6. Entrevista com Anderson de Oliveira

Anderson de Oliveira, poeta e escritor. 
Olá, olá, queridos leitores! É com alegria e satisfação que vamos entrevistar o primeiro escritor da série “Conversas sobre leitura”. Refiro-me ao poeta Anderson de Oliveira. Vocês vão se encantar com esse dedo de prosa. Bora lá? 
CSL: Como e quando você descobriu o universo da leitura?

A leitura sempre me foi algo caro, no sentido de muito precioso. Na minha casa, havia um dicionário que era publicado pelo MEC, um outro dicionário bastante antigo, três romances já amarelados pelo tempo e um exemplar do “Meu pé de laranja lima”, de José Mauro de Vasconcelos, que era tratado como joia, posto na cristaleira, protegido pelo vidro e pela madeira. Minha mãe sabia muitas histórias de cabeça. Eu era magro feito uma folha de palmeira e brincavam comigo dizendo-me que o vento me carregaria. Somente comia se ouvisse uma história. E elas me alimentaram. Eu imaginava o desenrolar dessas muitas histórias, até que, ao ser introduzido no universo da escola, vim a conhecer outros livros e descobri neles o registro do que ouvia minha mãe contar. Em casa, eu lia os dicionários e fui conhecendo palavras. Na escola, os livros passaram a ser o incentivo ao próprio estudo. Eu cheirava os livros, tocava suas folhas, deliciava-me com as ilustrações. Para mim, havia livros, histórias. Muito mais tarde, ouvi dizer que havia autores, pessoas distantes, que as escreviam. 

CSL: Gostaria que nos contasse de um livro, uma história que marcou seu primeiro contato com as obras literárias.

O livro, entendido aqui como objeto (capa, texto, ilustrações), me atraía mais que o conteúdo a ser lido. Livro novo, com o cheiro de saído da gráfica, era uma experiência sensorial inigualável, dadas as circunstâncias em que o meu contato era com material já lido e relido.
Gostava de imaginar o que lia, voado no meu mundo, no silêncio.  O diário de Abner”, de Graziella Lydia Monteiro, me marcou bastante. Remontava uma história real, próxima ao meu cotidiano, com a qual me identifiquei e despertou em mim o prenúncio de uma visão crítica das relações sociais. Algo nele tirou de mim a inocência da ludicidade do entretenimento fortuito das palavras, pois o livro foi capaz de me emocionar e dicotomizar meus pensamentos.  Descobri, de uma forma aprazível e assustadora, que os livros tinham poderes, inclusive o de nos despir.

CSL: Por falar em contato com os livros, é verdade que você já trabalhou em uma livraria em belo Horizonte?

O meu primeiro emprego foi na Livraria Van Damme, que funcionava àquela época no Edifício Malleta. A mim competia cuidar da organização das estantes, buscar livros nas editoras e distribuidoras, atender ao público e cuidar dos livros, retirando deles a poeira e dispondo-os nas prateleiras com a lombada voltada para a mesma direção, a fim de que os consumidores não necessitassem ficar deslocando o pescoço em variadas posições, para lerem os títulos. Com isso, de uma certa maneira, eu passei a conhecer uma variedade imensa de obras produzidas no Brasil e no exterior.
"Livros em todo lugar" aos livros do Anderson de Oliveira
CSL: Da leitura para a escrita, de leitor para escritor, foi um processo lento? Quando você se descobriu escritor?

Aos dez anos, eu gostava de escrever pequenos poemas. Guardava-os escondido. Na escola acabaram encontrando alguns poemas no meu caderno. Mostraram-nos para os outros colegas de classe. A professora também viu. Começaram a dizer que eu era poeta. Pediam versos. Eu não deveria ter levado tão a sério. A partir daquele dia, estudei cada vez menos e, isolando-me preservado, escrevia como um moinho movimentado pela água da correnteza.
O caminho foi longo e exaustivo entre a escrita e o livro. E ainda estou nessa descoberta.

  
CSL: Um de seus textos publicados teve a quarta capa assinada pelo escritor Bartolomeu Campos de Queirós. Você se considera um discípulo do Bartolomeu?

