O Guarda-Chuva

Atravessamos
no mesmo ritmo
a avenida larga
meu guarda-chuva
e eu
se nos vissem de cima
poderiam pensar
que ele se move sozinho
círculo negro
entre outros círculos
negros, mas também um vermelho
e um xadrez de vermelho
e mesmo um exemplar irônico
estampado de céu azul com nuvens
e vistos de outro ângulo
passaríamos por uma espécie boa
de centauro
um daqueles tipos cujas partes
se ajustam razoavelmente bem
chove, andamos no mesmo passo
parecemos de acordo sobre para que lado ir
ele me presta um serviço não desprezível
dando-me a ilusão de que a natureza
é não muito mais do que um ligeiro incômodo
no meu caminho entre a casa e o trabalho
de que as forças elementares
são perfeitamente administráveis
de que conhecemos
a língua desconhecida da água
como se tivéssemos
tempo para isso
e a ele também talvez não seja desagradável
que eu o leve por aí a passeio
com suas hastes abertas
o que deve ser uma espécie de alegria
vamos relativamente bem
até que eu o esqueço num café

Livro: Da Arte das Armadilhas
Poetisa: Ana Martins Marques

Crédito da imagem: http://piaui.folha.uol.com.br/materia/por-ai-a-passeio/
A campanha #versotododia é uma realização do projeto:



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