ele driblou o adversário, escrevendo os mais enaltecedores versos. Dessa luta temos a mais clássica poesia da primeira fase do Modernismo.
            No intuito de deixar mais claro esse tema, é interessante fazer uma leitura atenta do poema “Desencanto”, texto que abre o livro Meus poemas preferidos e curiosamente a coletânea “Melhores Poemas”, da editora Global:

Eu faço versos como quem chora
De desalento... de desencanto...
Fecha o meu livro, se por agora
Não tens motivo nenhum de pranto.
Meu verso é sangue. Volúpia ardente...
Tristeza esparsa... remorso vão...
Dói-me nas veias. Amargo e quente,
Cai, gota a gota, do coração.

E nestes versos de angústia rouca
Assim dos lábios a vida corre,
Deixando um acre sabor na boca.

– Eu faço versos como quem morre. (p. 35)

            A professora Ivete Walty apresenta no livro “Textos sobre textos” uma importante leitura desse poema no que diz respeito à metalinguagem:

       O poeta, no ato mesmo de fazer o poema, expõe seu conceito de poesia, explicitando sua função catártica, ou seja, aquela de vazão dos sentimentos, de alívio mesmo de sofrimentos. Fundem-se, em seus versos, a ideia de poema e vida e, paradoxalmente, a de representação da morte. Registre-se que, no caso desse texto, o poeta não se distingue do eu lírico, pois ele se declara o autor.
               Assim, esse eu lírico/autor busca no poema transcrito a adesão do leitor visando a compreensão do código, aqui visto no sentido mais específico de concepção do poema. É como se o poeta quisesse fazer um pacto com seu leitor, dando-lhe uma chave do que entende por poesia naquele momento. (p.16-17)
           
A vida é um milagre.
Cada flor,
com sua forma, sua cor, seu aroma,
cada flor é um milagre.
Cada pássaro,
com sua plumagem, seu vôo, seu canto,
cada pássaro é um milagre.
O espaço, infinito,
o espaço é um milagre.
O tempo, infinito,
o tempo é um milagre.
A memória é um milagre.
A consciência é um milagre.
Tudo é milagre.
Tudo, menos a morte.
— Bendita a morte, que é o fim de todos os milagres. (p.105)
           
No momento em que referi à imagem da luta, tinha em mente o poema acima, “Preparação para a Morte”, nele, o poeta, como afirma Clenir Bellezi de Oliveira, não deixava nada escapar e de tudo arrancava um lirismo comovedor sem jamais cair na pieguice. “A morte parece ter lhe dilatado o olhar para o permanente milagre da vida”.
            Companheiros de viagem, confesso que depois de mexer nesses escritos, ajustar as lentes para algumas cenas da vida de Manuel Bandeira, vou ter que deixar o Baú, pois outras obras aguardam uma visita. Mas, por favor, deixe o Baú aberto para que o maior número de leitores possa conhecer a vida e a obra desse inestimável escritor. E a forma que encontrei para registrar a despedida foi deixando mais um poema para as ininterruptas descobertas no Baú de Bandeira.

                                                      
TESTAMENTO

O que não tenho e desejo
É que melhor me enriquece.
Tive uns dinheiros – perdi-os...
Tive amores – esqueci-os.
Mas no maior desespero
Rezei: ganhei essa prece.

Vi terras da minha terra.
Pro outras terras andei.
Mas o que ficou marcado
No meu olhar fatigado,
Foram terras que inventei.

Gosto muito de crianças:
Não tive um filho de meu.
Um filho!... Não foi de jeito...
Mas trago dentro do peito
Meu filho que não nasceu.

Criou-me, desde eu menino,
Para arquiteto meu pai.
Foi-se-me um dia a saúde...
Fiz-me arquiteto? Não pude!
Sou poeta menor, perdoai!

Não faço versos de guerra.
Não faço porque não sei.
Mas num torpedo - suicida
Darei de bom grado a vida
Na luta em que não lutei!


REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS


BANDEIRA, Manuel. Meus poemas preferidos. Rio de Janeiro: Ediouro, 2005.
BANDEIRA, Manuel. Melhores Poemas. Manuel Bandeira. 16ª ed. São Paulo: Global, 2004.
CEREJA, William Roberto. Português: linguagens: volume III. 4.ed. ver. E ampl. – São Paulo: Atual, 2004.
OLIVEIRA, Clenir Bellezi de. Moderno, lírico, genial. In: Discutindo Literatura. Ano 2 . nº 7.
POMPEU, Renato. A magia de Pasárgada. In: Revista Bravo. Jan. 2007. Ano 10. nº 113.
WALTY, Ivete L. e CURY, Maria Zilda. Textos sobre textos: um estudo da metalinguagem. Belo
Horizonte: Dimensão, 1998.p.16-17.


Sites:







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