Ideia de vento

Para Roseana Murray
Acordei farto de noites com uma ideia de vento.
Salto!
Solto!
E se o tempo fosse um lençol? Que fio sustentaria esse longo tecido?
Penso que não importa se de arame, náilon ou de aço. Não importa de que material será feito o varal para sustentar o lençol-tempo.
O lençol tinge o embalo do tempo. Não precisa esperar para ver. Veja-o no círculo dos antepassados! Lá antes de o tempo ser marcado, o lençol já dava o ar de sua graça.
Não. O lençol, nesse sonho, não é melhor que o tempo. O lençol é o tempo.
Há o tempo do enxoval de casamento ou do nascimento do bebê. Há um tempo cobrindo cama, outro o beliche dos irmãos. Há um tempo especial no quarto da vovó. Há um tempo sobre o colchão estirado na terra. Tem casa que não tem cama, nem colchão, mas tempo tem sim, senhor.
João Cabral de Melo Neto soprou que no Nordeste o tempo é tão sagrado que, em algumas cidades, é ele quem acompanha os moradores na sua viagem definitiva.
Antigamente, contava Eva, o tempo só se banhava no rio. Vai ver que é porque consome mais água, mais sabão, pensei alto. Ela disse que não. Disse que nem toda mulher da casa estava preparada para lavar o tempo na beira do rio.
– É que, ao contrário de outras peças de roupas, o tempo exigia silêncio das lavadeiras. Depois de quarado, o tempo tinha, por hábito, a mania de desenhar sobre as águas seus últimos episódios. Até voltar a ser límpido novamente, permitia à lavadeira um reconto das noites, de todos os quartos da casa. Tinha tempo que até cantava. Com isso, ele consumia a tarde das lavadeiras mais experientes, enrolando-as em lembranças e surpresas.
E eu menino correndo das margens do rio até o final do morro para ver o tempo estendido, esticado no varal da nossa existência.  Eis minha ideia de vento! Eis uma última dúvida: o que mora atrás do tempo? 
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