Duas Casas

A garota do Baú Vermelho está férias. E com mais tempo livre, vire e mexe, está lá misturada nos livros espalhados em todos os lugares da casa.  

Na última sexta, à tarde, eu nem tinha acabado de retirar uma sacola cheia de livros da estante e ela já foi comemorando. Sentiu o cheiro de novidade. O olfato dela pra essas coisas está ficando bom, viu? Que ela seja Ratinha por muitos e muitos anos...   


Sempre procurei tratar com cuidado o modo como o livro, ao apresentar uma obra literária aos leitores, seja na sala de aula, seja em rodas de leitura ou palestras. Os livros merecem toda nossa atenção. E na medida do possível tento passar isso para minha filha.

Espalhei os títulos que estavam na sacola sobre a cama, todos da escritora Roseana Murray, que foram publicados pelas editoras Abacatte e Lê. Na sequência, chamei a garota.


– Cecília, qual desses livros você quer ler, primeiro, para indicar no blog?

Os olhos dela brilharam. Aquele inesquecível e saboroso cheiro dos tesouros saindo de suas casas. E de repente ela partiu pra cima de dois. Um deles era Kira, o outro, você já sabe. Nessas horas, eu só acompanho a cena. Não posso interferir. Muito menos emitir minha opinião. É ela quem dá o parecer.

– Vamos ler esse, primeiro, pai!


Estiramos na cama daquele quarto bagunçado. Um lado ao outro. Eu comecei a leitura. Só que ela não resistiu e tomou o livro da minha mão.

– Eu vou ler, pai!  

E leu mesmo. Leu em voz alta, encantando-se com as ilustrações.  Umas duas vezes, ela falou:

– Nossa! Que efeito tem essas imagens!

Nessas horas, a gente se derrete todo, como professor de leituras, ao descobrir que o tal efeito a que ela se refere tem a ver com as cores e os traços da ilustradora Elvira Vigna.

A história dos dois irmãos, abraçados pelas janelas azuis, deixou a Cecília pensativa. Depois dessa parte, ele focou toda sua atenção no azul. E para nos alegrar ainda mais, comentou orgulhosamente as cores do título na capa. Claro que não vamos contar nenhum segredo para os leitores.



Tenho que falar uma última coisinha a respeito desse último momento. Naquela hora, a garota do Baú Vermelho me fez lembrar um moço que virou estrela em 2014, quando afirmou, certa vez que: “poesia a gente não descreve, poesia a gente descobre”. 
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