Uma formiga miúda no corpo

 

Linha tênue, bamba, invisível, frouxa. Divisória. A vontade de não ser. Minha vó Clarice foi quem me ensinou a brincar tristemente com as palavras.
– Jó, vá apurar a pureza do branco-manhã, azul-noite, verde-tarde, é sempre tempo de polir os móveis da sala de espera, esperando encontrar, na oculta face, a candura das faces que entram e saem sem esperar por nada. O escuro do claro e a luminosidade na fresta da janela evocam a poeira que ficou pelos cantos dessa sala.
– Grita não, seu irmão tá dormindo. O coitado chegou tarde e pregado do trabalho. Colocar as coisas dentro de casa num era pra ser tarefa dele não.
– É Deus que dá força, viu? Arrastar balaios de mandiocas maiores do que ele ladeira acima é serviço de homem. Ele é gente grande descansando como um menino.
Dizem que aprendi foi com ela a receber todo mundo bem.
– Bem até demais, né, Olímpico?
– Cale a boca, Glória, e deixe eu respeitar a velha, com ela não tinha miséria, fartura que nunca se viu, colocava a gamela cheia de biscoito em cima da mesa e só não comia quem era bobo. Queijo, quitanda, litros e mais litros de leite, café, chá com bolacha.
– Acabou? Faça mais, depressa, a alegria de pobre é ter o que comer, não é, meu filho? Então come direito, uai... Se a gente num comê, a terra come, né?
            O silêncio na hora do tumulto, ah, ela ficava quietinha observando a chuva passar, depois dava um toque no ombro da gente: menino, depois da tempestade, o céu fica mais bonito num azul-maravilha, o sol brilha que brilha na cabeça da gente, esquentando até os miolos. O tumulto no silêncio. Soltava os gatos, rasgava o verso e matava a sobra. A gente brigava com ela
– Vó Clarice, vá calçar chinelo! Larga de bobiça, menina, andar descalço é lá pecado? Sentir o frio da terra faz bem pra saúde.
            Fale mais baixo, ela pode estar te espreitando de piscadela. Nada disso. Cê num lembra, vovó, lá, cochilando com o cachimbo no colo, apagado, a gente pensando que estava passando por um sono, de repente:
Não se preocupem, meninos, já vou pra cama, num tô dormindo não. Só foi uma madorna, coisa de quem levanta cedo. Com as galinhas, não é, vó?
Roncava de olho aberto nas madornas, mas a gente nunca fazia peraltice como fazíamos com o vovô. Ah, cê lembra o dia que eu ia pegar o cachimbo dela? Sim, ela agarrou sua mão e: o que cê vai fazer com isso, Rodrigo?
            Corre que o café tá saindo, Glória! Tá cheirando o danado. Tudo que ela preparava de gostoso mandava um pedaço, pote, bacia, gole pra gente, ela gostava tanto de agradar que até desagradando, agradava.
– Ah, mas o silêncio dela é que constituía... marcava minhas horas.
– Que é isso, mulher? Eu que bebo e o cê que fica tonta? Dona Clarice marcar suas horas, como assim? Cê nunca vai entender, Olímpico, no silêncio ela contava muitas histórias de como devemos... Chega com esse papo de linha frouxa, bamba, tênue, se não vai ficar doida igual a sua filha.
– Nossa filha.
– Pai? Mãe? Silêncio!
– O caixão vai se fechar em poucos minutos.
QUIAT, Farelo de. A terceira porta da lua

Belo Horizonte: Asa de Papel, 2014.p.30-31.

Fotografia disponível em: <http://s1.1zoom.me/b5050/475/349128-blackangel_2048x1152.jpg>
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