O livro “Pá & Pedra”, foi o vencedor do Prêmio João de Barro da Prefeitura de Belo Horizonte, em 2000. Foi publicado pela Editora Lê, em 2008, tendo a quarta capa honrosamente assinada pelo sr. Bartolomeu Campos de Queirós. O manuscrito chegou às mãos do sr. Bartolomeu, e ele me contactou, desejando publicar o texto, pois era também editor. Foram cinco anos de encontros e tentativas de lançar o livro, que já possuía, inclusive, as ilustrações concluídas. Porém, tivemos de cancelar o contrato, em função do mercado que não se apresentava favorável. O livro foi lançado pela Editora Lê, ilustrado pela Ana Raquel, com a quarta capa elaborada pelo sr. Bartolomeu. Não poderia ter sido melhor! Quanto a ser discípulo do sr. Bartolomeu, é inegável a qualidade esmerada de sua obra, a qual eu já conhecia e a discutia em um grupo de estudos na UFMG, junto à Profª Doutora Ana Maria Clark Peres, que tanto nos ensinou e concorreu para o aprimoramento da nossa percepção sobre a produção de literatura infantojuvenil no Brasil. Destaco que o livro “Ciganos” é um dos melhores livros que já li em minha vida, que exerceu intensa influência na minha percepção poética. Influências muitas, do sr. Bartolomeu e de muitos outros seletos autores. Discípulo mesmo, só do meu pai!



CSL: Ainda sobre Bartolomeu Campos de Queirós, uma curiosidade: você chegou a conviver com o escritor? Como foi essa experiência?

Inicialmente, eu corava só de pensar em ficar diretamente em contato com o sr. Bartolomeu, embora já tivéssemos nos encontrado em palestras, escolas e bibliotecas. Eu sempre o tratei por senhor, mesmo diante da nossa proximidade. Ele amava o que fazia, foi um homem extremamente generoso, cativante, inteligente e perspicaz, consciente de sua genialidade, acessível, afeito aos amigos. O sr. Bartolomeu não se furtou a levar o seu trabalho a escolas públicas e particulares, a vilarejos, a grandes metrópoles,  congressos internacionais, a feiras de livros, bienais, enfim, não poupou esforços em contribuir para a ampliação e difusão do livro, das leituras, da análise crítica, da estética,  da ética. Poucas vezes falamos sobre literatura. Éramos tímidos para esses assuntos. Falávamos sobre Papagaios (sua cidade natal), crianças, política, sorvete (de que ele tanto gostava), nossos amigos em comum, o mercado editorial, as oportunidades da vida, o tempo que se esvaía. E muitas vezes rimos, ficamos sérios, calados para pensar. Era sempre muito bom estarmos bem perto. Sinto muitas saudades dele. Visitei o seu jazigo, quando estive no Cemitério Parque da Colina. Tudo simples, como foi a sua vida. Que falta ele faz!

CSL: Encerrando nossa conversa, aproveito para lhe agradecer por ter aceitado o convite. E gostaria que você indicasse aos seguidores dessa série pelo menos três livros. Pode ser?

Deixe-me indicar não três, mas trezentos? Eu indicaria livrarias, bibliotecas, sebos, feiras de livros, salas de aulas com livros dispostos ao acesso dos estudantes. Eu indicaria presentes de aniversário, de comemorações constantes no calendário, eu indicaria livros. Eu indicaria livros às crianças, aos jovens, aos adultos, aos que nos olham sábios e pacientes do alto de seus anos, aos que não têm fim. Eu indicaria livros aos presos, aos governantes, aos acamados, aos apaixonados, aos solitários, aos que viajam, aos que chegaram por agora, aos que buscam um sentido, aos que não encontraram ainda o caminho. Indico livros. Quanto aos títulos a serem indicados, bem, não caberiam nessa entrevista!

 Obrigado, Alfredo Lima, poeta, escritor e potencializador cultural, agitando o frasco que contém a essência dos nossos encantamentos literários. Viva a proesia!




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