5. A importância do leitor-livreiro



Olá! O post desta semana é dedicado ao leitor-livreiro. Você conhece ou conheceu algum? Desculpe-me o modo estranho como iniciei nossa conversa. Dependendo da idade, você também ficará um pouco espantado com o fato de que muitos adolescentes e jovens nunca entraram em uma livraria física.
Espanto II. Muitas das livrarias físicas da Região Metropolitana de Belo Horizonte fecharam suas portas nos últimos anos. As livrarias físicas estão concentradas nos Shoppings. Sabemos que vários fatores levaram a esse lamentável quadro. Não é o caso de discorrer sobre as causas desse triste episódio, no momento. O que sabemos é que: quando uma livraria é fechada, todos nós perdemos muito.
Diante desses espantos, outra verdade nos assusta no Brasil: muita gente não conheceu, nem conhecerá a figura do livreiro que, em sua essência, sempre estará além de um vendedor de livros.
O livreiro é um sábio que nos guia, um profissional que ilumina nossos passos no labirinto das publicações. Alguém por dentro de todas as novidades. O livreiro é sim uma rica mistura de professor e mágico. Em seu discurso e atitudes, a literatura se torna ainda mais sedutora.
Isso porque, antes de tudo, o livreiro é um leitor, a representação de muitos personagens, a tessitura de vários enredos em uma única pessoa. É uma enciclopédia humana, uma cartografia das sensações. Vou lhe revelar um segredo: sempre sonhei em ser um livreiro. Atrás desse segredo, conto-lhe de três livreiros que marcaram minha vida. 
Na adolescência, assim que comecei a trabalhar na rua como carregador de gelo e bebidas, entrei por acaso, uma vez, na antiga Livraria Van Damme (fechada em 2016), localizada na Rua Guajajaras, 505. Não tenho vergonha de dizer que eu não tinha dinheiro para comprar borracha escolar naquela tarde. Por outro lado, não há dinheiro no mundo que pague aquela experiência.
Fui muito bem recebido pelo próprio senhor Van Damme. Ele falou de suas preferências, mostrou-me a lista de títulos que havia lido e indicava para seus clientes. Sim, ele é um leitor voraz. Deixou que eu abrisse dezenas e dezenas de livros. Conversamos por horas. Saí com aquela sensação: “esse homem não é deste mundo”. A vontade era passar lá todas as tardes para namorar os títulos e, claro, trocar umas ideias com aquele senhor.
O segundo encantamento foi na PUC do Coração Eucarístico. Que estudante de Letras da minha época não conheceu o profissionalismo da William Livros? Conhecido de todos os professores, todo livro que a gente pedia, o William e seus funcionários providenciavam. Podíamos confiar. Sem sombra de dúvida, 90% da minha biblioteca de livros teóricos, ao longo da graduação, comprei lá.
E o terceiro livreiro, mais recentemente em minha trajetória, foi o parceiro Álvaro Gentil. Recordo-me da nossa primeira conversa na livraria Asa de Papel, Rua Piauí, 631. Entre uma xícara de café e outra, observava como o Álvaro falava ao telefone, anotava os pedidos dos seus clientes; ou quando alguém entrava na loja e ele dava toda atenção do mundo. Tudo com carinho e dedicação. Impossível não se encantar com profissionais assim.
Álvaro Gentil foi o primeiro livreiro que encontrei, em toda minha vida, que é um ávido leitor das narrativas curtas e do gênero poema. Para quem não sabe, o meu primeiro livro de contos, “A terceira porta da lua”, saiu pela editora Asa de Papel, com a produção editorial do Álvaro Gentil.
Com os livreiros, criamos laços para a vida inteira.
            Boa leitura!


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