Tapete de Silêncio

Menalton Braff: um dos gigantes da Literatura Contemporânea 
Nas últimas semanas tive o privilégio de viajar para uma cidade de qualquer interior do Brasil ou até do Mundo. Uma “cidade ordeira” cuja principal lei é o escarmento. Um lugar onde “os segredos são mais rápidos que as outras notícias”.  

Ficou interessado em saber que cidade é essa? Viajei para Pouso do Sossego.  E o bilhete de viagem foi o romance Tapete de Silêncio, de Menalton Braff. Dele li no ano passado À sombra do cipreste, livro de contos que lhe rendeu o Prêmio Jabuti, em 2000.  

Naqueles contos, encantei-me (e você também poderá viver o mesmo) com o modo pictórico que escritor constrói suas cenas, sugere - via metáforas e símbolos - as fraquezas da natureza humana. Como é rítmica sua prosa!

Recordo-me que a leitura em voz alta de algumas dessas narrativas me levou ora para as divagações do poeta Cruz e Souza, ora aos jardins de Monet e, não vou mentir: há ali um conjunto de inquietações do “poeta maldito” (Augusto dos Anjos). Morte: Eis a sensação de que um verme “anda a espreitar meus olhos para roê-los, / E há-de deixar-me apenas os cabelos, / Na frialdade inorgânica da Terra!” Das muitas psicologias sugeridas por Menalton Braff, a dos Vencidos me pareceu a verdade azul naqueles contos.  

De volta ao romance “Tapete do Silêncio”, além da arquitetura geral do romance, uma estratégia narrativa que chamou muita atenção foi aspecto da polifonia. Sinfonia muito bem orquestrada pelo mestre Braff.
A saber, o romance conta com dois planos narrativos. O primeiro tem a duração de uma noite e é narrado por Osório, cujo olhar conduz o leitor por essa longa e trágica noite. O segundo plano, intitulado Coro, é um narrador em terceira pessoa que retoma episódios do passado. Ao longo do enredo, passado e presente se dialogam, nas sombras silenciosas da cidade Pouso do Sossego.

“Tapete do Silêncio” revela, desnuda a hipocrisia e a intolerância associadas ao poder. Quem veio de uma cidade interiorana, assim como quem vos escreve, muito se identifica com as tramas ardilosas daqueles que estão acima da política, da polícia local, da igreja, acima de tudo e de todos – corruptos, porém ordeiros. Todas essas instâncias, no livro, estão corporificadas na figura do doutor Madeira. 

Quem estaria disposto a contrariá-lo? Macular sua família? Você não faz ideia de quem, no meio de tantas ordens e desordens, vai brincar com fogo. Não. Eu também não vou lhe contar. Para deixá-lo(a) com mais vontade, indicarei somente a sinopse da quarta capa:

“Entre cochichos, risos abafados e pigarros, sob uma chuva insistente, dez homens aguardam a meia-noite reunidos no coreto da praça da matriz de Pouso do Sossego. São homens zelosos da tradição de sua terra, que deve ser mantida com a paz dos cemitérios”.  
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